 Nota do digitalizador:
Esta obra foi preparada para ser lida exclusivamente por pessoas com deficincia visual. Salienta-se que qualquer outra utilizao que se d a este material  ilegal.
Ficha tcnica:
Ttulo: Sonbras de Grace
Ttulo original: Shades of Grace
Autor: Brbara Delinsky
Gnero: Romance
Editora: Bertrand Brasil
Digitalizao: Ademir de Oliveira
Correo: Marcilene Chaves
Numerao de pginas: Cabealho
Nmero total de pginas: 434
Sinopse:
Em seus ltimos bestsellers, Juntos na Solido e Para Minhas Filhas, Barbara Delinsky distinguiu-se por seu talento ao escrever sobre assuntos srios de uma maneira 
que toca o corao e a mente dos leitores. Neste seu novo romance - sombras de Grace - Delinsky conta a histria inesquecvel de trs geraes de mulheres de uma 
famlia, examinando os limites do amor, da responsabilidade e do compromisso.
Grace Dorian  um tesouro nacional.  A Confidente, que escreve uma coluna de conselhos, cuja praticidade e bom Huso guiaram duas geraes de mulheres americanas 
em suas colunas dirias nos jornais. A filha de Grace, Francine, e sua neta Sophie, dirigem o vasto imprio das Dorian, supervisionando os compromissos de Grace 
para comparecer a conferncias, entrevistas e anncios publicitrios. Mas subitamente Grace parece no estar bem. Sua mente afiada comea a esquecer-se de fatos; 
suas colunas divagam. Grace nega veementemente um fato que est acontecendo com ela: comea a sentir os primeiros sintomas do mal de Alzheimer.
Lutando desesperadamente para manter o controle da famlia e dos negcios, Francine v-se obrigada a ocupar o lendrio lugar de sua me. Tem que lidar com o medo 
mortal que Grace passa a sentir, assim como com sua nova funo de escrever a coluna da me, responder s cartas de seus fs e preservar o segredo da doena de Grace, 
at quando ela prpria puder aceit-la. Mas, ao mesmo tempo, francine enfrenta a luta de viver sua prpria vida. Divorciada h bastante tempo e vivendo  sombra 
da me, Francine enfrenta seu novo papel diante do afeto que sente pelo mdico de Grace, um homem ao mesmo tempo rude e gentil, cujo interesse deixa-a dividida entre 
a devoo pela me e o compromisso de reconstruir sua prpria vida. E Francine ainda tem que pensar na filha, Sophie, que aos vinte e trs anos precisa tanto da 
assistncia dela, ou talvez mais, quanto o pblico d'A Confidente. Sophie assiste  mudana em sua famlia e tenta compreender as mudanas drsticas em uma av que 
ela sempre amou, mas que ao mesmo tempo achava sufocante.
Sombras de Grace  a mais tocante das histrias de famlia, na qual o amor, os problemas familiares e o romance aparecem em personagens valentes e inesquecveis, 
criando uma narrativa poderosa - talento que rendeu a Barbara Delinsky o aplauso da crtica e de leitores cada vez mais numerosos.
BARBARA DELINSKY foi sociloga e fotgrafa antes de comear a escrever. Mora na Nova Inglaterra,  casada e tem trs filhos.
Brbara Delinsky
Sombras de Grace
Traduo Anna Zelma Campos
BERTRAND BRASIL
Copyright (c) 1995 by Barbara Delinsky
Ttulo original: Shades of Grace
Capa: Leonardo Carvalho
Editorao: Art Line
1998
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Cip-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
D395s Delinsky, Barbara
Sombras de Grace / Barbara Delinsky; traduo Anna Zelma Campos. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
434p.
Traduo de: Shades ofGrace ISBN 85-286-0679-1
1. Romance norte-americano. I. Campos, Anna Zelma. Et. Ttulo.
CDD - 813
98-1491 CDU-820(73)-3
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Agradecimentos

Como regra, as primeiras pessoas que vem meus manuscritos so meu agente e meu editor. Sombras de Grace devido a seu assunto, pedia uma exceo. Os fatos foram 
retirados de pesquisas literrias, mas para obter uma viso profunda das emoes envolvidas precisei conversar com todas as pessoas que tivessem convivido com o 
mal de Alzheimer. Duas dessas pessoas concordaram generosa e graciosamente em ler meu manuscrito para garantir sua autenticidade.
A primeira foi Ana-Mae Barney, que passou doze anos de sua vida cuidando da me. Conhecemo-nos como que por acaso quando o livro estava quase pronto. Ao saber que 
o nome de sua me era Grace, tive certeza de que ela teria de ler meu livro.
A segunda foi Margaret Mullen, que, como diretora-programadora do Newton & Wellesley Alzheimer Center, trabalha diariamente com pacientes acometidos desse mal, assim 
como com seus familiares. Para mim, Peggy foi tanto uma fonte de informaes quanto uma leitora. Para aqueles pacientes e suas famlias,  uma fonte diria de apoio 
e conforto.
Portanto, meus agradecimentos a Anna-Mae e Peggy. Agradeo tambm a Karen Solem, que amou este livro desde o princpio, e a Steve e os meninos - Eric Andrew e Jeremy 
por mais uma vez serem pacientes comigo.
Quando eu estava no sexto ano da escola, tive certa vez como dever de casa um ensaio descritivo do Sol. Depois de lutar durante horas, estava quase aos prantos. 
Ela tomou-me calmamente pela mo, fez com que eu contasse meus pensamentos em voz alta e escreveu-os. S precisei reorganizar e polir minhas prprias palavras.
At hoje, quando luto com um ou outro aspecto mais espinhoso do ato de escrever, lembro-me da calma transmitida por ela, da respirao profunda que ela me mandou 
fazer, da satisfao que dividiu comigo.
Gostaria que ela pudesse compartilhar de minha vida agora, porque as satisfaes so mais profundas e deslumbrantes do que qualquer uma de ns teria imaginado. Mas 
hoje ela vive em um mundo to fechado que no me reconhece mais.
Um

O carter  um artigo realado por roupas de bom gosto, fala refinada e maneiras dignas. Qualquer bom comerciante sabe que o envoltrio  uma amostra do presente 
que vem dentro. - Grace Dorian, de uma entrevista com Barbara Walters
Grace Dorian olhou espantada para os documentos sobre a mesa. No tinha a menor idia de como haviam parado l, no imaginava para o que serviriam.
Remexeu na pilha, procurando alguma pista. No eram documentos. Cartas. Algumas escritas  mo, outras datilografadas, em papel timbrado, com tipos coloridos, folhas 
arrancadas de cadernos.
"Querida Grace..."
"Querida Grace..."
"Querida Grace..."
- Pense - gritou, lutando contra o pnico. Pessoas escreviam cartas para ela, muitas pessoas, a julgar pelo pacote do correio que descansava aberto sobre a cadeira, 
ainda mais cheio de cartas que estavam l por algum motivo.
Colocou a mo no peito e fez fora para se acalmar. A palma de sua mo pressionava o corao disparado. As pontas dos dedos tocavam algumas contas.
Contas de um rosrio? No. No eram as contas de um rosrio. Prolas, Grace. Prolas.
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Seus olhos assustados vagaram pelo ambiente familiar, para a luminria sobre o aparador de mogno, as cortinas de veludo, o sof de brocado, as lmpadas de cobre 
envelhecido. As lmpadas estavam apagadas. Era de manh. O sol brilhava atravs do Aubusson.
Tremendo, ajeitou os culos de leitura no nariz, rezando para que, se estudasse as cartas por tempo suficiente, alguma coisa soasse familiar. Observou os remetentes 
- Morgan Hill, Califrnia, Burley, Alabama, Little River, Carolina do Sul, Parma, Ohio. Pessoas escreviam para ela de todo o pas. E ela estava em... aqui era... 
ela vivia em... Connecticut. Viu o nome, por cima do aro dos culos, inscrito elegantemente em um antigo mapa na parede. Retirou os culos, encaminhou-se para o 
mapa, tocou a moldura enfeitada, sentiu-se reconfortada por sua solidez, sua familiaridade.
Ela vivia no oeste de Connecticut, em uma propriedade imensa que lhe fora deixada por John. A casa original estivera com a famlia dele por quase tantas geraes 
quanto a velha serraria, que agora estava silenciosa, marcada pelas trepadeiras e to curvada quanto John em seus anos finais. Mas o que o tempo tirara da serraria 
entregara para a casa. Inicialmente, uma simples casa de pedra que dava para o oeste se ampliara em uma ala para o norte, depois em outra para o sul. Uma garagem 
surgira e multiplicara-se. Os fundos da casa aumentaram para incluir um conjunto de escritrios, no maior dos quais ela encontrava-se agora, e o solrio. Alm do 
solrio, estava o ptio que ela adorava, pavimentado com lajes, agora deserto. Ele dava para um gramado, alm do qual, cercada por abetos, estava o Housatonic. No 
final do vero, o rio serpenteava ao longo dos limites orientais de sua propriedade. Nessa poca do ano, corria. Podia ouvilo naquele instante, atravs dos caixilhos 
das venezianas.
Essas coisas eram familiares. E as outras? Olhou ansiosamente para a porta, antes de pegar novamente os culos.
"Querida Grace, leio sua coluna h quase vinte anos, mas
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esta  a primeira vez que escrevo. Minha filha casa-se no prximo outono, mas meu ex-marido diz que, se ela quiser que ele a leve ao altar, os filhos de seu segundo 
casamento tm que ir s bodas. Eles so cinco. Todos tm menos de dez anos, so malcriados e foram horrveis com minha filha..."
"Querida Grace, voc tem de esclarecer uma discusso que eu e meu namorado tivemos. Ele diz que o primeiro homem com quem uma moa se deita molda sua parte interna 
para ele, por isso nunca seria bom com outro..."
"Querida Grace, algumas das cartas que voc publica so afetadas demais para serem verdadeiras..."
"Querida Grace, obrigada pelos conselhos que deu quela pobre senhora cujos netos nunca agradeceram seus presentes. Ela tem direito a receber um "Muito obrigado", 
seja da famlia ou no. Prendi sua coluna com um clipe onde meus filhos pudessem ver..."
Grace segurou a ltima carta por mais uns minutos, com grande alvio, antes de coloc-la na mesa.
Grace Dorian. A Confidente.  claro.
Se precisasse de provas, havia placas na parede mais distante, assinalando as palestras que fizera em organizaes profissionais e, embaixo delas, livros de recortes 
cheios de artigos elogiando sua coluna, publicada em todo o pas. O pacote do correio sobre a cadeira era a ltima remessa da correspondncia dos leitores de Nova 
York. No final da semana, ela teria lido a maioria, selecionado algumas cartas e escrito cinco colunas.
Tinha esperana de fazer isso.
Mas faria. Tinha de fazer.
O que Davis Marcoux sabia? Por conta prpria, simplesmente decidira por algumas alternativas. Mas ele estava enganado. Os esquecimentos dela eram lapsos momentneos, 
talvez Pequenos derrames que no causavam dano permanente. Sabia o que significavam agora aquelas cartas. Sabia agora qual era o seu trabalho. Estava no controle.
O telefone tocou. Ela sobressaltou-se, confusa, depois
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olhou para o instrumento por alguns instantes, antes de pegar o receptor.
- Sim? - disse, mas ouviu apenas o sinal de discar. Seu dedo procurou relutante sobre um painel de botes. Apertou um e nada aconteceu, depois outro e ouviu um sinal 
de ocupado. Perguntava-se qual apertaria a seguir, ento o tilintar cessou. Estava parada com o telefone na mo e um ar irado no rosto quando a porta se abriu.
- No posso usar este telefone, Francine! - vociferou. -  muito confuso. Tenho problemas com ele desde o dia em que foi instalado. O que h de errado com os velhos 
aparelhos?
Francine serviu uma xcara de ch, enquanto sorria. - Os telefones antigos s podem ter duas linhas e precisamos de cinco. - Colocando o ch sobre a mesa, abraou 
Grace. - Bomdia, mame. Dormiu mal?
A irritao de Grace diminuiu. Francine nunca seria um dnamo, mas era constante - uma filha devotada, uma amiga leal, uma assistente capaz. Grace era abenoada 
nessas coisas como em tantas outras mais. Sim, realmente, Da vis Marcoux estava enganado. Ela no chegara at aquele ponto s para ser repentinamente impedida. Lapsos 
momentneos, apenas isso, no tendo nada a ver com problemas fsicos. Considerando-se todas as coisas, ela merecia o direito de ter uns esquecimentos de vez em quando.
- No ando dormindo como antes - disse para Francine. - Cochilo duas horas aqui, duas horas ali. Dizem que os velhos no precisam de muito sono. Eu preciso. S que 
no consigo.
-Sessenta e um anos no  velha, mame - disse Francine. Grace gostou da observao.
- Minha mente no  mais a mesma.
Francine tambm negou isso:
- Sua mente  perfeita, por isso que voc  to procurada. Alis, este  o motivo de eu ter ligado. Annie Diehl telefonou para saber se voc estaria interessada 
em ir a um talk show em Houston.
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Annie Diehl era a publicitria do jornal, responsvel pelas apresentaes de Grace. Disso Grace lembrava-se muito bem. Tambm recordava-se do pnico que sentira 
na ltima vez em que estivera em um avio: no meio do vo, no conseguia se lembrar de onde estava, para onde ia e por qu. A desorientao no demorara muito; sem 
dvida, fora causada pela altitude, mas Grace no queria procurar aborrecimentos, a menos que fosse absoluta e positivamente necessrio.
- J fiz uma dzia de talk shows em Houston.
- Quatro, e o ltimo h vrios anos.
- A minha correspondncia de Houston est caindo?
- No.
- Ento prefiro no voar para l. Tenho muito o que fazer aqui. - Olhou para a mesa. - Alm de tudo isso aqui, ainda existe o meu livro. J estou bastante atrasada 
para come-lo, e s Deus sabe quando vou conseguir, ainda mais com seis entrevistas marcadas at junho. - Ela costumava escrever as colunas da semana em dois dias, 
deixando trs para fazer o que chamava de horrio nobre para A Confidente. Agora demorava mais para fazer as coisas. - Para comear, por que ns aceitamos todos 
esses convites?
Francine sorriu.
- Porque voc adora receber homenagens.
- Ora, e voc no gostaria, se tambm conseguisse? - Grace continuou sem o menor remorso. -  muito chato estar constantemente no meio de jurados, com pessoas que 
tm mais letras depois dos nomes do que nos prprios. Alm disso, os formandos dos colgios e das universidades so criaturas to suscetveis. - Lembrando-se de 
sua neta, corrigiu-se. - Exceto Sophie. Ela no  suscetvel.  uma menina muito tranqila.
- No  uma menina. Tem vinte e trs anos.
- Eu sei. E  pessoalmente responsvel por estes telefones e tudo mais por aqui que eu no consigo compreender. - Grace deu uma olhada desesperada para o computador 
ao lado da sua mesa. Sentia saudade de sua antiga Olivetti.
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- Sim, tudo isso  crescimento - disse Francine, antes que Grace perguntasse. - Simplificam meu trabalho. Simplificam o trabalho de Sophie. E demonstrou uma coisa 
importante sobre A Confidente.
- Que ela  computadorizada? - Grace perguntou desanimada. A Confidente era gentil e pessoal. Era informativa, mas compassiva e totalmente humana. Definitivamente, 
no era uma mquina.
- No, que ela  atualizada. Ora, mame, quando algum escreve perguntando sobre o uso da camisinha, voc d uma resposta diferente da poca em que o nico aspecto 
envolvido era a gravidez. Seus conselhos mudam com o tempo. No acha que sua tecnologia mudaria tambm?
A mulher de negcios que existia em Grace sabia que isso era necessrio. Mesmo assim, a tecnologia avanada a intimidava. No descartava a possibilidade de que a 
complexidade do mundo fosse diretamente responsvel por seus lapsos de desorientao. Uma mente pode absorver demasiadas informaes.
Sorriu quando um tentilho de cabea vermelha e sua parceira pousaram na gamela diante de sua janela. - Graas a Deus, algumas coisas no mudam. A primavera est 
a caminho. Adoro essa poca do ano. Assim que tudo estiver florido, meus convidados comeam a chegar. Margaret sabe que tem de comear a limpar os quartos dos hspedes?
- Sabe.
- Voc encomendou o carpete novo para a sute do sto?
- H-h.
- E os convites para a minha festa de maio? J chegaram? - Encomendara cartes com incrveis bordas pintadas  mo, que nenhum computador poderia duplicar nem em 
um milho de anos, obrigada.
- Ainda no.
- Voc ligou para l?
- No.
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- Voc precisa estar ligada nas coisas, Francine. Quantas vezes eu j lhe disse isso?
Para piorar as coisas, Francine no parecia estar aborrecida.
- Eles prometeram entregar os convites no fim da semana. Isso nos d tempo mais do que suficiente para mand-los para o calgrafo. J terminou a lista de convidados?
A lista de convidados. Grace sentiu um branco. - Voc ainda no est com ela?
- Eu no. Voc estava trabalhando nela ontem  tarde quando sa. Disse que estaria na minha mesa esta manh.
- Ento est l. Voc deve ter colocado alguma coisa em cima dela.
- Acabei de chegar. No toquei na minha mesa.
- Acabou de chegar? - Grace gritou. O atraso era uma providencial digresso. -J passam das dez. Voc tem que chegar to tarde? - Deu uma olhada reprovadora em Francine. 
E tem de usar joggings para o trabalho?
- Os joggings so confortveis.
- No so adequados para um escritrio. E nem... - Olhou diretamente para os cabelos de Francine, que estavam presos no alto da cabea, de uma maneira que os fios 
escapavam para todos os lados. A cor era um castanho-claro, o aspecto era sensual e decididamente errado. Mais curto era mais fino, mais curto era sempre mais profissional.
Francine pigarreou.
- No estamos lidando aqui com o setor financeiro.
- Mesmo assim, o nosso aspecto significa uma declarao Para o mundo.  o mesmo que sermos computadorizados.
- Ah, mas o mundo sabe se fomos computadorizados e no sabe como me visto.
- E dou graas a Deus por isso - Grace murmurou. - E Isso serve para sua filha tambm. - Ficava chocada com a maioria das coisas que Sophie usava. Uma menina to 
linda. Era uma pena. - Voc no tem o menor controle sobre aquela menina?
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- No  uma menina - Francine cantarolou suavemente, distante enquanto puxava um papel da bandeja sobre o aparador. - Aqui est a sua lista de convidados. - Franziu 
a testa. - Mas no est terminada.
Grace pegou a lista, depois seus culos. Viu uma poro de nomes. - Para mim parece timo. - Entregou-a novamente para Francine.
- Mas aqui s tem o pessoal dos jornais. E quanto aos editores? E os crticos? E a mdia? Pensei que o motivo dessa festa fosse para festejar o lanamento do livro. 
E quanto a seu agente? E quanto a Annie, pelo amor de Deus?
- Pois bem,  o que voc diz - Grace declarou. - Voc sabe exatamente quem tem de ser convidado. Pode fazer a lista sozinha. E no esquea os vizinhos. E Robert.
- Robert de qu?
Grace lanou-lhe um longo olhar, em lugar de iniciar uma discusso sobre o estado pattico da vida social de Francine.
- Muito bem - Francine declarou. - Convidarei Robert, mas s como amigo. Ele no  o amor da minha vida.
-  s dar-lhe a metade de uma chance e ele pode vir a ser - Grace aconselhou. - Gosto daquele homem. - Fez uma pausa. - Sim, eu sei. Tambm gostava do Lee. E isso 
no  da minha conta. Mas essa festa . Portanto, faa a lista dos convidados como uma boa menina. Tambm preciso das ltimas estatsticas sobre violncia domstica 
e os efeitos a longo prazo da lipoaspirao. Seja um anjo e consiga tudo para mim. - Apontou para a escrivaninha. - Estou atolada.
- Eu tambm - Francine protestou, apesar de fracamente. - Certo. Mas no grite se eu, inadvertidamente, deixar algum fora dessa lista.
- Eu nunca grito.
- No. Mas insiste no que tem a dizer.
- Ora, algum precisa manter os negcios fluindo tranqilamente. Preciso mesmo de uma secretria.
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- Voc j tem uma. Marny Puck. Ela fica sentada no fundo do corredor e envia cartes de agradecimentos encantadores para as pessoas que escrevem para voc, mas no 
se envolve em sua vida pessoal. No faz lista de convidados.
Grace ficou chocada. Marny. Mas claro.
- E por que no tenho uma secretria pessoal? Francine sorriu e dirigiu-se para a porta.
- Porque voc tem a mim. - Levantou a mo com a lista. - Eu voltarei.
No minuto em que a porta foi fechada, Grace sentou-se  mesa e tirou um pequeno caderno de espiral da gaveta do alto. Pulou as anotaes anteriores at chegar a 
uma pgina em branco. - Marny Puck - escreveu com letras maisculas e sob o nome - secretria. Senta-se no corredor. Cuida da correspondncia dos leitores. - Carinhosamente, 
acrescentou: - Uma das pessoas recomendadas pelo padre Jim.  tima na limpeza. Cumpre bem as ordens dadas. - Maldosamente, observou: - Irm de Gus, meu chofer. 
 to respeitvel quanto Gus no .
Na pgina seguinte, ela fez anotaes sobre o uso do telefone. Francine e Sophie explicaram-lhe vezes sem conta. Ela sabia como usar, s que de vez em quando ficava 
confusa.
Ento resolveu escrever as instrues mais simples, para o caso de haver necessidade.
Em uma terceira pgina, impressa h cinco anos, ela relacionou suas tarefas dirias, para consultar se houvesse necessidade.
Quando a lista pareceu-lhe superficial demais para servir de alguma coisa, ela se aprofundou mais em cada item, s para o caso de precisar.
Ento, ligeiramente confiante, guardou o caderno na gaveta de cima de sua mesa para us-lo, quando necessrio, para cartas que definiam sua vida.
Francine acabara de fazer oito anos quando A Confidente nasceu. Sentara-se com outros para debater o assunto, apesar de no haver
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a menor dvida em sua mente. Era claro que Grace deveria escrever uma coluna de conselhos para o jornal local. No aconselhara sua vida inteira? No era para isso 
que seus amigos procuravam-na sempre? No derramavam seus segredos mais profundos, mais obscuros para Grace? Francine tambm no fazia isso?
Havia uma qualidade em Grace - uma objetividade, um carinho - que atraa a confiana at mesmo de uma pessoa que a conhecesse h muito pouco tempo. Como no confiar 
em algum que tratava a todos com tanta compaixo, ouvia com tanta pacincia, parecia to interessada no que era dito e sempre tinha um conselho sensato? Francine 
considerava-se com mais sorte do que todas as suas amigas, por ter uma me em quem podia confiar. E o relacionamento no era unilateral. Quando A Confidente ampliou 
seus limites, Francine tornou-se uma mina de informaes. Era uma adolescente ento, vivendo os mesmos problemas sobre os quais muitos dos leitores de Grace escreviam. 
Ela desenvolvera-se um pouco tarde, desabrochando antes de extroverter-se. Odiava seus cabelos, seu nariz, suas mos. Tinha espinhas. Sofria de paixonites devastadoras. 
Desesperava-se por causa do reveillon, meses antes de ele acontecer.
Ah, sim, ela era mesmo uma grande fonte. Conhecia a tristeza de perder a eleio para representante de classe na faculdade por um punhado de votos, vivenciara a 
humilhao de ser eliminada na primeira rodada de um torneio de tnis patrocinado por sua prpria famlia, conhecia o desapontamento de ser rejeitada pelos colegas 
mais adiantados da classe a quem admirava. Sabia tambm o que era ter uma me cuja fama crescia como um contraponto  sua prpria mediocridade.
Francine estava para Grace como os tons quentes estavam para os pastis, os olhos castanhos para os azuis, a atraente para a bela, a terrestre para a divina.
Simplificando, Francine era comum. E, sendo comum, experimentava coisas pelas quais Grace nunca passara. Grace nunca se divorciara. Grace nunca se sentira culpada 
por causa
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da diabete de Sophie, ou por deix-la ir para casa depois do colgio em lugar de insistir para que ficasse na cidade com amigos. Grace no compreendia a necessidade 
que Francine sentia de se superar, ou como seus padres elevadssimos tornavam isso impossvel para ela. No compreendia a nsia que Francine sentia por avs, tias, 
tios e primos.
Francine julgava-se afortunada em muitos, muitos aspectos; no entanto, possua sonhos que a destroavam. Grace no entendia o que era sentir-se destroada, porque 
nunca vivera essa sensao. Ela via o mundo em termos absolutos. Uma pessoa controlava sua prpria vida, fazendo escolhas e realizando-as.
Mesmo com todas essas diferenas, Grace sempre esteve presente quando Francine mais precisava dela. Portanto, voltou para sua mesa e para sua lista de convidados. 
Sophie era a responsvel pelas estatsticas, cabiam a ela os casos de violncia domstica e lipoaspirao; mas Francine odiava ter de acordla. Os nmeros podiam 
esperar.
Francine no tinha muita certeza quanto aos convites para a festa e resolveu ligar para a grfica onde tinham sido encomendados. O proprietrio prometeu contratar 
o desenhista que estava fazendo as bordas e ligar de volta para Francine. Nesse meio tempo, segurando o telefone entre o ombro e o queixo enquanto acrescentava nomes 
 lista, Francine telefonou para Annie Diehl.
- Grace prefere no ir a Houston neste momento - explicou o mais delicadamente que pde, mas mesmo assim Annie ficou aborrecida.
-  um timo programa.
- Eu sei. Mas o momento no  adequado. Estamos na poca das formaturas e as prximas semanas sero uma loucura.
- Mas estamos falando de televiso, Francine. A publicidade  dez vezes maior do que qualquer uma dessas formaturas.
- Diga isso para Grace e ela far um discurso sobre a importncia da qualidade sobre a quantidade. Prometa que ela ir a Houston em uma outra hora.
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- Eles ficaro desapontados. Eu disse que ela estaria livre. Isso significa que ela no vai querer fazer mais nada at julho? No posso garantir outro programa nessa 
poca. Fica tudo morto depois do feriado de 4 de julho.
- Ento est bem - Francine disse o mais suavemente que conseguiu, apesar de odiar ultimatos. Eles a estavam encurralando. Quase sempre ela terminava sendo a responsvel. 
- Temos muito que fazer aqui. Apresente minhas desculpas a Houston.
Annie emitiu um rudo nada gracioso, que Grace teria odiado muito mais do que Francine e tambm teria perdido a linha quando o proprietrio da grfica ligou para 
dizer que os convites s estariam prontos na prxima segunda-feira.
Francine ficou desesperada.
- Na semana que vem? Mas eles deveriam estar prontos nesta segunda-feira! - Grace tinha razo. Ela deveria ter telefonado mais cedo para checar.
- Os artistas so muito temperamentais.
- E os conselheiros sentimentais tambm - Francine retrucou. No suportava a idia de dizer a Grace que os convites chegariam com atraso.
- Por que o desenhista no manda diretamente para o calgrafo?
E se o resultado dos desenhos no fosse muito bom? Francine suportava ainda menos essa idia.
- Grace tem que v-los primeiro. Diga a seu artista que os mande diretamente para ns.
Frustrada, desligou o telefone. Grace gostava que as coisas fossem feitas dentro do estipulado. Via A Confidente como uma mulher elegante com luvas impecveis, cada 
movimento medido e realizado com classe. A funo de Francine era preservar essa imagem. Infelizmente, o resto do mundo no agia to eficientemente quanto Grace 
Dorian.
Ou costumava agir, Francine pensou ao olhar para a lista de convidados incompleta. Mas antes que pudesse voltar a ela, o telefone tocou novamente.
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Era Tony Colletti, o editor de Grace no jornal.
- O que houve com este artigo, Francine?
- Que artigo?
- O da coluna da prxima quarta-feira, sobre os convidados que so alrgicos aos gatos dos anfitries. No faz o menor sentido.
Tambm no fizera sentido para Francine, quando ela o lera pela primeira vez. A pobre Grace devia ter-se confundido com alguma coisa no computador. Mas em vez de 
fazer as correes como normalmente fazia, Francine reescrevera o artigo e pedira a Sophie para envi-lo com o restante.
No. Sophie no o enviara. Sophie sara. Ento, a prpria Francine o enviara. Ela mesma deve ter feito alguma confuso.
No desejando contar todos esses detalhes a Tony, disse:
- Oh, meu Deus, voc deve ter recebido a parte que deveria ter sido deixada na sala de cortes.
- Esse  o meu destino, tendo voc por perto.
- Tony.
- Tenho duas entradas para o Knicks no domingo  tarde.
Francine suspirou.
- Est certo. Esquea o Knicks. Que tal um lanche?  mais prtico. Voc tem mesmo que comer.
Ela no emitiu qualquer som.
- Est bem. Esquea o lanche. Em quanto tempo voc pode mandar esse maldito artigo para mim?
- Em dois minutos, se eu mesma puder faz-lo, um pouco mais, se precisar de ajuda. Eu ligo para voc de qualquer maneira, est bem?
Desligou o telefone, ligou o computador e puxou o diretrio em questo. O original confuso de Grace apareceu na tela. Ela foi para adiante, depois para trs, ento 
voltou para o arquivo e procurou como uma louca por outros diretrios para os quais pudesse ter enviado inadvertidamente a pea reescrita. O telefone tocou.
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- Ainda no recebi - Tony esbravejou.
- Claro que no. Ainda no enviei. Estamos tendo umas dificuldades tcnicas. Eu disse que ligaria para voc. - E Francine desligou o telefone.
Desesperada, correu para a ala sul da casa. Precisava de Sophie. Tocar a campainha teria sido mais rpido, mas Francine gostava de acordar a filha com suavidade. 
Sempre gostara. Isso, se Sophie estivesse sozinha.
Francine hesitou, decidiu arriscar e foi. Sim, havia a lista de convidados para completar. Sim, tinha um pacote do correio to espesso quanto o de Grace para verificar. 
Sim, Tony estava esperando em toda a sua glria de macho que uma coluna aparecesse na tela de seu computador.
Mas sempre havia tempo para Sophie, que apesar das piadinhas de Grace era a melhor obra de Francine. Sophie era um gnio. Era linda, corajosa e vulnervel, l isso 
tambm era. As mes sempre sabem dessas coisas.
O tempo que passava com Sophie era sempre bem aproveitado, e se isso significasse que Francine se atrasaria para voltar para sua mesa no teria problema. Quanto 
mais ocupada estivesse, menos teria que se preocupar com coisas que no poderiam ser mudadas.
Sophie era diferente de sua me nesse aspecto. No conseguia evitar preocupar-se com coisas que no podiam ser mudadas. Elas ditavam seu comportamento. Deliciava-se 
em mudlas sempre que possvel.
Esse era um dos motivos de ainda estar na cama. Seu despertador tocara uma hora antes, j que era um dia de trabalho. Ela desligou-o e voltou a dormir.
- Sophie? Acorde, meu bem.
A voz suave de sua me poderia ser uma lembrana do passado, se no fosse a sacudidela urgente que sentiu em seu ombro e que era to real. Ela abriu os olhos ao 
pedido to direto de Francine.
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- Perdi um artigo no computador. Tony est esbravejando por causa disso e eu j procurei por toda parte. Quer vir dar uma olhada?
Sophie fechou os olhos. Sentiu o colcho afundar-se com a presso dos quadris de Francine.
- Por favor, querida. Eu no a acordaria se no fosse uma emergncia. Reescrevi a coluna inteira, mas transmiti o original. Tpico, no ? E Tony est uma fera. 
Ele adora quando cometo um engano.
- Ele est aborrecido porque voc no quer sair com ele.
- E voc me culpa? Ele tem a fria emocional de um menino de dois anos e a arrogncia de dez homens. Dentro de uma hora, estaramos agarrados um ao pescoo do outro, 
e no por paixo, minha querida.
- Que pena - Sophie disse bocejando. - A paixo  uma delcia.
Houve uma pausa, depois uma tentativa:
- Voc se divertiu ontem  noite?
- Hum... hum.
- Com o Gus?
- Hum... hum. - Ela se espreguiou.
- Preocupo-me com voc, meu anjo.
Sophie sabia e odiava isso. Mas Gus excitava-a. Ele preenchia sua necessidade perversa de tentar o demnio e torcer o nariz para as convenes sociais. Seu relacionamento 
com Gus enlouquecia Grace. E esse j era um bom motivo para continuar.
Mas sentia por sua me. Ento, em um esforo de energia, saltou da cama.
- No se preocupe, estou tima. - Dirigiu-se rapidamente para as gavetas da cmoda.
- Bonito pijama - Francine observou. Sophie estava nua.
-  confortvel. - Vestiu a calcinha, leggings e um bustier pretos.
- Ah. So os trajes preferidos de Grace. - Francine suspirou.
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- Eu sei. - Sophie sorriu.
- Voc  m.
- Mas voc me adora.
- No esquea sua injeo.
Sophie ignorou a lembrana. Passou rapidamente a escova pelos cabelos, colocou uma travessa no ngulo exato para criar uma assimetria e encheu a orelha com a fila 
de brincos que Grace realmente adorava. Depois de uma passada rpida pelo banheiro para tirar o gosto da farra da noite anterior - ah, sim, e para cuidar da sua 
diabete-chamou Francine na direo do corredor.
- Insulina? - Francine lembrou. Sophie fez um som afirmativo.
- Mas voc leu primeiro?
- Li, li - ela resmungou. - Como consegui passar pela faculdade sem voc tomar conta da minha sade?
- Foi o que sempre me perguntei.
" Sophie jogou sua frustrao nos passos apressados. A preocupao de Francine no a aborrecia tanto quanto a doena em si. Aos nove anos de idade, sentira-se uma 
aberrao quando a doena foi diagnosticada. Ainda se sentia, s vezes.
Portanto, no a aborrecia ser acordada por sua me para procurar diretrios perdidos, porque lidar com computadores no era coisa para aberraes. Dava-lhe uma sensao 
de controle. Ser especialista em alguma coisa - especialmente em uma coisa que Grace no conseguiria ser, nem que disso dependesse sua prpria vida - dava-lhe uma 
idia de poder.
- Reescrevi todo o artigo - Francine murmurou, mal podendo respirar. - Se tiver que escrever novamente, eu grito.
Sophie sentou-se diante do computador de Francine.
- Talvez esteja na hora de contratar outra pessoa. Essa no  a primeira coluna que voc tem que reescrever em poucos meses.
-  a primeira que perdi.
- No perdeu. Est mal arquivada. Est aqui.
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A no ser que eu tenha apagado por engano.
Mas Sophie minimizara essa possibilidade quando instalara o sistema. Puxou o arquivo de coisas perdidas e comeou a examin-lo.
- Alergias por gatos - Francine lembrou.
- Sobre as quais - Sophie refletiu enquanto trabalhava, nenhuma de ns sabe absolutamente nada, j que nunca tivemos um gato. E nos importamos? No.
- Claro que sim.
-  o que Grace diz. s vezes, isso tudo me espanta.
- O trabalho? No  to ruim. Suas amigas sentem inveja de voc. Foi voc mesma quem me disse.
- Elas invejam meu trabalho. Eu invejo sua liberdade.
- No ajuda poder viver em sua prpria parte da casa?
- Sim. No. No sei. - Sophie possua uma casinha completa dentro da casa, com cozinha e ginsio, perfeita para quando os amigos vinham visit-la. Mas no era o 
mesmo que viver em um apartamento com esses mesmos amigos, e tanbm havia a questo das injees de insulina, dos testes de glicose no sangue e o tipo de vigilncia 
constante que a tornavam socialmente um tanto ou quanto diferente.
A mo de Francine passou de leve por seus cabelos.
- Voc no precisava ter voltado.
- Precisava. - Alm de sua sade, que era mais fcil de ser monitorizada em casa, havia Grace. Amor-dio, amor-dio. - Esse trabalho tambm faz parte de mim.  a 
maldio dos Dorian, a maldio das mulheres Dorian. No consigo explicar. Ah. Aqui est - recostou-se na cadeira. - Alergias a gatos. Sobre o qu, Grace tambm 
no faz a menor idia. E como ela escreveu essa coluna?
- No escreveu - Francine lembrou-a. - Fui eu, com a ajuda de meu veterinrio favorito.
- Com quem voc sairia, mas com quem no se casaria. Tom  o homem mais gentil do mundo. Mas no tem um pedigree a altura de Grace, no ?
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- Em parte.
- Qual  o resto? - Ela no teve o menor problema para interpretar o olhar seco da me. - Ah.  muito submisso. Voc gostaria do Gus, sabia?
Francine ergueu uma sobrancelha.
- Mande isso para o Tony para mim, querida? Ah... e Grace precisa de novos dados sobre violncia domstica e lipoaspirao. Mas tome seu caf primeiro, por favor.
Sophie enviou a coluna para Tony e estava pronta para comear a tomar um caf da manh demorado, quando Grace surgiu de seu escritrio.
- Sophie, voc prometeu-me material sobre incesto. - Sacudia uma carta. - As vtimas insistem em perguntar-me o que fazer. Est na hora de abordar esse assunto novamente.
- Voc acabou de abordar - Sophie disse. - Saiu no jornal da semana passada.
- No, no saiu.
- Ela est certa, Grace - Francine falou de sua mesa do outro lado da sala. - Essa carta deve ter vindo em resposta a ele.
- Mas foi h meses que eu falei alguma coisa sobre incesto - Grace insistia.
- Vou mostrar-lhe - Sophie ofereceu, encantada por poder provar que Grace estava errada. - Eu o guardei ontem.
- Minha nossa, Sophie, voc parece ter acabado de cair da cama. Francine? - Grace implorou.
Francine acompanhou sua me de volta para sua sala.
- Ela trocar de roupa mais tarde.
- Aparecer neste escritrio com aquela roupa  to deselegante quanto limpar o nariz no guardanapo. Por favor, Francine. Fale com ela.
A conversa cessou. Sophie sentou-se sobre a quina de sua mesa e esperou, preparada para armar um campo de batalha se Grace reaparecesse. Mas Francine surgiu sozinha.
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Passou os braos pelos ombros de Sophie.
- Isso era previsvel.
Sophie no parecia arrependida.
- Eu gosto de provoc-la.
- E  o que voc faz. Ela no pra de perguntar-me o que aconteceu com aquela menininha meiga que adorava ficar no colo dela. Diz que no a conhece mais.
O sentimento era mtuo. Sophie tinha lembranas maravilhosas de tempos felizes com sua av, viajando s as duas, lendo livros, explorando os bosques, rindo. Seu 
av representara um papel perifrico; vov fora a grande estrela desde o princpio. Era deslumbrante e Sophie ficava fascinada, acreditando que os Dorian eram invencveis. 
Depois, vov tornara-se Grace e o encanto desaparecera. As expectativas cresceram. E a realidade era outra.
Mesmo assim, algumas coisas, como a fora do nome Dorian, no mudaram.
- No sou to diferente - Sophie suspirou. - Se fosse, no estaria aqui.
- Fico feliz por voc estar.
Isso pelo menos era um conforto, Sophie pensou. Francine precisava de uma campe. E Sophie era a nica que tinha.
- Est com frio? - Francine perguntou, esfregando os braos nus de Sophie.
A moa fez que no com a cabea.
- Como Grace pde esquecer a coluna sobre o incesto? Discutimos o assunto durante dias.
- Ela tem escrito tantas colunas. Umas confundiam-se com outras.
- Mas isso foi na semana passada. Ela est perdendo a memria, mame. No  mais to perspicaz quanto costumava ser.
- Oh, ela  perspicaz. Ela s perguntou-me onde e que voc colocou os discursos antigos, que pediu na semana passada. Ela no esqueceu.
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Sophie afastou-se. A caminho da porta, disse, por cima do ombro:
- Ficar "pescando" no meio dos arquivos  a pior parte desse trabalho.  burro e aborrecido, no  o melhor uso que se pode fazer de um diploma de Colmbia.
- Eu fao isso, se voc preferir.
- No, no - Sophie disse. Melhor ela do que Francine.
- Faa agora e termine logo com isso - Francine sugeriu. - Mas tome seu caf primeiro.
Sophie dirigiu-se para o corredor a fim de tomar seu desjejum mas no porque sua me queria que fizesse e no tambm porque os mdicos mandaram. Ela tomaria seu 
caf - e demoraria muito - s porque qualquer coisa era melhor do que procurar nos arquivos.
Sob o olhar atento de Margaret comeu um ovo quente, uma torrada e uma banana. A terceira xcara de caf esfriava enquanto ela terminava de ler o jornal de cabo a 
rabo, e depois ficou olhando pela janela, pensando, como fazia todas as manhs, o que diabos estava fazendo de novo em casa. Seus amigos se encontravam em Nova York, 
Washington, Atlanta e Dallas, trabalhando em seus primeiros empregos bobos, divertindo-se a mais no poder. Podia ter ficado com eles. Em vez disso, voltara para 
a me e a av, para a casa onde crescera. Pior ainda, estava ali por sua livre vontade.
Como uma forma de punir-se por isso, retirou-se para a sala dos arquivos, procurou antigas palestras de Grace e organizou-as no computador por data e contedo. Ento, 
para aquecer-se - e no certamente por Grace ter-se escandalizado com seu bustier - vestiu um suter. Fez tambm uma pesquisa no computador para saber as ltimas 
estatsticas sobre violncia domstica.
Fez uma pausa para o almoo, no porque estivesse com fome, mas porque o almoo era um ritual com Grace. Era sempre uma refeio de trs pratos - salada, entrada 
e frutas. Sophie no tinha de pensar duas vezes para esperar que Grace
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comeasse, ou para usar os talheres de fora para dentro, ou para pressionar - no esfregar - o guardanapo sobre a boca. Essas coisas j faziam parte de sua segunda 
natureza agora.
Mas pensava duas vezes sobre as coisas absolutas. Ressentiu-se quando, sem mais nem menos, Grace anunciou que cancelara suas reservas para a festa de Quatro de Julho 
na Ilha de Martha's Vineyard. No que Sophie desejasse ir, j que seus amigos estariam em Easthampton, mas Francine esperara muito por aquela viagem.
Ressentiu-se novamente quando, momentos depois, Grace falou sobre o Architectural Digest querer fotografar a casa. - Minha parte da casa - especificou, antes de 
enumerar os preparativos necessrios. No que Sophie desejasse que seus aposentos fossem includos. Ela vivia neles e pareciam-se com ela. O mesmo podia-se dizer 
dos de Francine. A parte da casa de Grace, como ela, era perfeita. Sophie ressentia-se disso.
Sentiu alguma satisfao quando Legs entrou correndo na cozinha, feio como o pecado, mas meigo como todos os galgos, ansioso pelo carinho de Francine. Grace levantou-se 
de um salto e comeou a reclamar, como se o cachorro fosse um vira-latas que tivesse chegado da rua. S parou de falar quando Francine levou Legs para fora, mas 
assim mesmo foi gratificante.
Contudo, Sophie foi premiada com um ataque quando se levantava para voltar ao trabalho. Grace olhou-a nos olhos e disse Eu quis sair para dar uma volta ontem  noite 
e fui procurar Gus, mas ele no estava.
- Ns fomos danar.
- Ele dana?
- Dana sempre. Voc sabe... - Levantou os braos e ondulou seu corpo, dos ombros at os joelhos.
Grace virou-se para Francine.
- Isso no a incomoda? Francine sorriu.
- Fico com inveja. Nunca consegui mexer-me dessa maneira.
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Grace fulminou-as com um olhar glacial e saiu, mas no antes de dizer:
- Quero que ele permanea aqui esta noite, para o caso de eu precisar.
Aquelas palavras ecoaram dentro da cabea de Sophie durante uma hora longa e frustrante. Ento, abandonando tudo que pudesse ser feito no outro dia, vestiu-se toda 
de couro e dirigiu-se para a garagem.
Grace tomou seu ch, como sempre, s quatro horas. O padre Jim O'Neil juntou-se a ela, como fazia todas as vezes que seus compromissos permitiam. Francine permaneceu 
pouco tempo com eles e voltou para o trabalho.
Grace no estava com vontade de retornar ao trabalho. Trabalhara durante vrias horas, e o esforo para concentrar-se, para forar sua cabea a afastar aquele fio 
de medo que a assaltara naquela manh, tivera seu preo. Estava com uma terrvel dor de cabea. E nem o ch nem a conversa com Jim ajudaram.
Depois de acenar para ele da porta, caminhou pela casa, mas o medo seguia-a l tambm, to insistente quanto a dor de cabea, e mais assustador.
Queria falar, mas no podia.
Queria trabalhar, mas no podia.
Queria dormir, mas no podia.
Ento, pegou seu casaco de l do closet, colocou um gorro e luvas com punhos de pele e saiu  procura de Gus.
Ele no estava na garagem. Nem na casa principal, nem na estufa, nem no chal que dividia com a irm. No respondia  chamada do bip.
Mas Grace queria sair. Raciocinando que fizera o possvel para encontrar um motorista e falhara, voltou  garagem, entrou na Mercedes e, sentindo uma espcie de 
alegria por estar sozinha e em perfeito comando da situao, dirigiu-se para a estrada.
Dois

A negao  a maneira inocente de adiar para amanh o que di demais ser admitido hoje.
- Grace Dorian, em A Confidente
- Grace Voc est ouvindo, Grace acordou e viu o rosto bonito de Davis. Franziu a testa e olhou em volta. Seus olhos se arregalaram quando viu os lenis brancos, 
uma cortina branca, o mdico. No estava em casa, disso ela sabia. Sua casa no era inspida. Nem o consultrio de Davis, at onde lembrava.
- Onde estou? - perguntou, perturbada.
- No hospital, ainda na emergncia. Foi uma batida e tanto que deu na cabea.
Na meno desse fato, ela identificou um galo. Seus dedos cuidadosos encontraram uma atadura de gaze no alto da cabea.
- O que aconteceu?
- Voc teve um acidente de carro.
- Eu? - Tentou lembrar, mas o galo em sua cabea desencorajou-a. - Nunca sofri um acidente em toda a minha vida.
- Ento esta foi a primeira vez. Voc avanou o sinal vermelho.
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- No avano sinais fechados. Como bati a cabea?
- Bateu com ela na direo, quando atingiu o outro carro. Quando ela bateu em outro carro? Tentou recordar-se, mas s lhe vinham  cabea fiapos de pensamentos assustadores 
- a sensao de estar perdida, de perder o controle, do pnico.
- O que aconteceu com o outro carro?
- Est destrudo, pelo que ouvi dizer, mas o motorista no sofreu nem um arranho.
- Graas a Deus - respirou aliviada. - Destrudo? Eu dirigia to rpido assim?
- Voc no lembra?
Bem, lembrava, agora que ele mencionara. Lembrava-se de estar assustada por estar dirigindo to depressa e tentando diminuir a velocidade.
- O que aconteceu? - Davis perguntou, mais suavemente agora. Sua voz trazia a lembrana da familiaridade de outras discusses que tiveram.
Rapidamente, Grace ficou na defensiva. Ainda no se lembrava do assunto das outras discusses.
- No lembro de ter visto um sinal vermelho. Devia estar escondido pelas rvores.
- Voc estava no cruzamento da South Webster com a Elm. Fica perfeitamente visvel.
Mas ela insistia.
- Estava escuro. Ns dois sabemos como as luzes podem enganar-nos ento.
- Pode ser. Foi o que aconteceu?
- Ora, tem que ter sido isso. Com toda certeza eu no teria atravessado com o sinal vermelho, se o tivesse visto.
- E se voc o viu, no sabia o que ele significava? Ela olhou irritada para ele.
- Sei o que um sinal vermelho significa, obrigada.
- Neste momento, sim. Mas se estivesse desorientada.
- No estava. S estava confusa. Por um minuto, devo ter
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me distrado. Devo ter tentado ver a placa da rua quando o sinal mudou. O outro carro deve ter disparado ao ver a luz verde.
- O outro carro foi o terceiro a passar pelo cruzamento, e o sinal j estava verde h muito tempo.
- Bem, ento foi s um acidente. - Recusava se a fazer uma tempestade em copo d'gua. - Todo mundo tem o direito de cometer um engano uma vez ou outra.
- E se algum fosse ferido? Como teria se sentido?
- Terrvel - respondeu honestamente.
- Eu avisei-a de que no deveria dirigir.
- No dirijo freqentemente. Mas meu motorista no estava e eu queria sair. Ento dirigi.
- E agora est aqui.
- Um acidente, Dr. Marcoux. Um simples acidente.
- Estou preocupado com a causa do acidente. - Fez uma pausa. - J conversou com sua famlia?
Os olhos de Grace arregalaram-se. Sua famlia deveria querer uma explicao. - Elas sabem que estou aqui?
- Sua filha est a fora. Ela veio com a ambulncia. Um de seus vizinhos testemunhou o acidente. Do carro ele telefonou para Francine.
Grace deveria ter desconfiado. A maldio do amor. Nada ficava em segredo por muito tempo.
Apertou os olhos por causa de sua cabea que latejava o que era exacerbado, sem dvida alguma, pelas batidas de seu corao. Respirando suavemente, olhou de novo 
para o mdico, preocupada desta vez:
- O que disse para elas?
- Apenas que voc no est seriamente ferida. Isso no significa que a situao no seja sria.
Ela sustentou seu olhar.
- No .
- Grace.
- Voc no conseguiu provar nada com seus exames - argumentou depressa. - Voc mesmo disse. Simplesmente citou algumas alternativas.
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- Mais do que algumas alternativas. Seus sintomas so clssicos.
Ela abanou uma das mos.
- O esquecimento  inevitvel em minha idade.
- No os momentos de desorientao repetidos. Foi isso o que a trouxe a mim em primeiro lugar. O que aconteceu com voc no carro  tpico dos portadores do mal de 
Alzheimer.
- Eu no tenho o mal de Alzheimer.
- E se os passageiros do outro carro tivessem ficado mutilados ou, pior ainda, tivessem morrido? E se voc tivesse morrido?
- Meus bens esto em ordem.
- No se trata disso. O fato  que sua famlia deveria estar consciente do que est acontecendo.
Grace sacudiu a cabea.
- No quero que entrem em pnico por causa de um diagnstico to inconclusivo quanto o seu.
Ele olhou-a com reprovao e ela afastou os olhos.
- Contou ao padre Jim? - ele perguntou com doura. Seus olhos agitaram-se.
- Definitivamente no.
- Ele gostaria de saber. Talvez pudesse ajudar.
- Ajudar com o qu? - Grace gritou. - Ajudar a alimentar-me quando eu no for mais capaz? Levar-me pela mo quando eu no souber mais para onde estou indo? Dizendo-me 
quem ele  quando eu no puder mais lembrar seu nome? - Apontou para si mesma. - Eu j li muito sobre essa doena. E eu no a tenho.
Davis enfiou as mos nos bolsos e olhou pensativamente para o cho. Grace tentava adivinhar seus pensamentos, no momento em que ele se virou e sentou a seu lado 
na cama. Estava de cabea baixa, de costas para ela. - Sua famlia sabe que voc est tendo esses esquecimentos?
- No.
- Ento elas no sabem sobre seus exames?
- Eu disse a elas que fui visitar uns amigos na cidade.
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Os olhos do mdico encontraram-se com os dela por cima de seu ombro.
- Deixe-me contar. Explicarei minhas concluses. Elas podem concordar ou no.
- E se concordarem? - Grace perguntou, revelando seu maior medo. - Se concordarem, comearo a olhar para mim estranhamente. Comearo a suspeitar de tudo o que 
eu fizer. Rotularo cada pequeno lapso que eu cometer, tenha ele a ver ou no com a doena. Isso tornar-se- perptuo.
- No pode deix-las sem saber. Elas ainda no perceberam qualquer mudana em seu comportamento?
- Pensam que  a idade. Estou com sessenta e um anos!
- Sessenta e um anos no  velhice.
Grace no sentiu qualquer prazer em ouvir aquilo vindo de Davis Marcoux, assim como no gostaria de o ouvir de Francine.
- Elas tero de saber mais cedo ou mais tarde - disse.
- No, se seu diagnstico estiver errado - ela insistiu.
- Suponha, s por um minuto, que no esteja. No acha que sua famlia deveria estar preparada? Pelo que me disse, voc e sua filha so muito prximas. Ela no ia 
querer saber sobre isso?
- Sobre uma sentena de morte? Ficaria desolada.
- Ela no  uma criana.
- Ficar desolada - Grace repetiu. - Falo por experincia pessoal.
Estava lutando contra o desespero, desde a primeira vez em que comeara a associar seus sintomas com o mal de Alzheimer, e isso aconteceu muitos meses antes de ter 
procurado Davis Marcoux. Lia os jornais. Lia as revistas. Recebia um nmero cada vez maior de cartas de leitores de sua coluna perguntando sobre o assunto. Conhecia 
a angstia que a doena causava nas vtimas e o modo como isso destrua suas famlias. Desespero no descrevia nem metade do que poderia acontecer.
- No compreende, doutor. Minha famlia gira em torno de mim. Minha carreira  o centro da famlia Dorian. Como posso contar-lhes que isso deve terminar? Foi o senhor 
mesmo
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quem disse. Eu posso passar anos com nada alm de lapsos ocasionais de confuso.
- E quanto ao acidente que acabou de sofrer? E se a sua filha ou sua neta estivessem no carro?
- Ento, elas estariam dirigindo. Nunca dirijo, a no ser quando no tenho ningum para faz-lo por mim.
- Isso no  desculpa - repreendeu-a, mas sua maneira continuava gentil, tornando suas palavras cada vez mais contundentes, para que Grace pudesse neg-las. Sim, 
sua famlia girava em torno dela, mas tambm era-lhe muito preciosa. Se fosse responsvel por alguma delas sair ferida, jamais poderia perdoar-se.
Fechou os olhos e pressionou com as pontas dos dedos o ponto que latejava em sua cabea.
- No posso resolver isso agora.
- Sua filha est esperando a fora para saber como voc est. No seria uma boa hora para contar-lhe?
- No.
- Ela perguntar como voc foi capaz de avanar um sinal fechado.
- No. Ensinei-a a priorizar. Avanar um sinal fechado no  to importante quanto o fato de eu estar bem.
- Mas voc no est bem!
Ele pressionava-a cada vez mais e ela percebia. Queria refutar suas observaes, mas as mesmas velhas respostas no estavam funcionando. Sim, ela ficava confusa 
s vezes, e desorientada, e esquecida, e sim, tambm tinha o direito de ser todas essas coisas com sua idade. Mas acontecia cada vez mais freqentemente. No podia 
neg-lo, nem o horror que isso lhe causava.
Colocou o dedo nos lbios para impedi-los de tremer.
- Deixe-me contar, Grace - insistiu ele, com uma voz profunda e persuasiva. - Se ela pelo menos souber da possibilidade, estar em melhores condies para ajudar, 
se for preciso. O mesmo pode-se dizer do Padre Jim.
"Ningum pode ajudar", Grace gritou internamente. "Se estiver certo, estou perdida."
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- Padre Jim sabe dos esquecimentos.
- Mas no de sua causa. Ficar aborrecido, por voc no lhe ter contado antes. Ele tambm est esperando a fora.
Grace virou a cabea para o outro lado. No queria que Jim soubesse. Preferia morrer a permitir que ele a visse como uma pessoa abobalhada.
- O que me diz, Grace? - Davis insistiu. - Ningum ficou ferido desta vez, mas... e da prxima? Os acidentes podem ser prevenidos, mas s se as partes envolvidas 
conhecerem os motivos que os provocam.
- Mas ns no sabemos, com certeza - ela argumentou, s que fracamente, dessa vez. Por causa do choque no acidente, ou do latejar persistente em sua cabea, ou da 
lembrana de querer parar o carro e no saber como, ou da insistncia de Davis, sentiu-se subitamente exausta.
Ento, teve uma idia. Se Davis contasse as suspeitas a sua famlia, elas poderiam ser to veementes quanto ela na concluso de que ele estava errado. Seria reconfortante 
ter um aliado ou dois, depois de ter lutado sozinha durante tanto tempo.
Francine estava na sala de espera por uma eternidade assustadora, quando um homem saiu da emergncia e parou  sua frente. Era alto, de pernas longas, esbelto, com 
cabelos espessos cor de mbar agitados pelo vento, um queixo quadrado sombreado pela barba, e um aspecto to elegante que, sem perceber seu jaleco, ela jamais teria 
desconfiado que fosse um mdico, se Padre Jim no dissesse:
- Ah, aqui est o Dr. Marcoux.
Ela levantou-se, com o corao agitado. O mdico estendeu a mo.
- Francine? Davis Marcoux.
- Como est minha me?
- Tem um galo na cabea, alguns arranhes e uma leve concusso. Gostaria de que ela permanecesse aqui esta noite, em observao. Poder ir para casa amanh de manh.
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- Graas a Deus - Francine respirou aliviada. No tinha qualquer experincia com uma Grace sofredora. As mes nunca adoecem.
- Ser que podamos conversar alguns minutos? - o mdico perguntou.
Imediatamente, Francine preocupou-se. -Sobre o qu?
- Temos uma sala particular no fim do corredor. Seu corao bateu mais rpido. As salas particulares eram para discusses srias.
- Alguma coisa errada, no ?
Ele indicou com o queixo o final do corredor. Ela no queria ir para uma sala particular.
- No seria melhor se eu ficasse com Grace?
Padre Jim tocou seu brao.
- Pode deixar que eu fico com ela. Francine virou-se para ele.
- Sabe de alguma coisa que eu no sei?
- No, mas voc  a filha de Grace.  natural que o mdico queira discutir o acidente com voc. Pode juntar-se a ns depois de falar com ele.
- No quero falar com ele - disse em uma voz aguda. Ento, ouvindo sua prpria tolice, concordou. - Est bem. Diga  Grace que logo voltarei para v-la.
Estava na metade do corredor, tentando acompanhar o passo do mdico, quando lhe ocorreu chamar Padre Jim de volta. Mesmo antes da morte de seu pai, ele fora uma 
presena constante na casa dos Dorian, e agora era mais ainda. Era mais um amigo do que um conselheiro espiritual, surpreendentemente liberal, um apoio consistente. 
Gostaria muito de poder t-lo a seu lado na sala particular de Davis Marcoux.
Mas j tinham chegado. A sala era pequena, com um sof, algumas cadeiras e uma mquina de fazer caf. Davis fez um gesto como se fora servir um caf.
- Gostaria de uma xcara de caf?
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- Acha que vou precisar? - perguntou. Seu sorriso foi seco.
- No est muito acostumada com um hospital, pelo que vejo.
- Para nascimentos, acho timo. Quanto ao resto... - Sacudiu a mo para demonstrar seu desgosto e despencou em uma cadeira. - Minha filha  diabtica. Quando pessoas 
que amo esto envolvidas, os hospitais me do arrepios. - Agora, no podia fingir. - Os mdicos me causam arrepios.
- timo, - ele disse -  bom saber disso.
- Eu no gosto de rodeios. O que h de errado com minha me?
- Esta no  a primeira vez que ela me procura. A ansiedade de Francine cresceu.
- E quando foi?
- H vrios meses. Seu clnico indicou-me para ela. Estava sofrendo de uns momentos de desorientao. Sou neurologista. Trato desse tipo de sintomas.
- Ela no falou nada comigo.
- No queria que voc se preocupasse. Pensou que estivesse tendo pequenos ataques.
Francine apertou-se com seus prprios braos.
- E estava?
- No. Afastamos essa hiptese.
Alguma coisa disse-lhe para no se sentir aliviada.
- Como? - perguntou.
- Exames de sangue, eletroencefalogramas, tomografias, ressonncias. Fizemos todos os tipos de exame.
Francine ficou mais confusa.
- Mas quando? Esses exames exigem tempo. Como eu no saberia sobre eles? Grace e eu trabalhamos juntas. Eu saberia, se ela se afastasse alguns dias para fazer exames.
- Ela no tirou nenhuma licena nos ltimos meses?
- Sim, mas no para exames. Ela foi  cidade visitar amigas, ou a matines ou a apresentaes da Filarmnica. Foi ao
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salo de beleza. - Francine no precisava ser um gnio para perceber o que havia por trs do olhar do mdico. - Ela mentiu para mim? No. Grace nunca mente.
Ele sentou-se no sof e apoiou os cotovelos nos joelhos abertos.
- Ela mentiu desta vez, mas com a melhor das intenes. Ela fez os exames. Tenho as fichas com os resultados.
- E o que eles dizem? - Francine perguntou. Reanimou-se quando a expresso do rosto do Dr. Davis suavizou-se.
- Dizem que a explicao mais lgica para os esquecimentos que ela est sofrendo  que talvez sejam devidos  demncia senil...
Francine interrompeu-o.
- No a Grace!
-... do mal de Alzheimer.
Ela engoliu em seco. Depois, sacudiu a cabea.
- No a Grace. Ela  saudvel demais.
- A sanidade no tem nada a ver com isso.
- Mas a mente de Grace  a prpria Grace.  o que a torna diferente de qualquer um nesta terra.
- Eu poderia dizer o mesmo de todos os outros pacientes com o mal de Alzheimer que conheo.
Mas Francine no estava falando sobre todos os outros pacientes com o mal de Alzheimer. Estava falando sobre sua me.
- Sabe quantos milhes de mentes so influenciadas pela mente dela todas as semanas? Sabe quantos dependem de suas palavras?
- Em que isso  relevante no caso?
- As colunas que ela escreve significam o mundo para essas pessoas.
- Ento outra pessoa deveria ter a doena em seu lugar?
- Claro que no. Mas o senhor no compreende - insistiu - a mente de Grace  sua matria-prima.
- Eu compreendo - ele disse, ainda gentil, mas com um pouco mais de intensidade - que alguma coisa est acontecendo com essa mente. O crebro  um rgo. O de Grace 
est se deteriorando.
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- Mas a deteriorao no  normal com a idade?
- Em Parte A que Grace vem sofrendo no . Existem momentos em que ela no sabe quem  ou o que deveria estar fazendo. Acredito que foi o que aconteceu hoje no carro. 
Ela estava na estrada e esqueceu-se de como se dirige.
Isso  absurdo - Francine argumentou. - Grace tem mais controle sobre si e sobre sua vida do que qualquer outra mulher que eu conhea.
- Anda esquecendo-se de coisas.
- Isso no acontece com todos ns?
- No com coisas importantes, como o nome de um amigo. Francine quase riu. - Grace jamais se esqueceria do nome de um amigo. Consideraria isso o cmulo da grosseria.
- Mas no acontece voluntariamente.
- Nunca a vi esquecendo-se do nome de uma pessoa.
- Voc j a viu confusa?
- Muitas vezes, por qualquer coisa e tudo de natureza tcnica. Sempre foi assim. Se est pior agora,  s porque temos mais mquinas no escritrio do que antes.
- E quanto ao trabalho dela? Presenciou algum lapso?
- Nenhum - Francine afirmou, e na mesma hora lembrou-se da coluna sobre alergias causadas por gatos que no fazia sentido.
- Tem estado mais nervosa do que normalmente? Mais exigente? Fica frustrada com pequenas coisas?
No. Grace  Grace, a mesma de sempre. Ela no tem o mal de Alzheimer. Deve haver alguma outra causa para o sintoma que ela est apresentando.
- No consigo encontrar.
Ento, talvez o senhor no seja o mdico certo para Grace. Ele considerou o que ela disse por um minuto, ainda com os cotovelos nos joelhos, e finalmente falou em 
uma voz to tranqila quanto seu olhar:
Vou dar-lhe o nome de outro mdico. Tem direito de ouvir todas as opinies que quiser. Mas meu diagnstico no  feito
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no vazio. No sou eu quem faz os exames. Foram feitos por algumas das melhores mentes mdicas de Nova York. Grace insistiu nisso.
- Viu? Ela sabe o que est fazendo.
- Eu nunca disse o contrrio. Um dos aspectos mais consistentes do mal de Alzheimer  sua inconsistncia. Nos estgios iniciais, os sintomas aparecem e desaparecem. 
Os pacientes podem permanecer timos por longos perodos e, de repente, tm perodos breves de confuso total.
- Eu nunca vi sinais de confuso total em Grace - Francine declarou.
- Ela pode estar compensando. Os pacientes do mal de Alzheimer costumam ser muito bons nisso, at chegar o momento em que alguma coisa externa ou muito sria acontece... 
como avanar um sinal fechado e bater em outro carro. Ento, fica mais difcil esconder.
O estmago de Francine deu um n. Ela no gostava de Davis Marcoux, no gostava da firmeza de seu olhar ou da profundidade de sua voz... ou da sombra de sua barba, 
ou da pequena cicatriz sob sua sobrancelha, ou do seu tamanho. Era bronzeado demais para ser um mdico, muito rude e simples, muito bonito, muito seguro.
Grace no podia estar doente. Era a pedra angular da vida de Francine e agora tambm da de Sophie. Era o cho sobre o qual pisavam. Ningum iria tir-la delas, muito 
menos um homem arrogante.
Ento, Francine perguntou, desafiadoramente:
- O senhor contou a Grace o que pensa?
- Sim. H dois meses.
- E ela no me disse uma palavra? Como pode ser isso, logo ela que prega o dilogo aberto dentro das famlias?
Davis recostou-se.
- Ela est negando to veementemente quanto voc.
- Ah. Ento so duas contra um.
- No, se contar os outros mdicos, cujas opinies ajudaram a formar meu diagnstico.
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- Mas o senhor mesmo disse que o que fez foi s afastar outras possibilidades.
- A tomografia mostrou sinais de uma possvel decadncia dos neurnios.
- Possvel.
- Decadncia dos neurnios indica o mal de Alzheimer.
- Possvel. No pode fazer melhor do que isso? - Sabia que estava sendo indelicada, mas ressentia-se por ele chegar a tal diagnstico sem uma prova concreta.
- A medicina  uma cincia inexata.
- Certamente.
- Continuo com meu diagnstico.
- Ora, naturalmente que continuaria. - Ela jamais conhecera um mdico que admitisse poder estar enganado. - Quando meu pai estava com quarenta anos, disseram-lhe 
que tinha um mal no fgado e que estaria morto em cinco anos. Ele viveu at depois dos setenta.
- Grace tambm pode viver. Mas suponha - Davis voltou  carga, insistente, e Francine desejou que ele no continuasse - apenas suponha que eu esteja certo. Suponha 
que o acidente de hoje tenha sido causado por um mau funcionamento de sua mente. Insistiria em deix-la sair dirigindo novamente?
-  claro que no poderei obrig-la a ficar confinada dentro de casa.
- E se for pior na prxima vez? E se algum do outro carro ficar ferido? - Ele levantou a mo. - Est bem, esquea a tragdia humana. Esquea a moralidade. Partindo 
somente do ponto de vista legal, j imaginou a espcie de processo que atingiria a todas vocs, logo que a famlia da vtima inocente descobrisse que foi feito um 
diagnstico meses antes, e que Grace dirigia contra os conselhos de seu mdico?
- Imagino que documentar tudo isso.
- Tenho que faz-lo.
- Para proteger-se?  disso que estamos falando? Medicina defensiva? - Francine levantou-se. - Isso  desprezvel.
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Se a medicina moderna chega a atirar a vida de um paciente em um turbilho para evitar que o mdico no seja afetado pelo mau exerccio de sua profisso, no quero 
participar disso. - Sentiu uma urgncia de sair correndo. - Obrigada pelo seu tempo. Gostaria de ver Grace agora.
Ela comeara a abrir a porta, mas a mo grande dele fechou-a novamente.
- Dr. Marcoux - ela o advertiu, mas ele no retirou a mo.
- Davis. Odeio cerimnias. Tambm odeio ser colocado como o bandido de uma situao da qual gosto tanto quanto voc. Pode acreditar, no sinto a menor alegria em 
diagnosticar o mal de Alzheimer. Ficaria muito feliz se os sintomas de Grace estivessem desaparecendo, mas no esto. Portanto, por favor. Oua uma segunda opinio. 
Oua uma terceira. E, se nenhuma das outras disser o que estiver querendo ouvir, volte para que possamos conversar. Existe muita coisa que precisa saber.
Sentindo o tipo de indignao que Grace sentia com tanta simplicidade, mas que Francine nunca experimentara com facilidade, ela levantou os olhos para ele.
- Eu j sei o suficiente. Sei que A Confidente  um empreendimento multimilionrio que sustenta sete pessoas da casa, e s Deus sabe quantas mais em Nova York, e 
que toda ela gira em torno de Grace. Assim como eu. No tenho uma grande famlia. Com a morte de meu pai, s existimos a Grace, minha filha Sophie e eu. Tenho loucura 
por minha me e minha filha. - Uniu dois dedos e disse: - Grace e eu somos assim. No posso... no posso risc-la da minha vida.
- No estou pedindo que faa isso. Grace ainda  um ser humano em pleno funcionamento de suas capacidades. A ltima coisa que deveria fazer seria trat-la de modo 
diferente do que sempre fez. S estou dizendo que voc deve estar consciente do que pode vir a acontecer. Ela pode continuar por mais cinco, seis, sete anos como 
est agora, apenas com lapsos ocasionais. Ou pode decair rapidamente. De qualquer maneira, ela no  imortal. Morrer um dia.
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- Esse dia ainda pode esperar - Francine disse e e deu um puxo na porta, mas ela no se moveu.
Da mesma maneira delicada, Davis retirou a mo e deu um passo para trs.
Ela deu um novo puxo, mais forte, com a inteno de marcar sua sada com o desprezo. Como Francine no estava colocada da maneira adequada, a porta abriu mais rapidamente 
do que esperava, bateu em seu ombro e tirou-lhe o equilbrio. Ela oscilou.
Davis segurou seu brao.
Ela liberou-o e levantou a mo como que prevenindo-o para no fazer aquilo. Com uma dignidade forada, passou pela porta aberta e escapou.
Pelo menos pensou que conseguira, mas o diagnstico do mdico acompanhou-a pelo corredor. Foi somente quando entrou no cubculo onde Grace estava deitada, plida 
e desordenada, mas fora isso to parecida com ela mesma, que Francine sentiu-se vingada. Abriu um enorme sorriso.
- Muito bem, Grace, voc conseguiu desta vez. Avanou um sinal vermelho. Que galo enorme na sua cabea!
- A maior parte  s curativo - Grace disse e sacudiu a mo que segurava a de Padre Jim. - Meu amigo aqui diz que ficou muito bem em mim. Me deu mais personalidade. 
O mdico me garantiu que a cicatriz ser pequena.
Francine perdoou-lhe a vaidade. Se ela aparecesse em somente alguns dos palcos onde Grace aparecia, preocupar-se-ia tambm com sua imagem. No que Grace tivesse 
que preocupar-se. Sua pele era to macia quanto a de uma mulher muito mais jovem, e apesar de pintar seus cabelos durante anos eles permaneceram espessos e obedientes.
Mas que cabelo ousaria desafiar uma dona to competente quanto Grace?
O mal de Alzheimer? Muito menos.
Com isso decidido, Francine perguntou:
- Como est se sentindo?
- Com saudade de casa. Voc veio buscar-me?
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- No posso. S amanh. Ordens do mdico. - Ela aceitaria aquela explicao, imaginou. - Ele quer que voc seja mantida em observao durante esta noite por causa 
da concusso.
- Por que no posso ser observada em casa?
- Porque - disse Padre Jim - voc tem que ser olhada toda hora e se Francine fizer isso no pregar olho.
- Ficaria mais confortvel em minha cama. Ele apertou a mo de Grace.
- Seja uma menina obediente e faa o que o doutor quer, s por uma noite. Ele est fazendo isso com a melhor das intenes.
Francine no poderia ter dito aquela frase com tanta convico. Endereou-lhe um olhar agradecido. Ele olhou na direo do corredor.
- Davis ainda est l fora?
- Imagino que ele esteja anotando desesperadamente todos os seus pensamentos - Francine vociferou.
- Quero falar com ele antes que saia. Comporte-se, Grace.
- Ora, e eu tenho outra escolha? - Grace perguntou. Em seguida, acrescentou, um pouco insegura: - Voc vai voltar?
- Logo que for levada para um quarto.
Ela pareceu satisfeita com aquela resposta, e Francine sentiu-se grata ao padre mais uma vez. James O'Neill era um amigo. Claro que a soma considervel que Grace 
dava  sua igreja garantia uma certa quantidade de sua ateno, mas Padre Jim gostava delas independentemente disso.
Quando ele desapareceu, Grace segurou a mo da filha.
- Jim disse que voc estava conversando com Davis. O que ele disse?
Francine sentiu um aperto no corao. Odiava repetir aquelas palavras, mas Grace sempre pregara a honestidade. Certo que ela no seguira seus prprios ensinamentos 
daquela vez. Talvez, devido s circunstncias, fosse desculpvel.
- Ele contou-me sobre os exames que voc fez. Se tivesse me contado, eu teria ido com voc. No devem ter sido nada agradveis.
- E ele disse-lhe sobre seu diagnstico?
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- Disse.
- No acreditei nem por um minuto.
- Nem eu.
- Estou diferente? Imprevisvel? Zangada?
- No.
- Foi o que eu disse a ele.
- Voc tambm disse a ele que tem andado desorientada
Francine falou acusadoramente, porque lhe parecia quase uma traio Grace alimentar as afirmaes de Davis Marcoux.
- Uma vez - Grace argumentou, em sua prpria defesa, - talvez duas, e eu sei o que so esses brancos. So ataques de pnico. No gosto de envelhecer.
- Voc no est envelhecendo.
- Bem, obrigada, querida, mas o fato  que estou. No tenho a fora, a velocidade e a animao que tinha h vinte anos, ento comeo a imaginar todos os tipos de 
coisas erradas, e antes que eu perceba estou dentro de um turbilho.  esse o motivo da minha confuso.
Francine suspirou. As doenas psicossomticas podiam ser tratadas. No eram degenerativas. No eram fatais.
- Bem, no saia batendo por a. Preciso de voc inteira. E no saia dirigindo sozinha, quando temos um motorista contratado para levar voc.
- Procurei Gus - Grace atacou - e no o encontrei.
- Onde ele estava?
- Pensei que voc pudesse saber. - Sua inteno era clara.
- Voc pensa que ele estava com Sophie. Ela no disse se tinha sado com ele.
- Isso a surpreende?
- Sim - Francine decidiu depois de pensar um momento.
- Se ela se encontra com ele para mostrar-se rebelde, de que adianta se ningum souber?
- Voc deveria preocupar-se com isso, principalmente com Gus Clyde envolvido. Voc perdeu o controle de sua filha, Francine.
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- Claro que perdi - Francine admitiu. - Ela est com vinte e trs anos. Faz muito tempo que no sei mais todas as coisinhas que ela faz. No seria saudvel se fosse 
o contrrio. Pelo menos,  o que voc sempre diz s suas leitoras.
Grace sacudiu a mo com impacincia.
- Gus pode ser um timo motorista, um mecnico hbil, at um faz-tudo passvel, mas certamente no um possvel neto. Sophie tem necessidades especiais. Quem se casar 
com ela vai atender essas necessidades. Tem que ser carinhoso e dedicado. Gus no  nada disso.
- Voc o contratou - Francine lembrou-a. Grace aborreceu-se.
- Sim, contratei, recomendado por James O'Neill. Eu devia dizer a ele o que seu precioso jovem est fazendo. - Seu olhar fixou-se alm de Francine. O aborrecimento 
derreteu-se em uma expresso de santa. - Ah, a est o Dr. Marcoux, que veio dizer que mudou de idia e que vai deixar-me ir para casa esta noite.
- Na verdade - ele disse - o Dr. Marcoux veio dizer que seu quarto est pronto. Vamos dar-lhe a sute da cobertura.-Ele afastou a cortina e dirigiu-se  cabeceira 
da cama. Devido ao confinamento do cubculo, ele passou a uma distncia mnima de Francine. Junto com o calor de seu corpo, veio a mo dele em seu brao e sua voz 
em seu ouvido. - H uma mulher na portaria pedindo para falar com uma das Dorian.
- Quem ? - Francine disse, mal podendo respirar.
-  da imprensa. Cuide dela. Eu cuido da sua me. - Passou por ela e elevou a voz. - Pronta para ir, Grace?
Imprensa? Que imprensa? Como a imprensa soube que Grace estava aqui? Francine virou-se para perguntar-lhe, mas ele estava indicando o p da cama a um enfermeiro, 
e antes que ela pudesse chegar mais perto a cama dirigia-se para o corredor.
Seguiu-a, esperando encontrar uma fotgrafa bisbilhoteira, e deu um suspiro de alvio quando Grace entrou no elevador sem incidente. No haveria uma foto de primeira 
pgina de Grace doente. Mas e uma histria?
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Dirigiu seus passos para a sala de espera, seguiu para a portaria e estava pronta para identificar-se, quando encontrou um rosto familiar.
Oi, Francine. Robin Duffy, do Telegram. Como est Grace?
Robin Duffy. Ah, sim. Ela entrevistara Grace no vero anterior e enquanto Grace ficou satisfeita com a publicao, Francine achara-a presunosa. O mesmo punhado 
de bobagens sobre Grace que Robin escrevera antes.
Francine gostaria de ter dito um "sem comentrios" e sado, mas sabia que Robin escreveria sua histria da mesma forma. Por conta prpria, poderia ser um absurdo 
qualquer. Seria melhor dar-lhe um toque das Dorian.
Ento, disse: - Grace est tima.
- Eu soube que houve um acidente de carro. O que aconteceu?
- Houve um acidente de carro. - Francine repetiu educadamente.
- Soube que ela avanou um sinal vermelho.
- A polcia disse-lhe isso?
- No. Eles no diriam nada. Mas conversei com o motorista do outro carro. Quando cheguei ao local, ele estava esperando o reboque. Seu carro teve perda total.
- Essa  uma estimativa profissional?
- Foi uma observao do outro motorista. Ele disse que Grace devia estar dirigindo a pelo menos uns oitenta de velocidade.
Francine sorriu.
- Eu duvido. Grace raramente anda a sessenta. Nunca recebeu uma advertncia e muito menos uma multa por excesso de velocidade.
- Ento por que no viu o sinal vermelho?
- No sabemos se no viu. Minha maior preocupao foi saber se ela estava bem. Os mdicos garantiram-nos que est.
- Ela estava bbada?
- Grace? - A idia era absurda. S um reprter poderia sugeri-la. - Grace no bebe.
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- Eu a vi com uma taa de vinho na mo em um restaurante, no ms passado.
- Se a taa estava l, era s por exibio. Grace no bebe.
- Ela usa drogas?
Francine lutou para permanecer fria.
- Se usasse, jamais poderia fazer o que faz. Ela  uma mulher fantstica.
- Ento a resposta  no?
- Enfaticamente.
- Nem mesmo um sedativo? Ou uma plula para dormir? Ela estava tomando algum remdio para resfriados que possa t-la perturbado?
- A nica coisa que Grace tomou foi uma Excedrina.
- Ento, ela sofre de dores de cabea?
- No.
- Tem problemas cardacos?
- Por que pergunta isso?
- As enfermeiras no me deram uma resposta. Francine no agentou mais.
- Isso  porque no  da sua conta.
- Grace Dorian  uma figura pblica. Seus leitores gostariam de saber se sua sade est falhando. Ela teve algum desmaio antes?
- No, e no teve um agora. - Francine colocou a mo de leve sobre o brao de Robin. Com uma voz surpreendentemente compreensiva dada a fria interna, disse: - Grace 
sofreu um simples acidente.  um caso encerrado. Sei que isso no  muito emocionante para a imprensa, mas no existe uma histria desta vez, Robin.
- Ela avanou um sinal vermelho.
- At onde sabemos, o sinal estava com defeito. Como j disse, Grace tem um registro de motorista limpo. - Francine sorriu. - Vou correr l para cima agora. Direi 
a Grace que voc esteve aqui.
Trs

As mentiras so como coelhos. Coloquem uma junto da outra e elas multiplicar-se-o rapidamente.
- Grace Dorian, em A Confidente
COLUNISTA FERIDA EM ACIDENTE
por Robin Duffy para Telegram
A colunista Grace Dorian, publicada em todo o pas, sofreu ontem um acidente envolvendo dois carros, em uma estrada perto de sua casa. Dorian foi levada s pressas, 
de ambulncia, para um hospital local, onde foi internada. O motorista do outro carro, Douglas Gladiron, no ficou ferido.
O acidente ocorreu s 17h15min. Dorian, de 61 anos de idade, dirigia-se para o norte na South Webster, quando avanou um sinal fechado na rua Elm. Seu carro interrompeu 
o trnsito no cruzamento, batendo no automvel dirigido por Gladiron, de 38 anos. As testemunhas no local calcularam que Dorian dirigia a 80km por hora. No foram 
percebidas marcas no asfalto que demonstrassem uma tentativa de frear o carro.
O hospital recusou-se a comentar a hiptese de Dorian ter sofrido um ataque cardaco.
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A polcia tambm no fez comentrios, limitando-se a dizer que Dorian foi citada por infrao de trnsito e que as investigaes estavam sendo feitas. Apesar de 
um porta-voz da famlia negar a presena de lcool ou de drogas, estes so dois fatores que sero considerados.
- Mas  claro que a polcia considerar esses fatores - Francine gritou, jogando o jornal longe enojada. - Qualquer investigao leva em conta esses fatos e, quando 
no so cabveis, so retirados da lista. Ela faz Grace parecer doente. Faz Grace parecer culpada. Por que no foi capaz de dizer simplesmente que uma investigao 
estava sendo feita? - Mas Francine conhecia a resposta, da mesma forma que Sophie, que lia o jornal por cima de seu ombro.
- Resolveu colocar um pouco de molho na notcia.
- s custas de Grace! Por que fazem isso com celebridades? Por que sempre sugerem alguma coisa que absolutamente no est acontecendo? O que ocorreu com a frase 
"inocente at que se prove o contrrio"?
Sophie sentiu-se um pouco mais tranqila. Disse, em um tom baixo:
- Pelo menos ela no mencionou o mal de Alzheimer. Francine olhou-a com ressentimento.
- No tinha motivos para isso.
- Tambm no tinha motivos para falar em ataque cardaco. Ou lcool ou drogas. Quando for provado que no houve nada disso, ser que ela sair procurando por mais 
alguma coisa? Os fs de Grace acreditaro mais no mal de Alzheimer do que em lcool ou drogas.
- Grace no tem o mal de Alzheimer.
- Eu sei.
- Ento por que no pra de falar nisso? - S as palavras j deixavam Francine nervosa.
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Porque voc falou ontem  noite.
Falei, porque voc e eu juramos sempre contar a verdade uma para a outra. Nunca lhe menti sobre o que seus mdicos disseram e no vou mentir sobre o que o mdico 
de Grace disse. Mas voc pode ver to claramente quanto eu que ele est errado. Grace est tima para uma mulher de sua idade. Nada teria acontecido ontem  noite 
se Gus estivesse onde deveria estar.
Para seu consolo, Sophie parecia estar com remorsos.
- J pedi desculpa por isso dez vezes, mame. Quantas vezes mais vou ter de pedir?
Francine suspirou. Estava tensa desde o minuto em que acordara - e isso de um sono de apenas duas horas. Uma corrida vigorosa acompanhada de Legs ajudara um pouco, 
mas somente at entrar de novo em casa. O jornal a trouxe de volta  realidade.
Mas Sophie no era culpada da notcia maldosa de Robin Duffy, nem do diagnstico errado de Davis Marcoux. Passando o brao pela cintura fina da filha, disse:
- Nem uma. Sei que voc se arrependeu.
- Mas no  esse o caso, de qualquer maneira. Voc tem razo. Nada teria acontecido se Gus estivesse dirigindo. Mas era Grace que estava na direo e alguma coisa 
aconteceu. E se a polcia interrogar seu mdico?
Francine fizera-se aquela mesma pergunta durante quase toda a noite.
- A polcia no sentiu cheiro de lcool em seu hlito. No Pediram que ela andasse em linha reta. Se suspeitassem de alguma coisa, teriam feito perguntas, e no 
fizeram. Deixaram as coisas como estavam, sabendo que as evidncias surgiriam pela manh, o que me diz que no suspeitaram da presena de lcool e drogas. A nica 
pessoa que pensou nisso foi Robin Duffy. Davis Marcoux pode negar veementemente que Grace estivesse drogada. E ele no dar outras informaes. Isso seria uma violao 
do sigilo profissional do mdico.
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O telefone tocou. Francine j ligara para o hospital e soubera que Grace estava bem. Mesmo assim, sentiu uma ponta de ansiedade.
- Al?
- Voc leu o jornal, Francine? - A voz era acusadora, mas felizmente consciente.
- No dei a menor importncia.
- Bem,  timo que pense assim, mas sabe quantas outras pessoas lero a notcia? Eu no compreendo. Nunca fiz nada para Robin Duffy. Foi voc quem falou com ela 
ontem  noite?
- Sim, e disse-lhe que no havia envolvimento de lcool, ou drogas, ou qualquer problema de sade.
- Voc foi veemente sobre o assunto?
- To veemente quanto poderia ser, sem demonstrar estar na defensiva.
- Afinal, ela mesma deve ter engendrado essa histria. Bem, est feito - disse Grace, parecendo resignada. - Pode controlar o dano que vir? No duvide que os telefonemas 
j devem estar a caminho.
- Posso cuidar de tudo - Francine disse. Era o mnimo que poderia fazer para redimir-se. Deveria ter sido mais incisiva.
- Mas se vai fazer isso quem vir buscar-me? O doutor acabou de me dar alta.
- Como se sente?
- tima. Minha cabea  mais dura do que as pessoas pensam. Gostaria de tomar meu caf da manh em casa. E depois gostaria de trabalhar.
- No faria mal algum se descansasse s um dia.
- H muita coisa a ser feita. Ento, quem vir buscar-me? Francine olhou para a filha.
- Sua neta.
- Quando?
- Em quinze minutos. - Quando Sophie comeou a gesticular desesperadamente, Francine disse: - Ou melhor, meia hora.
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Ela ainda est dormindo? - Grace perguntou com um tom de desaprovao.
Francine sentiu-se aliviada por poder dizer:
- No. Ela est aqui na cozinha comigo. Mas tem de tomar banho, vestir-se comer alguma coisa antes. Ou devo mand-la sem comer?
Meu Deus, claro que no. Ela precisa do desjejum mais do que eu. Mande-a quando estiver pronta, mas no deixe que embrome, Francine. E, por favor, - disse de maneira 
sofrida - faa o que puder para impedir os rumores. No tenho tempo para especulaes idiotas sobre minha sade. No neste momento. Existe muita coisa em jogo.
Francine mal teve tempo para tomar um caf rpido com Sophie, quando o telefone tocou novamente. Era Mary Wickley, uma velha amiga da famlia, profundamente preocupada 
com Grace.
Francine garantiu que Grace estava muito bem e j a caminho de casa. Sim, Mary sabia que no havia lcool nem drogas envolvidos na histria de Grace. Ela sabia o 
quanto a imprensa podia ser srdida. Francine enfatizou que Grace no sofrera um ataque cardaco e sim uma simples concusso, por isso o hospital decidira mant-la 
internada durante a noite, por precauo. Sugeriu que Mary espalhasse a notcia.
Mal tinha desligado, o telefone tocou novamente. Era George, o editor do jornal de Grace e tambm amigo ntimo, querendo saber, primeiro, por que o Telegram conseguira 
a histria antes do Transcript e, segundo, como Grace estava passando.
- Grace est muito bem, - Francine disse, colocando uma nova prioridade nas respostas - e o Telegram conseguiu a histria porque uma reprter de l tem fixao em 
Grace. Que histria? Nenhuma histria. Grace sofrera um pequeno acidente normal. Bateu com a cabea e por isso os mdicos quiseram que ela Passasse a noite l, em 
observao. Foi mais para proteger a eles mesmos do que a ela.
O telefonema seguinte foi de um crtico de cinema que
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vivia em uma cidade prxima e pertencia ao crculo social de Grace. Mary Wickley ligara para ele para dar a notcia.
- J vi isso acontecer dzias de vezes, Francine, reprteres desconhecidos tentando dar um furo. No pense duas vezes sobre o que ela escreveu. Ser esquecido ao 
anoitecer. E da, se Grace colocou uma dose de bebida no ch?
Francine negou tanto essa quanto as outras insinuaes feitas por Robin Duffy. Acabara de desligar, quando Tony telefonou. Estava furioso por ter suportado uma descompostura 
de George por no ter conseguido o "furo" e transferiu seu veneno para Francine.
- Muito bem, no sou to bem aceito por vocs, mas poderia pelo menos ter dado um telefonema do hospital.
- Tony, minha me estava ferida. Eu estava preocupada com ela. A ltima coisa em que pensaria naquele momento seria no jornal.
- Voc falou com o Telegram.
- Ela esteve l. Fazia perguntas estpidas. S neguei as insinuaes. No havia uma histria. Foi o que disse a ela.
- Ela conseguiu o furo.
- No houve nenhum furo.
- Pois bem, eu quero o prximo. Foi o corao?
- No, no foi o corao. Seu corao est timo.
- Ento, ela est deprimida.
- Grace? Mas claro que no. E de qualquer maneira, como o fato de estar deprimida poderia relacionar-se a um acidente automobilstico?
- Poderia estar to infeliz que no prestou ateno.
- Grace alguma vez pareceu-lhe infeliz? No. Nem uma vez, e no me diga que foi um grito de socorro - ou uma tentativa de suicdio - porque eu fao um escndalo. 
Mas isso  pattico. Ainda no so nove horas, e o seu  o quarto telefonema que recebo. - A outra linha tocou. - L vem o quinto.
O quinto era de outra amiga, que depois ligou para o veterinrio de Francine, completando o sexto. O stimo foi do editor
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do livro de Grace, que recebera um telefonema de George e que em seguida, apesar das afirmativas veementes de ffrancine, ligou para o agente de Grace, que se transformou 
no oitavo.
Nesse momento, Francine estava a ponto de explodir.
- Foi um pequeno acidente estpido. No compreendo por que todo esse barulho.
- Especulao de desocupados - foi a opinio de Amanda Burnham.-As pessoas no tm muito no que pensar. No podemos falar contra a Rssia porque a Guerra Fria acabou. 
No podemos xingar o Congresso, porque tudo j foi dito, e alm disso ns elegemos os vagabundos. Precisamos de outra enchente.
Francine suspirou.
- No. S precisamos de um pouco de respeito pela privacidade dos outros. Pedirei a Grace que escreva sua prxima coluna sobre isso.
- Algum j escreveu sobre isso?
- Algum escrever, nem que eu tenha que ser esse algum. - Teve um pensamento. - Oh, meu Deus, vamos ficar sufocadas com os cartes de pronto restabelecimento?
- Possivelmente. Mas no se preocupe. Telefonarei para Tony. Ele pedir a algum para cuidar disso. - O telefone tocou de novo. - Deixe tocar. - Amanda aconselhou.
Mas Francine no podia fazer isso.
- Grace pediu-me para controlar a situao. Um telefone que no for atendido pode fazer mais mal do que bem
- Onde est Marny?
- S chega s nove. - Verificou seu relgio de pulso. - , j so nove. Estar aqui a qualquer minuto. Enquanto isso,  melhor eu atender. Pode ser Grace.
Era Annie Diehl.
- Que histria  essa que ouvi, dizendo que Grace fraturou a bacia?
- Fraturou a bacia? Onde voc ouviu isso?
- De uma conversa no corredor. Qualquer coisa sobre um acidente.
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- Um acidente de automvel.
Para surpresa de Francine, Annie pareceu aliviada.
- Graas a Deus. Essas coisas da velhice me deixam nervosa. S no ano passado, entre minha me e trs tias, tivemos duas fraturas de bacia, um cncer, um par de 
cataratas, e dois conjuntos de dentaduras. Grace aproxima-se da idade em que essas coisas comeam a acontecer.
- Ela s tem sessenta e um!
- E como ela est?
- tima. No quebrou a bacia, no est com cncer, nem com cataratas, nem com dentaduras. Bateu com a cabea. Deve haver uns trs pontos no total, que desaparecero 
no meio do cabelo.
- Isso  muito bom, porque ela foi convidada para participar de um debate sobre adolescncia em Chicago, em julho. Temos um ms inteiro depois de seu ltimo discurso 
de formatura. A menos que ela no queira. - A isca fora lanada.
- Ela far - Francine disse rapidamente. Grace queria que o dano fosse reparado... esse era o da espcie mais forte. - Mande uma confirmao pelo fax, e colocamos 
na agenda. E Annie... se algum perguntar sobre a fratura da bacia, quer esclarecer tudo por favor?
Grace deixou o hospital em uma nuvem de perfume que uma das enfermeiras, uma f, dera-lhe de presente. Era mais adocicado do que os que usava normalmente, mas no 
quis parecer ingrata. As enfermeiras eram pessoas poderosas. Tinham acesso ao tipo de informao particular que poderiam arruinar algum como ela - o que as tornava 
pessoas perigosas.
Portanto, agradecera a cada uma chamando-as pelo nome e apertando-lhes as mos. - As pessoas precisam saber que so queridas - disse a Sophie a caminho do carro. 
Seguindo essa regra, agradeceu a Sophie por busc-la, sem criticar sua maneira de dirigir, e disse-lhe como estava bonita, no mencionando a aparncia estranhamente 
discreta de sua roupa.
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No disse uma palavra sobre Sophie ter sido a responsvel pelo desaparecimento de Gus na noite anterior, porque isso significaria falar no acidente, o que poderia 
levar a uma discusso sobre sua causa, e Grace no queria absolutamente falar sobre aquilo. Desconfiou de que Francine tivesse contado sobre o diagnstico de Davis 
Marcoux, desconfiou do que haveria por trs da docilidade de Sophie. Mas tambm poderia ser pela culpa de ter afastado Gus de casa.
De qualquer maneira, Grace deixou-a em paz. Sentia-se benevolente. Sofrera um golpe, no importa o motivo, e escapara.
Mas havia mais, um crdito para a solidariedade da famlia. Sim, Francine era leal. Sophie, tambm, ou no teria voltado para casa quando terminara a faculdade. 
Mas a solidariedade podia sofrer se testada alm dos limites. Se Grace se comportasse de maneira estranha ou se tornasse difcil, sua prpria famlia poderia escolher 
acreditar que estivesse doente. No poderia suportar isso. Precisava de seu apoio incondicional para que a imagem da Confidente pudesse permanecer intacta.
A idia de perder seu apoio, a idia de o mundo passar a ver uma Grace Dorian inferior, a idia do que poderia ter causado o acidente fizeram-na tremer. Mas a tremedeira 
era autodestrutiva. Perturbava-a. Impulsionava-a para os pequenos pnicos que agitavam seu mundo.
Tinha que permanecer calma e lcida, tinha que transmitir um autocontrole total.
Portanto, depois de abraar e beijar Sophie, foi para seu quarto a fim de tomar um banho e afastar com ele o acidente, o hospital e o perfume adocicado. Logo que 
estava adequadamente ajustada, foi para a cozinha.
Francine estava ao telefone, parecia ter acabado de chegar de uma corrida, e, apesar de Grace sempre dizer-lhe que deveria tomar uma ducha depois de exercitar-se, 
no falou uma palavra naquele momento, nem sobre o suor, nem sobre o cachorro que estava sentado a seus ps, olhando-a com uma grande adorao.
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O mau humor  uma caracterstica do mal de Alzheimer. Grace recusava-se a demonstr-lo. Francine desligou o telefone.
- Como se sente?
- Muito melhor. No existe lugar como a nossa casa.
- Sua cabea est doendo? Estava. Mas Grace no se queixou.
- Minha cabea est tima. No havia necessidade de ter permanecido no hospital esta noite. Acordavam-me o tempo todo para saber se eu estava bem. No dormi nem 
um pouco.
- Ento, isso explica tudo - Francine disse com um sorriso, e comeou a acertar os botes da blusa de Grace. - Voc abotoou-se errado.
Grace afastou as mos da filha e colocou as suas sobre os botes.
- Claro que no. Sei como abotoar uma blusa.
- Quando est se sentindo cem por cento - Francine concordou - mas voc sofreu uma concusso. Estou surpresa por no querer ficar deitada o dia inteiro.
- Por que quereria fazer isso, se estou tima? Estou tima, Francine - argumentou, mantendo o brao alinhado com os botes da blusa - e no serei tratada como uma 
paciente! No estou doente - disse ofegante. - Gostaria de que no insistisse em dizer que estou! Honestamente, se no a conhecesse bem, pensaria que estava querendo 
usurpar-me. - Encontrou alguma satisfao no queixo cado de Francine. - Agora, vou trabalhar. Margaret, tomarei meu desjejum habitual. Leve-o ao escritrio. - Saiu 
da sala com a cabea erguida. S que, quando alcanou o refgio do corredor, escondeu-se no lavabo e com mos instveis abotoou sua blusa direito. Enquanto fazia 
isso, examinou-se melhor no espelho. Rosto, cabelos, roupa - tudo estava bem. Verificou uma segunda vez, depois uma terceira e finalmente certificou-se. Precisou 
de mais um minuto para sentir-se calma o suficiente e voltar para o corredor.
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Mais uma hora se passou antes que Francine aparecesse no escritrio, onde encontrou Grace de culos, trabalhando com afinco em sua mesa e parecendo to produtiva 
que ela se sentiu viada.
Recostou-se contra o batente da porta.
- Qual  o assunto?
- O protocolo do Dia das Mes para crianas muito inteligentes.
- Precisa de ajuda?
- Obrigada, meu bem, mas esta  fcil.
- Suas flores esto lindas. - Um vaso estava cheio de cravos, outro com tulipas e um terceiro totalmente abarrotado de rosas.
- Se para ganhar tudo isto tenho que bater com o carro, parece que tenho dirigido direitinho durante muito tempo.
Grace lanou-lhe um olhar to divertido, to humano, to prprio dela, naquele momento, que Francine riu alto.
- Ganhei as tulipas de Amanda, - Grace informou-a - as rosas de George, e os cravos de Jim. Foram enviadas para o hospital. - Espiou Francine por cima dos culos. 
- Voc est avisando as pessoas que estou em casa, no est?
- Claro.  que voc nos deu um grande susto. - Olhou para o telefone. O painel estava aceso. - Continuam telefonando?
- Sophie e Marny esto respondendo s chamadas. Quanto a mim - Grace levantou as duas mos - no estou nem tocando no telefone.
- timo. No  preciso. Eles vo parar logo que souberem que est bem e em casa. Margaret trouxe seus bolinhos?
- Sim.
- Posso trazer uma xcara de ch fresquinho?
- No, querida.
- Bem, ento vou voltar ao trabalho - disse Francine, porque aquilo significava voltar ao normal. No ficar dia e noite ao lado de Grace, ou oferecer-se para fazer 
seu trabalho, ou olhar
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por cima de seu ombro para procurar erros. Significava sair e fechar a porta como sempre fizera quando Grace trabalhava.
Sophie acabava de desligar o telefone quando passou por ela.
- Era a nossa filial de Minneapolis. Souberam que Grace foi atirada do carro. Cuspida de seu carro. Mas que grande ironia. Grace orgulha-se de manter sempre o controle. 
Pois agora no consegue mais. Os boatos ficam cada vez mais fortes.
- Isso  temporrio. A verdade prevalecer.
- , mas qual  a verdade?
- Ela sofreu um acidente e est muito bem. Voltou ao trabalho na manh seguinte. Como ela estava durante o trajeto para casa?
- Um doce. No disse uma nica indireta, no fez nem uma crtica. O contraste foi marcante. Ela geralmente  mais irnica. Mas teve toda a nossa ateno esta manh. 
Ela adora ser o centro de tudo. Talvez tenha avanado o sinal de propsito.
- Para chamar a ateno?
- Ou isso, ou para me punir por ter sado com seu motorista.
- No, Sophie. Ela no faria isso. O acidente foi um simples engano. Ela tem muita coisa na cabea.
- Ela tem? Por que no diz que ns temos? Somos ns que fazemos funcionar esta mquina. Administramos e coordenamos tudo. Levamos a culpa quando as coisas do errado. 
Tudo o que ela tem a fazer  sentar-se e expressar suas idias. Ela tem uma vida muito boa. Somos ns que atendemos prontamente suas ordens. Olhe para voc. - Olhou 
Francine de alto a baixo. - Calas feitas por alfaiates e blusa de seda. Esse  o estilo da Grace, no o seu. Tinha at esquecido que voc possua roupas que eram 
to... - disse com desgosto -... sbrias.
- Na verdade - Francine confessou, pois Sophie teria mesmo percebido a realidade por trs de tudo em um minuto - levei dez minutos para encontrar esta roupa. Estava 
enterrada no fundo do meu closet. Mas no a vesti para Grace. Fiz isso por
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Mim mesma. O acidente tambm me chocou. Estou me sentindo um pouco nervosa. - Sorriu, depois disse timidamente: - Por que deveria arriscar ter uma confrontao com 
Grace?
Os telefonemas continuavam a chegar, assim como as flores, mas fora isso o dia estava igual a todos os outros, para alvio de Francine. Grace no parecia to produtiva 
quanto antes, mas Francine no a culpou por isso, depois do que passara. Pelo menos, estava tentando. Permanecia sentada diante do computador, escrevendo seus pensamentos. 
Se alguns deles eram vagos demais para serem usados, isso no importava. Francine era boa em captar as idias.
Grace escrevia as linhas e Francine dava-lhes cor. J faziam isso de uma maneira ou de outra h quarenta e alguns anos. Era o normal.
Padre Jim chegou para o ch e ficou at o jantar, o que tambm era rotina. Fazia assim vrias vezes por semana, e Francine nunca se importou. Jim era como se fosse 
da famlia. Tinha uma conversa agradvel, sentia-se bem discutindo qualquer assunto, sabendo sempre muita coisa sobre quase todos. Francine adorava conversar com 
ele.
E Grace tambm. Ficava tima quando Jim estava por perto, menos exigente, mais gentil. Padre Jim causava esse efeito nas pessoas. Seus modos eram serenos, suas palavras 
delicadas. Francine no era propriamente religiosa, mas quando estava com Jim sentia-se reconfortada. Jamais o vira nervoso. Nunca vira Grace perder a calma quando 
ele estava por perto.
Terminaram o jantar e ficaram na sala de leitura, Sophie lendo um livro, Grace sentada no brao da cadeira de Jim, enquanto ele jogava xadrez com Francine, quando 
a campainha tocou. Francine olhou primeiro para Grace, que era o retrato da inocncia, depois para Sophie, que sacudiu os ombros.
Era muito tarde para flores. Era tambm tarde demais para Margaret, que se recolhera a seus aposentos.
Francine teve uma viso de Robin Duffy, depois de tentar
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sem sucesso destruir as Dorian naquele dia, aparecendo sem ser anunciada, na esperana de pegar algum de surpresa.
Armando-se para a batalha, puxou Sophie para que ela a substitusse no jogo de xadrez contra Jim, saiu imediatamente da sala, e atravessou o longo corredor e o hall 
de entrada em direo  porta. Abriu-a rapidamente. Robin Duffy no estava l. Era Davis Marcoux.
Ele vinha logo depois de Robin na lista das pessoas que Francine no desejava ver.
Sua educao - e o p dele, que se atravessara na entrada - impediram-na de fechar a porta em seu rosto.
- Dr. Marcoux.
- Davis. Como est, Francine?
- Relaxando. Foi um longo dia de trabalho. - Disse isso para que ele entendesse que no era para entrar. Quanto mais cedo fosse embora, melhor seria. Ele a deixava 
nervosa.
- Como est Grace?
- Excelente. Nem quis saber de tirar o dia de folga. Trabalhou junto conosco.
- E ela teve algum problema?
- Confuso? Desorientao? Loucura? Sinto muito, mas no.
- Gostaria de dizer-lhe um ol.
- Ela est realmente bem.
- Ento no vai se importar de convidar-me para entrar.
Colocado daquela maneira, Francine no teve outra escolha. Se ela se recusasse a mand-lo entrar, ele pensaria que ela pudesse estar escondendo alguma coisa. Ento, 
afastou-se para que ele entrasse, depois atravessou novamente o hall com passadas confiantes e encaminhou-se pelo corredor at a sala de leitura. Ele acompanhou 
seus passos apressados.
- Bonita casa.
- Obrigada.
Ela no estava fazendo um tour para ele. Nem estava com
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vontade de encorajar um bate-papo amigvel. Necessitava de muita concentrao para permanecer confiante, quamdo s conseguia pensar no diagnstico que ele fizera.
Mas naquele momento ele parecia menos mdico do que no dia anterior. Ainda usava calas esportivas e uma camisa de l cinza, e onde antes havia o n de uma gravata 
agora somente havia um profundo V formado por sua garganta nua. Uma jaqueta de couro substitua o jaleco do hospital, e sob as calas via-se qui estava com botas. 
No com botas novas, mas botas usadas, muito queridas. Combinavam com seu queixo sombreado e seus cabelos revoltos e faziam-no parecer mais alto e mais patife do 
que nunca.
Francine concentrou-se para no tropear no tapete.
Ele acompanhou-a at a sala, onde Grace prontanmente produziu o mais doce dos sorrisos.
- Dr. Marcoux, que surpresa! No pensei que ainda existissem mdicos que visitassem seus pacientes em casa
Davis sorriu.
- No tive muita escolha. Ou passava por aqui para saber como voc estava, ou teria que enfrentar a ira de minhas enfermeiras pela manh.
Francine no acreditou em suas palavras nem por um minuto. Imaginou que ele aparecera em sua casa por vontade prpria e com uma inteno muito especfica, e isso 
a aborrecia. Odiava pessoas falsas. Desejou que fosse logo embora
Mas ele apertava a mo de Jim, que o apresentou a Sophie o que deu a Francine um momento de orgulho, apesar de tudo. Em seguida, Davis virou-se para Grace.
- Voc parece bem.
- Eu me sinto bem.
- E a dor de cabea?
- Passou.
- O ferimento est doendo?
- Muito pouco.
- Bem, ento estamos muito bem.
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Francine permaneceu parada junto  porta, pronta para acompanhar o bom doutor at a sada.
- Voc est indo para casa depois do hospital? - perguntou Padre Jim.
- Isso mesmo. Grace perguntou:
- Voc mora aqui perto?
- Vrios quilmetros adiante. Comprei uma parte da propriedade Glendenning.
Grace elevou uma sobrancelha.
- So terras timas. Estou impressionada.
- No fique. Meu pedao  aquele sem a casa.
- Se no existe casa, onde voc mora? - Sophie perguntou.
- Em um trailer. Houve um silncio elitista.
Ento, Padre Jim reprovou-o com um sorriso.
- Que vergonha, Davis.
- Moro mesmo em um trailer.
- Verdade, - Jim retrucou - mas isso conta s metade da histria. - E disse para as mulheres: - O trailer fica escondido no bosque a uns cento e cinqenta metros 
de onde ser sua casa. A fundao j foi colocada no outono passado. Na ltima vez em que estive l, as estruturas j estavam sendo erguidas. - Dirigiu-se ento 
para Davis. - J fez muita coisa na parte de dentro?
- No, o inverno foi frio demais. Farei agora.
- Um trailer - disse Sophie. Ficou claramente intrigada por aquela coisa to simples em uma terra de gente to pretensiosa. - Mas que legal!
Francine no se importava que ele morasse em uma tenda, desde que fosse embora antes de confundir muito as coisas em sua casa.
- Eu sou o empreiteiro geral, - explicou - esse  o motivo do trailer. No tenho certeza se a cidade sabe que moro l, mas assim fico bem ao lado e posso tomar conta 
das obras.
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- Um verdadeiro mestre dos sete instrumentos - Francine observou, enquanto pensava: naturalmente no domina nenhum, o que explicaria o erro do diagnstico de Grace. 
- Ser mdico e mestre-de-obras so duas grandes funes. Como pode exercer bem qualquer uma das duas?
Seus olhos fixaram-se nos dela.
- A medicina vem em primeiro lugar, mas odiaria se essa fosse a nica coisa em toda a minha vida. Todo mundo precisa de uma vlvula de escape. A minha  a carpintaria. 
Sempre fui bom em trabalhos manuais e recebo muitos conselhos dos habitantes locais. Alm disso, a casa  minha, portanto no tenho pressa. Estou me divertindo no 
processo de constru-la.
At onde ia a compreenso de Francine, construir sua prpria casa podia ser tanto reflexo de egosmo ou estupidez quanto de habilidade. A estupidez explicaria seu 
erro de diagnstico; o egosmo, sua recusa em admiti-lo. E, sim, tambm existia uma chance de que ela estivesse sendo excessivamente dura com ele. Mas no sabia 
por que ele estava em sua casa, a no ser para levar com ele a confirmao de que estava certo.
- Voc joga xadrez? - Padre Jim perguntou.
Francine sentiu vontade de matar o padre. Sentiu-se aliviada quando Davis enfiou as mos nos bolsos e disse:
- No. Tenho que ir embora logo. S pensei em dar uma passada por aqui, j que sua casa estava no meu caminho. Vejo voc daqui a cinco dias, Grace?
- Cinco dias? - Francine perguntou alarmada. - Por qu?
- Para tirar os pontos - Grace respondeu. - Francine, acompanhe o doutor at a porta agora, como uma boa menina.
Francine forou um sorriso que desapareceu no instante em que comeou a caminhar pelo corredor. Sentia Davis a seu lado - impossvel no senti-lo - e tentou pensar 
em alguma coisa para dizer, mas sua mente no conseguia produzir frases coerentes. Insistia em imaginar que ele era um ator representando um mdico. Tinha o aspecto 
de um menino malvado, a autoconfiana, o descaramento.
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- Eu deixo voc nervosa?
Ele estava perto demais, petulante demais. Francine alargou seus passos.
- Claro que no. O que o faz pensar assim?
- Est pisando com fora. Costuma correr?
- Regularmente. E voc?
- No. Fao levantamento.
- De pesos?
- Madeira.
Francine recusava-se a imaginar a cena. A coisa mais importante naquele momento era tir-lo de sua casa. Seu corao estava disparado novamente. Davis Marcoux provocava 
isso.
- Aqui estamos - abriu a porta da frente. - Obrigada pela visita, Dr. Marcoux.
- Davis.
- Como pode ver, Grace est tima. Agradeo ter se preocupado com ela.
- Minha preocupao  com voc - ele disse, encarando-a no limiar da porta.
Ela riu to displicentemente que Grace teria se orgulhado dela.
- Ento voc precisa mesmo de uma vlvula de escape para o trabalho. Est exagerando. Posso garantir que estou tima.
- Sente-se desconfortvel com o que eu disse ontem  noite.
- E no se sentiria se estivesse em meu lugar?
- Definitivamente. Mas no tentaria neg-lo.
- E o que faria? Tomaria providncias para mandar confinar Grace?
- Estaria pensando nos seus altos e baixos. Estaria preocupado com que, se continuasse dirigindo, ela pudesse sofrer outro acidente. Perguntar-me-ia o quanto ela 
anda compensando outras falhas e por quanto tempo poder continuar fazendo isso. Estaria dizendo a ela o quanto a amo, estando ela perfeita ou no.
Francine sacudiu a mo como que para apagar o que ele dissera.
- Os mdicos so alarmistas. Aprendi isso por experincia prpria, e a culpa  nossa - ela disse - uma reao contra
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o paternalismo, contra anos dos mdicos dizendo aos pacientes s o que eles decidissem o que precisaramos ouvir. Portanto, gritamos pelos direitos dos pacientes. 
E agora os mdicos contam-nos tudo, at os diagnsticos hipotticos.
- No  culpa minha ela estar com esses sintomas.
- No, mas est virando nossas vidas de pernas para o ar, por catalog-los como algo que no so. Estou do lado de Grace a maior parte dos dias e nunca vi nenhum 
sinal de incapacidade.
- Mas poder ver. E se isso acontecer e quiser falar com algum, estou aqui.
- Obrigada - Francine disse, pois aquela lhe pareceu a melhor maneira de faz-lo ir embora. - Voc foi muito gentil.
- Ainda no. Mas posso ser. Neste momento, sou o bandido da histria. Voc no quer a minha presena, porque ela faz com que se lembre de alguma coisa que no quer 
saber. Mas pode surgir um momento em que precise saber mais. Lidar com o mal de Alzheimer pode ser um pesadelo. E eu posso ajudar.
- Vou lembrar-me disso - ela disse, mas sua voz estava cortante, sua mensagem era clara.
- E agora quer que eu v embora.
- Minha filha est jogando em meu lugar. Se eu demorar muito a voltar, posso perder o jogo.
- E eu no desejaria isso. - Dirigiu-se ento para a varanda.
- Bem, essa  a minha maneira de fugir - ela defendeu-se, porque ele fazia com que se sentisse frvola. - Se eu pensasse por um minuto que, duvidando de Grace, melhoraria 
as coisas, eu o faria. Eu amo minha me.
Ele parou um instante no primeiro degrau, pareceu querer dizer alguma coisa e em seguida desapareceu na noite.
Francine mordeu a lngua para impedir-se de cham-lo de volta.
Quatro

A famlia  o nico empreendimento terrestre em que a descrio da funo est escrita com sangue.
- Grace Dorian, em uma palavra na Associao Americana de Terapeutas da Famlia
Grace voltou  sua rotina com tanta facilidade que decidiu que o acidente fora um acaso feliz. Se despendeu mais tempo escrevendo as colunas das ltimas semanas, 
atribuiu o fato ao controle da qualidade.
- Meus leitores esperam o melhor - disse para Francine. - Surpreende-me como deixava passar conselhos importantes sem pensar muito no assunto. Devia tomar mais cuidado. 
Dizer tolices em minhas colunas comprometeria a imagem da Confidente... isso sem dizer como diminuiria o valor de meu livro. Devo a meus seguidores a obrigao de 
despender mais tempo em cada resposta.
Esse raciocnio pareceu-lhe bom.
Alm disso, levar mais tempo significava descobrir coisas bastante idiotas. Quando relia, alguns pargrafos pareciam no fazer qualquer sentido. Era um problema 
de digitao. Ainda no conseguia dominar o computador. Uma frase misturava-se a outra no meio do caminho. Portanto, passara a trabalhar com
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mais afinco, e o produto final era timo, apesar do que Francine dissera.
No que Francine fosse insistente no assunto. Ou estaria brincando, ou fora mesquinha, ou fingira estar completamente tonta.
Isto no faz sentido, Grace - ela disse. Ou -
Chocaremos os leitores com esta coluna. - Ou - Eu sou totalmente ignorante quanto a este assunto. Fale-me mais sobre isso.
Mas Grace examinara seu trabalho. Leu o que escrevera e no encontrou o menor problema.
Nem aconteceram mais quaisquer acessos de alguma desorientao importante, de perodos de esquecimento significativos ou catstrofes monumentais. Cada dia que transcorria 
sem um incidente dava-lhe mais confiana. Grace: 9, Davis: 0. Grace: 10, Davis: 0. Grace: 11, Davis: 0.
No saa sozinha dirigindo o carro, porque sempre havia algum para dirigir para ela.
No saa de seu quarto sem verificar duas vezes sua aparncia, porque a beleza demorava um pouco mais a ser conseguida com a idade.
Fazia pequenas anotaes para si mesma, sobre todos os tipos de coisas, at coisas pessoais como arrumar-se, pois as notas ajudavam. Infelizmente, s vezes no se 
lembrava mais delas a no ser depois de o fato ter acontecido, ou escrevia uma Segunda leva de bilhetes, quando no conseguia encontrar a primeira, mas eles forneciam-lhe 
um conforto necessrio, com tudo que tinha para fazer. Foi uma poca em que andou assustadoramente ocupada. Francine obviamente podia ajudar com a coluna diria 
e Sophie com os discursos de formatura. Mas ningum poderia ajudar com o livro, que era a coisa mais importante de todas.
- No se preocupe tanto - Francine insistiu, quando a encontrou lutando diante de uma tela em branco. - No h pressa.
- H pressa sim - Grace gritou. - A data de publicao a est a menos de um ano.
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- Voc tem at outubro. A Katia disse.
- Katia no disse isso para mim, - Grace teve um pensamento terrvel. - Voc disse a ela que eu estava tendo problemas? - No poderia suportar aquela idia. Era 
uma traio de primeira ordem. Naturalmente, Francine negou, mas Grace continuou ctica. - Como foi que surgiu esse assunto?
- Ela estava fazendo algumas programaes e quis um palpite, por alto, de quando poderia ver concretizada alguma coisa. Atirei a pergunta de volta e perguntei diretamente 
para quando precisava. E ela disse outubro.
- Mas isso  s um primeiro esboo.
- Voc raramente faz mais de um.
- Isso  uma reclamao? Est dizendo que meu trabalho  desleixado? Se se sente sobrecarregada por ter que recolher os pedaos,  s dizer-me, contratamos algum 
para ajudar. Francamente, Francine, no sei o que acontece com voc, s vezes. - Olhou desesperadamente para a tela, depois para a pilha de notas, esboos e outros 
pensamentos sobre os quais o contrato do livro fora baseado. Mas conseguir um contrato era uma coisa; escrever um livro, outra muito diferente. No sabia por onde 
comear.
Naturalmente, se admitisse isso, Francine pensaria que estava confusa, ou desorientada, ou incapaz de trabalhar. Ento, disse simplesmente:
- Outubro  muito otimismo.
- Se precisarmos de uma prorrogao de prazo, conseguiremos - Francine disse, parecendo confusa, de uma maneira que s preocupou Grace ainda mais.
- Se fizermos isso, eles podem adiar a data de publicao, e essa  a ltima coisa que desejo. Este  o projeto mais importante que eu j tive.  a minha autobiografia, 
minha marca no mundo.
- Suas colunas tambm o so.
- Mas o livro selar tudo.  a prova do efeito de minhas
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colunas. - Como explicar a urgncia que sentia? -  uma declarao de que eu realmente tornei-me algum, Francine. Sim, sim, eu sei. Minhas colunas esto em microfichrios, 
mas isto  diferente. S pessoas importantes so procuradas para escrever suas autobiografias... e recebemos uma boa soma em dinheiro como pagamento, o que significa 
que algum espera coisas importantes, o que quer dizer que minha autobiografia estar nas livrarias, lojas de departamentos, hotis, supermercados, aeroportos. E 
nas bibliotecas. Os livros postos nas prateleiras de uma biblioteca ficam l para sempre. Os filhos de Sophie, os netos de Sophie vero minha autobiografia nessas 
prateleiras. Se voc tivesse nascido uma ningum, compreenderia.
E isso era o ponto alto da questo. J que Grace nascera uma ningum, escrever esse livro seria uma vitria. Por outro lado, porque nascera uma ningum, escrever 
esse livro era um pesadelo.
De onde ela era? Quem foram seus pais? Como era sua casa? Quem eram seus amigos? Que acontecimentos moldaram sua vida? Por que ela nunca, nunca voltou  cidade onde 
nascera?
Fizera seu nome escrevendo no-fico. Sua autobiografia seria outra coisa. Ela poderia escrever a pura verdade - ou distorc-la um pouco - ou sacudi-la e oferecer 
completas mentiras. Lera muitas autobiografias que foram fabricadas. Isso acontecia o tempo todo.
O que fazer? No conseguia decidir. Mas tinha a sensao de que, se no se apressasse, seria vencida pelo tempo
Francine digitava com a rapidez da chegada dos pensamentos. A Confidente estava atrasada novamente, e Tony exigia uma cpia.
- Ela est ficando pior - Sophie disse, examinando a tela de Francine. - Voc reescreveu todas as colunas desta semana.
- No todas elas - Francine argumentou, um pouco distante. Discorria sobre o amor no correspondido, tentando sentir
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a angstia de uma adolescente cuja amiga roubara o homem que ela adorava. Homem? Menino. A diferena era gritante. - "Voc e sua amiga s tm quinze anos" - leu 
em voz alta. - "So jovens demais para estarem to focalizadas no amor. Devia estar se divertindo com amigos e encontrando-se com rapazes diferentes. Essa  a nica 
maneira de descobrir o que realmente quer. J ouviu falar naquele ditado sobre nuvens e lenis de prata? Deixe sua amiga namorar esse rapaz. Ele pode no ser to 
interessante, afinal de contas. Voc poder encontrar algum muito melhor." O que voc acha? - perguntou para Sophie.
- Parece muito com Grace.
- Surpresa, surpresa. Eu li milhes de colunas dela.
- Foi bom, j que est escrevendo-as agora.
Mas Francine no conseguia imaginar-se escrevendo as colunas permanentemente. Era Grace quem tinha um jeito especial de lidar com as palavras, os pensamentos, um 
jeito especial de dar conselhos. Francine imitava-a. S isso.
- S estou dando uma limpada - disse para Sophie. - Grace escreve o bsico.
- Mal e porcamente.
- Isso  temporrio. Est preocupada com sua autobiografia.
- Voc j viu alguma parte dela? No. Encare a verdade, mame. Ela est com problemas. Sabe o que ela fez hoje? Pediu as ltimas informaes sobre um assunto, e 
eu as coloquei sobre sua mesa. Pediu-as novamente, e apontei para a folha. Ela riu de si mesma, dizendo alguma coisa sobre no enxergar as rvores em uma floresta. 
Um pouco mais tarde pediu a mesma coisa outra vez.
- Ora, ela  esquecida s vezes. Mas foi totalmente coerente quando fiz perguntas sobre a coluna. Lembrou-se de ter lido a carta dessa moa de quinze anos e citou 
duas outras cartas sobre o mesmo tema. Sua mente est afiada.
- Nem sempre, ultimamente.
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- Tenha um pouco de compaixo, Sophie.
- Eu tenho. Mas todos me dizem para enfrentar os fatos. "Aceite sua doena, Sophie." E quanto a Grace? E se ela tiver mesmo o mal de Alzheimer? Fiz uma checagem 
no computador sobre os tratamentos. Novos medicamentos continuam surgindo, mas nada que funcione consistentemente. Se ela tiver a doena mesmo, a tendncia  s 
piorar. E depois?
Com um suspiro resignado, Francine colocoueu brao sobre as costas da cadeira. No queria discutir o assunto, mas Sophie precisava mesmo conversar sobre aquilo.
- Sim?
- Ela pode ferir-se, digamos, queimar-se na cozinha.
- Ela no cozinha.
- Ela faz ch no meio da noite.
- Usa sempre o microondas.
- E se esquecer como us-lo?
- No tomar o ch.
- E se ela ligar o gs?
- Por que iria lembrar-se disso e no do microondas?
- Porque aprendeu a lidar com um recentemente, o outro no. Ir lembrar-se do mais antigo.
Francine sentiu uma dor de cabea aproximando-se. No era a primeira que sentia naquela semana.
- No  isso que eu preciso ouvir neste momento.
- Talvez ela devesse aposentar-se.
- Grace? Ela  uma instituio. Ela no vai aposentar-se.
- Todos tm que retirar-se em um determinado rmomento. Vov fez isso.
- S porque a serraria fechou e seu dinheiro foi investido em operaes sobre as quais ele nada conhecia. Mas foi esperto o suficiente para deixar que pessoas que 
sabiam de alguma coisa dirigissem os negcios. Seu trabalho resumia-se em negociar com seu banqueiro investidor, o que podia fazer de seu escritrio.
- Ser que Grace no merece um descanso?
Pgina 74 Barbara Delinsky
- Ela no quer. Sugira isso e ela pedir sua cabea. Algumas profisses so  prova de aposentadoria. E esta  uma delas.
- E por que isso? - Sophie perguntou, respondendo ela mesma: - Essas profisses  prova de aposentadoria usam a mente, no o corpo. Essas pessoas podem continuar 
trabalhando de suas cadeiras de rodas ou de suas camas, se for necessrio, porque o instrumento de seu ofcio - a mente - est intacta. Mas e se a de Grace no estiver?
- Se a de Grace no estiver - Francine permitiu-se um momento de pessimismo -, ento estaremos todos com problemas. A Confidente somos ns.  o que fazemos, quem 
somos. No posso imaginar o mundo sem ela. Voc pode?
Sophie no podia, e essa era a parte pior da histria. Grace Dorian era o centro da famlia desde os primeiros pensamentos de Sophie. Ela era o eixo em torno do 
qual as outras giravam. Uma coisa era Sophie bancar a ctica com Francine, outra muito diferente era imaginar a realidade de uma Grace debilitada.
O que Sophie faria se A Confidente deixasse de existir? Mudar-se-ia para a cidade e viveria no anonimato com seus amigos. Encontraria um trabalho to frvolo quanto 
o deles e passaria a pensar s em divertir-se.
Mas sem A Confidente? Sem a certeza de que A Confidente estaria esperando por ela em casa? Sem aquele patrimnio? Sem aquela rocha?
Grace tinha todas as respostas. Houve pocas em que isso deixava Sophie doente e outras em que a ajudava.
Como quando tinha quatorze anos. Seus hormnios estavam a toda, entrando em choque com os nveis de acar de seu sangue. Passava os dias inteiros fazendo exames, 
aplicando-se injees, indo a mdicos, ou algo assim. Toda a sua vida estava tomada por essas coisas, ou era assim que sentia.
Ento um dia sentiu-se esgotada. Sentou-se na cama e
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jurou que no faria mais nada daquilo. Desprezava ter que viver em uma camisa-de-fora. No se importava se sua diabete sasse do controle. E da, se os vasos sangneos 
de sua retina estourassem e ela ficasse cega? E da se seu sistema circulatrio apodrecesse e seus ps cassem? No se importaria se morresse.
Quando as queixas de Francine caram em ouvidos surdos, Grace tomou Sophie pela mo e levou-a pelo bosque at a serraria. Subiram, cuidadosamente, os degraus de 
pedra atrs da roda-d'gua. Quando chegaram ao alto, esgueiraram-se sobre a salincia e sentaram-se no canto. Abaixo delas, o rio enroscava-se em torno das razes 
das rvores, das pedras e da madeira da roda, gasta pelo tempo.
Grace no dizia nada e Sophie ruminava sua fria em silncio. Naquele momento, no gostava de Grace, assim como de sua me, seu av, seu mdico, sua doena. Odiava 
seu pai por ter sua prpria vida. Detestava seus amigos por serem saudveis.
Permaneceu calada, aguardando que Grace lhe dissesse todas as coisas que j ouvira um zilho de vezes antes. Mas Grace estava em silncio, e a correnteza do rio 
era suave. Sophie abraou os joelhos, puxando-os at seu queixo e observou a dana de uma folha que corria corrente abaixo. Quando ela desapareceu em uma curva, 
levou junto com ela a pior parte de sua raiva.
Foi quando Grace falou:
- Este  o meu local favorito no mundo. No conte para seu av, ele tem tanto orgulho da casa, mas este lugar  melhor. Aqui, uma estao  mais bonita do que a 
outra. Mais pacfica. Veja. Na margem extrema. Pintassilgos. Psiu.
- So s pssaros amarelos - Sophie grunhiu.
-  um casal. O mais colorido  o macho. V como ele se afasta enquanto ela bica o solo procurando comida?
- Por que ele no faz isso?
- Possivelmente porque ela faz melhor. As fmeas so mais versteis. Algumas pessoas dizem que so mais fortes.
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- E voc?
- As mulheres certamente agentam mais coisas na vida, j que somos ns que damos  luz. Temos a capacidade de ser elsticas. Adaptamo-nos s mudanas com mais facilidade 
do que os homens. Deus deu-nos esse dom.
- Dom? Ou maldio? - Sophie perguntou, porque sabia aonde Grace queria chegar e no ia fazer o que ela queria sem lutar.
Grace ficou em silncio novamente. Sophie lembrava-se de ter ficado ali sentada por uns bons cinco minutos, at a correnteza t-la embalado e feito com que perdesse 
a noo do tempo, e ento Grace apontou para a cabea de uma doninha que nadava acompanhando a correnteza, afastando as pedras em seu caminho.
- Nenhuma vida passa tranqilamente - disse, quando a doninha desapareceu de suas vistas. - Todos ns temos altos e baixos.
- Voc no.
- Claro que eu tambm. S que voc no toma conhecimento das coisas ruins, porque prefiro no ficar falando nelas.
- Voc no tem diabete. - Ningum mais na famlia tinha. No compreendia como fora ter aquilo. No era justo.
- Algumas mulheres tm coisas piores.
- O qu, por exemplo?
- Algumas mulheres no podem ver. Outras no podem andar. Outras no ouvem. Algumas no podem ter filhos. Voc pode fazer todas essas coisas. Muito bem, ento existe 
um pequeno assunto do qual voc tem que cuidar vrias vezes por dia. Mas quanto tempo isso leva? Em dezesseis horas, as que passa acordada, a diabete deve ocupar 
- quanto? - uns vinte minutos? Vinte minutos por dia  um preo alto demais para pagar para ter todas as outras coisas boas da vida?
Sophie comeou a chorar, soluando de frustrao, rendida com o rosto contra os joelhos, porque sabia que Grace estava
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certa, o que significava que teria que conviver com a diabete pelo resto de sua vida.
Grace simplesmente abraou-a, at os soluos diminurem.
Ento, disse suavemente:
- Eu sei que  difcil agora, meu anjo, mas pense em tudo o o que voc tem.Voc tem um crebro maravilhoso, um rosto lindo e um lar sensacional. Voc tem este rio 
para olhar em cada uma das estaes. Sim, voc tem uma doena desagradvel, mas no fica satisfeita por haver tratamento para ela? Voc pode ter uma vida perfeitamente 
normal, uma vida perfeitamente longa. Voc no est feliz por isso?
Tirando o problema, Sophie era feliz. Naquele momento, quando se sentia deprimida, tinha apenas que relembrar as palavras de Grace para experimentar aquela gratido, 
e acreditar. Voc pode ter uma vida perfeitamente normal, uma vida perfeitamente longa. Grace era a personificao do otimismo.
Somente agora, com Grace possivelmente doente, Sophie percebia o quanto confiara nela. Uma parte sua desejava uma vida prpria, da pior maneira possvel. A outra 
parte estava aterrorizada pela idia de perder seus laos.
Francine tentava no pensar na possibilidade do mal de Alzheimer, mas essa possibilidade continuava surgindo quando ela menos esperava, quando estava relaxada e 
sentindo-se segura, conseqentemente ficava mais aborrecida ainda com a intruso.
Era como um fiapo que no conseguia soprar para longe. Maldizia Davis Marcoux por ter posto a pulga atrs de sua orelha.
Tempos depois, em uma noite no final de maio, ela jogava xadrez com Jim O'Neill na sala de leitura. O jantar estava pronto e a lareira acesa desnecessariamente, 
j que os dias estavam quentes, mas Francine adorava o fogo. Ele aquecia-a alm do fsico, fazendo com que sentisse a romntica sensao de que, quando o fogo danava 
na lareira, tudo estava bem no mundo.
Naquele determinado momento, tudo deveria estar mesmo. Sophie passaria a noite na cidade, na casa de amigos que Francine
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conhecia, apreciava e nos quais confiava. Grace estava em uma espreguiadeira perto da lareira, lendo um livro, parecendo perfeitamente normal e to relaxada quanto 
Francine se sentia.
Depois de algum tempo, Grace saiu da sala para mergulhar em uma banheira de hidromassagem. Poucos minutos depois, Legs surgiu e enrodilhou-se aos ps de Francine.
Sem tirar os olhos do tabuleiro de xadrez, Jim perguntou:
- Grace parece-lhe estar bem?
Francine temia aquela pergunta, apesar de no surpreender-se quando ela veio. Padre Jim conhecia Grace muito melhor do que qualquer outra pessoa fora do crculo 
familiar.
- s vezes sente algumas dores. Ela tem a sua idade. Voc no sente?
- No  com as dores que estou preocupado.
Ela fez uma pausa e acariciou a cabea de Legs. Forou-se a perguntar:
-  com o que ento?
- O esquecimento. A distrao. H um momento, ela me disse que estava tendo umas ausncias. Disse que estava melhor, mas perde-se muito em seus pensamentos. Aconteceu 
no outro dia. Penso que no me reconheceu quando cheguei.
- Claro que reconheceu - Francine censurou-o, mas ficou chocada.
Padre Jim no diria nada, a no ser que estivesse realmente muito preocupado.
Francine, ento, tentou racionalizar.
- Ela apaga s vezes, mas quem pode culp-la? Ela tem muita coisa na cabea. Gostaria de cancelar algumas das formaturas. Quando as agendamos, no imaginaramos 
como ela estaria ocupada. Mas Grace no quer nem ouvir falar em cancelamento. E passou a diminuir seus compromissos sociais em lugar disso.
- Ela me disse que est ficando velha demais para falar. Que fica nervosa.
- Grace, nervosa? - Francine disse, em uma tentativa de fazer graa que caiu no vazio. No silncio que se seguiu, pensou
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em como mudar de assunto, mas precisava conversar com Jim. Precisava que ele negasse o pior. Sem saber o quanto ele sabia, perguntou:
- Voc conversou com Davis Marcoux?
- Sim. Ele me disse tudo o que disse a voc. - Jim sorriu carinhosamente. - Foi uma espcie de confisso. Ele acha que no conseguiu explicar as coisas direito para 
voc, e que por isso Grace sair ferida.
- Ferida?
- Que ela pode ferir-se.
Francine sentou-se outra vez em sua cadeira.
- Acha que isso acontecer?
- Voc est perguntando se acredito no diagnstico. Francine ficou quieta, esperando que ele continuasse, mas apesar de a espera poder ser dolorosa, isso no aconteceu. 
Jim O'Neill era um homem muito gentil, podia-se dizer que divinamente inspirado. Francine pensou que ele deveria ter uma passagem direta para o cu, o que era uma 
admisso e tanto para uma mulher de f to duvidosa.
Ele tambm era diabolicamente bonito. Imaginou que deveria ter deixado mais de um corao partido quando entrou para o seminrio. Chegou a pensar que era um desperdcio 
de genes especiais - e isso sem pensar somente na virilidade. Era um homem sincero, compassivo, dedicado. E inteligente.
Ele pareceu perturbado.
- Davis no consegue encontrar outras causas para os sintomas de Grace.
- Confia em seu julgamento?
- Ele veio muito bem recomendado.
- De onde?
- Chicago. Cidade grande... de um hospital de cidade grande, com reputao nacional.
- Davis? - Ela no queria acreditar. Era melhor pensar que ele no passava de um fraudador. - E por que saiu de l?
- Porque no  uma pessoa de cidade grande. Viu que no ficaria bem se no sasse de l.
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- Como o conheceu? Ele apareceu na igreja um dia?
- No exatamente. Davis no gosta muito de uma religio organizada.
Francine visualizou seu queixo quadrado, seus olhos desafiadores e suas botas usadas. Sorriu, contra sua vontade.
- Surpresa, surpresa.
- Estou trabalhando nele - Jim garantiu.
- Quando? Onde? Qual a ligao?
- Tyne Valley.
Tyne Valley. Era um nome que estava em sua vida por muito mais tempo do que conseguia lembrar-se.
-  outro do seu pessoal. Bem, e por que no? Nossa empregada  de Valley, nosso motorista, nosso jardineiro, nossa secretria, isso s para mencionar os que esto 
atualmente a nosso servio. Agora um mdico. Estou impressionada.
- Ficaria ainda mais, se conhecesse sua famlia. Eles tiveram uns problemas. Davis teve que comear de baixo. Eu ajudei-o quando pude, mas ele fez a maior parte 
sozinho.  por isso que a casa que est construindo significa tanto para ele. Ser sua primeira. - Fez uma pausa. - Ele  um bom homem, Frannie. Trabalhou com os 
melhores profissionais. E tambm consultou os melhores neste caso. No estou bem certo se podemos ignorar sua teoria.
O corao de Francine retorceu-se.
- Sua teoria  nojenta.
Legs levantou a cabea. Francine acariciou-a para que se deitasse novamente.
Calmamente, Jim disse:
- Muitas coisas na vida so nojentas.
- E voc ainda tem f - ela espantou-se. - Como pode, se isso for verdade? Grace Dorian  sua mente. Que espcie de Deus tiraria isso dela, deixando que o resto 
funcionasse em perfeita ordem?
-Um Deus que nos teste. E esses testes constrem o carter.
- Grande coisa vai adiantar um carter, quando se est morto - Francine observou.
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Ele olhou-a diretamente nos olhos.
- Voc no estar morta.
- O teste  para mim?
- E para mim. E para Sophie. E para todos os outros que foram tocados por Grace. Ns temos uma escolha. Podemos negar o diagnstico ou aceit-lo. O segundo pode 
ser o caminho de maior compaixo.
- Mas e se o diagnstico estiver errado? E se aceit-lo significar atirar nossas vidas ao pnico?
- Podemos ficar calmos.
- Talvez voc possa. No sei se eu poderei.
- Esse  o teste - ele disse com um sorriso toumilde, gentil e compreensivo que ela no conseguiu argumentar mais. O que Francine mais gostaria naquele momento 
era jogar-se em seus braos e agarrar-se com fora  sua f. Mas ele era um padre. Demonstraes fsicas no eram adequadas.
Portanto, ela teve que contentar-se em terminar sua partida de xadrez e, durante aquele processo, absorver o mximo possvel de sua paz interior. Invejava-o. Gostaria 
de ser to devota quanto ele. Seria um consolo se pudesse pensar que as coisas estariam bem, mesmo se acontecesse o pior.
Grace estava com os nervos em frangalhos na vspera do feriado do Dia em Memria dos Soldados, e isso agravou sua preocupao. Ficar com os nervos em frangalhos 
no fazia parte de seu carter. Tinha dado muitas festas antes e muito maiores do que aquela. Mas certas coisas j no lhe aconteciam to facilmente como quando 
era mais nova.
O problema era que, depois de anos de experincia, sabia demais. Ou a companhia que alugava toalhas mandaria as toalhas erradas, ou o florista enviaria as flores 
erradas, ou o fornecedor mandaria a comida errada. Por isso, ligou para todos eles, e eles foram rudes com ela. Se algum tivesse ouvido, pensaria que ela ligara 
cinco vezes por dia!
Ento, pediu a Francine que ligasse para eles, mas ela estava
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ocupada demais supervisionando Margaret, que no tinha a menor idia de como preparar um quarto de hspedes.
- Francine, por que estamos fazendo isto? - perguntou finalmente. Por que essas pessoas tm que passar a noite?
- Porque voc as convidou.
- Eu no fiz nada disso. Voc deve ter convidado. No gosto que pessoas passem a noite aqui. A festa j vai ser suficientemente cansativa exatamente como as formaturas, 
com todo mundo falando, todos me conhecendo e eu tendo que conhecer todos, e o pior  que esperam que eu conhea mesmo! D para imaginar? Talvez devssemos botar 
crachs em todos.
- Ah... no sei se devemos.
- Por que no?
-  indelicado.
- Mas no posso lembrar-me de quem so todos. So muitas pessoas.
- Eu ficarei do seu lado, chamando as pessoas pelos nomes. A nica coisa que ter de fazer  escutar-me.
- Foi o que disse no fim de semana passado.
- Fim de semana passado?
- Na Hornway School.
- Eu no estive em Hornway.
- Francine! Voc estava l, bem do meu lado! Segurava meu discurso, mas suas mos tremiam tanto que eu me perdi. Como pode ter esquecido? Foi um pesadelo!
Grace arrepiou-se s de lembrar. Se sua festa fosse to ruim, ela morreria.
No compreendia. De vez em quando, tudo flua. Agora, no conseguia fazer quase mais nada direito.
Mas estava comprometida. Retirar-se subitamente da vida pblica afetaria irreparavelmente A Confidente. Portanto, resolveu prosseguir com as festas, mas somente 
as formaturas restantes e a conferncia de Chicago em julho.
E durante todas essas exibies, rezaria.

Cinco

Apreciamos nossos delrios, no como uma fuga do que  real, mas como uma viso do que ser.
- Grace Dorin, em A Confidente
Francine corria na escurido com Legs a seu lado. Transpirava livremente, purgando-se de pensamentos desagradveis. Suas passadas eram coordenadas, medidas pelas 
batidas de seus tnis no acostamento e pelo sussurro ritmado de sua respirao. Legs, que fora treinada para correr, no emitia qualquer som.
As rvores que flanqueavam a estrada estavam viosas; a grama, espessa. Os lilases estavam floridos, enchendo o ar com os aromas de junho. Eram dez horas da noite. 
O sol pusera-se h somente uma hora. Era o pice do solstcio de vero.
O dia fora interminvel para Francine, to exaustivo e cheio de tenses que, mesmo se tivesse corrido mais cedo, correria outra vez. Ultimamente, corria mais rpido 
e por mais tempo. Precisava ser assim para relaxar.
O motor de um veculo fez barulho atrs dela, elevando-se cada vez mais, ao mesmo tempo em que Francine era atingida pela luz dos faris. Era um caminho, no um 
carro - reconhecia
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pelo rudo - uma caminhonete, com o motor um pouco mais forte do que o de um sed e mais suave do que o de um caminho.
Ela estava no acostamento, correndo contra o trfego. A estrada no era muito larga, embora houvesse espao suficiente para uma caminhonete, uma mulher esbelta e 
um cachorro magrelo.
Francine puxou a coleira de Legs. A cadela corria sobre a grama, mas Francine no queria que ela corresse o risco de ir para a estrada e ser atropelada pela caminhonete. 
Adorava aquele cachorro. Em um mundo que se tornava mais complexo a cada dia que passava, Legs era a imagem da simplicidade.
Esperou que a pick-up passasse, mas isso no aconteceu. Pelo contrrio. Parecia ter diminudo a marcha. Francine lanou uma olhada sobre o ombro. Ela vinha realmente 
mais devagar.
Ficou preocupada. Trabalhadores em caminhes no eram muito comuns por aqueles lados. Se quisessem alguma informao, timo. Mas, se viessem com outra conversa, 
ela diria logo aquela frase famosa: "Meu cachorro adora carne crua."
Francine continuou correndo, continuou transpirando. A pick-up emparelhou e passou a rodar no mesmo passo que ela. Olhou zangada para a janela aberta e desistiu, 
quando viu um brao musculoso nu e uma cabeleira revolta. Nenhuma das duas coisas deixou-a mais tranqila. Sua respirao agitou-se.
O motorista parecia estar sozinho. Francine tentava decidir se aquilo seria bom ou ruim, quando ele perguntou:
- Como esto as coisas?
A voz soou-lhe conhecida. Lanou um novo olhar, mais longo desta vez. Ento, seu sangue ferveu.
- Que coisa mais idiota voc fez, Davis Marcoux! D para imaginar como  assustador ser imprensada em uma estrada escura no meio da noite?
Ele teve a audcia de parecer divertido:
- Imprensada? Eu nem toquei em voc. E no estamos no meio da noite. So s dez horas.
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- Quase aticei minha cadela para mord-lo. E a coisa teria ficado feia.
- Esse  um co assassino?
Francine ignorou a piada. Continuou correndo, fazendo o possvel para acalmar seu corao disparado. Perguntou-se como ele a teria reconhecido. Esquea a escurido. 
Seus cabelos estavam desgrenhados, seu bon de lado, suava como uma porca. No parecia ter nada a ver com Grace.
- O que est fazendo aqui? - perguntou, aborrecida.
- Indo para casa.
- Do hospital? Nisso a? - No conseguiu resistir, depois do que ele dissera sobre Legs.
- Pois fique sabendo que isto  o Cadillac das pick-ups.
- Todos devem olhar no estacionamento do hospital.
- Claro que olham - ele disse com uma espcie de orgulho. - Mas no estou vindo do hospital. Senti sede e sa para tomar uma cerveja. Entre aqui e beba comigo.
Ela sacudiu a cabea.
- Nunca bebo quando corro.
- Pare de correr. Eu estaciono.
- No, obrigada. - Apressou o passo, na esperana de que ele entendesse o recado.
Ele no disse nada, s continuou a seguir a seu lado. Francine o olhou novamente.
- No tem nada melhor para fazer?
- No realmente. Voc est bonita.
- Estou correndo.
- Foi o que quis dizer.
- Davis, por favor. - Sua respirao ficava cada vez mais apressada. - Estou correndo para relaxar e voc est fazendo com que acontea exatamente o contrrio.
- Estou deixando-a nervosa?
- Est.
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- Por qu?
- Para comear, voc me faz lembrar exatamente o que procuro esquecer, vindo aqui.
Na mesma hora, esperou que ele comeasse a falar sobre Grace comeasse a dizer coisas horrveis sobre Grace. Mas ele s disse:
- E o que mais?
- No estou acostumada a ser seguida por um caminho. - Suas pernas comeavam a sentir a tenso. Diminuiu um pouco a marcha. O caminho fez o mesmo.
- Vai correr at onde?
- Minha casa.
- Mas faltam trs quilmetros.
Francine no tinha mais certeza de que conseguiria.
- Eu chego.
- Parece cansada.
- S porque estou conversando. - Tentou no falar mais.
- Diminua o passo. Descanse um pouco. Ela correu mais.
- A cadela no fica cansada?
Ela olhou para Legs. A alegria da cadela era maior do que a dela.
- O que voc faz? Mata a coitada de fome para que corra? Aquilo ela no poderia deixar passar.
- Eu salvei a vida de Legs.
- Legs?
- Legsamillion.
-  um nome e tanto.
- Tentei mudar. Mas ela no gostou de Peaches.
- Legs. E ela ainda corre muito?
- No. No muito rpido. Teriam matado a coitadinha se no fosse por mim.
- E ela ficou agradecida?
- Ficou.
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- Engraado, eu imaginara Grace com uma cadelinha enfeitada, no uma coisa to desajeitada quanto essa
- Legs no  desajeitada. No para um galgo. Isso mostra que no sabe de nada. Fique longe, ela no gosta de homens. E  minha, no da Grace. - Sua defesa de Legs 
deixou-a completamente perturbada e distrada o suficiente para no perceber uma rachadura no pavimento. Pisou de mau jeito e rapidamente recomps-se, mas o mal 
estava feito.
- Oh, pelo amor de Deus - ela gemeu, mancando um pouco, enquanto fazia uma parada. Abaixou-se, segurando o tornozelo. Seu corao batia com fora contra as costelas.
Ouviu a pick-up parando e a porta abrindo. Em seguida ouviu passos e depois uma pergunta em tom ligeiramente preocupado:
- Voc est bem?
Manteve o olhar voltado para baixo.
- Bem, apenas sentindo a minha respirao.
- Machucou o p?
Ela devia saber que ele perceberia. Nada lhe escapava.
- No.
- Por que estava mancando?
- Um antigo machucado.
- Acho melhor sentar um pouco. - Pegou-a pelo brao. Ela o afastou.
- No  preciso. S preciso de espao. - Viu
Legs junto de seu tornozelo. - Acho bom saber que minha cadela pode atac-lo.
Ele no respondeu. E tambm no se afastou. Francine levantou os olhos da estrada s o suficiente para ver as botas usadas, meias desajeitadas e pernas cabeludas.
Baixou novamente os olhos para o cho, fechou-os por um minuto, depois levantou-se. Respirou profundamente e abriu os olhos, que bateram no suter sem mangas e sem 
golas de Davis e em seu short tambm cinza e amarrotado.
- Como est elegante - observou.
- Eu estava consertando o telhado.
- Voc no tem pernas de mdico.
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- E como so as pernas dos mdicos?
- Brancas e finas.
- Voc j viu muitas?
- O suficiente. - A cidade tinha sua cota de mdicos, que s vezes apareciam nas festas de Grace. No havia nenhum que fosse bonito. Enxugou o rosto na parte de 
dentro de sua manga.
- Quer uma cerveja?
Na verdade, ela queria sim. Estava com a garganta seca.
- Bem, por que no? Voc j estragou mesmo minha corrida.
Fazendo o possvel para no mancar, acompanhou-o pela estrada. Ele pegou duas latas de cerveja na caminhonete, abriu uma e entregou para Francine, depois abriu a 
outra para si.
- Desculpe - disse. - No tenho copos.
Ela olhou-o meio torto, lanou a cabea para trs e tomou um gole longo e delicioso. Nada matava a sede como uma cerveja gelada. Aprendera isso e muito mais, viajando 
com seus amigos pela Europa, nos anos que antecederam sua vinda para a casa de Grace, na poca em que era quase to aventureira quanto Sophie.
Ainda tinha impulsos rebeldes. Um deles acometia-a naquele momento. Era perigoso tomar cerveja em uma estrada com o inimigo.
Ela caminhou - cuidadosamente - at a frente da pick-up e sentou-se na grama. Depois de outro grande gole, encostou a lata gelada no tornozelo. Legs sentou-se do 
seu lado.
Davis ajoelhou-se e procurou seu tornozelo. Ela afastou-o.
- Deixe-me ver - ele disse.
- No. Est bem.
- Se est bem, deixe-me ver.
Ela percebeu que ele no desistiria at fazer as coisas a seu modo. Ento, est bem, ela decidiu. Ele pareceria um bobo, e ela estaria bem.
Aproximou o p dele.
- No est quebrado. Ainda posso andar.
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Os dedos de Davis exploraram-no.
- Eu vi voc mancando.
- No est quebrado. Escute. J passei por isso antes. Sei o que se sente quando se quebra uma perna. Foi uma distenso. Nem isso. Est torcido,  s. Est vendo? 
No estou me encolhendo quando voc aperta. No estou me contorcendo no cho, gemendo de dor.
- O que quis dizer com "j passei por isso"?
- Tropeo o tempo todo.
Sua mo permaneceu sobre a pele dela, com os dedos imveis, quando levantou os olhos.
- E voc procurou um mdico?
Ela riu dele, porque estava to srio, e dela mesma, porque j sabia por experincia prpria que era a melhor maneira de enfrentar o embarao.
- Sou desajeitada, Davis. Lamento desapont-lo, mas apenas no tenho muita coordenao motora.
- Corre muito bem.
- E ponto final. Se houver uma dobra no tapete, meu p ir direto para ela. Se h alguma coisa pontuda, bato com o joelho. Se houver um buraco na estrada, pronto. 
Lembro que colidi com uma porta quando o conheci.
- Voc estava nervosa.
- Pois bem, desta vez estava distrada. Se estivesse concentrada na estrada, poderia ter visto a rachadura.
Davis segurou a ponta do tnis de Francine e moveu seu p para a frente e para trs.
- Di?
- No. Legs rosnou.
Davis levantou as mos lentamente e, levantando-se, afastou-se.
- Bom cachorro. Pronto. No estou fazendo nada. Francine suspirou. Dobrou as pernas e tomou outro gole.
Alm de matar sua sede, a cerveja acalmava-a. Era o nico motivo
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que encontrava para explicar o desaparecimento de sua raiva. E tambm podia ser por pura exausto.
Davis parecia alto e esguio com as ndegas apoiadas no cap e a cabea virada para trs enquanto bebia. Voltou  posio inicial e disse:
- , acho que faz sentido, um galgo correndo por essas terras.
- Legs  um co domstico. Passa a maior parte do dia em meu escritrio.
- No! Trancado?
Lenta e pedantemente, Francine disse:
- Ela pode ir aonde quiser, s que escolhe ficar em meu escritrio. - Passou o brao por cima de Legs e coou seu pescoo. - Legs foi criada em uma jaula. Ainda 
se sente mais segura em lugares pequenos. Ela sai comigo e com Sophie, se for preciso, mas tem medo de estranhos.
- De homens, voc disse.
Francine percebeu que ele no se afastava da pick-up. Sorriu.
- Legs no tem medo de homens. Ela os odeia. Acho bom ficar longe dela.
- S podia mesmo ser uma fmea. Todas as Dorian parecem pensar o mesmo.
- Est claro que no totalmente, ou eu no estaria aqui.
- Como era seu pai?
- Encantador. Devotado. Morreu h trs anos.
- Foi o que Grace disse. E tambm que ele era muito mais velho do que ela.
- Dezoito anos, que era a idade com que ela estava quando nasci. Ele tinha o dobro da sua idade. Grace era nova na cidade. Conheceram-se uma semana depois da chegada 
dela e casaram-se em um ms. Ele... - Fez um gesto. - ...conquistou-a completamente.
-  uma bonita histria.
Francine sempre pensara o mesmo. Suspeitava que John
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ficara ainda mais apaixonado do que Grace. At o dia de sua morte seus olhos brilhavam quando ela entrava na sala.
- O que ele pensava da carreira de sua me?
- Achava muito interessante. Orgulhava-se dela. Como ele tambm era bem sucedido, isso no significava uma ameaa.
- Francine refletiu sobre seu prprio casamento, to curto. - Nem todos os homens so to confiantes.
- Seu marido.
Ela inspirou profundamente.
- Sim, houve um. Divorciamo-nos quando Sophie tinha sete anos. Sentia-se suprfluo e era mesmo. No tinha um papel vital, nem representava uma necessidade importante 
em minha vida. No tnhamos nada a ver um com o outro. Ns nos casamos na polcia.
Davis engasgou-se com a cerveja. Abaixou a cabea rapidamente e enxugou a boca com as costas da mo.
- Foi alguma coisa que eu disse? - Francine perguntou com meiguice. Adorava chocar as pessoas. No que costumasse dar sempre aquela explicao para muita gente, 
nem compreendia por que contara aquilo para Davis, mas a reao dele valera a pena.
Ele comeou a rir.
- Um casamento na polcia. Grace deve ter achado encantador. Que maravilha. Voc fez isso de propsito?
- No que eu saiba. Mas talvez tenha feito. Sempre adorei bebs. Queria muito ter um filho. Talvez, inconscientemente...
- Fez uma pausa e sacudiu a cabea. - No, s tinha vinte anos. Poderia ter esperado. Mas Grace adorava Lee. Pensei que ela poderia ficar com ele e eu com o beb, 
mas as coisas no aconteceram desse jeito. Ela ficou muito aborrecida quando nos divorciamos. Tentei explicar-lhe que um relacionamento no Pode sobreviver baseado 
somente em sexo, mas ela no gostou muito da idia.
- Por que no?
- Grace no se sente muito bem quando se fala em sexo.
- Ela fala sobre sexo em suas colunas o tempo todo.
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-  diferente. Suas colunas so tcnicas, intelectualizadas. Falando claro, ela  tmida. Acha mais fcil escrever as palavras para estranhos sem rosto do que explic-las 
para sua filha.
- Que palavras, por exemplo?
- Orgasmo.
- Essa  divertida.
- H-h. A menos que a pessoa seja tmida e ponto final.
- O que Grace .
-H-h. Mas ela tambm  boa, com B maisculo. Leva sua palavra muito a srio. Encara o casamento como sendo para sempre. Pensa que eu deveria ter continuado com 
Lee por causa de Sophie. Mas no sou muito boa em representao. No poderia fingir que o amava e Sophie teria percebido em um minuto.
- Voc sente falta?
- De ter um marido?
- De sexo.
Francine sentiu como se tivesse se preparado para aquela pergunta, e isso trouxe-lhe uma curiosidade saudvel. Ela seria sensual? Era sexualmente ativa? Estava procurando 
ativamente por sexo? Os homens eram curiosos a esse respeito, e Davis definitivamente era um homem. No que ela fosse responder.
Terminou sua cerveja e tentou ignorar o zumbido que sentia. Era difcil lembrar-se de que ele era o mdico de Grace, quando ficava assim, reclinado sobre seu caminho, 
parecendo bastante simplrio.
Ele olhava fixamente para ela. Como de costume, ela encarou-o de volta.
Finalmente, ele disse:
- Ento, as coisas esto difceis em casa? Ela no entendeu. - Quem lhe disse isso?
- Voc. Disse que veio correr para esquecer. Esquecer o qu? Com aquela pequena ajuda, tudo voltou  sua mente em um instante.
- Trabalho. Prazos. A mdia.
- H algum problema?
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- Sempre h um problema. Todos os negcios tm problemas.
- Reformularei a pergunta. Existe algum problema novo? Olhando diretamente para seu rosto, com barba por fazer, ela respondeu:
- O mdico de Grace diz que ela tem uma doena fatal. O diagnstico, apesar de errado, causou um turbilho que passou a simular os sintomas da doena. Coisas normais, 
que qualquer pessoa de sessenta e um anos apresenta, parecem sinistras. Grace est to ocupada pensando que esquecer alguma coisa, que acaba esquecendo mesmo.
- Talvez ela devesse procurar um psiquiatra.
- Ela no tem tempo para isso.
- Ento mande seus exames para outro lugar e oua uma segunda opinio. Voc nunca fez isso.
Com qualquer outro diagnstico teriam feito isso. Mas no existe tratamento para o mal de Alzheimer. No existe qualquer exame conclusivo, a no ser o tempo.
Davis estava quieto, recostado no pra-lama, com suas longas pernas estendidas e suas botas de trabalho cruzadas. Tomou um gole, colocou a lata contra o lado de 
seu pescoo por um minuto e depositou-a sobre o cap. Disse ento, suavemente
- Voc est com medo de que o diagnstico de um segundo mdico concorde com o primeiro.
- E voc no estaria? - Francine quase gritou. No tinha medo de admitir. - No estamos falando de uma infeco qualquer. Estamos lidando com uma doena fatal.
Voc no est lidando. Est negando-a, ou tentando neg-la, mas no  to fcil. Ela est piorando, no est?
Estamos na poca das febres. Ela est sendo pressionada por todos os lados e no consegue ser ela mesma.
Como foi a festa?
Francine no iria cair naquela armadilha. Se se dividir, ser conquistada, Grace sempre prevenira.
Ela esteve com voc depois disso. O que ela disse?
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- Grace disse que foi a melhor festa do mundo. Fez-me uma lista de quem esteve l, e contou-me sobre as flores, a comida e a msica. Achou a harpista muito boa. 
- Ele fez uma pausa. - Mas eu soube que era um quarteto de cordas.
Francine afastou a preocupao.
- A harpa foi no ano passado, neste ano o quarteto de cordas.  um engano compreensvel.
Davis pegou novamente sua cerveja, virou a cabea para trs e tomou um gole. Quando ele no falou, ela disse:
- Tenho certeza.
- Se tivesse, as coisas estariam mais calmas em casa. Voc diz que o diagnstico est causando sua confuso, mas as coisas no acontecem assim. No em tal grau. 
No por um tempo to prolongado. Se Grace estivesse bem, j teria posto meu diagnstico por terra.
-  mais fcil dizer do que fazer - Francine argumentou. - E quanto ao poder da persuaso? Voc fez com que ela ficasse apavorada de fazer coisas. Ela no quer viajar, 
no quer visitar amigos, no quer falar diante de grupos. Ela dever dar uma palestra em Chicago no ms que vem, e no pra de dizer que tenho de ir com ela. Voc 
transformou-a em uma invlida.
- Tudo isso so sintomas, Francine. Quando os pacientes do mal de Alzheimer descobrem a imprevisibilidade de seus atos, encolhem-se. Sentem medo de que as pessoas 
vejam que esto fazendo coisas erradas. Temem embaraar ou trair a si mesmos e assim tornam-se reclusos. Colam-se s pessoas e lugares mais familiares.
Francine arrancou uma folha de grama do cho, depois outra. No compreendia por que sua famlia estava enfrentando aquilo agora. Grace merecera seu sucesso. Deviam 
todos estar desfrutando-o.
Davis abaixou-se do lado dela.
- Voc vai conseguir, Francine. Ela riu amargamente.
- Est parecendo o Padre Jim.
- No estou. Gostaria de estar, mas no estou. Ele recebe
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sua f de um ser superior. Gostaria de poder fazer a mesma coisa.
- E de onde vem a sua?
- Das pessoas. Ela surge nos momentos prprios.
- Pois eu no sou assim - ela disse, ficando de p em um salto. - Obrigada pela cerveja. - Entregou-lhe a lata, puxou a coleira de Legs e comeou a afastar-se.
- Deixe-me lev-la - ele pediu.
- No  preciso - ela retrucou.
- No devia forar esse p.
- Ele j sobreviveu a coisas piores.
- No seja uma mula, Francine.
Ela no respondeu. Se ela quisesse ser uma mula, seria exatamente uma mula. As mulas chegavam aonde queriam. Lentamente, talvez. Mas com certeza.
E para onde ela estava indo? Para casa. Para compromissos semanais que se tornavam cada vez mais difceis de serem cumpridos. Para um redator despeitado e um editor 
impaciente. Para um telefone que no parava de tocar, um fax que no parava de cuspir notas e uma me cujas necessidades aumentavam.
Afaste-me disso tudo, sentiu vontade de gritar, mas no havia ningum para ouvir. Ento, afirmando-se que as coisas tinham que melhorar, simplesmente porque no 
podiam piorar, comeou a correr.
Estava em casa h dez minutos, quando o telefone tocou.
- Al?
-  Davis, queria ter certeza de que voc chegou bem.
Francine sentiu subir-lhe uma inexplicvel onda de lgrimas.
- Cheguei. Obrigada.
- Tambm queria dizer-lhe que estou aqui. Se precisar. S para conversar.
- Vou lembrar-me.
- Como amigo. No profissionalmente. Ela levou a palma da mo aos olhos.
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- No profissionalmente.
- No profissionalmente. Meu telefone est no catlogo.
- Est bem, obrigada. - Suspirou profundamente. - Vou tomar uma ducha agora. Estou exausta.
- Estou com inveja. Meu chuveiro  horrvel. O banheiro  minsculo. O da minha casa ser de tamanho duplo, todo cercado de vidro.
Ela no resistiu e disse:
- O meu  assim.
-  mesmo?
- H-h. Ele suspirou.
- Enquanto estiver tomando seu banho, pense em mim bancando uma mmia no meu chuveiro.
Ela quase conseguiu imaginar.
- Coitadinho.
- Tenha um bom banho.
- Voc tambm. - Sorria quando desligou o telefone. Era um sorriso suave, um sorriso agradvel que permaneceu durante todo seu banho, durante um perodo de brincadeiras 
com Legs, at mesmo durante vrias horizontais e verticais das palavras cruzadas do Times de domingo. Desmanchava-se quando ela apagou as luzes, e quando o quarto 
ficou escuro e quando seus ps encostaram nos ps frios da cama e o silncio da noite invadiu-a, desaparecendo completamente.
Seis
As melhores das intenes so to boas quanto as circunstncias que as rodeiam.
- Grace Dorian, em um discurso na Associao de Pais de Crianas Alcolicas
Grace sentou-se no avio que a levava para Chicago com as pernas cruzadas na altura dos tornozelos, as mos pousadas sobre o colo e os olhos cobertos por culos 
escuros do tipo "no quero ser reconhecida". Decididamente, no era um convite a um bate-papo.
Francine debruou-se sobre o brao da poltrona.
- Parece nervosa.  o avio?
-  a viagem inteira. Estou ficando velha demais para essas coisas. - Levara dias na preparao, confundindo o dia da partida, fazendo e refazendo as malas. Mudava 
de idia constantemente sobre que roupas deveria levar, depois lia e relia sua lista para ver se no estaria esquecendo alguma coisa importante, e, mesmo assim, 
tinha certeza de que acabara esquecendo. Virou-se alarmada para Francine. - Deixei minha ncessaire sobre a penteadeira.
- No, no deixou. Vi quando voc a colocou na mala.
- Viu? - Recostou-se novamente. - Ficou olhando enquanto eu arrumava a mala?
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- Ajudei voc a arrumar.
Grace sorriu. Se Francine ajudara, ento no poderia ter esquecido nada de muito importante, e se esquecera teria algum para culpar.
Mais tranqila, tentou relaxar, mas era difcil. Essa viagem era crucial para ela. Tinha de ser to equilibrada quanto diziam que A Confidente era.
Mas alguma coisa preocupava-a. J estavam descendo no aeroporto de O'Hare, quando lembrou do que se tratava.
- Temos que passar em Neiman Marcus - disse para Francine. - Esqueci minha ncessaire.
- Mame, eu vi voc guardando-a em sua mala.
- Tem certeza? Francine olhou para o alto.
- Sim, tenho certeza.
- Ora, no precisa ser to lacnica. Foi s um pensamento. Francine fez uma pausa, depois suspirou tristemente.
- Eu sei.
Sua tristeza aborreceu Grace, mas ela no teve tempo de comentar sobre isso, naquela correria para descer do avio e encontrar seu motorista na multido. Felizmente 
a limusine era escura e quieta. Grace teria ficado feliz em estar ali sentada durante muito mais tempo do que levou seu percurso at o hotel, onde Francine instou-a 
a descer, porque Grace no gostara daquele hotel  primeira vista. Era grande e desconhecido. Sua sute era muito agradvel e havia a tranqilidade de a conferncia 
ser realizada ali mesmo, pois poderia descer para sua apresentao e desaparecer, logo que a discusso terminasse - mas Annie j tinha marcado para elas um jantar 
com os organizadores da conferncia, depois o caf da manh do dia seguinte, com as outras trs pessoas que estariam junto com ela no programa. Grace estava nervosa.
O jantar acabou sendo encantador. Grace estava no auge de seu carisma, falando sobre sua carreira, lamentando o lado desagradvel do status de celebridade, fazendo 
com que os
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outros participassem da discusso, como a anfitri mais habilidosa. Grace demonstrava ser ela mesma, sentindo-se to aliviada por estar assim e esperanosa no sucesso 
da viagem, depois de um comeo auspicioso, que se abalou ao voltar  sute e no conseguiu encontrar seus culos. Sem eles, no poderia ler suas anotaes.
- Mas voc no precisa ler nada - Francine insistia, enquanto Grace procurava. -  uma discusso aberta. As perguntas sero feitas pelas pessoas da platia.
- Eu tenho minhas anotaes. Vou precisar v-las. Onde voc colocou meus culos?
Estavam sob sua bolsa. Colocou-os, s para descobrir que suas anotaes no faziam sentido. Leu-as vrias vezes, ou pelo menos tentou faz-lo.
- Quando escrevi isto? - perguntou, assustada. - No tem nada a ver com adolescncia.
Francine esticou a mo.
- Deixe-me ver.
Grace preferiu rasg-las para no sofrer o embarao de mostr-las a algum.
- No so absolutamente sobre adolescncia. - Jogou os fragmentos de papel para o lado. - O que vou fazer?
- O que voc sempre faz - Francine disse, confiante. Ficar sentada nquela mesa e responder s perguntas. Repita para si mesma que amanh a esta hora estaremos 
em casa.
Grace gostou mais dessa idia do que do pensamento do que poderia acontecer entre aquele momento e a noite seguinte. Atualmente, havia tantos momentos em que no 
conseguia reunir seus pensamentos, quando a idia que queria fugia-lhe e as palavras ficavam alm de seu alcance.
- E se eu no tiver a resposta?
- Ter. E se no tiver passe a pergunta para outra pessoa. Voc  boa nisso, mame. Vai dar tudo certo.
No deu. Para comear, no conseguia lembrar-se dos nomes dos outros participantes, o que era tremendamente embaraoso
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em um grupo pequeno, em volta de uma mesa de caf da manh. Depois, a conversa tornou-se acadmica e ela s conseguia sorrir e concordar, o que aumentou seu desconforto. 
Passando do insulto ao sofrimento, o garom trouxe-lhe ovos  Benedict, depois de ter pedido bolinhos; em seguida, colocou seus culos sob as folhas de uma samambaia. 
S conseguiu encontrlos depois de todos da mesa participarem de uma busca.
No estava absolutamente capaz de participar de uma discusso pblica, muito menos sobre adolescncia, porque a adolescncia era a ltima coisa que estava em sua 
mente quando o debate comeou. Pensava que aquele mar de rostos diante dela era hostil, os olhos srios demais, as bocas finas demais, as canetas ocupadas demais. 
Tentando lembrar de uma multido mais feliz, veio-lhe  mente seu primeiro reveillon com John, passado em uma festa no Waldorf-Astoria, em uma sala no muito diferente 
daquela. Depois da festa, ela e John caminharam pelas ruas de Manhattan, sob a neve fina que caa. Fora tremendamente romntico - at mesmo irreal, pensando nas 
mudanas que sua vida sofrera. Lembrava-se de olhar para seu vestido de baile de cetim, de tocar a gola de peles de seu casaco, pensando que no reveillon anterior 
estava agasalhada no camisolo de sua irm mais velha, tendo por cima um casaco antigo azul-marinho aquecendo as mos na fogueira que seu grupo acendera no celeiro 
de Harry Lechter, como um ato de desafio.
Sentiu uma tristeza incrvel, quando pensou no passado.
- Sra. Dorian?
Deu um pequeno suspiro e encontrou a fonte daquela voz, um homem alto no pdio, que parecia aguardar.
- Sim?
- A pergunta foi (e caso a resposta seja positiva, como): as preocupaes bsicas dos adolescentes mudaram na ltima dcada.
Preocupaes bsicas dos adolescentes. Preocupaes bsicas. Grace tentou organizar seus pensamentos, mas no conseguia entender o que ele queria dizer. Ento, disse:
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- No. No acredito que tenha havido mudanas. As principais preocupaes so.... - Procurava a palavra. Havia uma que ela queria, uma que era a correta, mas que 
no lhe vinha ao pensamento. Inevitveis? No. Idnticas? Universais? No. - Atemporais - disse, finalmente, com um sorriso e recostou-se na cadeira. Seu sorriso 
petrificou-se no pequeno silncio que se seguiu. Sentiu-se infinitamente aliviada quando o homem do pdio virou-se para a multido.
Algum perguntou como a epidemia de AIDS afetava a adolescncia. A AIDS no existia quando ela estava crescendo. Na poca, s tinham que se preocupar com a gravidez 
e com doenas venreas, mas j existia cura para isso. No havia cura para a gravidez, a no ser o aborto ou ter a criana, mas o aborto s servia para as pessoas 
sem f. Sua amiga Denise fizera um e tivera uma hemorragia que quase a matara, o que serviu de lio para as outras. No que Grace tivesse pensado em aborto. Nunca 
teria abortado um filho de John.
Grace perscrutou o rosto de Francine na primeira fila. Parecia alarmada e com razo, era o que Grace pensava. Francine permanecera uma pessoa solitria, apesar dos 
esforos de Grace para preencher o vazio. Talvez se tivesse outros filhos as coisas tivessem sido diferentes. Mas Francine tivera uma coisa que nenhum filho dela 
poderia ter. Grace no quisera compartilh-la com ningum
- Sra. Dorian?
Seus olhos dirigiram-se novamente para o pdio. Olhou para a platia, mas no fazia a menor idia de quem falara. Ento, colocou a mo na orelha.
- Desculpe, no ouvi bem a pergunta.
- O Dr. Keeble levantou o argumento de que muitos adolescentes acreditam que a correo poltica  muito restritiva e Pode fazer com que sofram um recuo. A senhora 
gostaria de comentar isso?
Grace considerou a pergunta, tentando parecer pensativa,
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enquanto seu corao disparava e as palmas de suas mos ficavam midas. Pense, Grace. Pense. Respirou profundamente.
- Se recuo quer dizer que eles vo se rebelar contra a correo poltica, est certo. - Fez uma pausa. Todos esperaram que ela dissesse mais. - No sei se poderia 
culp-los - conseguiu dizer. - No sei se seria capaz de lembrar-me de todos os passos adequados para certos comportamentos. - Um sorriso passou pela platia. Encorajada, 
Grace continuou. - Os adolescentes esto lutando para encontrar suas prprias vozes. Qualquer um que tente colocar palavras em suas bocas est destinado a falhar. 
O conceito de coero  um antema para o adolescente, a no ser que seja auto-imposta.
- A senhora est citando o Dr. Keeble. Grace no percebera.
- Bem, essa idia deve ser repetida. O engano  cham-la de... cham-la de... - O termo escapou de sua mente. Procurouo, franziu a testa e finalmente disse: - Isso 
 muito diferente da polidez? Ou do respeito pelos outros? Ou do bom senso? Os adolescentes esto lutando para encontrar suas prprias vozes. Posso compreender por 
que se rebelam. Eu no seria capaz de lembrar-me de todos os passos adequados para certos comportamentos.
A outra mulher da mesa comeou a falar. Usava um vestido com uma estamparia extica que fazia com que Grace se lembrasse de uma obra de arte que vira uma vez. No 
tinha certeza se fora no Taiti. Ou em Nova Guin. Poderia tambm ter sido em Borno. Mas tambm poderia ter sido no Metropolitan Museum of Art.
Tentou recordar-se. O desenho tinha um ar primitivo. Onde ela o vira antes?
John adorava viajar. Tinha dinheiro e tempo para isso. Grace tambm tinha tempo, antes de A Confidente ser publicada, mas odiava deixar Francine. Ento, John contratou 
uma bab para tranqiliz-la. No que tivesse conseguido. Nenhuma bab substituiria uma me. Mas Grace sabia que John tinha essa necessidade
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e devia-lhe tanto. Ento, viajava com ele, telefonava para Francine diariamente e sempre voltava para casa trazendo muitos presentes. Talvez um daqueles presentes 
fosse uma obra de arte.
Gostaria de poder lembrar-se, mas a nica coisa de que se recordava de ter levado para casa eram aquelas conchas grandes que encontrara em uma praia do Caribe e 
que, at hoje, serviam como jardineiras no lavabo.
Com a inteno de visitar o lavabo Grace sussurrou um rpido "Com licena, um minuto" para o debatedor que estava do seu lado e saiu de sua cadeira e do pdio.
Francine alcanou-a quando saa da porta.
- O que voc est fazendo? - sussurrou, com uma urgncia que soou como desaprovao.
- Vou ao banheiro - Grace respondeu sem diminuir o passo.
- Voc  uma das debatedoras. No pode sair a sim.
- Eu tenho que usar o banheiro.
- Mas voc foi l h menos de uma hora.
Grace no se recordava disso. O fato de Francine parecer to segura fez com que parasse um momento.
- Fui?
- Sim, mame. Eu estava com voc. - Francine abrandou seu tom de voz. -  realmente uma emergncia?
Grace pensou durante um minuto e decidiu que no era. Ento virou-se para voltar  mesa.
- Diga-me honestamente - disse, porque aquilo importava-lhe demais -, estou me saindo bem? - Quando no veio uma resposta, olhou para o lado.
Francine estava plida.
- Parece que est muito distante.
- Mas estou falando com lgica, no estou?
- Voc tem que ouvir o moderador, ouvir os outros debatedores, ouvir a platia. Concentrar-se no assunto. Intende o que estou dizendo?
- Ora, no sou surda.
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- Vai concentrar-se?
-  claro.
- Promete?
Grace no sabia por que Francine estava to preocupada. J falara para tantos grupos que poderia faz-lo de olhos fechados, e aquele nem era um grupo to importante. 
Naturalmente, o tpico era estranho para ela. Interpretar sonhos era uma coisa freudiana. No tinha o menor treinamento nisso.
- Francine? - comeou, pensando que talvez no fosse tarde demais para voltar  sua sute. Mas Francine j abrira a porta e apressava-a para que entrasse na sala. 
E com todos aqueles olhos voltando-se para ela, s podia esgueirar-se silenciosamente de volta a seu lugar.
Francine estava com uma dor de cabea terrvel. Pressionou o ponto que latejava e encolheu-se o mais profundamente possvel no banco de trs da limusine. Do outro 
canto, veio a pergunta trmula de Grace:
- Eu estava pssima, no estava?
Sim, ela esteve pssima. No dissera mais do que duas frases coerentes, repetira-se e quase sempre estava no campo errado. Pssima era uma palavra suave para descrever 
como se sara. Refletindo sobre o assunto, Francine procurou no entrar em pnico.
- Eles estavam rindo de mim - Grace disse.
- Bem, voc disse umas coisas muito engraadas.
- Eles estavam rindo de mim.
Estavam. E Francine tivera que assistir, angustiada tanto por si mesma quanto por Grace.
- Voc estava divagando - disse, tentando ser gentil, mas to ansiosa que estava a ponto de explodir em soluos. - Era uma discusso sobre a adolescncia. No se 
tratava de insnia, personalidades violentas ou menopausa.
Grace parecia arrasada. Olhou para seu colo, estudando-o atentamente, sacudiu a cabea e no disse mais nada, pelo que
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Francine ficou muito grata. Tambm no sabia o que dizer, e simplesmente tentou manter a compostura. Ao chegarem  sala de espera da primeira classe do aeroporto, 
tomou vrias aspirinas, afundou-se em uma poltrona confortvel e fechou os olhos. Ouviu Grace suspirar, ouviu o folhear ocasional de uma revista, ouviu o rudo dela 
sendo posta de lado, e depois a voz falando baixo: - Vou ao banheiro.
Francine observou-a enquanto se encaminhava para o toalete, pensando que subitamente Grace parecia mais velha e mais frgil. Era assustador. Grace sempre fora dinmica, 
a orquestradora das vidas dos Dorian, mesmo quando John estava vivo, com sua percepo intuitiva das necessidades e desejos das pessoas. Sabia como movimentar as 
coisas e mant-las em movimento. Sempre fazia as escolhas certas.
Francine no queria pensar no diagnstico de Davis Marcoux, mas ele no a abandonava.
Seus olhos encheram-se de lgrimas. Fechou-os e inclinou a cabea sobre as costas da cadeira, concentrando-se em seguida em engolir o bolo que havia em sua garganta.
Ficou nessa posio durante algum tempo, lutando para manter a compostura a princpio e, depois, tentando permanecer calma. Sua mente voou para os dias em que suas 
posies estavam nitidamente delineadas, quando ela era a filha e Grace, a me, quando no havia dvida sobre quem governava. Grace ensinara-a a nadar, a andar de 
bicicleta, a tranar o cabelo. Grace chegara a ensin-la a costurar - fato surpreendente j que a prpria Grace no costurava, mas surgira um baile de formatura 
e compraram o vestido de ltima hora, e a costureira no estava na cidade. Como era de prever, a metade da bainha feita Por Grace ficara perfeita, enquanto a de 
Francine teve que ser feita duas vezes. E ento, minutos depois de chegar  festa, francine derramara ponche de frutas no vestido. Ponche de frutas vermelhas. Na 
realidade, ponche de frutas vermelhas com champanhe. Francine continuou a encher dois copos com a bebida e esqueceu-se da mancha.
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Grace percebeu-a imediatamente e ficou muito aborrecida. Se soubesse do champanhe, teria ficado muito mais.
Sorrindo, Francine virou a cabea e abriu os olhos, para compartilhar a lembrana com Grace, mas ela no estava do seu lado. Nem na rea imediata da sala de espera. 
Olhando nervosamente para o relgio da parede, Francine foi procur-la; ela no estava nem no banheiro, nem no bar, nem em frente da televiso.
- Parece que perdi minha me - disse ao recepcionista, dando uma breve descrio.
- Creio que ela saiu - disse o recepcionista. Francine ficou rapidamente alarmada.
- Quando?
- No faz muito tempo. Uns cinco, dez minutos.
- Ela disse aonde estava indo?
O recepcionista sorriu como que pedindo desculpa e encolheu os ombros.
- Meu Deus - Francine disse. Suspirando de cansao, olhou perdida em volta. - Eu volto logo.
Saiu correndo da sala de espera. As pessoas passavam aos montes, mas no havia o menor sinal de Grace. Correu em uma direo, procurando, depois em outra. Assustada, 
voltou  sala de espera.
- No consigo encontr-la - disse. - Pode ligar para seu pager? - Sim, mas seu avio vai decolar logo.
Francine colocou a mo na testa e tentou raciocinar. - Ela no est com a passagem, nem com seu casaco, nem com a mala de mo. - Mas estava com a bolsa, o que significava 
que tinha dinheiro, identidade e cartes de crdito, o que seria uma festa para ladres, Francine lembrou-se. No que Grace fosse entregar tudo sem lutar, o que 
assustou Francine ainda mais.
- Quer telefonar para algum no porto de embarque para perguntar se ela est l?
O recepcionista fez tudo o que Francine pediu, mas Grace no estava no porto, nem atendia seu pager. Francine ficou desesperada. Relutando em levantar suspeitas, 
mas na esperana
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de que pudesse ajudar, disse ao recepcionista quem Grace era. Dentro de poucos minutos, a companhia area mandou um time de seguranas para a sala de espera. Alguns 
minutos depois, um deles colocou Francine e suas coisas em um carrinho motorizado para chegar mais rpido ao porto, enquanto os outros acompanhavam correndo a p.
Os rostos passavam por ela como borres. Francine examinava a multido, procurando o rosto que queria ver, enquanto o sistema de alto-falante repetia o nmero de 
seu pager. Ficou parada na porta da entrada para o jato, assustada e nervosa, at que o ltimo dos passageiros entrou no avio. E s nesse momento recebeu o aviso 
de que Grace fora encontrada.
- Graas a Deus - gritou. Colocou suas coisas correndo dentro do avio e voltou para buscar Grace, que chegou minutos depois com um squito da companhia area, parecendo 
no perceber nada. Agradecia a cada uma das pessoas que a acompanharam at o porto de embarque, sorrindo, apertando suas mos, com um ar positivamente triunfante. 
Chegou at a autografar o canhoto de uma passagem para um dos guardas.
Francine apressou-a para o corredor.
- Por que saiu desse jeito? - Ela estava zangada, agora que o medo passara. - Procuramos por toda parte. Estava comeando a imaginar coisas horrveis.
Grace sorriu para o comissrio de bordo que esperava na porta do avio.
- Desculpe faz-los esperar. Fui esticar as pernas e perdi a noo do tempo. No percebi como tinha ido longe. Acho que este  o maior aeroporto do mundo, e com 
certeza, o mais agitado. Espero no ter prejudicado ningum.
- A senhora chegou bem a tempo, Sra. Dorian - o rapaz disse, sorrindo tambm para ela.
Francine ficou furiosa com aqueles sorrisos, devido ao inferno que tivera que passar, mas no disse nada at estarem acomodadas em suas poltronas e o avio comear 
a afastar-se. S ento, implorou a Grace.
- Por favor, no faa essas coisas comigo, mame.
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Grace deu um tapinha em sua mo.
- Tudo est bem quando termina bem.
- Eu fiquei apavorada.
- Agora voc sabe como me senti quando voc estava com seis anos e fugiu de mim no circo.
- Foi um engano inocente. Eu era uma criana. Larguei sua mo por um instante e de repente havia uma poro de gente entre ns. No sabia onde voc estava. - Lembrou-se 
nitidamente do pnico que sentira. O pensamento de um futuro agora sem Grace, apesar de muito diferente, era muito assustador.
- Prometa que no vai afastar-se novamente.
- Francine, no sou uma criana. No tenho que prometer nada para voc nem para ningum.
Mas Francine estava desesperada. Queria acreditar que Grace fizera aquilo por vontade prpria, queria chorar, gritar, fazer qualquer coisa que impedisse aquela sensao 
de queda que sentia.
- E no faa beicinho - Grace insistiu. - Isso  infantil. J sob controle, Francine disse:
- Bem, ns duas sabemos que eu nunca cresci. Pode chamar de um defeito de personalidade e agradecer, porque pelo menos voc no teve que chamar uma tropa e fazer 
papel de boba.
- Mas  disso que est falando? Sentiu-se embaraada?
- No, voc ficou embaraada, mame.  disso que estou falando. Concordamos em que A Confidente precisava desta viagem para levantar sua imagem. Vim junto para que 
isso acontecesse, fiz tudo o que podia, mas no foi o bastante. Acha que eu deveria ter ficado sobre seu ombro, soprando os nomes em seu ouvido, ou fazendo sinais 
manuais da platia avisando-lhe o que deveria dizer quando as palavras certas no vinham?
- O horror da cena surgiu-lhe novamente. A doce Grace, inteligente, sempre com as rdeas da situao, cara tremendamente, levando Francine junto com ela.
Grace era seu dolo. Alcanara seu sucesso atravs da persistncia,
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escrevendo A Confidente ano aps ano, e o sucesso foi ainda mais doce devido ao que viera antes. No que Francine soubesse muito sobre aqueles primeiros anos. Grace 
recusava-se a discuti-los. Mas entre essa recusa e as poucas coisas que lhe escaparam inadvertidamente, Francine sabia que o comeo de Grace fora difcil.
Merecia seu lugar ao sol. Merecia muito seu lugar ao sol. Era cedo demais para as nuvens, cedo demais.
Mas elas estavam l, ao que parecia.
O piloto anunciou a partida iminente. Momentos mais tarde, o avio colocou-se em posio, ganhou velocidade e levantou vo. O hbito teria feito Francine agarrar-se 
aos braos de sua poltrona, contando silenciosamente aqueles minutos iniciais e cruciais, mas sentia-se estranhamente imune. Se Grace tivesse o mal de Alzheimer 
o avio no cairia. As tragdias raramente acumulavam-se.
Sua cabea latejava novamente, com aquela dor forte, insidiosa, que a experincia j lhe mostrara que se transformaria em uma enxaqueca pela manh. Esfregou a tmpora.
- Eu estava preocupada com esta viagem desde o incio - Grace murmurou.
Francine sabia disso muito bem. Gostaria de ter escutado Mas estava pensando n'A Confidente. E ainda estava.
- Preciso de sua ajuda, mame. Estou tentando o mximo que posso, mas no sou to boa assim... nunca fui to boa quanto voc. Eu no podia fazer esta viagem dar 
certo. No tenho certeza de que posso fazer A Confidente funcionar. - A frustrao de trs meses de preocupao e trabalho apareceram. - No parei de pesquisar, 
de escrever e reescrever colunas, e cuidar da interferncia do jornal, do editor, do Telegram. Grace  A Confidente. No eu.
- Voc  minha assistente.
-Mas voc no tem sido a chefe h semanas. A minha funo  cumprir as suas ordens, s que voc no est dando as
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ordens. Voc est aqui e no est. Voc s est obcecada com esse livro e exclui todo o resto.
- O livro  crucial.
- O livro no  nada sem o resto. Foi por isso que fizemos esta viagem. Pediram  Confidente que escrevesse um livro, mas o livro no faz sentido se A Confidente 
desmoronar.
- Sua funo  impedir que isso acontea.
- O que nos faz andar em crculos - Francine murmurou, pois a aeromoa se aproximava. - Talvez eu no esteja  altura do cargo. Esse pensamento j lhe ocorreu?
- Mais de uma vez - Grace disse em voz baixa. Em seguida, levantou os olhos simpaticamente, sorriu e pediu gua mineral com uma rodela de limo.
Francine pediu alguma coisa mais forte e ignorou o olhar de censura que Grace lhe devolveu.
S quando Francine terminara de tomar sua bebida e o jantar estava sendo servido, Grace fez uma observao sobre pessoas fracas que precisavam da ajuda do lcool.
Francine mordeu a lngua.
- No compreendo por que est to zangada - Grace falou um momento depois.
Zangada era a palavra errada. Angustiada era mais adequada. Grace poderia ter mudado as coisas em Chicago, mas isso no acontecera, e agora estava sentada ali, degustando 
sua vitela coron bleu, com pequenas observaes do tipo: - Voc est fazendo uma tempestade em um copo d'gua. - Ou: - Eu devia ter tido a vida que voc teve quando 
criana. - Ou: - Voc no comeu nada.
- Estou tima - Francine respondeu depois da ltima observao e novamente quando Grace disse-lhe para tomar alguma coisa para sua dor de cabea, e novamente quando 
Grace disse-lhe para refrescar-se no lavatrio, e o tempo todo s sentia vontade de gritar sua frustrao diante da ironia de Grace permanecer lcida quando tratava 
de coisas to frvolas, sem sentido, positivamente mundanas.
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Sua lucidez durou at a descida no aeroporto de La Guardia.
- Gus sabe vir aqui? - Grace perguntou.
- Sabe - Francine respondeu, contando de um a dez, no por causa da aterrissagem, mas para manter a pacincia. - Ele tem nosso itinerrio. Sabe o nmero do vo.
- Voc disse para ele ligar para ter melhores informaes sobre o primeiro vo? Disse para ele descontar o tempo do trnsito para chegar ao aeroporto? Ele atrasou-se 
mais de uma vez, quando a ponte estava fechada. Estamos aterrissando na pior hora possvel. Disse isso a ele?
Francine preferia que Grace fizesse todas essas coisas ela mesma em vez de ficar pressionando-a daquela maneira.
- Voc lembrou-o disso, Francine?
- Lembrei. E ele estar aqui. Mas ele no estava, para azar de Francine. Estava cansada, nervosa, sua cabea doa, e Grace, que estava igualmente cansada e nervosa, 
atirava uma quantidade enorme de perguntas irrespondveis. Francine olhou em volta, procurando utelefone pblico.
- Ligue para ele - Grace instruiu, apesar de a idia no ter sido dela.
Francine deixou Grace  porta com a bagagem, enquanto ia telefonar.
Gus no atendeu o telefone do carro. No atendeu o telefone da garagem, que dava para seu quarto, e quando Francine ia desligar desesperada ouviu a voz de Sophie, 
a voz sonolenta de Sophie.
- Puxa vida, mame. Desculpe, ns dormimos.
- Dormiram? Ns? s cinco da tarde?
- Fomos a uma festa em Newport ontem. S voltamos de manh.
- Sophie, como pde fazer isso comigo? - Francine implorou, subitamente exausta de carregar todo aquele fardo sozinha - Chicago foi um pesadelo! Precisamos chegar 
em casa! - Estava desesperada por encontrar coisas familiares, gente familiar, cenrios familiares.
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Sophie disse alguma coisa apressada para Gus, depois para Francine, em uma voz j completamente acordada e apressada pelo que Francine julgou ser a procura de suas 
roupas.
- J vamos para a... estamos nos vestindo... s precisamos...
- De uma hora e meia? Duas horas? No adianta. Pegaremos um txi. - Francine desligou o telefone apressadamente e correu de volta para a me, imaginando que Grace 
tivesse desaparecido. Ela estava l com sua bagagem, mas s lhe deu um momento de alvio. Ficou zangada com a notcia trazida por Francine, mesmo quando a verso 
que ouviu no mencionava Sophie. Francine interrompeu-a no meio de suas observaes, mandou-a ficar parada e foi buscar um txi. Dez agonizantes minutos e uma polpuda 
gorjeta, depois conseguiu um motorista.
- Pronto - disse com um suspiro, quando finalmente estavam a caminho. - No est nada mau.
-  sujo e est quente - foi a observao de Grace. - Para mim j chega. O Gus est despedido!
Francine s acreditaria nisso quando visse. Gus era um dos protegidos de Padre Jim, e Grace raramente despedia um deles. Podia queixar-se at a exausto, mas o pessoal 
do Padre Jim sempre recebia imunidade. Mas no Francine.
- Foi to difcil providenciar para que Gus estivesse aqui? - perguntou Grace, depois de criticar o interior do carro. - Se tivesse telefonado para ele antes de 
sairmos de O'Hare, ele no teria tempo para pegar no sono.
- Antes de sairmos de O'Hare, - Francine recordou-lhe com um tom que julgou ser de uma gentileza recomendvel, j que estava quase que sem pacincia - eu estava 
procurando voc freneticamente.
- E eu apareci, no foi? Mas o Gus no.
- Por que no telefonou voc para ele?
- Porque eu no estava perto de um telefone.
E continuaram nessa discusso, para a frente e para trs. Francine nunca fora assim com Grace antes, com ningum antes, mas no conseguia controlar-se. Alguma coisa 
acontecera em
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O'Hare que a deixara desolada e desesperada. Em sua mente, acendia como que um letreiro "mal de Alzheimer" a cada volta do carro.
No estava zangada com Grace. Estava zangada com a situao. Assaltou-a a idia de que Grace tambm pudesse estar. Mesmo assim discutiram o tempo todo. Quando chegaram 
em casa, cada uma estava na ponta oposta do banco do carro e a discusso no tinha terminado. Pelo contrrio, ampliou-se ainda mais para incluir Sophie, o que tornou 
as coisas ainda piores para Francine. Sua cabea doa, seu corpo doa, seu corao doa. Quando no conseguia agentar mais nem um minuto, atirou as mos para o 
ar e saiu da sala.
Tomou uma ducha e vrias aspirinas. Saiu para correr com Legs, depois tomou outra ducha. Deitou-se na cama, com uma bolsa de gelo na cabea e tentou dormir, mas 
entre sua dor de cabea e seus pensamentos sentia nuseas. Ao amanhecer, era um feixe de nervos.
Sentindo frio, apesar de estar ao sol de julho, jogou um suter sobre o short e fez uma chaleira de ch fresco e quente. Ento, segurando uma caneca em cada mo, 
saiu  procura de Grace. Queria desculpar-se. Queria chorar. Queria abraar sua me e ser abraada e saber que Grace sabia o que ela sentia por aquele perodo que 
durara um pouco mais de tempo do que os outros.
Grace no estava no quarto, no banheiro ou na sala de estar. No estava na cozinha. No estava em seu escritrio.
Mas estivera l. A cadeira estava puxada, afastada da mesa, da maneira em que ela a deixara quando foi interrompida em seu trabalho.
Francine aproximou-se da mesa. Sobre ela estava uma pasta aberta. Olhou para aquilo durante uma eternidade sem ver nada. Depois, obrigou-se a concentrar-se. A pasta 
no tinha uma etiqueta. Fechada, ningum suspeitaria do que havia dentro. Mas Francine sabia, mesmo antes de olhar. Havia recortes de jornais e revistas, cartas 
publicadas em jornais de associaes de sade. Havia livretos de informaes. Havia notas escritas  mo.
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Grace sempre fora meticulosa em tudo. Quando fazia alguma coisa, fazia-a cuidadosamente. Aparentemente, quisera saber sobre o mal de Alzheimer. As datas de algumas 
publicaes diziam que ela recolhera aquelas informaes h mais de um ano.
Mais de um ano. Lendo tudo e qualquer coisa sobre a doena. Perguntando-se se sofria dela. Analisando cada movimento seu  luz do que lera.
Francine passou os dedos pelos cabelos e ficou parada. Ainda havia um fio de esperana. Davis poderia estar errado, afinal de contas. No momento em que pensava que 
no teria mais foras para lutar, encontrou alguma. Buscou novas evidncias com os olhos, freneticamente,  sua volta.
Foi quando seu olhar atravessou a janela e desceu sobre Grace, vestida de camisola e xale, sentada a uma cadeira do jardim, quase junto da entrada.
Sete

No importa que as brigas familiares sejam mais barulhentas e mais duradouras, s que os interesses sejam mais levados.
- Grace Dorian, em A Confidente
s

et

No importa que as brigas familiares sejam mais barulhentas e mais duradouras, s que os interesses sejam mais elevados.

- Grace Dorian, em A Confidente
Grace olhava fixamente para o rio, s perifericamente consciente da beleza da grama verde e das plantaes luxuriantes diante dele e dos altos pinheiros que guardavam 
suas margens. Sua mente estava a milhares de quilmetros e a uma vida de distncia, de volta quela famlia tremendamente pobre que morava em um barraco coberto 
com um teto de zinco, e que chamavam de casa. O local cheirava a suor, coelho e gordura na frigideira, a bebida, sempre a bebida, que era o que mais havia ali. Ouvia 
seu irmozinho chorar, engasgar e vomitar o remdio que nunca parava em seu estmago, e sua irm mais velha tentando confort-lo, enquanto sua me gritava com ambos.
- Mame.
Aquela voz era to semelhante, aquela impacincia. Mas era Francine que se aproximava, lamentosa.
- O que est fazendo aqui fora?
Grace no se virou. Sentia seu corpo cansado, sua alma cansada. Estava lutando por um perodo muito longo.
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Francine materializou-se diante dela. Agachou-se, agarran do os braos da cadeira.
- Encontrei a pasta na sua mesa - disse nervosamente. - Sabe o que voc fez?
Grace sorriu tristemente.
- Pesquisa?
Francine sacudiu a cabea.
- Autodiagnstico. Voc leu tanto sobre o assunto, at que os sintomas pareceram to familiares que se encaixavam.  o clssico poder da sugesto - exultou. - Voc 
escreveu sobre essa doena dezenas de vezes.
Grace estudou o rosto da filha. Certamente no era um rosto bonito, mas bastante agradvel e interessante, como fora o da me de Grace, antes que o tempo fizesse 
seu estrago nele. Francine no sabia nada sobre a me de Grace ou sua vida difcil, e Grace no se lamentava. Sim, freqentemente a adversidade gerava o dinamismo, 
mas ela no quisera traumatizar Francine. Sempre desejara o melhor para ela, e talvez por isso mesmo a dor que causava agora era duplamente trgica.
Francine possua uma alma meiga e a seriedade de seu pai, e sempre fora otimista. Mas nem uma vez, mesmo nas divergncias durante seus anos de crescimento, Grace 
vira o ardor que via agora.
- No sei se conheo voc desse jeito - disse com um sorriso suave, mas as palavras no pareciam corretas.
Francine saltou.
- Viu?  o que eu estava dizendo. Voc sabe como o paciente do mal de Alzheimer comporta-se tipicamente, por isso est agindo desse modo. - Baixou seu tom. - S 
no consigo entender por qu. Est entediada? Pensando em aposentar-se Francamente, mame, se est cansada de trabalhar  s dizer. Existem muitas outras maneiras 
de diminuir o ritmo de seu trabalho do que fazendo-se de boba.
Grace engoliu em seco diante daquela imagem, daquele tom. Naquele momento, Francine era igualzinha  sua me
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lutando contra uma realidade que no queria aceitar. Grace sentira a picada do veneno de Sara McQuillan mais de uma vez. Ainda o sentia s vezes. Mas o que Francine 
dizia, doa-lhe mais.
- Voc no sabe nada do que est acontecendo - murmurou, sentindo-se vencida, fraca.
- Ento me diga.
-  apavorante - Grace disse, to aliviada por aquele convite, que as palavras jorraram em borbotes. - Penso nisso noite e dia. Duvido de mim mesma, duvido dos 
outros. Tremo ao fazer as tarefas mais corriqueiras, porque tenho medo de fazer errado. Pergunto-me o que acontecer em um ms, em trs, em dois anos. Eu... eu... 
- perdeu o fio de seus pensamentos.
- Voc o qu?
As palavras tinham desaparecido. Olhou intensamente para Francine.
- Um ms, trs, dez, dois anos - Francine ajudou. - O qu?
Grace no tinha a menor idia.
Francine endireitou-se, afastou-se um passo, virou-se um pouco de costas para a me. Grace preparou-se para um golpe, mas Francine simplesmente deu-lhe as costas, 
perturbada.
- Tudo isso aconteceu logo depois que papai morreu. Ele era louco por voc at o final.  dessa adorao que sente falta?
- No quero ser adorada.
- Voc escreveu vrias colunas sobre o luto por pessoas queridas. Lembro-me de uma. Um homem escreveu-lhe dizendo que ficara trancado por dentro, desde que sua mulher 
morrera. Voc sugeriu que ele no a chorara adequadamente. Talvez seja isso o que esteja acontecendo.
- No, Frannie.
- Voc foi to forte quando ele morreu. Quase estica.
- Tive meses para preparar-me. Ele no era jovem. E estava muito doente, sentia muitas dores sempre que se movia. Sua morte no foi um choque. Foi quase como uma... 
como uma... bno.
- Uma bno? Foi o que voc disse na ocasio, e as palavras
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pareceram apropriadas, mas talvez o corao funcione diferentemente. Talvez sua morte a tenha atingido mais do que quer acreditar. Talvez isso seja o motivo de tudo.
Grace no sabia se deveria rir ou chorar. A pobre Francine ainda procurava desculpas. Sofria por ela, talvez ainda mais do que ela mesma. Ah, sim, como a vtima 
ela sofreria a indignidade da doena, mas at determinado ponto. Depois disso, no teria mais o conhecimento de quem ou do que era. Ento, o sofrimento passaria 
para as pessoas a seu redor. E faria qualquer coisa para poup-las da dor.
Lembrando-se disso, tentou recompor-se. O tempo era curto, e o relgio continuava sua caminhada.
- Temos que fazer certos planos. Francine no reagiu.
- No acha que criou essa histria toda?
- Antes deste fim de semana, sim. Agora, no. Pobrezinha, Francine ainda lutava.
-No h nada de errado com voc. Eu no deixarei que haja. Grace sorriu.
- E? E como vai conseguir isso?
- Ficarei no seu p. No deixarei que relaxe. No foi o que fez por mim? Durante os seis anos em que estudei violino, voc ficava no meu p para que eu praticasse, 
para que executasse meus exerccios com os dedos, levantando meu arco. Eu jamais poderia ter entrado no concurso estadual se voc no tivesse me dado fora.
- Mas voc perdeu nas semifinais - Grace lembrou-lhe.
- Porque eu no tenho o menor sentido de ritmo, mas o fato  que eu cheguei at l.
- No, o fato  que aquela era uma causa perdida, exatamente como esta. - Dizer aquelas palavras quase a matavam, mas elas tinham que ser ditas. - Voc no entende? 
Eu no posso vencer. - Estava cansada de negar os fatos. Precisava que Francine aceitasse a realidade para dar-lhe apoio. - Preste ateno, meu bem. Voc est vendo 
os sintomas, no o problema
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subjacente, mas meu problema no desaparecer assim como a sua falta de ouvido para a msica. Voc pode ficar no meu p o quanto quiser, mas isso no alterar os 
fatos. No posso ser curada. S ficarei pior. Oh, como eu tambm tentei negar para mim mesma. Aprendi a compensar. Estou muito boa em esconder minhas falhas. - Teve 
um pensamento engraado, que a fez sorrir. - Foi uma das primeiras coisas que aprendi quando sa de casa. Cheguei a Manhattan sem conhecer nada nem ningum. Imediatamente, 
comprei trs vestidos bons. Usei quase todo meu dinheiro para compr-los, mas meu plano era parecer uma dama. Naturalmente, no tinha a menor idia de como agia 
uma dama. Ento, fiquei observando. No Plaza. J lhe contei isso? Ficava parada l, perto de Palm Court, como se esperasse algum, mas observava as senhoras... como 
caminhavam, sorriam, comiam. Quando procurava emprego, imitava-as. O gerente do clube engoliu a plula e contratou-me, conseqentemente tive que continuar com meu 
papel. Ento aprendi a fazer perguntas, ou ficar em silncio at que os outros agissem de forma que eu tivesse minha deixa para falar.
Sorriu, primeiro de sua lembrana, depois de Francine. Mas sua filha parecia tremendamente infeliz.
- O que foi? - perguntou assustada.
- O que est dizendo, mame? Grace tentou lembrar-se.
- Voc est falando de Nova York - Francine disse. - Eu estou falando de Chicago. Se eu tivesse ficado mais em cima de voc...
- No teria adiantado. Eu estava horrvel. Voc no poderia ter ajudado. - Seus pensamentos estavam claros, seu esprito impaciente. - Leia minha ficha, Francine. 
Converse com Davis. Fale com outros que tenham essa doena. Quando acontece, tudo desaparece. Minha mente foge, como um disco defeituoso, passa por cima de certos 
acontecimentos. No me lembro do que aconteceu em Chicago. No dos detalhes. S sei que deixei a mim e a voc embaraadas.
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- No houve nada disso - Francine disse, mas seus olhos estavam cheios de lgrimas.
Grace segurou os pulsos da filha.
- Houve sim. Voc disse ontem  noite e tinha razo. Se pensa que me ajuda negando o fato, est sendo indigesta. - Franziu a testa e corrigiu-se. -Ingnua. No posso 
mais executar o trabalho que costumava fazer. As coisas que escrevo no fazem sentido. No diga que no percebeu.
Francine soltou suas mos e enfiou-as sob os braos.
- Pensei que voc evitasse a armadilha criada para as celebridades. A arrogncia, o melodrama, o ensimesmamento.
- Ensimesmamento? - Grace gritou. - Que ensimesmamento? A ltima coisa que eu queria era sobrecarregar voc com este fato, por isso negava tudo. Mas estou cansada 
de bater com a cabea contra uma parede de tijolos. A parede no desaparecer e bater nela no adiantar nada. Temos que encarar a verdade e descobrir aonde poderemos 
ir deste ponto.
Francine cobriu as orelhas.
- No estou ouvindo.
Grace elevou a voz, agora zangada.
- Ento voc  uma tola.
- No, voc est sendo a tola se se recusar a lutar. Olhe para voc, sentada aqui fora desse jeito. Nunca pensei que fosse uma prima-dona
- E eu nunca pensei que voc fosse uma menina mimada, mas olhe para voc, gritando comigo, porque pensa que estou perturbando sua vidinha confortvel deliberadamente. 
No seja egosta, Francine. Pense em outra pessoa, s para variar.
Francine deu um pequeno soluo e correu para dentro de casa.
Grace no tentou impedi-la. Colocou a mo no peito para acalmar a dor que sentia e fixou os olhos no rio at conseguir controlar sua raiva. Depois, olhou para o 
cu e disse, com os lbios rgidos:
- Passei os ltimos quarenta e trs anos de minha vida tentando desculpar-me pelo que aconteceu. Tenho sido generosa. Tenho sido boa. O que Voc quer?
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O Armamento permaneceu em silncio.
Francine no retornou.
Grace sentiu uma terrvel sensao de derrota.
Sophie encontrou sua me  mesa da cozinha, olhando fixamente o carvalho polido. A posio de seu corpo, meio inclinado, meio retesado, sugeria que ela no sabia 
se vinha, ia ou ficava.
Sophie sentou-se na cadeira oposta e esperou que ela levantasse os olhos. Como isso no aconteceu, preocupou-se.
- Mame?
Francine pressionou as tmporas com as pontas dos dedos.
- Voc est bem? - Sophie perguntou.
- No.
- O que houve?
Francine no levantou os olhos da madeira. Sophie via as lgrimas nascendo sob suas plpebras, que aumentavam as sombras que j existiam a seu redor.
- Fale - Sophie ordenou, porque sabia que estava em falta e queria esclarecer as coisas imediatamente. - Foi por causa de ontem  noite, no foi? Eu sinto muito. 
Ns devamos ter ido buscar vocs duas. Deveramos ter colocado um despertador, mas nunca imaginei que fssemos dormir metade daquele tempo.
Esperou que sua me sorrisse, que buscasse sua mo e a perdoasse como sempre.
Mas Francine simplesmente esfregava as tmporas e dizia:
- Ela est desistindo.
- Quem?
- Grace. Ela est jogando a toalha.
- Que toalha?
Francine ento levantou os olhos. Seu rosto exibia um medo terrvel.
- Ela atravessou a menopausa sem o menor distrbio emocional. Da mesma maneira que enfrentou a morte de seu av. E agora, de repente, est desmoronando.
Sophie suspirou.
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- Ela tem o mal de Alzheimer. - Escorregou os cotovelos pela superfcie da mesa e tocou o brao de Francine. - Aceite, mame. O mdico j aceitou, assim como os 
outros que ele consultou, e agora Grace tambm aceitou. Voc foi tima lutando contra a idia, mas talvez seja a hora de parar. Ela tem o mal de Alzheimer. E no 
 a nica. Muitas pessoas tambm tm.
- No me importam os outros. No vivo com os outros. No trabalho com os outros. No amo os outros.
Sophie no sabia exatamente o que deveria fazer. Queria tornar as coisas mais fceis para Francine, mas dizer s o que ela desejava ouvir no ajudaria em nada.
- Grace teve uma vida boa. Foi saudvel at agora. Mas no est imune s fatalidades, assim como todos ns.
- Ela  uma pessoa boa. Sophie recuou.
- E eu no sou?  por isso que tive diabete quando tinha nove anos? O que eu fiz de errado?
Nesse momento, Francine segurou sua mo.
- Nada, meu bem. Voc no fez nada de errado. S era predisposta geneticamente  doena. Algum de nossos antepassados, algum que nem conhecemos, deve ter tido a 
doena.
- O mesmo est acontecendo com Grace e o mal de Alzheimer, a menos que o ambiente nos esteja afetando, e a estaremos todos condenados - Sophie declarou, porque 
essa possibilidade ocorreu-lhe mais de uma vez. Quando exigia gua mineral, no era por afetao. No confiava na que vinha da torneira.
No que Grace tivesse que se preocupar com aquilo, nem Francine. A gerao de Sophie, e as que a seguiro, teriam que limpar a sujeira que seus pais fizeram.
Endurecida por aquele pensamento, disse:
- Grace tem sessenta e um anos. Ela viveu bem e agora tem que diminuir seu ritmo. Muita gente da idade dela tem que fazer o mesmo.
- Diminuir - Francine concordou - no sair do ar. Grace estar aqui, mas ao mesmo tempo no estar. Poderemos fazer
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para ela, no com ela. Perderemos sua fora. Perderemos seu conhecimento, sua liderana.
- Mas ns duas no podemos fazer nada. Francine esfregou a tmpora novamente.
- O que isso deve significar?
- Est com dor de cabea?
- Explique-se, Sophie.
- Ns sobreviveremos. No precisaremos de Grace para dizer-nos o que fazer, quando e onde.
- Ela no faz isso.
- Faz sim. Bem, ela faz isso muito sutilmente, mas ela chama e voc vai. Voc no tem que fazer isso. Voc  forte. Sabe agir muito bem. A vida no vai acabar s 
porque Grace est doente. Ela no  a nica pessoa que sabe das coisas.
A cadeira de Francine arranhou o assoalho, quando ela se levantou.
- Ento, voc vai coloc-la no pasto e deixar que morracomendo capim.
Sophie retrucou:
- Francamente.
- Falo srio, Sophie. O que voc quer dizer?
Sophie sabia que no estava se expressando muito bem, mas tinha que defender sua teoria. Ento tentou novamente.
- Estou dizendo que voc a idolatra, e isto  timo e certo. Ela  sua me e  uma vencedora. Mas ela no  to perfeita como voc pensa que . No  to perfeita 
quanto o mundo pensa que . Ela  humana. Comete erros como todos ns. Fica doente como todos ns.  terrvel que tenha o mal de Alzheimer. trgico que isso acontea. 
Mas a vida continua.
Francine estava estupefata.
- Sabia que voc se ressentia dela, mas nunca percebi o quanto.
- Quer me escutar? Escute a si mesma. No se trata de ressentimento. Trata-se de bom senso e eu no teria dito nada se
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voc estivesse sendo razovel, mas voc est deixando este caso fugir do controle.
- Uma doena fatal? Estou perdendo o controle? Sophie bateu no peito.
- Eu tenho diabete.  uma doena perigosa...
- Totalmente tratvel.
- Ah, sim. Com injees e exames de sangue cada vez que eu pisco.  muito divertido e eu s tenho vinte e trs anos. Pense um pouco no que me aguarda quando eu tiver 
a sua idade. Mas quando eu tiver a idade de Grace, se chegar at l, ficarei feliz s por ter alcanado essa idade...
Sophie interrompeu-se e enxugou com as mos as lgrimas que corriam de seus olhos. No era sempre que pensava em morrer, porque tinha muito medo dessa idia. Preferia 
pensar em iludir a morte. Francine ensinara-lhe isso, em termos prticos, no absurdos.
- Voc aceitou muito bem a minha diabete. Mas agora est paralisada. Ns sobreviveremos, mame.
- Mas ela no, e ela  nossa vida! - Francine gritou. Sophie rangeu os dentes.
- Ela  a sua vida, mas no  a minha.
- Ah, sim,  sim. Ela  a autoridade que voc adora desafiar.  isso o que Gus representa para voc.  por isso que dana at as seis horas da manh em Newport. 
 por isso que faltou a duas consultas seguidas com o mdico, eu soube.
Sophie saltou da cadeira e atravessou a porta rapidamente, com a raiva sobrepujando o desejo de proteger Francine.
- Muito bem, vou arranjar um novo mdico. Um que respeite minha privacidade. Tenho vinte e trs anos, mame. Cumprir meus compromissos ou no  assunto meu, no 
seu... e no me diga que  falta de educao abandonar o sujeito, porque ns duas sabemos que ele  to ocupado que nem perceberia que eu faltei se eu no fosse 
uma Dorian. Veja as coisas por este ngulo. Fiz um favor para seus outros pacientes. Sem mim, eles no teriam que esperar tanto pela sua vez. - E saiu violentamente.
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- Sophie!
- Eu vou sair! - Sophie gritou do corredor.
- Preciso de voc aqui - o eco respondeu.
Mas Sophie no compreendia por que no podia voltar para falar com Francine. Estava tornando as coisas piores, no melhores. Ento, talvez Francine estivesse com 
a razo. Talvez Grace fosse a nica pessoa a ter aquele dom. A boa Grace. A preciosa Grace.
- Sophie!
Ela parecia ter seis anos de idade, agindo daquela maneira, mas aqueles sentimentos acumulavam-se h muito tempo.
- Voc no precisa de mim! - gritou com a mo na maaneta. - Voc precisa da Grace! Ela  a perfeita!  sem ela que voc no pode viver! Pois v falar com ela! Eu... 
no posso... ajudar! - E bateu a porta.
Francine comeou a dirigir s dez horas da manh. No tinha um plano, no tinha um destino, s sabia que precisava escapar de tudo que estava errado em sua vida.
Ento, partiu para o norte, por estradas novas para ela, pois Grace no gostava de ir para o norte. Quando a claridade do dia comeou a ferir seus olhos, baixou 
o visor e dirigiu o ar-condicionado diretamente para sua tmpora, que latejava. Ao mesmo tempo, as palavras ecoavam em sua mente - as de Sophie, as suas, as que 
foram faladas com raiva para Grace.
Parou para tomar um refrigerante e sentou-se durante algum tempo com os olhos fechados, em um estacionamento sujo nos fundos de um galpo. Mas a bebida no acalmou 
seu constrangimento, e o descanso no fez com que passasse a dor de cabea. No podia parar de pensar, no podia deixar de sentir dor.
Ento, decidiu parar de correr e dirigiu-se para casa. Mas quanto mais se aproximava, mais difcil ficava. Nunca se sentira to errada em sua vida. Nunca se sentira 
to infeliz, to confusa, to sozinha.
Pensou em passar pela parquia e conversar com Padre
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Jim. Mas seu carro passou por ela, depois passou pela estrada que ia at a casa de Grace e levou-a para o prdio baixo de tijolos, onde ficavam os consultrios mdicos, 
anexo ao hospital.
Ficou sentada no estacionamento pelo perodo mais longo de sua vida, com o estmago virado, e sentindo-se terrivelmente dilacerada. Depois, relutante mas irresistivelmente 
atrada, saltou do carro.
O consultrio dele ficava no terceiro e ltimo andar. Subiu as escadas, parou diante da porta com seu nome e disse para a recepcionista com voz trmula:
- Gostaria de ver o doutor. No tenho hora marcada. Minha me  cliente dele.  muito importante.
A recepcionista era jovem, com cabelos cacheados, dentes tortos e um sorriso gentil.
- Qual  o seu nome?
- Francine Dorian.
Os olhos da garota saltaram.
- Adoro a coluna de sua me - murmurou, ento controlou-se e ajeitou-se na cadeira. - Vou falar com o doutor. Ele est atrasado, mas tenho certeza de que vai encaix-la.
Havia quatro pessoas na pequena sala de espera. Francine afundou-se em uma das duas cadeiras vazias. Passou um brao em torno de seu estmago e apoiou o outro cotovelo 
nele. Com a cabea baixa, olhos fechados, pressionou as pontas dos dedos na tmpora e fez fora para afastar a dor, mas sua vontade estava to fraca quanto seu estmago. 
Precisava da escurido e do calor. Se houvesse um buraco no local, teria mergulhado nele.
- Francine?
Sua voz era gentil. Ela lembrou-se da ltima vez em que falaram, naquela noite depois de tomarem juntos uma cerveja quando ele telefonara para saber se ela chegara 
bem em casa. Naquela vez, as lgrimas vieram a seus olhos e agora acontece a mesma coisa. Ele estava abaixado diante dela. Francine levantou os olhos s o suficiente 
para encontrar os dele, mas no disse nada. Sua garganta estava apertada demais.
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Ele falava suavemente, com uma atitude gentil. Depois, segurou seu brao e ajudou-a a levantar-se. Levou-a para sua sala e acomodou-a no sof.
- J estou acabando de atender um cliente. Voc me d um minuto?
Ela concordou.
Ele saiu pela porta lateral. Francine pensou em olhar em volta, mas sua cabea doa demais. Escorregou para o canto do sof, sentou-se sobre as pernas e, apoiando 
um cotovelo sobre o brao amplo do sof, pressionou a palma da mo contra o ponto que doa mais.
No abriu os olhos quando a porta se abriu novamente. Ouviu seus passos, sentiu o rudo do couro a seu lado. Era o momento da verdade - o momento em que teria que 
dizer-lhe que ele estivera certo o tempo todo. Ele ficaria contente.
- Voc no parece estar sentindo-se muito bem - ele disse, com uma surpreendente ausncia de presuno.
Ela assentiu com um movimento ligeiro de cabea.
- Aconteceu alguma coisa em casa? Ela fez que sim.
- Comportei-me muito mal... - Sua voz falhou. Levou novamente a palma de sua mo contra a cabea e apertou as pernas com mais fora. Talvez at tivesse gemido, mas 
no tinha certeza.
Ele passou a mo pelos cabelos de Francine e ajeitou-os na nuca.
- Olhe para mim, Francine. Ela arriscou um olhar de lado.
- A cabea di?
- Terrivelmente - ela suspirou.
- Enxaqueca? Francine concordou.
- Tomou alguma coisa?
- Nada funciona.
- Tenho uma coisa que pode funcionar. No se mova. Quando ele saiu desta vez, ela reclinou a cabea sobre o
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brao do sof, de um couro extremamente macio, enroscou-se e se abraou.
Minutos depois, mos grandes ajeitaram-na e uma bolsa de gelo foi colocada onde doa. Ele fez vrias perguntas sobre sua sade em geral e possveis alergias, depois 
esfregou um ponto em sua coxa e aplicou-lhe uma injeo.
Francine estava suficientemente infeliz para no fazer qualquer pergunta. Continuou deitada e enrolada, de frente para o encosto do sof, com o peso da bolsa de 
gelo sobre a tmpora e a coxa de Davis pressionando sua espinha.
Ele permaneceu junto dela por vrios minutos, massageando seus ombros. Depois, com aquela mesma voz suave, disse:
- Descanse aqui. Eu voltarei. - Fechou as cortinas para escurecer a sala e saiu.
Francine adormeceu. Acordou desorientada e quando virou-se encontrou Davis sentado junto dela na penumbra. Seus cotovelos apoiavam-se nos joelhos e seus dedos estavam 
enlaados. No conseguiu decifrar a expresso de seu rosto.
- Como se sente? - ele perguntou.
Ela retirou a bolsa de gelo. O latejamento na cabea transformara-se em uma dor enjoada.
- Melhor. - Muito, na verdade. A dor era suportvel e a nusea desaparecera. - Isto  to embaraoso. No sou a paciente.
- No se desculpe. Se eu no puder tratar de uma amiga, de que adianta? Voc tem enxaquecas freqentemente?
- Mais suaves. Nunca tive uma como esta antes.
- O que a causou?
No parecia direito que uma pergunta to inocente causasse uma resposta to condenadora. Ela atirou um brao por cima da cabea.
Ele no disse nada durante vrios minutos e depois falou brandamente:
- Conte-me.
- Voc sabe - ela disse timidamente. - Sabia o tempo
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todo. Voc preveniu-me, mas eu no quis ouvir. E tornei as coisas piores.
- Piores, como?
- No estava preparada. No ajudei em nada.
- No  to ruim assim.
- Mas foi! - falou alto, no pensando tanto em Chicago, mas mais no ptio naquela manh. - Grace estava sentada l, parecendo to vulnervel e eu odiei-a por isso. 
E disse coisas mesquinhas. Disse coisas cruis. - Enroscou-se ainda mais. -Estou to envergonhada.
Ele no disse nada por um minuto. Ento, aproximou-se e ajeitou o cabelo de Francine atrs de sua orelha.
- Este no  um momento feliz para sua famlia. Tem todo o direito de ficar nervosa.
- Mas eu no sou uma pessoa mesquinha. No pretendia dizer nada daquilo. No sei de onde saram todas aquelas coisas.
- O desespero s vezes nos obriga a fazer certas coisas. Ele tinha razo quanto a isso. Ela andava mesmo muito desesperada. Agarrara-se a uma esperana sem sentido, 
sem considerar o sofrimento que estava causando. Agora se sentia pior do que nunca.
Francine afastou a bolsa de gelo e sentou-se um minuto, antes de conseguir emitir as palavras, e quando elas saram foram em um tom fraco.
- O que vou ter que enfrentar, Da vis?
- No posso dizer com certeza.
- Mas estamos indo ladeira abaixo.
- Esse  o ponto crucial. O prognstico no  bom. - Suavoz era baixa devido ao peso da verdade.
Francine engoliu em seco.
- Quanto tempo ela tem?
- Trs... sete... dez anos. Gostaria de poder ser mais exato. Ela sussurrou doloridamente:
- De lucidez ou de vida?
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- De vida. Ela j est com a doena h algum tempo. Francine emitiu um som que deve ter sido profundamente penoso, porque ele segurou sua mo.
- Sinto muito, Francine. No  justo. Se quiser chorar e gritar, fique  vontade.
Mas ela simplesmente sacudiu a cabea.
- Estar l, passar por aquilo. - Francine curvou seus dedos em torno dos dele e apertou-os. Havia perguntas que precisava fazer. Mas ainda no estava pronta para 
as respostas.
- Suas mos esto geladas - ele disse.
- O meu aquecedor est funcionando to mal quanto o resto de mim.
- Quer dar uma volta? O ar fresco pode ajudar.
Se alguma coisa lhe agradasse naquele momento, teria gostado daquela idia. Era melhor do que voltar para casa.
- No tem que ver algum paciente?
- Mudei os horrios das consultas. Estou livre por algum tempo.
Ela ficou comovida. Em seguida, teve um pensamento amargo.
- Que coisa surpreendente, o nome Dorian. Ele consegue tudo.
Francine no podia ver a expresso do mdico com as cortinas cerradas, mas viu quando ele sacudiu a cabea.
- Isto no tem nada a ver com seu nome.
- Ento com o qu?
- Somos amigos, no somos?
Sem qualquer motivo, ela comeou a chorar. Mortificada, soltou a mo e cobriu o rosto, tentando encobrir os soluos suaves e sincopados. Tentou silenci-los, mas 
no conseguiu.
Davis acariciou seus cabelos e deixou-a chorar. Saiu somente para buscar lenos de papel. Quando ela finalmente silenciou, ele murmurou:
- Odeio isto.
Ela comprimiu o nariz com um leno.
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- Odeia o qu?
- Ter que ficar sentado aqui enquanto voc chora.
Ela enxugou a face.
- Aposto que as pessoas choram aqui o tempo todo.
- No as pessoas que eu quero abraar.
Os olhos de Francine encheram-se novamente de lgrimas.
- Oh, meu Deus, - ela gemeu - no diga coisas assim. - A gentileza de Davis abriu suas comportas, permitindo que ela se sentisse fraca e assustada. No se recostava 
em um homem h anos. No. Aquilo era errado. Ela jamais se recostara sobre um homem em sua vida. O que no significava que era errado. S estranho.
Ele foi at a janela e abriu as cortinas, permanecendo l, de costas para ela e com as mos nos quadris, enquanto ela se recompunha. Quando ele se virou, ela estava 
de p, olhando para qualquer lugar, menos para ele.
Sua sala era totalmente convencional - mesa arrumada, cheia de prateleiras, diplomas emoldurados, diagramas do crebro e do sistema nervoso. Sua nica indulgncia 
era a maciez pecaminosa do couro do sof e das cadeiras. Lembrava as botas de Davis.
Uns culos escuros estavam sobre a mesa. Ela pegou-os. Eram do tipo de aviador e extremamente grandes, mas ela no se importou. Tinha de esconder-se atrs de alguma 
coisa, pois se sentia muito exposta.
Davis pendurou seu jaleco e sua gravata em um cabide atrs da porta. Depois, enrolou as mangas para cima e abriu a Porta para Francine.
Oito

Nos momentos mais escuros da vida, at mesmo a menor chama pode iluminar o caminho.
- Grace Dorian, em A Confidente
Sentado em sua pick-up, estacionada em uma espcie de bosque, no final de uma alameda perto da cidade, com as janelas abaixadas, as portas abertas, e a neblina daquele 
fim do dia de vero suavizando a dureza das palavras, Da vis disse a Francine o que ela precisava ouvir. Ela ouviu silenciosamente durante a maior parte do tempo. 
Ele antecipava suas perguntas. Era bvio que j passara por aquilo antes.
E ela tambm... pelo menos demonstrava. Muitos dos conportamentos descritos por ele eram-lhe familiares. Como Grace fora astuta, Francine agora percebia, quando 
lanara as mos para o alto, h vrios meses, afirmando estar com um tdio mortal, passando a tarefa de pagar as contas da casa para Francine, e quando comeava 
a repetir as mesmas perguntas Francine chegara a culpar-se. Raciocinara que, se estivesse realmente controlando bem as coisas, Grace teria que perguntar somente 
uma vez e ponto final.
Surpreendeu-se por conseguir manter-se calma, mesmo
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quando o quadro pintado por Davis apresentava cores escuras. Ou ele possua um efeito calmante sobre ela, ou a injeo que lhe dera era um tranqilizante. E tambm 
falar sobre o problema depois de um perodo de silncio sofrido era um alvio.
- Qual a possibilidade mais terrvel? - perguntou finalmente, sentindo-se suficientemente relaxada para ouvir a resposta.
- Com o tempo, ela poder no reconhecer mais nada nem ningum. Poder ficar impossibilitada de andar ou falar. Poder ficar totalmente dependente de algum para 
fazer at as tarefas mais simples e ntimas.
- Antes disso. Voc mencionou comportamento inadequado. O que acontece de pior nesse caso?
- Gritar e vociferar. Comportamentos imprprios, como tirar a roupa em pblico. Acusar as pessoas de roub-la. Atirar coisas nos outros. Colocar-se em situaes 
de perigo. Ela necessitar de uma vigilncia contnua.
- Como uma criana.
- Sim, como uma criana, na necessidade de ser supervisionada, mas no... no ser absolutamente como uma criana. As crianas crescem. Aprendem. Reagem aos conselhos 
e  disciplina. Grace no far isso. Nos estgios mais avanados, se gritarem com ela isso a tornar mais nervosa. No ser capaz de compreender o que fez de errado, 
para deixar de faz-lo. Sentir o choque de sua raiva sem compreender sua causa e reagir irracionalmente. No ser capaz de controlar seus atos.
Francine olhou pela janela.
- Grace  o prprio controle. Ficar mortificada se o perder dessa forma.
- Quando isso acontecer, ela no saber. E existem remdios para sed-la se se tornar incontrolvel. Cuidar de uma vtima de Alzheimer  um trabalho de amor.
Os olhos de Francine procuraram os dele.
- Eu a amo.
- Eu sei. Mas voc precisar de ajuda.
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- Sophie ajudar. Margaret ajudar.
- Voc precisar de mais do que isso.
- Posso contratar outras pessoas. Colocarei enfermeiras o tempo todo se for necessrio.
Francine tornou a olhar com tristeza para fora da janela para a grama alta. Seu movimento no era o mesmo do gramado dos Dorian. Grace adorava aquele gramado, aquele 
jardim, o ptio, o rio. Era difcil imaginar que chegaria um dia em que ela no teria conhecimento suficiente para continuar amando aquelas coisas. Era difcil imaginar 
que chegaria um momento em que ela deixaria de estar  frente dos acontecimentos a seu redor, ou que no teria um conselho para dar. Difcil imaginar um dia em que 
ela no falasse mais.
Francine ficou novamente desolada.
- O que eu vou fazer? - Chorou, sem perceber que dissera as palavras em voz alta, at o som atingi-la. Repeliu rapidamente, dizendo: - Desculpe, isso no  um problema 
seu.
- Claro que . Eu quero ajudar.  por isso que estou aqui.
- Voc no pode ajudar Grace.
- Posso ajudar voc. J fiz isso antes. - E sorriu com seu sorriso de lado. - A cabea melhorou, no foi?
Ela concordou. A letargia que sentia podia estar relacionada tanto com o peso da discusso quanto com os efeitos de sua enxaqueca, mas pelo menos a dor e a nusea 
tinham passado.
- O que a preocupa mais? - ele perguntou. Ela no precisou pensar muito.
- Perder Grace. Ela tem sido a nica fora em minha vida. Nem consigo mencionar o que ela representa para mim.
- Tente - ele insistiu gentilmente.
Ela lanou um olhar de tristeza para o teto, suspirou e disse, com desalento:
- Por onde comear? Pode ser pelo caf da manh, que por ordem de Grace, sempre tem bolinhos feitos em casa, depois o almoo, o ch e o jantar, todos esses pequenos 
rituais de Grace. Depois vm os feriados, aniversrios, festas, todos orquestrados
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por Grace, e tendo Grace no centro de tudo, com o ouvido atento e todo o seu tempo, sempre com o seu tempo, para as pessoas a sua volta. Existem os padres estabelecidos 
por ela. E a casa, ptios, os funcionrios. E A Confidente. - Virou seus olhos tristes para Davis. - A Confidente  um membro da famlia. O que acontecer com ela?
Davis analisou seu semblante.
Voc ter que pensar sobre isso. Grace poder ter sugestes. Pergunte a ela.
Enquanto puder. Ele no disse isso, mas ela ouviu. Ela tambm ouviu o que Grace dissera naquela manh: - Temos que fazer planos. - Grace fora mais rpida em seu 
raciocnio do que Francine, mas isso no era novidade.
Sentia vontade de gritar. Por que ns? Por que isto? Por que agora?
A expresso de Davis era gentil, mas havia ainda aquelas outras coisas: a sombra da barba, a cicatriz acima da sobrancelha, os cabelos que no estavam somente despenteados, 
mas agora tambm manchados pelo sol de vero, sem mencionar o que Padre Jim dissera - o que sugeria uma herana mais rude, pensamento que provocou um sentimento 
de culpa em Francine. Grace chamara-a de mimada. Perguntou-se se Davis pensaria o mesmo. Ela olhou as prprias mos.
- No deveria queixar-me. Pelo menos no preciso preocupar-me com dinheiro. Muitos de seus pacientes possivelmente tm essa preocupao.
Eles tm outras coisas que voc no tem, como famlias enormes que vivem com eles e podem ajudar, carreiras que podem bandonar quando quiserem, expectativas menos 
ambiciosas. No minimize a sensao de perda que sente, Francine.  to vlida para voc quanto o  para eles. Tudo  relativo. Como a idade. Minha me morreu quando 
eu era muito pequeno e eu mal a conheci. Voc teve Grace todos estes anos. Suas vidas so fortemente ligadas. Qual  a tragdia maior? Eu no sei.
Francine tambm no. Pensou no assunto enquanto o silncio estabelecia-se na cabine da caminhonete. Tentou imaginar o
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que sentiria agora, se ela e Grace no fossem to prximas. Sim, estaria desolada. Mas sentiria aquela sensao de perda iminente se tivesse uma carreira independente 
da de Grace, uma vida independente da de Grace?
Permaneceram sentados por mais algum tempo, escutando os rudos da campina, antes de Davis lev-la de volta ao hospital. Ele estacionou ao lado do carro de Francine, 
segurou sua mo e ajudou-a. Ela no teve outra escolha a no ser escorregar sob o volante at chegar ao cho, do lado dele.
Olhou para seu carro e depois para Davis. Iluminado por trs, parecia um moleque cercado por um halo, uma imagem paradoxal, se existisse uma assim. Ele tornara-se 
realidade para ela naquele dia.
Francine sentiu uma necessidade urgente de ser abraada.
A voz dele era um sussurro.
- Continuamos da mesma maneira que antes. No posso tomar a iniciativa.
Porm, seus braos abriram-se ligeiramente, o que representou todo o convite de que Francine necessitava. Ela abraou a cintura dele, enterrou o rosto contra sua 
garganta e sentiu uma calma enorme envolvendo-a. No se importava com as consideraes ticas que teriam causado sua hesitao. Ele possua o tamanho e a forma perfeitos 
para uma pessoa encostar.
Ele deve ter concordado, pelo menos sobre as consideraes ticas, pois seus braos fecharam-se em torno dela. Seu hlito tocou a tmpora de Francine.
- Voc no me odeia mais?
Ela riu contra sua garganta.
- Eu fui muito boba.
- Estava nervosa.
- Estava mope. Grace diz que eu sou, e ela tem razo.
- Voc sente as coisas apaixonadamente.  um sinal de fora. Voc  perfeita, Frannie.
Sentir as coisas apaixonadamente. Ela acreditava que sim. Com certeza era como se sentia quando mais jovem. Mas o tempo abafara tudo isso. O tempo e Grace.
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- Por que me chamou de Frannie?
- No sei. Mas me pareceu adequado.
- Eu sempre odiei esse nome.
- Por qu?
- Parece bobo.
- No  bobo.  suave.
- Estpido.
- Mas voc no  estpida. Voc  muito esperta. Vai se sair bem.
Ela inalou-o. Ele cheirava a terra, a homem, a ousadia.
- Como pode dizer isso? Voc mal me conhece.
-Ei. Eu vi voc dar uma trombada em uma porta. Qualquer mulher que pode fazer isso e em seguida recompor-se e sair com o tipo de dignidade que voc demonstrou, vai 
conseguir tudo.
Ela sorriu.
- Parece que essa imagem est permanentemente em sua mente.
- Pode apostar que sim.
Ela suspirou. Afastou-se, com relutncia.
- Voltando a nossa conversa, preciso ver Grace.
- Voc me d notcias?
Ela fez um sinal de assentimento, murmurou: - Obrigada - e voltou rapidamente para seu carro antes que ele pudesse ver que por trs de seus enormes culos de aviador 
seus olhos estavam midos novamente.
Grace estava sozinha na saleta, tomando seu ch. Da porta, Francine sentiu o corao apertado. A mulher amada por bilhes de pessoas estava s.
Naquele instante, sentiu por Grace como nunca sentira antes - como sua me, sim, mas tambm como amiga e ser humano, como algum que era vulnervel, como algum 
que sofria.
Ento, Grace levantou os olhos e viu-a, e surgiu outra onda de novos sentimentos. Francine sentiu medo. E no conseguiu suportar.
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Cruzando rapidamente o espao que as separava, Francine passou os braos em volta de sua me.
- Desculpe, mame. Tenho sido mope, egosta e todas as outras coisas de que voc me chama. Voc tinha razo. Voc sempre tem razo.
Imaginou que Grace suspirara. Sua mo delicada fechou-se sobre seu brao.
- Estarei aqui - Francine continuou. - Farei o que tiver de ser feito.  s dizer e eu farei. - Afastou-se. Seu corao encolheu-se quando viu os olhos de Grace. 
As lgrimas que viu eram outra coisa nova para ela.
- Estou com medo - Grace sussurrou. Francine concordou e sussurrou de volta:
- Eu tambm.
- No quero que riam de mim.
- Ningum far isso.
- Eu no quero... - Parou, franziu a sobrancelha, parecia estar buscando o pensamento. Quando no conseguiu encontrar a palavra que procurava, olhou para Francine, 
frustrada.
Francine tentava descobrir outra palavra adequada para oferecer, quando a expresso de Grace mudou. Tornou-se esperanosa, quase inocente, sua voz mais leve.
- Bem, uma palavra ou outra no importa, e de qualquer maneira voc chegou na hora do ch. Padre Jim no pde vir hoje. Talvez o ch tenha esfriado. Margaret? Margaret!
-Mame?-Sophie estava  porta, muito plida e insegura. Francine tocou suavemente no ombro de Grace, depois foi at a filha e tomou seu rosto entre as mos.
- Jamais - disse em um sussurro ansioso - jamais, est ouvindo? Jamais diga que eu no preciso de voc. Sempre precisei, muito mais do que voc imagina. E preciso 
agora, mais do que nunca.
- Onde voc estava? Eu fiquei com medo. Comecei a imaginar a minha vida sem vocs duas...
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Francine impediu que ela continuasse com um movimento de mo. Sacudiu a cabea levemente. O sofrimento de Grace poderia ser uma lio sobre a mortalidade, mas a 
mortalidade no poderia governar suas vidas. Passou os braos pelo pescoo de Sophie e abraava-a apertado, saboreando sua preciosidade, quando viu Padre Jim.
No se surpreendeu. Ele estava sempre presente quando as Dorian necessitavam.
Esticou a mo e puxou-o para dentro.
- Grace disse que voc no poderia vir. Ele pareceu preocupado.
- No podia. Mas tive um pressentimento. - Olhou por cima delas para Grace, que estava com os olhos fixos nele, demonstrando outra expresso nova. Necessidade sofrida. 
Era a nica maneira como Francine poderia descrev-la. Necessidade sofrida. Dirigida ao Padre Jim.
Ele foi at ela, ajoelhou-se junto de sua cadeira e apertou-a em seus braos.
Francine tentava ajustar-se quela viso quando ouviu sons que se cravaram em seu peito. Abafados, sugeriam incerteza e medo e significavam, talvez mais violentamente 
do que o resto dos acontecimentos do dia, que a vida mudara.
Grace estava chorando.
Eu fiz uma lista - Grace disse na manh seguinte. - Precisamos verific-la.
Francine estava  sua mesa, acalentando uma xcara de caf
uma sensao de deslocamento. Tudo em torno dela parecia igual. Grace com certeza era a mesma. Parecia to segura de si como sempre. A vulnerabilidade do dia anterior 
poderia nunca ter acontecido.
Como teria sido fcil fingir s por mais algum tempo. Mas era Perigoso. Ela sabia disso agora. No que estivesse pronta Para a lista de Grace. Aceitar a verdade 
era uma coisa; agir em Cima dela, outra muito diferente.
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- Quer chamar Sophie? - Grace pediu. - Quero que esteja aqui. Ela tambm faz parte disto.
Sophie ainda estava dormindo, desta vez com uma boa causa. Ela e Francine conversaram at tarde. Francine teria deixado que dormisse, se no fosse por Grace. Mas 
Grace era a prioridade nmero um. Seus pensamentos eram uma espcie em extino.
Sophie parecia concordar, porque se juntou a elas logo depois, usando um vestido de vero convencional e sandlias, e um nico par de brincos. Mantinha o polegar 
fechado entre os outros dedos, com o indicador esfregando a cutcula. Aquele gesto era uma relquia de sua infncia. Francine no o via h anos.
Esperava que Grace no visse. Era o tipo de coisa que Grace odiava.
Mas Grace estava obcecada com sua lista. Colocou-a sobre a mesa, encarando Francine.
- Est tudo aqui. Leia em voz alta, por favor. Se eu comear a falar sobre outra coisa, traga-me de volta.
Francine leu: "Nmero um. Francine torna-se A Confidente." - Levantou os olhos, assustada. - Para sempre?
- Bem, at ficar velha demais ou doente. Pensou que ela fosse acabar comigo?
No. No pensara. S que no prestara muita ateno aos detalhes. Grace sempre fora jovem demais, enrgica demais, e sempre capaz de dar a idia de que duraria muitos 
e muitos anos.
- Voc j a est fazendo, - Grace disse - e eu no posso mais.
- Faa a coluna dando seus conselhos - Francine insistiu. Grace em A Confidente. Um perodo de transio seria melhor.
Grace sacudiu a cabea.
- Estou trabalhando muito lentamente. Meus pensamentos esto perdidos. Alm disso, preciso escrever meu livro. Portanto eu quero... eu quero... - Franziu a testa, 
sacudiu a mo, parou de falar.
Perturbada com a ausncia da me, Francine voltou sua ateno para a lista.
- "Nmero dois. Meu livro fica pronto." J vimos isto.
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"Nmero trs. Ningum fala nada. A imagem das Dorian permanece intacta." - Francine viu problemas. Recolocou a lista sobre a mesa. - Isso pode ser difcil. As colunas 
so uma coisa. Ningum sabe mesmo se  voc quem as escreve ou no. Mas e quanto ao resto? As conferncias, entrevistas, debates?
Diante do olhar esperanoso que Grace lhe dirigia, sentiu um tremor percorrer-lhe o corpo. Arqueou ambas as sobrancelhas, balanou, apontou para si mesma.
Grace concordou.
- Mas eu no posso. - Francine protestou. - Voc sabe disso. No posso falar diante de grupos. - Apelou para Sophie. - Eu vomito. Fico muito nervosa. S temos mais 
trs compromissos durante o outono. No  tarde demais para cancel-los.
- No - Grace disse.
- Por que no?
- Porque... porque isso no vai... ajudar.
- Ajudar o qu?
Grace pensou durante um minuto, depois disse:
- No meu livro.
- Mas eu no sou voc. Eu fazer as aparies no ajudar em seu livro. - S de pensar naquela possibilidade, seu estmago revirou. - Alm disso, se voc no comparecer 
como A Confidente, as pessoas vo especular, da mesma forma.
Grace bateu na lista.
Francine guardou seus argumentos para mais tarde. Esperou um pouco at recompor-se e depois leu:
- "Nmero quatro. As instrues para o funeral esto com o Padre Jim." Pelo amor de Deus, mame.  um pensamento terrvel;  muito cedo para pensar nisso agora.
-  importante - Grace disse.
- Pensei que tudo tivesse ficado decidido quando papai morreu. - Surgiu uma novidade no enredo da famlia Dorian, uma nova pedra angular fora cravada.
- Existem algumas mudanas. - Grace olhou para a porta, parecendo inquieta. Disse, ento, em voz baixa:
- Eu os ouvi ontem  noite.
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- Ouviu quem?
- Minha famlia.
Francine sentiu outro arrepio. Davis mencionara a possibilidade de alucinaes mas tambm no estava pronta para elas. Levantou uma sobrancelha.
- Ora, mas que coisa fascinante. No so todos que ouvem os mortos.
Grace no piscou.
- Eles estavam na minha saleta, gritando comigo. Eles sempre gritaram. Eu nunca ouvi.
- Seus pais? - Sophie perguntou, parecendo intrigada.
- Eles ainda esto zangados comigo porque sa. Fui para meu quarto, mas ainda podia ouvi-los l fora.
- Pode ter sido s a sua imaginao - Francine sugeriu. J que Grace no discutiu, ela voltou para a lista. Ainda restavam dois itens. O primeiro era "Robert".
- Robert?
-Robert Taft. Quero que voc se case com ele.  um homem muito bom. Vou me sentir melhor se souber que est casada.
Era um pensamento muito antiquado, se se podia cham-lo de pensamento. Francine no acreditava nem por um minuto que precisasse de um homem para sua segurana, sade, 
felicidade, ou qualquer outra coisa; mas, como no estava disposta a discutir, disse simplesmente:
- Essas coisas no podem ser combinadas. Voc j tentou uma vez antes, lembra?
- Quis dizer o que pensava enquanto pudesse.
- Est bem. J disse.
- E Sophie. - Grace apontou para a lista. Francine leu.
- "Sophie." - Ali estava. Francine levantou seus olhos splices para Grace.
- Quero que ela se case tambm. Quero que voc se case tambm, Sophie
Sophie riu.
- Que bom.
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- Quero que algum cuide de voc.
- No preciso de ningum para cuidar de mim.
- Precisa de algum responsvel.
- No estou pretendendo me casar.
- Pois deveria estar.
Francine viu que o rosto de Sophie ficava corado. Mas no era um sinal ameaador. No tinha nada a ver com a diabete e tudo a ver com a raiva, e Francine no a culpava. 
Os homens no eram uma panacia. O casamento no garantia nada. E discutir sobre aquele assunto era uma coisa muito ftil.
Sophie tentou.
- O que me diz de suas colunas, vov, aquelas que dizem aos pais para deixarem seus filhos crescidos tomarem suas prprias decises?
- No sou sua me. Sou sua av. Existe uma diferena. Quero que voc se case com um homem decente, no com Gus.
Sophie olhou como que implorando para sua me, que fazia o possvel para convenc-la de que deveria calar-se, mas Sophie no era desse tipo.
- No acredito - disse. - Ela colocou um nome a? Colocou a hora e o lugar? Existe um dote?
Francine forou-se a dar o sorriso que Sophie teria dado se tivesse mais uns vinte anos de experincia.
- Ela est preocupada, meu bem. S isso. Com ns duas. Que gentil, mame.
Grace lanou-lhe um olhar mal-humorado.
No me proteja, Francine. No gosto de ser protegida Estou fazendo o possvel para aprontar tudo enquanto posso. No admito que riam de mim.
- No estou rindo.
 Mas com certeza no est me levando a srio. E eu estou falando muito srio.
Eu sei.
- No. No sabe. Todas as mes querem ver as filhas protegidas antes de morrer. Se estivesse em meu lugar, estaria
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dizendo as mesmas coisas para Sophie. Meu Deus, s estou tentando ajudar. - Levantou-se furiosa e saiu da sala.
- Ela no est tentando ajudar - Sophie disse, logo depois, ainda incrdula. - Est tentando, da sepultura, governar nossas vidas.
-No da sepultura - Francine reprovou. - Ela ainda no est morta.
- Mas  quase a mesma coisa. Ela est programando nossas vidas pelos anos vindouros, com todas as coisas que ela acredita importantes. Ora, e quanto ao que ns achamos 
importante?
- Pensou nas regras e regulamentos que dominaram sua vida.
- Talvez a gente no queira continuar com A Confidente. Talvez a gente no queira mentir sobre sua sade. Ora essa, que grande ironia. Foi ela quem me convenceu 
a dizer a todos que eu tinha diabete. Seja confiante, ela disse. Levante a cabea, ela disse. E agora est pregando outra coisa muito diferente. Francamente. O que 
voc deve fazer quanto  sua vida matrimonial  assunto seu, no dela. Por falar nisso, o Robert  um chato. Ele pode ser timo no jornal, mas se voc se casasse 
com ele eu ficaria muito desapontada com voc.
- Voc sabe o que eu penso a respeito de Gus - foi a resposta calma de Francine.
- No vou me casar com Gus.
- E ele sabe disso?
- Se no sabe, deveria. Nunca sugeri.
- Os homens costumam tirar suas concluses, principalmente quando existem mulheres ricas envolvidas. D uma pista para ele, querida.
- E estragar uma coisa boa?- Sophie perguntou. Gus era um brinquedo, suficientemente apaixonado por ela para deixla tomar todas as decises. Exceto na cama. Ali, 
ele era macho toda vida. Seu instrumento era de primeira classe e ele sabia como us-lo. No iria livrar-se dele ainda. - Voc quer me ver casada?
- S pelo casamento em si? No. Voc no precisa disso. Se quiser, ento ser uma coisa muito diferente. - Suspirou. - Escute,
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no estou dizendo para fazer o que Grace diz, s para no ficar brigando com ela. Brigar no leva a nada. Ela no pode vencer. Ela insistiu em verificarmos aquela 
lista hoje porque sabe que na prxima semana, no prximo ms ou no prximo ano pode no saber o que ela significa.
Sophie tentava captar a realidade daquilo. Podia odiar aquela Grace mandona, mas no gostava da idia de ver a av reduzida a uma massa ambulante de nada.
Francine acariciou o rosto da filha.
- Ns no estamos em desacordo, voc e eu. Ns duas sabemos que Grace adora mandar. O problema est em como devemos lidar com suas ordens.
- Suas ordens so absurdas - Sophie disse. Quando Francine no respondeu, ela gritou - Voc concorda com elas? Em fazer aparies pblicas? Casar-se com Robert... 
- Cuspiu aquele nome e passou adiante, porque o item sobre o trabalho era mais importante. Afetava sua vida diretamente. - Voc quer continuar com A Confidente?
- Grace  A Confidente - Francine disse, parecendo perdida. - Jamais imaginei essa mudana.
- No gostaria de ser A Confidente?
- Meu Deus, no. Eu desapareo ao lado de Grace. Sophie estava cansada de ouvir aquilo.
- No  verdade. Voc tem coisas que Grace nem poderia comear a ter.
- Bem, mas so as coisas que ela tem e que eu nem poderia comear a ter que fazem A Confidente funcionar.
- O qu, por exemplo?
- O tato. Ela leva todas as cartas a srio. Ela  capaz de dar respostas pacientes at s perguntas mais imbecis. Eu evito essas cartas. Mas elas no so idiotas 
para as pessoas que as escrevem. No tenho a generosidade de Grace.
- Talvez seja uma tentativa inconsciente de sua parte para aperfeioar A Confidente.
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Francine no pareceu impressionar-se com aquela teoria.
- Talvez eu deixe passar aspectos importantes. Grace percebe todos eles. Ela antecipa o que  e o que no  importante. Ela escreve sobre alguma coisa e ento, de 
repente, bum! Essa coisa aparece no noticirio noturno.  como um sexto sentido. Eu no tenho isso.
- Ento o que far com A Confidente?
- Grace quer que continue.
Sophie sentia vontade de sacudir sua me.
- E o que voc quer?
Francine respondeu cuidadosamente.
- Eu amo A Confidente.  parte de mim. E  o legado de Grace.
Era uma resposta afirmativa to ambivalente quanto a reao de Sophie a ela.
Francine estava sentada no cho naquela noite, acariciando as orelhas peludas de Legs, quando o telefone tocou. Seus olhos voaram para o relgio. Eram dez e meia. 
Poucos amigos costumavam tocar to tarde. Seu telefone particular tocava somente em seu quarto.
Lembrou-se de outra noite, de outro telefonema e ousou ter esperana.
- Al? "
- Oi.
Francine sentiu um calor crescer dentro dela.
- Oi, Davis.
- Como vo as coisas?
- Tudo bem.
- E ento?
- Ns conversamos. Grace e eu; Grace, Sophie e eu; Sophie e eu.
- E ajudou?
- Acho que sim. No sei. Estou meio entorpecida. Parece que levei um choque.
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-  um mecanismo de proteo.  muito difcil aceitar a realidade de uma coisa como essa.
- Sempre pensei que fosse realista.
- Grace  sua me. Se existe algum tipo de relacionamento em que as pessoas no podem ser realistas,  esse. As emoes nos dominam e no  de admirar. Pense sobre 
isso. Nove meses no tero, anos de infncia e dependncia mtua...
- Mtua?
- Claro. Os bebs, porque so totalmente dependentes. As mes, porque precisam satisfazer seus instintos maternais.
- Grace nunca foi dependente de mim.
- Ela manteve voc junto dela por toda a vida.
- Eu permaneci junto. Foi vontade minha.
- Tem certeza?
- Claro que tenho certeza.
- O que Grace teria feito se voc tivesse ido para a universidade e nunca mais voltasse para casa?
-  um ponto discutvel. Eu no teria ido. Estava envolvida demais com A Confidente. Grace me deu um papel bem cedo... - Ela percebeu e argumentou sobre esse ponto. 
- Mas no fez isso porque precisava de mim por perto. Ela queria me ter por perto. Existe uma diferena.
- Por que ela no teve outros filhos?
- Eles simplesmente no vieram.
- Ela os queria?
- Deve ter querido. Ela me adorava. Ela adora Sophie.
- E voc? Voc quis ter mais filhos?
- Poderia ter querido, se o casamento continuasse. Mas tambm eu estava ocupada demais com Sophie. Pergunto-me freqentemente como teria sido se tivesse tido mais 
filhos.
- E a que concluso chegou?
- Penso que teria gostado. Poderia ter liberado Sophie mais. Ela sente-se pressionada, por ser a nica neta.
- Pressionada a ficar junto de Grace?
- Junto ao trabalho. Ela tem uma relao de amor e dio com ele. E tambm com Grace.  maravilhosa com ela em um
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minuto e horrvel no seguinte. Mesmo agora. Ela aceita a doena de Grace em determinado nvel, mas a rejeita em outro. Est dividida. Existem momentos em que penso 
que a coisa pior para ela  estar aqui conosco.
- E o que ela acha?
- Quando falamos? Tenho certeza de que ela pensa que no poderia partir agora, num momento em que as coisas andam to confusas.
- No estaro sempre. Um dia iro acalmar-se.
- Meu Deus, espero que sim. Sinto-me inquieta o tempo todo.
- Como est a cabea?
- Perfeita. Como est a casa?
- Para falar a verdade, quente como o inferno. Acabei de tomar um banho de mangueira. Foi maravilhoso.
Francine imaginou um quadro vagamente ertico.
- Onde voc est agora?
- Nos degraus do trailer. Est uma noite linda. Voc correu?
- Claro que corri. Parece que esgotei Legs. Ela est aqui, meio dormindo, com a cabea no meu joelho.
- Que cadela feliz!
Francine lembrou-se da maneira como ele a abraara no estacionamento, na tarde anterior. S o pensamento lhe trouxe uma sensao de calma. Ento, continuou a pensar 
no abrao, sentindo a ligao atravs do fio do telefone, desejando que, s por um instante, ele a abraasse novamente.
Ele era como uma bebida - relaxante, possivelmente viciante, definitivamente alguma coisa que no contaria para Grace.
- Por que o suspiro? - ele perguntou.
- S estou cansada. Foi muito gentil em ligar, Davis. Obrigada.
- No se esquea. Eu estou aqui.
Ela no pretendia esquecer.
Nove

Assim como o sal representa o valor, e as palavras sbias a mente, o acar vence os coraes.
- Grace Dorian, em entrevista para a revista FoodFest
Nas rodas de Chicago, a histria oficial foi a de que Grace teria se ausentado dos olhos do pblico durante o vero. Seu agente engoliu-a, assim como seu editor, 
o editor do jornal e seu agente de publicidade. Seus amigos no foram to maleveis. Acostumados com seu envolvimento nas festividades da estao, comearam a aparecer 
sem ser anunciados, para protestar que ela estaria se transformando em uma hermit. Francine, que passou a estar presente a essas visitas inesperadas, ficou bastante 
gil em cobrir os lapsos e preencher os vcuos. Recusava-se a afastar-se e ver Grace embaraada.
E assim sentiu uma onda de ansiedade quando a campainha da porta tocou, em uma tarde de agosto. Grace acordara de mau humor - acusara Margaret de roubar suas prolas, 
Francine de roubar seus culos e Sophie de roubar sua agenda de endereos, apesar de Sophie estar em Easthampton com amigos - e no Melhorara com o passar do dia. 
Agora, estava subjugada por seus Pensamentos, encolhida  sua mesa.
Mas a discusso produzira efeitos sobre Francine. Ela no escreveu uma palavra durante todo o dia. Quando Tony telefonou,
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ela livrou-se dele. Depois, o ar-condicionado quebrou e ela no conseguiu encontrar o eletricista, Marny ficou doente e teve que sair, e o correio trouxe a notificao 
dos impostos.
Sentiu-se quente, pressionada, definitivamente sem a menor vontade de fazer Grace correr o risco de encontrar-se com seus amigos.
No foi um amigo que tocou a campainha e sim Robin Duffy.
Francine deveria ter adivinhado, com tudo o que acontecia de errado naquele dia.
- Resolvi passar por aqui para dizer um ol - Robin disse alegremente.
- Ol - foi a resposta fria de Francine.
- Na verdade, queria conversar com voc.
- Sobre? - Como se no soubesse.
- Grace.
Francine lembrava-se muito bem da ltima vez em que conversaram sobre Grace, lembrava-se do artigo que se seguira quela conversa e de todo o caos que sobreveio 
depois. Sentiu uma onda de ressentimento.
- Se quer saber o que aconteceu depois do acidente de abril, a resposta  nada. A polcia no encontrou nada de que pudesse acusar Grace.
- Eu sei.
- Sabe? H. No tinha percebido. No houve qualquer nota em seu jornal. Mas parece que estar livre de culpas no  uma grande notcia. - Sua voz tornou-se mais dura. 
- Naturalmente, nunca houve qualquer acusao, a no ser as feitas por voc, e essas foram inventadas desde o princpio. - No estava lidando com Robin do jeito 
que Grace teria feito, mas aquele dia fora muito difcil.
Robin enrijeceu-se.
- No fiz nada que qualquer bom reprter no tivesse feito. Relatei a notcia. E uma investigao fazia parte da notcia.
- Voc no relatou uma notcia - Francine a acusou. - Voc fabricou uma notcia. A polcia no procurava por lcool ou drogas. Nunca mencionaram essas coisas. Voc, 
sim. Eles s disseram
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que haveria uma investigao, o que  uma rotina para qualquer acidente de automvel, devo acrescentar. Voc levantou a dvida.
- No estou aqui por causa do acidente. Francine ficou parada, em silncio, esperando.
- Posso entrar? Aqui fora est quente como o inferno.
- Aqui dentro tambm est quente como o inferno. O arcondicionado no est funcionando. - Saiu para a varanda, fechando a porta atrs de si. - Vou acompanh-la at 
seu carro.
- Esperava ver Grace.
Francine no estava nada simptica.
- No recebemos visitas de surpresa de reprteres.
- Ela est a dentro?
- Trabalhando demais e no quer ser perturbada.
- Escrevendo sua autobiografia.
- Correto.
Aproximaram-se do carro de Robin. Era um Honda pequeno e espalhafatoso, cheio de arranhes de um lado. Francine arqueou a sobrancelha.
- E era voc quem queria saber sobre o acidente de Grace? Robin olhou o carro demonstrando um desagrado sincero.
- Tenho um filho de dezessete anos. s vezes, ele no tem muito juzo. Cheguei ao ponto de preferir que ele arranhe o que j est arranhado a provocar um conserto 
dispendioso. - Houve uma segunda pausa. - Soube que Grace est doente.
Francine poderia ter ficado verdadeiramente condoda de Robin, - Sophie fora terrvel com os carros aos dezessete anos se Robin no tivesse dito a ltima frase.
- Onde foi que ouviu isso? Robin encolheu os ombros.
- Tenho contatos. Nesta poca, no ano passado, ela j teria comparecido a uma dzia de festas. Este ano, a no ser sua prpria festa, ela no compareceu a nenhuma.
Contatos? Francine perguntou-se quais. - Ela resolveu descansar no vero.
- E voltar  cena no prximo outono?
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- Se resolver que sim.
- E ela resolver?
- No sei. No sou Grace.
- Mas s vezes parece ser. Quando telefono para as pessoas perguntando por Grace, todas elas dizem que falaram com voc.
- Essa  a minha funo. Grace no pode ficar falando com todo mundo.
- Nem mesmo com Katia Sloane? Francine sentiu um mal-estar.
- Katia no telefonou com um motivo pelo qual valesse a pena aborrecer Grace. Por que est citando Katia?
- Porque estou interessada em Grace. Ela esteve em um debate e uma conferncia em Chicago no ms passado. Soube que foi horrvel.
- Pois soube errado. Eu estava l.
- Ela foi incoerente.
- No penso assim - Francine disse. No foi incoerente, exatamente. - Se seu co farejador procurava bobagens acadmicas, latiu para a rvore errada. Grace nunca 
pretendeu ser acadmica.
- J a ouvi em debates em que era ela mesma, e onde era realmente muito boa,  sua maneira.
-  sua maneira? - Aquela frase tirou Francine do srio.
- Diga, o que voc tem contra Grace?
- Nada. Eu mal a conheo. Se voc me deixasse entrar para que eu pudesse falar com ela...
- Voc teve quatro horas no ano passado, quatro horas lanando iscas para ela, e depois escreveu um artigo totalmente antiGrace. - O acar vence os coraes, Grace 
dizia, mas Francine fora azeda desde o instante em que Robin aparecera. O mal estava feito. No via por que deveria consertar qualquer coisa.
- Outra parte de minha funo  proteger Grace contra reprteres hostis. No sei qual  o seu problema, mas no quero que volte aqui novamente. No passar por cima 
de mim para ver Grace. No temos mais nada a dizer. - Deu-lhe as costas e dirigiu-se para a casa.
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- Voc est escondendo alguma coisa - Robin gritou.
- E o que seria? - Francine gritou de volta.
- Descobrirei do que se trata. Grace  do pblico. Francine girou, enfurecida.
- Grace  minha me, e voc est em uma propriedade privada. Se a invadir novamente, chamarei a polcia. Eles tambm no ficaram muito emocionados com seu ltimo 
artigo. No gostam de provocadores. - Girou novamente nos calcanhares e retirou-se, cobrindo a entrada, depois os degraus de pedras, com suas longas passadas. S 
parou quando estava dentro, com as portas bem fechadas. Levou algum tempo para acalmar a agitao que sentia.
Mas finalmente acalmou-se, ficando com uma sensao de culpa, como se tivesse feito alguma coisa - tivesse dito alguma coisa, por exemplo - que Grace no teria aprovado 
em absoluto.
Francine saiu de casa s dez horas, com Legs a seu lado. Correra na escurido durante vinte minutos, alcanara sua meta e voltava para casa, quando um veculo aproximou-se 
dela por trs. Era um caminho pequeno, com um motor mais barulhento do que o de um sed e mais macio do que o de um caminho maior. Quando passou por ela e diminuiu 
a marcha, o motorista assobiou como um conquistador barato.
Ela sorriu.
- Obrigada, Davis
- Tentei telefonar, mas voc no estava em casa. Imaginei que estivesse correndo. Como vo as coisas?
Ela sentia-se muito ferida antes de sair de casa, mas a corrida aliviara-lhe a maior parte das preocupaes. E a chegada de Davis cuidara do resto. Havia alguma 
coisa naquela sua voz Profunda.
- Vo bem.
- Como est Grace?
- Nervosa. No foi um de seus melhores dias.
- Quer falar sobre isso?
No era somente sua voz. Era o caminho, seu brao musculoso,
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a escurido. Havia a sugesto de alguma coisa no ar. Ela queria falar sobre Grace?
- No exatamente.
- Quer parar para uma bebida?
- Na ltima vez em que fiz isso, fiquei enjoada quando continuei a correr at em casa.
- S porque no deixou que eu lhe desse uma carona. Desta vez, farei isso. Voc ver. Vai ficar tima.
Francine correu durante mais um minuto, pensando que Davis no era Robert, que ele no era um puro-sangue ou necessariamente um cavalheiro, que havia nele alguma 
coisa noconvencional e que isso a excitava. Depois do dia que tivera, sentia-se agitada.
Diminuindo sua marcha at chegar  caminhada, com a faixa que envolvia seu pulso enxugou o suor que corria pelo rosto e pescoo e levou algum tempo para recuperar 
o flego. Quando isso aconteceu, Davis j estacionara no acostamento e saltara do caminho.
- S tenho uma cerveja light.
- Est gelada? - ela perguntou, tomando depois a lata aberta pelo polegar dele, descobrindo que estava bem gelada. - Hum... est uma delcia. A noite est to quente! 
- Acompanhou-o at a traseira do caminho.
Quando ele arriou a traseira, ela saltou e sentou em cima. Legs sentou-se no cho.
- Est trabalhando na casa?
- Como adivinhou?
Ela olhou para suas botas.
- Elas entregam voc. - Acompanhadas de short e de camiseta, ficavam timas. - Como vai indo?
- Muito bem. Acho que posso mudar-me no inverno.
- Ora. Mas isso  fantstico.
-No estar exatamente terminada. Ainda faltaro alguns detalhes. Mas vou poder tirar meus mveis do depsito e me livrar do trailer. Est ficando claustrofbico.
- O chuveiro...
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- O chuveiro, a cozinha, a sala de estar, o local onde durmo e tudo. Gostaria que voc fosse l para ver.
- Eu nunca estive dentro de um trailer antes. Tenho levado uma vida monasterial.
- Venha ver o trailer e mostro-lhe tambm a casa.
Ela lanou-lhe um olhar.
- Isso  um convite? Ele retribuiu o olhar.
- No estou pressionando,  claro. No ia querer aproveitar-me de voc.
Ela lanou-lhe um olhar e tomou mais um gole.
- Ento, voc  de Tyne Valley. Quando conheceu Padre Jim?
- Ele e meu pai cresceram juntos e eram amigos. Faziam parte do mesmo grupo durante um curto perodo. E era um grupo bem violento.
- O Padre Jim, violento? - Ela no acreditava.
- Era sim. Meu pai jura pelo que acha que vale a pena. - Lanou os olhos para dentro da noite. - Meu velho no  a melhor das autoridades.
- Ele ainda mora l?
- A seu modo.
- E que modo  esse?
- Bbado.
- Oh. - Francine no soube mais o que dizer. Davis sorriu seu sorriso torto na escurido.
- Exato. Oh. Ele no  muito sagaz. Nunca o foi, realmente.
- Ele sempre bebeu?
- Bastante.
- Voc tem mais parentes l?
- Duas irms. Ambas casadas com homens sem perspectivas, no fazem nada, no vo a lugar algum. Tentei fazer com que elas mudassem, mas recusaram-se. O mesmo aconteceu 
com meu pai.
-  porque pensam que o Valley  seu lar?
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- Porque o mundo exterior no . Apegam-se ao que lhes  familiar, mesmo que isso signifique ficar estagnado.
- Tyne Valley  to ruim assim?
- Em uma palavra, .
- Descreva.
Ele lanou-lhe um olhar.
- Nunca esteve l?
- No. Grace no gosta de ir para o norte. Leste, sul ou oeste. Nunca para o norte.
- Engraado. Pensei que ela tambm fosse de Valley. Francine riu.
- Pelo amor de Deus, no, apesar de compreender como voc fez essa ligao, pela amizade dela com Padre Jim. Grace  de uma cidade ao norte do Maine, que foi inundada 
na construo de uma usina hidreltrica.
- Que engraado... - Davis repetiu. Depois de um minuto, parecendo confuso, insistiu - Tem certeza?
- Claro que tenho certeza. Eu saberia de onde veio minha prpria me. - Fez uma pausa. - Conte-me mais sobre voc. J foi casado?
- No.
- Por que no?
- Sou atrado pelas mulheres erradas.
- Que mulheres?
- Inteligentes, clssicas, do tipo que fazem carreira.
- E o que as torna erradas?
- Tm aspiraes que eu no tenho.
- Por exemplo?
- Ganhar milhes.
- E tambm ganhar bebs?
- Exatamente.
- Voc quer ter filhos?
- Muito. Mas tenho que terminar minha casa primeiro.
- Sophie  a melhor coisa que j fiz - Francine brincou. Tomou um gole, colocou a lata gelada sobre a coxa, cruzou os tornozelos. - Ela  o meu legado ao mundo.
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- Voc  o legado de Grace?
- A Confidente  o legado de Grace.
- Grace pensa dessa forma? Francine concordou.
- A Confidente  a representao de uma histria bemsucedida. Ela orgulha-se muito disso.
- Ela orgulha-se de voc.
- No tanto quanto da Confidente.
- Ela alguma vez disse isso?
- No com muitas palavras.
- Com alguma palavra?
- No. Creio que no.
- Pergunte a ela qualquer hora. Voc pode ter uma surpresa.
- Duvido. Alm disso acha que vou arriscar que ela escolha A Confidente em vez de mim?
-J que parece que voc aceitou o pior, o que tem a perder?
Francine julgou que ele tinha razo. Geralmente, ele aparentava ter muita lgica. Mas aquele assunto no envolvia a lgica para ela. Tratava-se de pura emoo.
- Onde conseguiu a cicatriz?
- Qual delas?
- Existe outra? - ela perguntou, olhando para a sobrancelha dele. Ele levantou a camiseta e apontou para um ponto perto de onde comeava seu short. Francine no 
conseguia ver qualquer cicatriz naquele escuro. S via um torso perfeitamente desenhado.
- Ganhei esta em uma briga de faca quando tinha quinze anos - ele disse e para desapontamento de Francine, baixou a camiseta e tocou a sobrancelha. - Esta aqui consegui 
em uma partida de hquei.
- Uma briga de faca. - Ela quis ver a cicatriz novamente.
- Eu fazia parte de um grupo muito violento. Havia um Pessoal rival e...
- Gangue?
- Pessoal, grupo, gangue... estvamos sempre fazendo
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planos uns contra os outros. No tnhamos nada de melhor para fazer com nossas vidas. - Tocou a camiseta no lugar da cicatriz. - Quase morri por causa disto. Fiquei 
no hospital durante uma semana. Foi a pior semana de toda minha vida. Isso sem falar na dor, que era inacreditvel. No recebia medicamentos suficientes e tive de 
ouvir conselhos constantes. O diretor do colgio, o chefe de polcia, metade de seu departamento, todos me conheciam de encontros anteriores, o funcionrio local 
da condicional, uma assistente social, todos esses cretinos agarraram-se a meu caso, dizendo-me o que iria acontecer comigo se eu no ficasse mais esperto. Ento 
surgiu o Padre Jim. At hoje, no sei quem o chamou. Possivelmente meu velho, mas se eu soubesse disso na poca teria cado fora.
- O que ele disse?
- Disse que no iria repetir o que os outros disseram, porque eles estavam certos, e se eu ainda no soubesse disso ele dizer de novo no faria muita diferena. 
Prometeu que se eu me esforasse ele me ajudaria a ficar de fora.
- E foi a que o hquei comeou?
- No. Eu j jogava hquei no lago da cidade h anos. Era comum naquele territrio, j que cresci no norte. No que o tipo de hquei que eu jogava fosse civilizado. 
Fazamos nossas prprias regras, e quanto mais violentas, melhores. No sabia nada sobre o jogo tradicional, mas sabia patinar muito bem. Precisei de um pouco de 
treino antes de poder entrar em um time, mas consegui. Padre Jim chamou a ateno para mim, depois conseguiu as bolsas de estudo.
- Por que medicina?
Ele olhou-a diretamente nos olhos.
- Porque me parecia que era a carreira mais difcil, com menos possibilidades para mim. Se eu falhasse, poderia olhar para meus benfeitores e dizer: "Viram? Estavam 
errados." Se vencesse, conseguiria uma coisa realmente grande. E nunca tive nada de grande quando era criana.
- E voc voltou l?
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- Uma ou duas vezes por ano.
- Para ver sua famlia?
- . Costumo mandar dinheiro. Acho que no  bem gasto. Talvez devesse fazer o que Grace faz e deixar que a Igreja ficasse com ele. - Fez uma pausa. - Tem certeza 
de que ela no  de Tyne Valley?
- Absoluta.
- , parece que entendi mal alguma coisa. Uma cidadezinha no Maine, hein? Fale-me sobre a infncia dela.
Francine sacudiu a cabea.
- Fale-me sobre a sua infncia - pediu ele.
- No quero falar sobre Grace.
- Entrelaadas?
- Muito.
- Mesmo durante seu casamento?
Francine concordou.
- Lee decidiu que no agentaria mais aquela situao, na mesma poca em que decidi que no poderia ficar com ele, e conseqentemente partimos para lados diferentes.
- Voc no usa o nome dele. E Sophie?
- No. Ela mudou seu nome legalmente para Dorian.
- E como Lee sentiu-se a esse respeito?
- Ele viu a coisa como uma formalizao do que j existia. Ele no era um lutador. - Pensou um pouco no assunto. - Talvez, se tivesse sido, ainda estivssemos casados. 
Ele  um bom sujeito.
- Sophie v o pai com freqncia?
- Na verdade, sim. Ele mora em Manhattan e dirige os negcios da famlia. - Lanou um olhar malicioso para Davis. - Todo o seu dinheiro est em fraldas descartveis.
- Encantador - Davis disse.
- Foi um grande negcio. Primeiro, s havia um tipo para bebs. Depois, dois tipos. Depois, seis tipos. Depois, calas para exerccios. Depois, fraldas para adultos. 
E parece que esto crescendo agora, com tantas pessoas vivendo mais e perdendo o controle. - Parou de falar para pensar naqueles adultos para
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quem os produtos de Lee eram destinados. Os pacientes do mal de Alzheimer no ltimo estgio estavam entre eles.
Ela deve ter tido alguma reao, porque Davis colocou a mo sobre seu brao e disse gentilmente:
- Francine...
- No quero falar sobre Grace. - Teria que viver cada dia, no podia ficar agonizando sobre o que aconteceria mais adiante.
- Muito bem - a voz dele tomou uma profundidade diferente. - Falemos sobre orgasmos, j que Grace no o fez.
- Orgasmos - ela riu. Davis no era tmido com as palavras. Restava saber se ele ficava nas palavras. Seu corpo era para a ao. Sua atitude era para a ao. Ela 
imaginava que ele deveria ser fenomenal na cama. Suas entranhas agitaram-se quele pensamento.
- Voc gosta?
- O que... - ela pigarreou - ...o que h neles para no gostar?
- A perda de controle. Algumas mulheres odeiam.
- Mas os orgasmos so isso.
- Voc gosta mesmo?
Francine sabia que estava corada, sentia o calor em seu rosto.
- At perder o controle. Ento, as sensaes tomam conta de mim.
- Voc  uma pessoa de orgasmos mltiplos?
- Pode ser. Depende do homem. E voc?  do tipo rapidinho?
- No. Gosto do sexo lento, longo e profundo.
Por um instante, ela ficou com falta de ar. Depois, conseguiu recuperar o flego, riu e cobriu o rosto com a mo.
- Isso  demais.
- Voc perguntou.
Ela sacudiu a cabea, murmurando:
- Lento, longo e profundo. - Ento, perguntando-se se ele estava blefando, disse: -  assim que voc beija tambm?
- Pode ser. Depende da mulher.
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Ela olhou para seu rosto sombreado atravs da noite e esperou. Quando ele simplesmente olhou-a de volta, ela desafiou:
- Voc jamais teria a coragem.
Durante o silncio que se seguiu, ouvia-se o ar passando em volta deles. Ento, com uma voz rouca, ele perguntou:
-  um desafio?
Ela continuou olhando para ele. Oh, sim,  um desafio. Ele puxara aquele tpico; e ela queria que ele continuasse. Havia um fogo dentro de Francine que ela no sentia 
h muito tempo. E era gostoso.
- E quanto  cadela?
- No ficar traumatizada.
- Ela me morder?
- No. Ela conhece seu cheiro. - Era um odor de terra, de sade, de homem.
Ele depositou a bebida no cho e continuou sentado.
- Consideraes ticas? - Ela provocou-o novamente.
Ela mal teve tempo de respirar quando ele lhe tomou o rosto com a grande mo. Sua boca cobriu a dela por completo, com seus lbios firmemente acariciantes, com ligeiras 
mordidas at que ela se abrisse para ele, e ento sua lngua comeou seu caminho lento, longo e profundo que dizia que ela era a mulher que o aceitaria - e quando 
percebeu que aceitou continuou encantada. Francine suspeitara de que Davis beijasse como um marginal, mas no adivinhara como isso poderia ser excitante. Uma espcie 
de fagulha eltrica estalou dentro dela, uma coisa selvagem e exigente, que combinava com o que havia de selvagem e exigente nele. Naquele momento, era ele quem 
provocava, mas ela reagia  altura, dando tudo o que tinha de bom, parecendo nunca receber o suficiente. Tocava seu rosto sombreado, seu pescoo, seu peito, subitamente 
faminta, subitamente desesperada por aquela bno que fazia o corao disparar, o corpo ferver.
Davis descolou a boca da dela s durante o momento em que descia do caminho. Em seguida, estava aninhado entre suas pernas, beijando-a novamente de uma maneira 
que confundia
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sua mente, mexia com seu ventre, fazendo com que ela agarrasse o pescoo dele e depois, precisando de mais, acariciasse seu peito e agarrasse seus quadris. Os joelhos 
dela passaram em torno de sua cintura. Com as mos sobre suas ndegas, ele aproximou Francine de seu corpo.
Davis sussurrou alguma coisa sexy contra sua boca que a agitou ainda mais e em seguida acariciou seus seios, levantando-os o mximo possvel at sua boca, para quando 
esta estivesse livre. Quando seus dedos esfregaram os mamilos de Francine, ela sentiu um arrepio que ia at seu ventre. E gritou de prazer.
Mas, to repentinamente como comeara, a fria amorosa chegou ao fim. A boca de Davis estava contra a testa de Francine, com a respirao alterada.
-  melhor pararmos.
Ela no precisou perguntar por qu. Sua ereo era impressionante e sem dvida alguma, penosa. Uma parte dela teria rapidamente se livrado de seu short e aliviado 
o rapaz. Ela tambm precisava de alvio.
A outra parte sabia que no era uma atitude inteligente.
- Foi assim que engravidei de Sophie.
- Contra um caminho?
- Em um cinema. - Quando ele emitiu um som de descrena, ela disse: - ramos os nicos sentados no balco. E eu no gostei do filme.
- Voc disse que ele era um boboca.
- Tambm disse que o sexo era timo, mas ele nunca me beijou como voc o fez. - Ela afirmou em voz baixa e levantou os lbios para receber outro beijo.
Dessa vez, o beijo foi ainda mais lento, mais longo e mais profundo, e ainda apresentava um novo aspecto que ela s poderia chamar de ternura. E, inacreditavelmente, 
foi ainda mais poderoso do que o ltimo.
Ela escorregou suas mos entre as dele, baixando-as para o ponto onde seus corpos estavam mais tensos.
Ele segurou-as e trouxe-as de volta para cima.
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- No tenho nada aqui comigo - sussurrou contra sua boca.
- E me teria se tivesse? - sussurrou ela de volta
- Aqui mesmo, agora mesmo.
Que era quando e onde ela desejava ser tomada. -
- Talvez seja velha demais para preocupar-me.
Ele emitiu um rudo que demonstrava o que pensava sobre aquela teoria.
Ela perguntava-se se engravidaria com a mesma facilidade como engravidara de Sophie, se uma gravidez seria um pesadelo em sua idade, se teria pacincia para ter 
um beb.
Teria.
S que no teria um.
Ela suspirou agitadamente, voltou a sentar-se no caminho e descansou a testa no peito de Davis.
- Tudo bem assim. Isso s seria outra complicao em uma vida j complicada.
- Talvez voc precise de uma vlvula de escape.
- No precisei at agora. - Sim, sentia-se solitria  noite. Sim, sentia falta de um bom sexo. Mas nunca partira para ter aventuras. No com Sophie por perto. No 
com Grace por perto. Grace ficara bastante escandalizada quando ela ficara grvida de Sophie. Grace morreria se alguma coisa acontecesse agora, especialmente com 
algum de Tyne Valley.
Francine pensou no que Davis fora um dia e no que se transformara. Olhou para ele. Mesmo no escuro, seus olhos eram ardentes. Estaria domesticado? Isso seria muito 
difcil.
- Voc  um homem perigoso.
- S quando provocado. E ento? Quando  que voc vem conhecer minha casa?
- Quando quer que eu v?
- Agora.
Ela encolheu-se.
- Isso seria procurar confuso. Alm disso, preciso de meu sono de beleza.
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- Ento amanh.
- Tenho trabalho.
- Amanh  noite.
- Existe alguma razo para essa pressa sbita? - ela perguntou, sabendo exatamente qual seria a resposta.
- Isso no  verdade - ele protestou. - Eu nem tenho uma cama l.
- Isso no vai impedir-nos.
- Prometo que no farei nada que voc no queira.
- No sei o que quero. Eu quero, mas no devo.
- Sem sexo, ento. O que me diz disso? Ela suspirou.
- Eu no sei, Davis. Alguma coisa acontece quando estamos juntos. - Legs acariciou o joelho da dona. Ela tocou a cabea da cadela. - Temos que ir.
Davis afastou-se.
- Prometi levar voc para casa.
Francine no discutiu com ele. Ele deixou-a no final da entrada com um ligeiro toque em seu queixo. Enquanto Legs saiu correndo na frente, ela caminhou lentamente 
para casa, depois sentou-se nos degraus de entrada da casa durante um tempo, em seguida foi para sua cama, onde se sentou no escuro por mais algum tempo.
Demorou bastante para pegar no sono. A ltima coisa que passou por sua mente antes de dormir foi Davis. E a primeira coisa que passou por sua mente quando acordou 
foi Davis.
E foi por isso que, quando a hora pareceu-lhe razovel, ela telefonou para Robert Taft.
Dois dias depois, Francine recebeu uma carta. Estava escrita  mo, com uma caligrafia primorosa, em um tipo de papel fino que Grace adorava. O endereo do remetente 
no era o do escritrio de um jornal, mas uma cidade que ficava a meio caminho entre os Dorian e Manhattan. Curiosa, Francine olhou a segunda folha para ver de quem 
vinha. Quando viu o nome de
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Robin Duffy, quase jogou a carta, sem ler, na lata de lixo. Mas a apresentao era distinta, muito mais do que Francine poderia imaginar que Robin pudesse ser. Ficou 
intrigada.
Querida Francine,
Imagino que seu primeiro impulso seja jogar essa carta fora sem l-la e no a culpo. Aproximei-me de voc de maneira errada. Peo desculpas. Tentei telefonar antes. 
Apareci a sua porta outro dia, mas tive medo de que voc no me recebesse. Ento resolvi arriscar, e parece que fiz tudo errado.
Imagino que seu segundo impulso, ao receber essa carta, seja perguntar porque uma reprter em particular esteja obcecada por sua me.
Francine sorriu. Perguntava-se isso, realmente.
Obcecada pode ser uma palavra forte, mas tenho mesmo mais interesse em Grace do que qualquer outro reprter. Minha me adorava-a. Abria o jornal diariamente procurando 
A Confidente. Dificilmente se passava um dia sem que ela mencionasse a coluna para o meu irmo e para mim. Dificilmente se passava uma semana sem que uma dessas 
colunas fosse colocada na porta da geladeira. Minha me pensava que o sol nascia e se punha sobre Grace. Via Grace todas as vezes em que ela aparecia na televiso. 
Chegou a escrever-lhe uma vez, e recebeu uma cartinha encantadora como resposta. No sou capaz de dizer-lhe quantas vezes ela leu e releu essa carta. No sei onde 
Grace encontrou tempo para escrev-la, mas ela causou grande alegria  minha me.
Francine imaginou que ou Robin estava sendo deliberadamente educada ou era inocente o bastante para no saber que Grace no escrevera aquela carta. Grace com certeza 
no poderia responder a todas as cartas que recebia.
Minha me morreu no ano passado. Leu A confidente at o final. A coluna fazia com que pensasse sobre as coisas da vida diria. Mesmo
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quando no conseguia relacionar-se com o assunto, sentia que estava tendo uma viso do que acontecia no ps. Jurava que a coluna de Grace contava-lhe mais sobre 
os sentimentos das pessoas do que qualquer noticirio.
Francine jamais pensara em A Confidente naqueles termos mas gostou do que leu. Robin escrevia lindamente.
Eu discordava de minha me em muitas coisas. Apesar de sua crena de que Grace escrevia um evangelho, nem sempre seguia seus ensinamentos. Muitas vezes ela apresentava 
um padro duplo - um rgido, baseado nos pensamentos de Grace, que aplicava a meu irmo e a mim, e um mais condescendente, que aplicava a si mesma. Parecia capaz 
de utilizar os conselhos de Grace da maneira que melhor servisse s suas necessidades.
Nesse momento, Francine ouviu um sino interior familiar e sentiu uma afinidade sbita e inesperada com Robin.
H algum tempo, por exemplo, meu irmo anunciou que era gay. Grace abordava esse assunto muitas vezes, aconselhando aceitao e amor. E tantas vezes quanto consigo 
lembrar-me recordei esse fato para minha me, mas ela no conseguiu aceitar. Para ela, a aceitao e o amor deveriam vir de ns, assim como deveramos acatar sua 
verso ao que ela considerava normal, e am-la apesar disso. Ela e meu irmo tornaram-se estranhos durante os ltimos anos de sua vida. E ele ainda vive com a culpa 
de t-la desapontado.
Grace seria to manipuladora? No. Ela no teria agido com tanta crueldade quanto a me de Robin. Dizer  sua filha de quarenta e trs anos com quem deveria se casar 
era ser manipuladora? No. As circunstncias eram extremas.
Francine pensou em Robert, com quem jantaria na noite de sbado, e em Davis, com quem no conseguia ficar sozinha em um quarto. Quando ambos os pensamentos pareceram-lhe 
errados, voltou  carta de Robin.
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Portanto, meu interesse em Grace tem razes profundas. Ela faz parte da minha vida da mesma forma que da vida de milhes de leitores. Tenho a felicidade de poder 
contar a esses leitores mais sobre Grace do que podeiriam saber de outra forma.
Um pedido final de desculpas. Se e a ofendi com a cobertura que fiz do acidente de automvel sofrido por Grace em abril passado, sinto muito. Pensei estar dando 
uma notcia. Se isso serve de consolo, o jornal recebeu vrios telefonemas protestando contra o meu artigo. Meu editor no ficou mais feliz comigo do que voc.
Compreendo que no me queira em sua casa. Mas de qualquer maneira gostaria sinceramente de encontrar-me comvoc em outro lugar, talvez par aum almoo, em um local 
neltro. Grace prega a comumnicao. Deveramos conversar.
Meu sonho  ser a reprter mais informada sobre fatos relacionados com Grace. No tenho certeza se desejo isso por minha me ou por mim mesma, mas em qualquer dos 
casos a minha histria com A Confidente torna-me a candidata perfeita. Por favor, leve isso em considerao. Talvez eu possa ajudar.
Coloco o endereo de minha casa, meu telefone e o nmero de fax abaixo. Espero ter notcias suas.
Sinceramente, Robin Dufffi
Francine sentiu-se to dividida com relao quela carta quanto se sentia sobre tudo o mais em sua vida no momento. Vindo como veio, de uma mulher inteligente, era 
uma das cartas mais simpticas que j lera. Vindo de uma mulher que possua o poder de construir ou destruir Grace, era apavorante.
A nica coisa que Francine sabia com certeza era que, como as coisas estavam complicadas no momento, no ousaria aceitar a oferta de Robin.
Dez
Apesar de o mundo ter se tornado to moderno, a tradio sempre ser a base da vida familiar.
- Grace Dorian, em A Confidente
Durante os meses seguintes, Francine enfrentou uma rotina rdua, correndo muito e chegando a lugar nenhum. Fez vrias viagens-juntando colunas ao ponto de fazer 
com que Tony perguntasse se Grace estava doente, sendo apanhada em mentiras sobre por que Grace no poderia comparecer a um talk show ou a um seminrio. As perguntas 
sobre Grace a faziam ficar com raiva.
Depois de passar o Dia do Trabalho em uma solido que era atpica de Grace, a curiosidade cresceu. Reprteres surgiam de toda parte do pas querendo entrevistas. 
Annie Diehl ficou soterrada por pedidos de reunies. Amigos imploravam para almoar com ela. Havia montes de telefonemas de Tony, de Katia, de Amanda, de George, 
dos editores da maioria dos jornais. A Confidente apareceu em mais jornais do que Francine pde darse ao trabalho de contar, todos preocupados com Grace. Alm do 
mais, o trabalho era um pesadelo. O que costumava levar dois dias para Grace tomava cinco de Francine, o que significava
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que um dia improdutivo atrasava-a muito. Tony jogaria sobre ela sua impacincia, muito mais do que ela poderia suportar.
Ao mesmo tempo, havia demasiadas discusses com Sophie. Em determinado momento, quando se sentiu muito exasperada, Francine lanou as mos para o alto.
- O que est acontecendo aqui? Devamos estar nos apoiando uma  outra e no nos causando mais sofrimento. Por que estamos discutindo?
- Estamos discutindo porque voc est agindo de modo ridculo - Sophie declarou. - No h nada de errado em afastar as perguntas sobre etiqueta. Elas perturbam voc 
at as lgrimas. Elas perturbam-me at as lgrimas.
Uma parte de Francine concordava com Sophie. A outra parte dizia:
- Grace sempre respondia a elas.
- Mas ns no somos Grace. Muito bem, posso enfrentar certos tipos de etiqueta: comportamentos em geral, assuntos politicamente corretos. Mas o que fazer com sua 
faca suja quando a empregada a entrega de volta para ser usada mais tarde na refeio? Francamente.
- Grace teria respondido - Francine insistia.
- Ento, responda.
- Mas odeio ter que responder.
- Eu sei, e  por isso que discutimos, mame. Eu digo que se voc odeia uma coisa no deve faz-la. Voc diz que mesmo odiando uma coisa voc tem que faz-la por 
Grace. Mas voc no  Grace e eu no sou Grace, e, em determinado momento, j que ela lavou as mos d'A Confidente, temos que pegar o leme. Grace no pode dar-lhe 
assistncia prtica. No consegue mais lembrar-se com qual assunto lidamos de uma semana pra outra. Ela nem se lembra de ns.
- Mas  claro que sim.
- De nossos rostos, sim, mas est completamente preocupada consigo mesma e com seu trabalho. Quando foi a ltima
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vez em que ela lhe perguntou como estava se sentindo ou como o seu trabalho ia? - Seu tom mudou de petulante para ferido. - Eu deveria estar agradecida, certo? Sempre 
odiei quando ela perguntava sobre minha sade, porque sempre sabia o que deveria fazer, e eu no fazia. Mas ela no pensa mais sobre isso.  como se no ligasse. 
Acho que ela nem sabe mais quando  meu aniversrio.
A ltima frase saiu de forma tmida e fez Francine duvidar que a maturidade de Sophie j fosse um fato garantido. Olhando agora para ela, to bonita, jovem e apreensiva, 
Francine viu como ela ainda era jovem.
- Grace vai lembrar-se de seu aniversrio - disse, e jurou que faria com que isso acontecesse.
- Ela no vai querer sair. Mas sempre samos. O almoo no Pierre  uma tradio no Dia de Ao de Graas e no Natal. Comemoramos meu aniversrio l desde quando 
eu tinha trs anos.
A tradio era a base da vida familiar, Grace sempre dissera. Francine desejava que ela tivesse dito alguma coisa sobre o que fazer quando os elementos dessa base 
mudassem.
- Eu gostaria muito de ir - Sophie implorou. - Seria to bom para Grace.
Francine no tinha muita certeza disso. Grace desejava agora a privacidade. Desejava a vida familiar. To familiar quanto o Pierre era depois de todos aqueles anos, 
Manhattan era um monstro mutante.
Mas Sophie tambm tinha suas necessidades, e comemorar seu aniversrio era uma necessidade muito importante para ela. Ento, Francine jurou que iria tentar.
- Se ela no gostar da idia, poderemos tentar outra coisa. Ou voc e eu vamos sozinhas.
- Ser que Grace no pode tentar um dia, por mim? Ns temos nos rebentado trabalhando para ela. Freqentemente fazemos coisas que no queremos fazer. Por que ela 
no pode fazer o mesmo, uma vez ou outra?
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- Porque o problema dela no  racional - Francine disse, e sentiu-se uma grande traidora enfrentando o olhar dolorido de Sophie.
Ento, a criana vulnervel endureceu-se.
- Isto no tem a ver com o problema dela. Ela sempre foi assim. Grace vem em primeiro lugar e ponto final. E  por isso - ela anunciou ostensivamente - que ns discutimos. 
Grace ou est ou no est conosco. Voc diz que ela est; eu digo que no. Voc diz que temos que ser compreensivas; eu digo que ela est jogando com nossa compreenso. 
Voc diz que ela  vital para tudo o que fazemos; eu digo que podemos ficar muito bem sozinhas.
Francine surpreendia-se muito com o fato de, apesar de ser a primeira a aceitar a doena de Grace, Sophie demonstrar tamanha incompreenso para com a sua situao 
difcil.
- No posso simplesmente elimin-la, Sophie - argumentou. - No posso fingir que ela no seja uma autoridade nos assuntos em que voc e eu nem conseguimos comear 
a dominar. Ela  uma fonte inacreditvel.
- Foi. Ela est retardando voc. No pode ficar angustiada por qualquer coisa, mame. Antigamente, voc costumava ajeitar as colunas para Grace. Sentava-se e fazia. 
Agora voc leva a vida toda, porque fica tentando conscientemente escrever a coluna que Grace escreveria. Est escrevendo como uma substituta e fica satisfeita. 
Fica revisando um milho de vezes para fazer com que suas colunas paream as dela. Est usando calas e camisas. E prolas. Pelo amor de Deus, mame. Prolas? Elas 
foram um presente de Grace h muitos anos, o colar de prolas obrigatrio para todas as mocinhas. Grace sempre ficava feliz quando Francine o usava e era por isso 
que usava agora.
- Talvez seja isso que esteja atrasando voc - Sophie disse. - Talvez voc trabalhe melhor de jogging. Voc no se parece com Grace, mame. Nunca parecer. E alm 
disso... - fez uma pausa cheia de intenes - e alm disso... - mais lentamente... - existe Robert.
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Francine deveria ter esperado por aquilo. Sophie provocava-a com Robert h semanas. Grace, por outro lado, sorria todas as vezes em que Francine dizia que estava 
saindo com ele. E s ver aquele sorriso - to raro, to fugidio, to contado - j valia Francine ter que agentar sair com Robert.
- Tem alguma coisa nova para dizer sobre ele? - perguntou a Sophie.
- Com certeza vocs dois fizeram coisas muito interessantes.
Francine ignorou o sarcasmo.
- Samos para jantar.
- Um... restaurante... depois... do outro - Sophie falou lentamente. Vocs esto tremendamente apaixonados? Claro que no. Robert  um tdio. A propsito, o que 
voc disse para o Tom?
- Nada. O Tom simplesmente desapareceu.
- O que mostra como o velho Tom era dinmico. A nica diferena entre Tom e Robert  que Grace gosta de Robert. O que nos leva ao ponto de onde comeamos. Quanto 
de obedincia devemos a Grace?
A pergunta era do tipo que Francine discutiria com Grace, mas s que no podia desta vez. Por um lado, o assunto era muito delicado. Por outro, Grace estava falhando.
Fosse qual fosse o ponto que Grace alcanara durante o vero, este fora abandonado h muito tempo. Estava mais esquecida do que nunca e mais aborrecida quando esquecia; 
mais distrada e mais assustada quando isso acontecia. Tinha problemas para lembrar-se em que dia da semana estava, s vezes at em que parte do dia. Freqentemente, 
Francine encontrava-a arrumada, de olhos fixos na tela vazia do computador, s duas horas da manh.
Ainda havia pequenos lances de lucidez, quando era a Grace que Francine conhecia. Mas esses momentos eram sombreados pelo conhecimento de que a outra Grace voltaria.
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Quando setembro passou e chegou outubro, e Katia Sloane comeou a telefonar para saber do livro que no fora escrito, Francine viu que estavam com um problema. Grace 
no concordava.
- Eles esperam - declarou e fixou os olhos na tela. Francine viu palavras nela. Tentou l-las, mas no faziam sentido.
- Que parte  essa? - perguntou inocentemente.
- Parte? Parte de qu?
- Seu livro. No  nele que est trabalhando?
Grace pensou por um minuto.
- Bem, gostaria muito, mas no  fcil. Continuo fazendo minhas pesquisas... - tocou os jornais espalhados por toda a mesa - e depois, no sei o que anotar. No 
esto felizes comigo, Francine.
Francine no teve que perguntar a quem se referia. As alucinaes cada vez eram mais freqentes.
- J falamos sobre isso antes, mame. Eles no esto a. Grace no conseguia encar-la.
- Sim, mas eu os escuto. Eles aparecem em minha sala de visitas todas as noites. Meu pai senta-se, meio bbado, em minha cadeira de balano. Meu irmo e minhas irms 
sentam-se no sof.
- Voc s teve um irmo - Francine lembrou-lhe. - Um irmo, Hal, que morreu de coqueluche quando tinha cinco anos.
- Pois , esse  outro pomo de discrdia. Eles culpam-me tambm por isso. Minha me fica andando de um lado para o outro, esperando que eu saia.
Tentando manter Grace enraizada na realidade, Francine falou:
Sua famlia est morta. Voc s est imaginando que eles esto aqui. Confie em mim. Voc pode colocar o que quiser em seu livro. Eles no sabero.
- Sabero sim.
- Voc pensa que eles esto olhando para voc l de cima...
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-No l de cima - Grace falou rapidamente. - Eles esto na minha sala de visitas.
- Muito bem - Francine ofereceu outra alternativa, tentando lidar com aquilo da melhor maneira possvel - ns s vamos ter de estar certos de que eles no vejam 
o que voc est escrevendo. Podemos esconder tudo deles. O que acha da idia? Trancaremos tudo na cmoda e esconderemos a chave.
Grace hesitou. Ento, disse cuidadosamente:
- , acho que podemos.
- Mostre-me as pginas que terminou e vou tranc-las imediatamente.
Grace olhou para Francine. Sua expresso passou de preocupada para resignada e depois para embaraada, nenhuma das quais indicava bem o que tinha para mostrar. Francine 
ainda no vira nem uma pgina. Grace fora veemente em exigir que ningum olhasse at ela estar pronta para mostrar. Todas as vezes em que Francine era tentada a 
dar uma espiadela, era afastada.
Grace olhou para sua mesa. Hesitou, depois afastou vrios papis at que uma pasta de um amarelo vibrante apareceu. Passou-a para Francine, sem olh-la nos olhos.
- No tenho trabalhado tanto quanto queria.
Era uma afirmao otimista demais. A pasta continha trechos elaborados sobre o esboo original de Grace. No havia a menor ordem nos fatos. No havia nem um captulo 
completo. No havia o suficiente para encher um conto e muito menos para alegrar Katia.
Francine ficou chocada. Sophie prevenira-a, mas ela ainda estava com esperana.
Passou a mo pelos cabelos.
- Preciso telefonar para Katia. A publicao do livro em maio  impossvel. - Pensou em voz alta. - Talvez em setembro. Ou no Natal.  melhor. Eles podem fazer a 
promoo do livro para ser vendido como presente de Natal, em vez de presente do Dia das Mes. E se ele for sair em dezembro dever estar pronto em maro. - Sacudiu 
a cabea, desanimada. - Isso tambm  impossvel.
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- Temos que tentar - Grace disse. - Quanto mais esperarmos, mais difcil ser.
As palavras levaram um minuto para afundar em sua lucidez total e na sua tristeza. Francine buscou a mo de sua me e segurou-a at que o n de sua garganta se desfizesse.
- Voc  a nica que tem as informaes. Grace colocou a mo na cabea.
- Est aqui. S tenho dificuldade em colocar no papel. - Sua expresso tornou-se esperanosa. - Voc pode escrever, meu bem. Voc pode escrever para mim.
- Eu? - Francine ficou apavorada. - Hum... Quando? Grace ignorou a pergunta e implorou:
- Ajude-me, querida. Por favor! Talvez seja a ltima coisa que eu lhe pea. Voc sabe o quanto isso significa para mim. Vai ajudar-me?
Francine sentiu um pnico total. O livro era um projeto de tempo integral e ela j estava lidando com coisas demais, chegara ao seu limite. Alm disso, no sabia 
nada sobre como escrever um livro. Os livros no eram simples respostas de trs pargrafos s cartas dos leitores. Eles tinham incio, meio e fim. Tinham algumas 
centenas de pginas, pelo menos. Precisavam de um planejamento estratgico.
Grace preparara-a para tomar seu lugar em A Confidente. Mas no lhe ensinara nada sobre como escrever um livro.
Francine queria recusar. Mas o livro significava o mundo para Grace, e Grace significava o mundo para Francine, que levou a equao  sua soluo natural e teria 
comeado a chorar, se Grace no parecesse to descontrada e feliz.
O aniversrio de Sophie era na primeira semana de novembro e freqentemente coincidia com o dia das eleies. Ela tinha lembranas ntidas de viajar sentada no banco 
traseiro da limusine, entre sua me e sua av, passando por sinais e cartazes da campanha, a caminho da cidade. Tinha feito dezoito anos no dia das
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eleies. Grace e Francine fizeram muito alarde por lev-la  prefeitura para votar pela primeira vez.
Naturalmente, Grace examinara as chapas com ela com antecedncia, marcara as opes, dissera-lhe em quem deveria votar e por qu. Com seu esprito rebelde, Sophie 
resolvera votar em todos os que Grace no escolhera. E,  claro, contou para Grace o que fizera, no instante em que sara da cabine.
Grace olhou para ela, depois para o cu, e ento, em toda a sua bondade, sacudiu a cabea e sorriu.
-  o seu aniversrio, benzinho. Pode fazer tudo o que seu coraozinho desejar.
E as coisas sempre foram assim. Um almoo elegante no Pierre era a pea central, em torno da qual foi arranjado um conjunto de pequenas alegrias. Nos primeiros anos, 
havia as Rockettes, a plataforma de observao do Empire State Building e os passeios de charrete pelo Central Park. Nos ltimos anos, havia Barney's, Tiffanys e 
a Broadway. A escolha era sempre de Sophie, e ela nunca tivera o menor problema para escolher. Neste ano, ela queria bandagens de algas marinhas, seguidas pelo almoo 
e depois pela compra de um solitrio pequeno de rubi para sua orelha.
-No sei, meu bem - Francine disse, com certa hesitao, quando Sophie leu a lista para ela. - Grace no gosta de bandagens de algas.
- Porque ela nunca fez. No sabe o que est perdendo. Lembra de quando fizemos no spa? Elas eram impressionantes.
-No acredito que ela consiga ficar parada por tanto tempo. Mas Sophie manteve-se firme.
- Ela estar to relaxada que nem vai pensar em mexer-se. Alm disso,  o meu dia, a minha escolha, lembra?
Ela sabia que Francine no estava contente. At mesmo sabia que estava arriscando-se, porque Grace tornava-se mais imprevisvel a cada dia. Mas queria que seu aniversrio 
fosse to alegre quanto sempre fora, queria tanto que resolvera at arriscar-se.
O dia comeou com um sol brilhante. Sophie vestia um terninho de Armani. Gus usava o terno escuro e o bon que Grace
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exigira como uniforme. Sophie mexeu com ele sobre sua roupa, enquanto esperavam junto do carro. Disse-lhe que ele transformara o uniforme em uma coisa maquiavlica, 
com seus cabelos escuros e seus olhos ardentes. Maquinando sobre aquele tema, debruou-se sobre ele, sussurrando bobagens imorais em sua orelha at que os resultados 
daquela provocao fossem bastante visveis. Ele jurou vingar-se.
Francine e Grace chegaram atrasadas, mas formavam uma dupla impressionante. Francine usava um terninho que diferia do de Sophie somente em uma graduao sutil de 
elegncia e sofisticao. O terninho de Grace era menos sutil em ambos os casos. Mas ela estava distrada. Escorregou para o meio do banco traseiro, deixando Sophie 
do lado de fora, esperando pelo grande abrao anual assim como seus votos sorridentes.
- Ela comeou mal o dia - Francine sussurrou, compensando o esquecimento de sua me com um abrao duplamente demorado. - Ela confundiu as datas. Pensava que o dia 
era amanh.
- Ela sabe aonde ns vamos?
- Eu sei aonde ns vamos - Grace vociferou de dentro do carro. - Podemos partir? Est frio.
Francine sentou-se ao lado de Grace. Gus fechou a porta e acompanhou Sophie at o outro lado.
Grace no falou muito. Manteve os olhos na estrada e as mos no colo. As outras duas conversavam, at que finalmente Sophie disse:
- Deseje-me um feliz aniversrio, vov. Grace olhou surpreendida para ela.
- Outro aniversrio? - Suspirou profundamente. - D para imaginar? Para onde foram os anos?
- Para algum lugar - Sophie disse. - Estou com vinte e quatro anos.
Vinte e quatro. - Grace apertou o joelho de Sophie. - Est ficando velha. - Ento, disse docemente: - Voc est linda. Eu j lhe disse isso?
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- No - Sophie respondeu com um sorriso. Aquela era a vov que ela conhecera em criana. - Pode dizer de novo, se quiser.
Grace fez sua vontade, como fazia quando ela era pequena.
- Voc est linda. Elas riram.
Grace tomou sua mo.
- Lembro quando voc nasceu. Voc se lembra daquele dia, Francine? Voc pensou que estava tendo uma indigesto. Mal conseguimos lev-la para o hospital a tempo. 
Voc era um beb to lindo, benzinho. Passei horas na janela do berrio.
Ainda segurando a mo de Sophie, Grace afundou-se mais no assento e sorrindo, voltou os olhos para a janela do carro.
Sophie lembrou-se de si mesma sentada no meio do banco, sorrindo, olhando pela janela para um mundo brilhante no seu aniversrio. Com Grace agora sentada no centro, 
teve uma sensao desconcertante de troca de papis, e olhou para Francine, que olhava pela janela de seu lado. Pelo que Sophie podia ver em seu rosto, ela parecia 
cansada. Sempre parecia cansada ultimamente. Estava trabalhando demais.
- Ns temos que fazer este tipo de coisas mais vezes - Sophie decidiu. - Devamos tirar uma folga e dar um passeio a qualquer lugar, pelo menos uma vez por semana.
Francine fez um som desanimado.
- Devamos mesmo - Sophie insistiu. - No temos que trabalhar cinco dias por semana.
- Motorista? - Grace chamou. - Motorista?
- Senhora? - Gus respondeu do banco da frente.
- Por que estamos passando por todos esses carros?
- Eles vo pegar o retorno - ele disse.
- Eu penso que voc est correndo demais. Por favor, v mais devagar.
Sophie sabia que ele estava querendo recuperar o tempo que perderam quando Grace se atrasou. Se queria fazer algum
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tratamento antes do almoo, teriam que estar no spa s onze horas. Ela disse isso a Grace, quando ela se queixou novamente da maneira de Gus dirigir.
- Mas ele est me deixando nervosa - ela gritou to veementemente, que Francine mandou que Gus diminusse a marcha.
Sophie mordeu a lngua. Aquele era o seu dia. Ressentia-se de Grace tentar control-lo. Mas Grace continuou controlando, queixando-se da velocidade por uma terceira 
vez, agora de outra forma:
- Eu no devia ter vindo. - Repetia a frase a cada minuto. Francine tentou acalm-la. Sophie tentou acalm-la. Mas Grace no queria ser acalmada.
Chegaram ao spa com quinze minutos de atraso, mas, se o nome das Dorian servia para alguma coisa, era para essas ocasies. Apesar de Sophie geralmente preferir o 
anonimato, usou o nome sem cerimnia, como Grace sempre fizera.
Inacreditavelmente, Grace censurou-a.
- No faa isso - sussurrou, segurando o cotovelo de Sophie. - No quero que as pessoas saibam quem somos ns.
- Por que no? - Sophie perguntou.
- Porque  melhor assim. - Para Francine, ela disse: - Essas coisas me constrangem.
- Est tudo bem, mame.
- Melhor do que bem - Sophie acrescentou. - Voc vai adorar.
E adoraria mesmo, se se tivesse permitido. Mas no gostou do quarto, no gostou dos cheiros, no gostou de ter que tirar a roupa. No gostou da terapeuta. No gostou 
das tentativas de Francine e Sophie para acalm-la, de suas banheiras adjacentes. Saiu mais cedo da sua e fez com que a terapeuta viesse correndo atrs dela para 
lev-la de volta e lav-la, e depois recusou qualquer um dos tratamentos seguintes.
Sophie no se teria importado se Grace tivesse esperado que elas terminassem, pacientemente. Mas Grace queria Francine
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com ela. Depois, quis sair. Francine ofereceu-se para levar Grace para dar uma volta de carro pela cidade enquanto Sophie terminava, mas para Sophie a aventura fora 
prejudicada.
Mas as coisas ficaram ainda piores. Como era cedo demais para o almoo, foram direto para a Tiffany's. O gerente fora pessoalmente responsvel pela venda de todas 
as jias que Sophie possua, inclusive numerosos presentes de aniversrios anteriores. Ele mostrou-lhes os melhores rubis. Quando os olhos de Grace bateram em um 
anel solitrio de diamante em um estojo prximo, apanhou-o rapidamente e enfiou-o em seu dedo. Emitiu numerosos ahs e ohs durante algum tempo, com a mo levantada, 
como se nunca tivesse visto um diamante antes - o que estaria muito bem se ela j no possusse vrios, muito mais elaborados do que o que estava em sua mo, o que 
fazia com que sua espantosa admirao parecesse um deboche.
Sophie tentou gui-la de volta para os brincos, mas Grace mal lanou um olhar para eles e afastou-se. Francine, nitidamente sentindo-se mal por causa de Sophie, 
passou um brao em volta dela e examinou os rubis - durante esse tempo, Grace saiu da loja e desceu a rua com o solitrio no dedo. Nem Francine nem Sophie perceberam 
o fato at que um grupo de guardas trouxe-a de volta para elas.
Sophie sentiu-se constrangida. Momentos mais tarde, depois de Francine tirar o anel de Grace e devolv-lo ao gerente, que tentava compensar o embarao insistindo 
que ela o levasse como emprstimo, a vergonha de Sophie deu lugar a um sentimento mais triste. Sabia que Francine estava tentando, podia ver sua luta escrita por 
todo seu rosto, mas era sempre a mesma coisa, a mesma coisa. Grace dominava tudo.
Saram da loja sem comprar nada e ficaram rodando por algum tempo, enquanto Francine fazia o possvel para acalmar Grace. Em uma ltima tentativa para salvar o dia, 
foram para o Pierre, e Grace ficou bem, a princpio. Permaneceu colada a Francine, copiando tudo o que ela fazia, quando cumprimentava
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pessoas que deveria conhecer. Deixou que o maitre a conduzisse a seu lugar e presenteou-o com um sorriso brilhante. Mas as coisas foram por gua abaixo a partir 
daquele instante. No conseguia ler o menu e ficou agitada. Zangou-se quando Francine fez o pedido para ela, e no gostou da comida quando esta chegou. Reclamou 
que um homem sentado a uma mesa prxima no parava de olhar para ela. Foi ao banheiro e voltou convencida de que o garom tinha-lhe dado o resto de outra mesa. Foi 
ao banheiro pela segunda vez e no voltava, e em determinado momento, depois de cinco terrveis minutos olhando seus relgios e perguntando-se se deveriam entrar 
em pnico, Francine finalmente foi atrs dela e descobriu que ela trancara-se em um compartimento e no conseguia abri-lo. Estava to nervosa quando foi libertada 
que Francine rapidamente pediu a conta ao garom.
Sophie ficou muda durante o longo percurso de volta a casa. No adiantava nada que Grace se tivesse tornado subitamente meiga, subitamente arrependida, subitamente 
solcita.
- Sinto-me horrvel, benzinho. Sempre pudemos contar com uma tima refeio no Pierre. Nunca teria sugerido que fssemos l no dia do seu aniversrio, se soubesse 
que o local estava deteriorado. Mas quero comprar-lhe uma coisa especial. De que gostaria? Alguma coisa bem bonita? Talvez uma jia?
Sophie sentir-se-ia melhor se Grace continuasse sendo to irracional quanto antes. Mas aquela imprevisibilidade - as mudanas da Grace para a no-Grace - a enfureciam. 
Se Grace tivesse querido, raciocinava, se realmente tivesse querido, teria continuado sendo ela mesma durante aquelas curtas horas, quando isso importava tanto. 
Teria feito isso por Sophie, se realmente quisesse. Mas no quisera - ela no quisera, no o fizera e uma tradio foi quebrada.
Sentindo-se zangada, frustrada e triste, Sophie foi diretamente para sua ala da casa. Esperou que Francine viesse sugerir uma comemorao alternativa, s para as 
duas, mas ela no
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veio. Portanto, Sophie telefonou para seus amigos de Nova York. Dentro de uma hora, dirigia-se novamente para a cidade. Desta vez, fez a viagem no banco da frente, 
colada com Gus.
Francine teve a inteno de acomodar Grace e depois fazer alguma coisa com Sophie. Mas Grace estava extremamente animada, desejando falar sobre seu livro.
- Estive pensando no nascimento de A Confidente - disse. - Lembra como a coluna comeou? Seu pai e eu conversvamos com Peter e Joanna Daltrey um dia, sobre vrias 
maneiras de incrementar o jornal de Peter. Ele publicava o jornal local, to provinciano, to sem graa, naturalmente no falvamos to claro na frente de Peter, 
mas o jornal era mesmo horrvel. Ento, decidimos que poderia ter uma coluna de conselhos, e ele virou-se e sugeriu que eu a escrevesse.
Francine estava sendo puxada em duas direes, ao mesmo tempo.
- No posso ficar, mame - implorou. - Tenho que ficar um pouco com Sophie. Ela est nervosa.
- Pois no sei por que deveria estar - Grace observou. - Ela leva uma vida encantadora.
-  o aniversrio dela. Est sentindo-se melanclica. - O que era colocar as coisas de maneira bem suave, mas Francine no pensava que Grace quisesse ouvir sobre 
o que Sophie estaria realmente sentindo. - Pensei que eu e ela podamos dar uma volta.
- Ns j samos antes. Agora  hora de trabalhar. - Sorriu animadamente. - Lembra-se de como quebramos a cabea tentando encontrar um nome para minha coluna? Lembra-se 
dos primeiros nomes que tentamos?
- Por favor, mame - Francine implorou, desejando um ltimo pingo de compreenso da mulher que um dia controlara tudo.
Mas Grace no a escutava.
- Voc queria que se chamasse "Conte tudo a Grace". Seu pai queria que fosse "Conselho Gracioso".
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Mame, mame. Isto no pode esperar?
Claro que pode, - Grace preveniu - mas posso perder meu fio de pensamento.
Francine queria gritar. Colocado o problema daquela maneira, com a ameaa de um futuro sem recordaes, no podia recusar. Sophie a teria para sempre, Grace s por 
um perodo pequeno de tempo. Sophie teria que compreender.
E ento anotou todos os pensamentos de Grace conforme surgiam. No passou muito tempo antes que Grace perdesse o interesse, mas quando isso aconteceu j era a hora 
do ch. Padre Jim atrasou-se, e Grace ficou agitada, culpando Francine. A calma s voltou com a chegada do padre.
Ele trazia um presente para Sophie. Francine correu para cham-la e descobriu que ela sara.
Sentindo-se derrotada como me, muito sozinha e quase s lgrimas, deixou Padre Jim com Grace e levou Legs para dar uma volta. Suas lgrimas permaneceram prestes 
a rolar, junto com uma estranha sensao de perda, at sua volta. Ento, sentou-se no cho de seu escritrio, puxou Legs para junto de si e deixou-as cair.
Depois de algum tempo, as lgrimas deram lugar a uma enxaqueca. Deitada no escuro com uma toalha fria pressionada contra a cabea, sentiu que alguma coisa aconteceria.
E alguma coisa aconteceu. s dez horas da noite, foi acordada de um sono profundo pelo chamado do telefone.
Era Gus, que estava histrico.
Sophie est doente. Estamos no hospital.  melhor a senhora vir logo.
Francine, no mesmo instante, acordou aterrorizada.
- O que ela tem?
Choque de insulina. Estvamos na cidade. Ela no se sentia bem e resolvemos voltar. Ela desmaiou quand estvamos na metade do caminho de casa.
O corao de Francine disparou.
- Ela est consciente agora?
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- Eu no sei. No me deixam entrar.
Agradecida por estar nervosa demais para trocar de roupa mais cedo, correu para a garagem e cometeu uma srie de violaes do trnsito a caminho do hospital, mas 
receber uma multa era, naquele momento, a menor de suas preocupaes.
Padre Jim chegava no mesmo momento.
- Gus telefonou para mim - ele explicou, enquanto entrava correndo do lado dela. - Eles estavam em uma boate na cidade. Ela aplicou-se uma injeo quando chegaram, 
mas eles no comeram nada. Ela tomou algumas bebidas. E entre a bebida e a dana os nveis do acar de seu sangue caram.
- Morrerei se perd-la - Francine disse baixinho.
- Voc no ir perd-la - Padre Jim disse. Logo em seguida, acrescentou: - Ah, l est Gus
Com seus cabelos pretos e o rosto totalmente plido, Gus parecia um fantasma.
- Ela est consciente agora. - E levou-os pelo corredor. Francine no estava preparada para ver Sophie deitada em outra maca. Bloqueara a lembrana de todas aquelas 
idas  emergncia que ocorreram durante a adolescncia de Sophie, porque viver com aquele medo no era viver, mas o medo assaltara-a repentinamente agora. Atingiu-a 
muito mais do que qualquer coisa que sentira antes naquele dia, muito mais do que as lgrimas, a dor de cabea, a sensao de perda, a confuso, o fracasso.
Mas a fora era o espetculo que tem de continuar, Grace sempre dizia, e portanto Francine era forte. Segurou a mo de Sophie.
- Desculpe, mame - Sophie murmurou. - Estraguei tudo.
- Psiu. - Colocou a mo de Sophie em sua garganta e depois perguntou ao mdico: - Como ela est?
Ele terminava mais um teste de glicose no sangue.
- Est melhor agora. Seu amigo foi esperto em traz-la logo para c.
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Sophie insistia em falar, apesar de sua voz estar mais lenta do que o normal, e um tanto arrastada.
- No saa da minha cabea que meu aniversrio fora um fracasso, portanto que importava? Nada poderia ser pior do que aquilo. Ento, senti os sintomas chegando. 
Quando comecei a tremer e suar, pedi ao Gus que me levasse para casa. Deveria ter trazido o glucagon comigo, mas estava zangada e sa correndo. Puxa, que confuso 
eu fiz. Desmaiei logo que entrei no carro. Desculpe, mame.
- No pea desculpas. No no dia de seu aniversrio.
- Que aniversrio mais terrvel.
- Tudo est bem quando termina bem. Os olhos de Sophie arregalaram-se.
- Grace no est aqui, est?
- No, no. Est em casa. Sophie fechou os olhos.
Francine afastou os cabelos louros e sedosos do rosto de sua filha. Era srio o que dissera a Padre Jim. Morreria se perdesse Sophie. A questo era como evitar isso. 
Estava fazendo uma coisa muito errada se Sophie terminasse zangada, desafiante e, finalmente, com um choque de insulina no dia em que deveriam ter um programa familiar.
Sophie abriu os olhos.
- No posso parar de pensar em como ela pegou aquele anel, saiu da loja e foi andando pela rua, sem falar com ningum. Ela no sabia o que estava fazendo. - As lgrimas 
velaram seus olhos. - Eu quero odi-la. Ela criou uma mquina fantstica e envolveu-nos nela, e agora os motores no funcionam. Quero acabar com toda essa coisa, 
s que no posso. Quero odi-la por deixar que sua mente apodrecesse, como se ela tivesse culpa disso. - Riu de si mesma. - Que grande piada, que ela possa determinar 
tudo o mais em sua vida, menos isto. S que a piada  para ns. Para voc. No podemos continuar deste jeito, mame. O que vamos fazer?
Onze

O esprito humano  irreprimvel, muito parecido com aquela vela de aniversrio que, quando apagada, acende-se novamente vrias vezes.
- Grace Dorian, dirigindo-se aos formandos do Smith College
Francine permaneceu com Sophie na emergncia at as primeiras horas da manh, depois levou-a para casa, colocou-a na cama, enroscou-se a seu lado e observou-a enquanto 
dormia. Se chegou a cochilar, no foi por muito tempo. Sua paz s chegou quando observou o peito de sua filha subindo e descendo tranqilamente.
J de manh, Sophie sentia-se cansada, mas no estava to mal quanto poderia estar, pelo que passara.
Francine era a mais abatida das duas. Sabia que a hora de enganar-se havia passado. Tinha que encarar o futuro.
Passou a manh alternadamente sentando-se com Sophie, tentando escrever, tentando cuidar de Grace, tentando pensar no que a aguardava. No incio da tarde, abandonou 
a redao e Grace e concentrou-se em Sophie e no futuro. No meio da tarde, estava uma pilha de nervos. Ao entardecer, sua mente estava estraalhada.
Sophie lia na cama. Francine sentou-se junto dela durante um tempo, querendo falar sobre o que acontecera na vspera,
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mas sentia-se completamente trancada. Foi Sophie a primeira a falar dizendo de maneira exasperada:
- Saia daqui, mame, por favor. V jantar ou a um cinema. Corra um pouco. Faa alguma coisa.
Francine no queria sair para jantar. No estava com esprito para ir a um cinema. Ento, resolveu correr com Legs mas o ar fresco s ajudou at o momento em que 
voltou para casa. Ento, o turbilho voltou. Deixou Legs, entrou em seu carro e deu a partida.
No teve o menor problema em encontrar a estrada que levava  casa de Davis. J passara por ela dzias de vezes desde agosto, portanto fora diretamente para l, 
sabendo que era a coisa mais inteligente a fazer. Mas no se importava mais com a inteligncia. J passara dessa fase.
Eram quase cinco horas. Duvidava que ele j tivesse chegado do trabalho. Mas aquele era o nico lugar onde desejava estar.
Seus faris iluminaram o caminho recentemente pavimentado que cortava o bosque, depois caram sobre uma casa aninhada ali. Mais espalhada do que alta, mais curva 
do que formal, dava a impresso de uma construo vitoriana, mas no era. Apagou os faris, deixou o carro junto da garagem, enrolou-se em seu casaco e ficou parada 
nos degraus fronteirios.
Quando os faris da caminhonete de Davis iluminaram o caminho, duas horas j se tinham passado. Francine mudara de posio, passando dos degraus para a varanda, 
depois para a porta, e agora estava sentada encostada contra ela.
- Francine? - ele chamou do caminho. Bateu a porta do veculo e percorreu a entrada e os degraus em passadas rpidas que o levaram imediatamente para diante dela. 
- O que aconteceu?
Francine passara as duas horas imaginando como explicar por que no viera antes, por que desencorajara todos os seus telefonemas, menos os ocasionais, limitando-os 
a umas poucas discusses sobre Grace, porque as poucas vezes que o vira foram profissionalmente.
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No havia nada de profissional em sua presena ali, naquele momento. Precisava escapar do emaranhado de sua vida e Davis era sua nica sada.
Mas as palavras fugiram-lhe. Subitamente, sentiu-se extremamente emocionada.
Ele passou os braos por seus ombros.
- Voc est gelada. Vamos entrar. - Ele levantou-a e manteve-a junto dele enquanto abria a porta, puxou-a para dentro e acendeu a luz. Depois, levou-a at a cozinha, 
colocou-a sentada em uma cadeira e comeou a preparar uma bebida quente.
Francine no tirou os olhos dele nem por um minuto. A simples viso de seu rosto j era uma alegria.
Ele virava-se para olh-la de tempos em tempos. Ela no dizia nada, s olhava diretamente para ele, deixando que sua presena e o calor da casa afastassem o frio 
que sentia.
Em determinado momento, ele disse:
- Desculpe tudo estar ainda to cru.  funcional por enquanto. A beleza vir com o tempo.
S ento ela percebeu que, apesar de estar sentada em uma antiga cadeira Windsor de carvalho junto a uma mesa combinando, quase todo o resto era Sheetrock e em madeira 
no envernizada. Nada que a preocupasse. Ela no estava numa excurso ao Clube Gourmet - e disse isso a Davis com os olhos.
Ele lhe entregou uma caneca de chocolate quente e sentou-se em frente a ela, observando-a. Beberam em silncio. Quando ela terminou, Davis perguntou:
- Melhor agora?
Ela assentiu e engoliu em seco. Depois libertou o lamento aterrorizado que vinha guardando dentro de si para ouvidos generosos.
- O que h - perguntou Davis com suavidade.
- Tudo.
- Importa-se de explicar melhor essa idia?
Ela sacudiu a cabea. No queria falar sobre aquilo. No queria pensar sobre aquilo. S havia uma coisa que ela queria fazer naquele momento. Era uma coisa totalmente 
egosta, alguma coisa que estava relacionada  qumica, ao batimento de seu corao e  dor que sentia l dentro.
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Ele disse seu nome, com uma voz baixa e rouca.
Ela olhava sua caneca.
- Desejei muito vir. Depois da ltima vez. No parava de pensar nisso, mas no tive coragem.
Seguiu-se um silncio; viva ou morra, ame ou saia, fuja ou fique. Ento, a mo dele aproximou-se dela. Ela segurou-a enquanto ele a puxava de sua cadeira.
O quarto ficava no final da sala de estar. Ela percebia as coisas perifericamente: um teto de catedral, muitos vidros, o cheiro de madeira nova, mas o jeito como 
ele a olhou tirou seu flego, e quando ele a beijou, o tempo parou. O teto, os vidros, a madeira - tudo foi esquecido. Preocupao, aperto no corao, medo - tudo 
foi embora. Houve uma exploso quando os dois se uniram, que obliterou o resto do mundo. Ela experimentara aquela sensao na traseira da caminhonete em agosto, 
viera busc-la agora e no ficou decepcionada. Sua boca era ainda mais excitante do que ela se lembrava, totalmente vida, mordendo famintamente, com uma progresso 
calorosa de beijos, aumentada pela grande atrao existente entre eles, como tambm pelo conhecimento do que estavam prestes a fazer.
Francine estava cansada de enfrentar os fatos. No queria pensar no futuro.
Ento, abandonou-se a seus lbios e  fuga que eles lhe proporcionavam. Mergulhou seus dedos inquietos nos cabelos de Davis, movendo-se contra ele, enquanto suas 
grandes mos puxavam-na para junto dele. Quando a proximidade j ia longe demais, ele afastou as roupas s o suficiente e colocou-a na cama, mas, quando comeou 
a penetr-la, parou.
Murmurou uma reclamao e depois disse, guturalmente:
- Preciso de um preservativo.
Mas ela estava louca para t-lo dentro de si:
- No, venha agora.
Ele afundou-se nela com uma fora que tirou seu ar e aumentou aquela loucura a cada movimento que fazia. Ela no precisava dizer-lhe o que queria. Ele sabia e fazia, 
e quando ele alcanou o limite do orgasmo manteve-a presa, manteve-a presa
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por uma eternidade to penetrante que ela gritou alto, mais de uma vez, na queda livre que se seguiu.
Quando terminou, ele puxou-a para seu colo, envolveu-a com seus braos e embalou-a.
- Foi demais para longo, lento e profundo - ele disse, com a respirao entrecortada. Continuou embalando-a. - Ser que fizemos alguma bobagem?
Se fizeram, Francine no conseguia pensar. Sussurrou contra a garganta de Davis:
- Este foi o melhor momento que tenho h meses. - Naturalmente, a partir do acidente de Grace sua vida mudara. - No. Mais. H anos - que era o tempo em que ela 
estivera pela ltima vez com um homem.
- No quero deix-la doente, Frannie.
- Nem eu.
- E quanto  gravidez?
- Creio que no.
Os lbios dele estavam contra sua testa, aquecendo seus pensamentos, enquanto ela flutuava em uma irresponsabilidade abenoada. Depois de algum tempo, ela disse:
- Podemos ficar nus? - Parecia-lhe a melhor maneira de permanecer sem pensar.
Ela percebeu seu sorriso, poucos segundos antes de ele comear a remover suas roupas. Se algum pensamento srio ainda persistia em sua mente, foram afastados pelo 
calor dos olhos de Davis percorrendo sua nudez, indo depois para mais longe pelo calor que sentiu quando ele tirou a camisa. Seu peito era forte, todo msculos e 
pele firmes. Suas formas eram acentuadas por um feixe de plos castanhos, que se estreitava na direo do umbigo, antes de desaparecer mais embaixo.
- No se mexa - ele sussurrou. Jogou suas roupas para fora da cama e dirigiu-se para o banheiro. Momentos depois, ele jogou um punhado de preservativos sobre a mesinha-de-cabeceira
. Depois, passou as pernas em torno dela novamente e tocou seu rosto. - Voc est muito quieta.
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- Estou deslumbrada - ela suspirou. Vestido, ele era dinmico. Sem roupas, era de tirar o flego. Sua postura, seu modo de andar, a graa natural de seu sexo. De 
tirar o flego. No havia definio melhor.
Davis beijou-a, segurando delicadamente seu rosto, passando em seguida os dedos por seus cabelos. Abriu a boca e provocou-a, sussurrando por entre beijos, afastando-se 
para admir-la somente com os olhos. Gentilmente, acariciou seus seios, acariciou seus ombros, acariciou seus braos. Parando somente para envolv-la, penetrou-a 
novamente. E ela adorou. Movia-se contra ele, sentindo-se feliz e livre. Alguma coisa estava dando certo. Ela soube quando sentiu o calor dele, a aspereza de seu 
hlito. Sabia que se entrosava com Davis. Tudo nele dizia-lhe isso: a maneira como falava, a maneira como se movia, a maneira como cheirava. Sentir sua fora dentro 
dela era o pice da glria.
Quando terminou dessa vez, ficaram deitados na cama, olhando-se diretamente nos olhos. Ela enxugou o suor de seu nariz e passou a mo pelo seu pescoo.
- Voc cumpriu muito bem sua promessa.
- Aquela promessa expirou h dois meses. Por que demorou tanto?
Como no estava pronta para pensar na devastao de sua casa, disse simplesmente:
- Decidi que esperaria at voc mudar-se. Adoro sua casa.
- Mas voc ainda quase no a viu.
- Vi sim. Enquanto esperava voc chegar, dei uma volta por a. Se voc vir uma trilha perto dos rododendros, fui eu. Dei a volta cinco vezes. Olhei por todas as 
janelas. A primeira coisa que vi foi esta cama.
Ele sorriu, seu sorriso torto.
- Foi mesmo?
Ela assentiu novamente.
- E a cozinha. O que mais h aqui?
- Sala de estar, sala de jantar, escritrio no primeiro andar e espao suficiente para algumas camas no segundo andar. No  uma casa grande.
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-  perfeita. Voc trabalha mesmo nela todas as noites?
- Quando posso. Desisti no ms passado e contratei uns homens para os dias de semana. Foi timo. Teramos uma noite fria sem o aquecimento.
Francine estava bastante aquecida e surpreendentemente calma. Era uma diferena gritante de como estivera h pouco tempo atrs.
- Voc quer contar? - ele perguntou daquela maneira suave e insistente que lhe dava vontade de chorar.
Ela fechou os olhos contra seu peito. Ento, contou-lhe sobre o fiasco da festa de aniversrio de Sophie.
- Por que no me chamou? - ele perguntou. - Eu estaria no hospital em um minuto.
- Oh, Davis, no era um problema seu. Ela no  sua paciente. No poderia arrast-lo para l de novo por nossa causa.
- Mas claro que poderia. Claro que deveria.
Ela aconchegou-se mais, enterrando o rosto em sua garganta.
- Bem, eu no estava pensando com clareza - disse finalmente. - Estava em pnico por causa de Sophie, e logo que ela ficou bem as coisas pareceram se normalizar. 
S que no esto. Esto horrveis. Est tudo desmoronando, Davis, a vidinha boa e equilibrada que tive, e eu fico parada, olhando, sem saber o que fazer.
Ele ficou deitado em silncio, acariciando seus cabelos. Aquele carinho silencioso desmontou-a. Ela abriu as comportas.
- Grace no pode trabalhar, no pode escrever o livro que pretendia e pediu que eu o fizesse.  sua soluo para tudo. Pedir a Francine. Eu fao A Confidente. Agora 
ela quer que eu escreva seu livro. Ela pede que eu telefone para fulano e sicrano sobre tal e tal coisa, porque tem medo de faz-lo, depois fica perguntando seguidamente 
se eu dei o telefonema, pergunta-me cinco vezes em trinta minutos. Quer que eu escolha suas roupas, o que antigamente podia ser timo e gostoso, mas ela troca de
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roupa quatro vezes por dia. Quer que eu faa sua maquilagem. Quer que eu corte seu cabelo. No posso cortar seu cabelo. No sei como cortar cabelos, ou como fazer 
suas unhas. Mas ela no quer sair de casa.
- Pea que as pessoas venham.
- J fiz isso, mas Grace quase me deixou louca at tudo estar terminado. Nunca estive to ocupada antes, nem quando Sophie era pequena. Algumas mulheres so feitas 
para dias de dezoito horas. Eu no. Eu gostava muito de ir  cidade visitar amigos, mas no tenho mais tempo. Adorava comprar um livro e passar o fim de semana lendo-o, 
mas tambm no tenho mais tempo para isso. E veja o que fiz com minha prpria filha. Em seu aniversrio. Grace  um trabalho de sete dias por semana. Onde isto vai 
terminar?
A resposta seria. "Daqui a pouco", mas em vez disso ele falou, calmamente:
- Voc sabe onde.
- Muito bem. - Ela no conseguia dizer as palavras em voz alta. - Parte disso termina l. Mas e depois? Tenho quarenta e trs anos. Posso acabar como minha me aos 
sessenta. - Olhou para Davis. - Penso muito sobre isso.  um dos pequenos temores que sinto depois de aceitar o que Grace tem. Ento, talvez eu tenha mais dezoito 
anos bons em minha vida. No posso querer ter o melhor possvel para eles? Ou suponhamos que eu permanea saudvel. Posso continuar trabalhando por mais trinta anos. 
Mais trinta anos - ela repetiu e depois fez uma pausa, pensou e sentiu a grande dvida acumulando-se. -  isso o que eu quero fazer com o resto da minha vida?
Tomou uma respirao rpida.
- No consigo chegar a uma resposta. Juro, no sei quem eu sou. Quem eu sou. Muito bem, sou a filha de Grace e a me de Sophie. Mas quem sou eu? Quem posso ser? 
Eu quero ser A Confidente, mas no posso, porque A Confidente  Grace, e sou s uma substituta. Mas, se eu no escrever a coluna, A Confidente desaparece. No posso 
deixar que isso acontea, porque A
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Confidente  parte de tudo o que sempre fui. Mas tudo o que sempre fui no  tudo o que sempre quis.
- E o que quer?
- Privacidade. Tranqilidade. Famlia. Famlia,  o que estou perdendo neste caso, Davis. Primeiro Grace. Agora Sophie.
- Por que Sophie?
- Porque estou negligenciando-a para cuidar de Grace. E estou estragando tudo.
- Voc  dura demais consigo mesma, Frannie. Grace est doente. Qualquer pessoa com um mnimo de corao dar-lhe-ia ateno extra. Sophie sabe disso.
- Mas em que ponto eu exagero as coisas? Onde a ateno extra termina e comea o absurdo? Quando devo diminuir e contratar ajuda extra? Quando isso acontecer, quando 
houver gente nova correndo pela casa, quando se espalhar a notcia da doena de Grace, nada mais ser o mesmo. Ns sempre fomos to ligadas, ns trs, to ntimas! 
Mantnhamos tanta coisa em nosso pequeno crculo to organizado! Agora, as decises que terei que tomar desmancharo esse crculo. No quero fazer isso, mas como 
posso evitar? E o que serei quando o crculo se romper?
Ele escutou pacientemente, respondendo mais com toques suaves do que com palavras. Ele no conhecia as respostas mais do que ela, mas parecia reconhecer sua necessidade 
de expor tudo o que lhe ia por dentro.
Depois de algum tempo, a catarse acalmou-a. Pensou em voltar para casa para ficar junto de Sophie, mas cortou o pensamento. Queria ficar com Davis mais um pouco, 
s mais um pouco.
Dirigiram-se para o chuveiro, depois para a cozinha, onde dividiram a pizza que Davis tirara do freezer e assara. Francine sentia-se surpreendentemente satisfeita. 
Seus cabelos estavam midos e caam livremente por seus ombros, seu rosto estava limpo, seu corpo vestido com a camisa de Davis. Sentia-se relaxada - parecia absurdo, 
dadas as circunstncias que a levaram at ali, mas falando seus temores em voz alta descarregara um
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peso. Nada mudara em sua casa, mas assim mesmo sentia o corao mais leve. Se algum a criticasse pelo que fazia naquele momento, saberia muito bem o que fazer com 
seu dedo mdio.
Merecia aquela pausa, conquistara-a com suor e lgrimas, e recusava-se a diminu-la com a culpa. O prazer era grande demais - um Davis tremendamente atraente, com 
os cabelos molhados, o peito nu, e suas calas de jogging anunciando claramente seu sexo, quando se movia com uma fluidez primitiva. Na mesma proporo em que era 
gentil quando conversavam, seu corpo era impressionantemente masculino. Fazia com que Francine se sentisse ousada.
Grace jamais compreenderia. Jamais passaria a noite fora dormindo com um homem, enquanto seu parente mais prximo estivesse doente. Jamais fugiria de seus problemas 
ou, pior ainda, derramaria suas tristezas sobre um estranho. Ela era forte e contida. Ela era boa.
Pelo menos, sempre fora boa antes.
- Quer ouvir uma coisa triste? - Francine perguntou. - Mame tem uma certa atrao pelo Padre Jim.
Davis quase engasgou com um pedao de pizza.
- Grace? Atrao?
- Na realidade,  uma coisa delicada. Ele vai l em casa quase todas as noites. Ela flerta com ele, toca seu brao, olha para ele com olhos cheios de admirao. 
Ele  um anjo. Segura a mo de mame. Aproxima sua cadeira da dela. Fica especialmente estranho nas noites em que ele usa a gola de padre.
- Acho que ele ama Grace.
- Depois do Pai, do Filho e do Esprito Santo.
- Certo. Ele no far nada contra isso.
- No  com ele que estou preocupada - Francine observou. Os pacientes do mal de Alzheimer freqentemente tm ataques de sexualidade que criam problemas. Davis mesmo 
dissera-lhe isso.
- Bem, se ela tentar alguma coisa - ele disse - Jim saber como cuidar disso.
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Uma coisa passou pela cabea de Francine. J que estava falando sobre blasfmias, ela sussurrou.
- Voc acha que ele alguma vez fez isso?
- Fez o qu? - Davis sussurrou de volta, franzindo os lbios.
Ela encostou seu dedo contra o brao dele.
- No sei - ele sussurrou.
- O que voc acha?
- Acho que no  da nossa conta. Francine falou ento em voz alta.
- Eu acho que, se o que seu pai falou sobre ele  verdade, ento ele fez. Acho que ele era um conquistador antes de ser padre.
- Ele deve ter entrado para o seminrio aos dezoito anos. Isso no lhe daria muito tempo.
Ela olhou bem dentro de seu olho.
- Quantos anos voc tinha quando perdeu a virgindade? - Poderia jurar que ele corara. - Quantos anos?
- Quatorze - ele disse.
Curiosa, ela perguntou novamente em tom insistente:
- Como?
Seus olhos fixaram-se nos dela.
- Da maneira mais comum.
- Voc sabe o que perguntei. Conte. Eu quero saber.
Ele recostou-se sobre sua cadeira. Seu rosto ainda estava ligeiramente corado, maravilhoso, em contraste com a cor mbar de seus cabelos.
- Ela era irm de um amigo. Tinha vinte anos. Francine surpreendeu-se.
- Uma mulher mais velha. Com certeza no era mais virgem.
- Claro que no.
- Aposto que ela j estava de olho em voc h algum tempo. - Francine conseguia imaginar. Ele j devia ser bastante viril aos quatorze anos, um adolescente impetuoso 
cheio de hormnios, to selvagem quanto seu esprito. - Se Padre Jim
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foi como voc, j estaria fazendo sexo h quatro anos. Muitos coraes despedaaram-se em menos tempo. Por que ser que ele se tornou um padre?
- Sua famlia era religiosa e fantica - Davis disse. - Ele era o filho mais velho. Cresceu ouvindo que deveria fazer os votos, mas lutou contra isso com todas as 
foras. Ento, um amigo morreu por envenenamento alcolico. Jim culpou-se pelo fato. Estava com dezessete anos. Foi a grande virada de sua vida.
Francine percebeu ento o pouco que conhecia Jim O'Neill.
- Foi ele quem lhe contou isso? Davis concordou.
- Quando minha vida era muito problemtica. Sua mensagem era que podemos fazer escolhas diferentes e tomar caminhos diferentes. Eu insistia em que era tarde demais. 
Ele disse que essa era a sada de um covarde. Disse que se eu fosse realmente corajoso aprenderia com meus erros e faria com que eles me tornassem uma pessoa melhor. 
Dizia que fizera isso. Ou tentara. Parecia agitado enquanto falava, como se ainda se culpasse pela morte do amigo.
- Grace geralmente recebe cartas de pessoas assombradas por seus passados. Parece bastante comum. Talvez ela tambm seja perseguida pelo seu. Alguma coisa deve explicar 
suas alucinaes.
- O mal de Alzheimer explica.
- Mas as alucinaes esto relacionadas com fatos reais?
- Medos reais. No necessariamente fatos ocorridos.
- Ento, ela pode estar imaginando que sua famlia gritar com ela porque sempre teve medo de que eles o fizessem. - Ela estremeceu. - Ou talvez tenham gritado. 
Em qualquer um dos casos, como ela cresceu to normal? Como ela se tornou to boa? - A pergunta reabriu suas inseguranas. - No posso ser outra Grace. No tenho 
as qualidades dela. Posso seguir seus passos, mas s at certo ponto. Ser que o esforo vale a pena? Se eu no puder fazer como ela, ser que  melhor no tentar? 
Estragarei o que ficou? Devo desistir enquanto estou consciente?
- Voc ama A Confidente.
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- Mas eu no sou Grace.
- Ento, faa voc A Confidente. Decida do que gosta e do que no gosta. Fique com o primeiro e transforme o segundo.
- No gosto da presso de escrever cinco colunas perfeitas da Grace por semana.
- Ento, diminua para trs. Ou faa cinco perfeitas  moda de Francine.
Ela sorriu com aquela frase. No que tivesse certeza de que seria capaz de fazer alguma coluna perfeita  moda de Francine.
- A parte mais difcil  mudar o que funcionou to bem por tanto tempo. Como posso fazer isso sem que o mundo inteiro comece a perguntar o que aconteceu com Grace?
- Talvez j seja o momento.
- Grace no ter esse tempo.
- Em algum momento - Davis disse cuidadosamente - voc poder ter de ignor-la e fazer o que  melhor para voc.
- Mas isso seria to definitivo. Logo que souberem, no vamos poder recuar. No momento em que mudanas forem feitas, o passado estar acabado.
- A vida  assim.
Alguma coisa em seus olhos fez com que Francine fosse levada na direo dos pensamentos de Davis. Levantou-se, foi at a janela, correu os dedos pela moldura inacabada.
- No podemos voltar para onde estvamos, podemos?  o que queremos?
-  mais seguro.
- Mas com certeza muito menos divertido.
Ela observou o reflexo de Davis crescer e aproximar-se. Era exatamente to suave quanto o homem em carne e osso.
Ele passou os braos sob seus seios e disse a Francine da vidraa.
- Voc me atrai muito. Desde o primeiro dia. No sentiu isso?
- No. Voc era o bicho-papo trazendo as ms notcias. Eu odiei voc.
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- Ento, quando percebeu?
Talvez subconscientemente ela tivesse sentido desde aquela primeira vez. Lembrou-se de seu corao disparado. Sempre disparava quando ele estava perto. Mas conscientemente?
- Na noite em que voc veio de caminho, quando eu estava correndo com Legs. Parecia um caminhoneiro.
- Voc tem atrao por caminhoneiros?
- No por caminhoneiros. Por rebeldes. L estava voc, parecendo pouco mais que um irreverente, sentado no caminho, com seus msculos explodindo sob a camisa.
- Meus msculos no explodem.
Mas outra coisa explodia. Ela sentia contra suas costas. Aninhando-se contra ele, passou os braos por trs de seu corpo, pela sua cintura e desceu por seus quadris 
nus.
- Sou completamente errada para voc - suspirou. Suas mos moveram-se sobre os plos macios de suas coxas.
Ele acariciou seus seios sobre a camisa.
- No est parecendo neste exato momento.
No. No parecia. Ela adorava coxas fortes. Adorava quadris estreitos. Adorava o ponto macio que seus dedos encontraram nos testculos dele e a maneira como a respirao 
de Davis acelerou-se quando ela o tocou. Mesmo assim, disse:
- Voc precisa de uma mulher que no tenha nada a fazer na vida a no ser paparic-lo.
- Nunca fui paparicado - ele disse asperamente. - Odiaria isso. - E imediatamente levantou sua camisa.
Os olhos de Francine estavam colados na vidraa, no reflexo de sua nudez, na forma que seus seios tomavam sob seu toque. Suas mos eram muito msculas contra sua 
pele. Tentando superar o zumbido que existia dentro dela, disse:
- Voc precisa de uma mulher que possa dar-lhe um monte de filhos para encher esta casa.
- Um ou dois seriam suficientes. No sou ambicioso. Ela encontrou seu pnis, que era gloriosamente grande.
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- Voc faria... bebs... muito lindos. - Se ela ao menos fosse mais jovem. Se ao menos fosse mais livre. No era nem uma coisa nem outra, mas mesmo assim desejava-o.
Rpida como um piscar de olhos, em um momento de travessura, sussurrou:
- Tenho que ir - e escapuliu de seus braos.
Ele alcanou-a antes que chegasse ao corredor e imprensou-a contra o batente da porta.
- No to depressa - grunhiu, pressionando-se contra ela at que suas pernas no tiveram outra sada, a no ser abriremse. Os olhos dele brilhavam. Era uma mistura 
devastadora de ombros largos, corpo firme e carne mscula enrijecida, com um toque de perigo sobrepujando tudo.
O perigo causava a excitao, que era o que ela queria, o que apagava todo o resto de sua mente.
- Tenho que ir - repetiu ela, mas os braos dela estavam em volta do pescoo dele. Apertou-o quando ele a levantou no ar. Suas pernas encontraram a cintura dele.
Ele abaixou as calas s o suficiente para libertar-se e, quando aqueles olhos escuros, brilhantes e perigosos encontraram os dela, ele penetrou-a e ento ficou 
totalmente parado.
- No pode provocar-me e ir embora, Francine.
- Estou vendo - ela murmurou.
- No tenho muita certeza.
- Vejo sim - ela insistiu. - Ah! - Ele afastou-se e voltou a penetr-la com fora. Ela estava muito excitada.
- Ainda quer ir embora?
- Minha nossa, no - ela gritou, rindo contra sua boca. - Faa isso de novo, Davis.
Ele obedeceu e depois rugiu:
- Voc  incrvel. Voc no finge.
- Voc... ... to... gostoso.
Ele mergulhou novamente nela, com mais fora, depois com mais fora ainda e continuou a penetr-la at ela ficar completamente
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mole. Quando finalmente gozou, ela teve outro orgasmo.
Passou-se uma eternidade antes que ela parasse de gemer, antes que ele parasse de resfolegar, antes que ele a depositasse suavemente sobre o cho, e nesse momento 
ela sentiu uma dorzinha aguda. Colocou a mo no local.
Davis colocou sua mo no ponto.
- Ai! A!
Ele virou-a, xingou, depois riu. Tomando-a pela mo, levou-a para o quarto, deitou-a de bruos na cama, e eficientemente removeu uma farpa de madeira.
- Com toda certeza era a nica que havia - Francine disse, deitando-se de costas novamente. - Pode deixar que eu sempre acho.
Ele estava sobre ela, apoiado nos cotovelos.
- Existem outras. Este lugar ainda tem muito trabalho a ser feito.
- Posso ajudar? - ela perguntou, em um impulso. Francine no tinha absolutamente qualquer tempo livre. Mesmo assim, a idia era muito atraente. Era uma coisa que 
Grace no faria nem em um milho de anos.
- Quando quiser. Areia ou trepada... pode escolher.
- Que boca suja voc tem.
- E que voc adora. Confesse.
- Adoro.
- De qualquer maneira, qualquer uma das duas  teraputica. Quando quiser uma vlvula de escape, seja minha convidada.
Ela ficou sria e suspirou:
- Posso aceitar essa oferta. Sinto tempos difceis se aproximando.
- Voc se sair bem. Ela riu, em dvida.
- Dependi de minha me a vida inteira.
- Voc no se d crdito suficiente. L no fundo, voc  sua prpria dona.
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- Sexualmente, talvez, aqui e agora. Mas em casa? Todos estes anos sou confundvel com minha famlia. Estamos falando de uma grande crise de identidade.
Ele sacudiu a cabea confiante.
- Todos passam por crises de identidade. Voc sobressai porque teve uma criao slida. Sua famlia deu-lhe isso, o que significa que, aonde quer que v, voc parte 
de uma posio forte. Voc est predisposta a vencer.
- Eu? Tenho toda uma histria de confundir as coisas. Ele sorriu de lado:
- No de confundir as coisas. S de torn-las um pouco mais difceis do que tm de ser. Mas voc chega aonde quer ir. Voc vai conseguir, Frannie. Confie em mim. 
Posso ter passado uma vida inteira sendo atrado para as mulheres erradas, mas cada uma delas venceu. Lembre-se disso, se se sentir abatida. No vou para a cama 
com perdedoras.
Doze

O peso de um relacionamento, como o basto nas corridas de revezamento,  carregado em determinado momento pelo corredor que tiver mais fora.
Grace Dorian, em A Confidente
Sophie estava engolida por um jogging enorme e uma manta, assistindo pela ensima vez St. Elmo's Fire, quando Padre Jim espiou pela porta de seu escritrio.
- Tem um minuto?
Ela parou o videocassete. Um minuto para o Padre Jim? Sempre. Ele tinha o dom de anim-la.
E, meu Deus, como ela precisava ser animada agora! Ele entregou-lhe uma caixa.
- Trouxe uma coisa para voc. Na verdade, eu trouxe ontem, s que voc no estava e eu queria entregar pessoalmente.
Na loucura que fora seu aniversrio, Sophie esquecera-se do presente de Padre Jim. Agora sentia o calor de sua ternura.
- O senhor  especial mesmo. Nunca se esquece de nada.
- Claro que no  isso. Voc  a minha garota favorita.
Era o que parecia. Quando criana, aceitava todos os presentes com uma alegria inocente. Depois que cresceu, sentia-se alternadamente especial por ser escolhida, 
culpada pelo dinheiro
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que ele gastava e tocada pela idia que vinha com cada presente. Cada um era apropriado para a poca e lugar de sua vida, cada um era totalmente pessoal.
Quando criana, atirava-se sobre cada um deles com impetuosidade. Agora, retirava a fita com cuidado para mant-la intacta, depois tirava o papel e delicadamente 
removia a caixa. No dava para perceber do que se tratava. Retirou a tampa. Dentro, em um ninho de papel, estava o mais lindo ursinho de pelcia que j vira. Seu 
plo era marrom claro, cacheado e curto, membros longos, olhos cor de chocolate e uma fita no pescoo. Em vez de ser gorducho, engraadinho e perfeito como os ursinhos 
modernos, era antigo, esperto e nico.
Ela abraou-o com um brao e abriu o outro para Jim.
- Adorei. Obrigada.
-Voc pode ter vinte e quatro anos, - ele disse, sentando-se a seu lado, no sof - mas isso no significa que no existam momentos em que abraar um urso de pelcia 
seja melhor do que qualquer outra coisa.
- Estou me sentindo muito bem agora.
- Na verdade, comprei-o h um ms.
- Foi uma intuio. O nosso Amigo l de cima deve ter dado o palpite.
- Como est se sentindo?
- Fisicamente, tima - disse, mas seu tom era de desencorajamento.
- Quer conversar sobre o que aconteceu?
- Ontem  noite? - Ela suspirou. - Eu estava zangada. Queria divertir-me. Ento, eu disse, para o diabo com a diabete,  o meu aniversrio, vou fazer o que quero. 
- Abraou o ursinho com mais fora. Fui derrotada, no ?
- O que Gus disse sobre isso tudo?
- No disse muito. Eu insisti demais.
- Ele expressou alguma preocupao?
- No. - Para que ele no culpasse Gus pelo que acontecera,
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ela disse: - No estvamos fazendo nada fora do comum. Fui eu mesma quem provocou tudo com a comida e a bebida. Padre Jim no parecia convencido.
- Ele tambm tinha alguma responsabilidade. Deveria ter feito com que voc comesse. No estou satisfeito com ele.
- Ele vai ser despedido?
-No. Mas vai ser observado cuidadosamente. Tive a esperana de que tirando-o de Tyne Valley e trazendo-o para c iria coloc-lo no caminho certo. Mas acho que isso 
no aconteceu.
Sophie no podia dizer nada para ajud-lo. Quando no estava com ela, Gus passava a maior parte de seu tempo livre com as almas perdidas do bar local. Apresentara-as 
a ela vrias vezes, e essas vrias vezes foram o suficiente. Trazer Gus para seu prprio crculo j era arriscado o bastante para ser excitante, mas o contrrio 
no era verdadeiro.
- E quanto  bebida? - Padre Jim perguntou. Sophie encolheu os ombros.
- Ele bebe, s vezes.
- E  voc sempre quem tem que voltar dirigindo? Ela hesitou, depois confessou:
- s vezes.
Padre Jim franziu a testa olhando fixamente para suas mos. Ficou um minuto em silncio, depois disse:
- Preocupo-me por voc com ele, no s sobre as vezes como a outra noite. Quando sugeri que Grace o contratasse, nunca pensei que ele fosse dar em cima de voc.
- Ele no fez isso - Sophie disse honestamente. - Eu dei em cima dele.
- Por qu? Qual foi a atrao?
Ela arqueou a sobrancelha, divertida.
- Isto no  engraado, Sophie - insistiu, parecendo ferido e to verdadeiramente preocupado que a reprovao perdeu sua farpa. - Quero mais para voc na vida do 
que Gus. Ele no pode dar o que voc precisa.
- E o que  isso? - ela perguntou em uma voz mais aguda,
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que mostrava sua profunda angstia. - Parece que nem eu mesma sei o que possa ser.
O foco de ateno do Padre Jim mudou, exatamente como Sophie sabia que aconteceria, esperava que acontecesse. Ela precisava conversar.
- Sente-se perdida?
- Confusa. Quer dizer, estou aqui. Tenho uma casa maravilhosa e um trabalho fantstico. Mas estou confusa.
Ele sorriu.
-  para isso que o ursinho serve, para lembr-la de que  jovem. No faz mal estar confusa. Voc tem ficado muito confinada ultimamente.
- O problema - Sophie disse, tentando concatenar seus pensamentos -  que o confinamento tende a piorar. Com Grace doente, no posso ir embora.
- E voc quer?
- Uma parte de mim quer.
- Para fazer o qu?
- Eu no sei. Alguma coisa diferente, Alguma coisa nova. Se eu continuar no caminho em que estou agora, meu futuro ser a mesma coisa.  muito triste estar estagnado 
na vida com vinte e quatro anos de idade.
- Mas no precisa ser assim.
- Mas , por enquanto - ela retrucou. - Eu pensava que era importante que eu estivesse aqui para proteger minha me de Grace. E de repente  importante que eu esteja 
aqui porque Grace no est. Mame no pode fazer tudo sozinha. Todas as coisas de Grace foram jogadas em suas costas. No posso dar o fora e deix-la tambm com 
meus problemas. Alm disso, A Confidente sempre foi uma coisa da famlia.  difcil romper uma tradio. Mame precisa dessa tradio. Talvez eu tambm precise. 
Uma coisa  certa, no posso virar as costas para tudo isso. Ento, eu vou ou fico? Sou condenada se partir e condenada se ficar.
Padre Jim sacudiu a cabea.
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- Voc no est condenada, Sophie. Muito pelo contrrio. Voc  abenoada.
- Com o qu? - Sophie perguntou, necessitando de um pouco de nimo.
- Voc  abenoada com sua inteligncia, com sua beleza e com sua boa educao.  abenoada com boa sade; mesmo que no acredite, s vezes, mas em comparao com 
muitos outros,  sim.  abenoada com uma famlia que a ama, com segurana financeira e com a liberdade de fazer o que quiser. Tambm  abenoada com a sensao 
de respeito pelo que sua av fez, o que deixa voc louca, eu sei. Voc rebela-se contra isso sempre que pode. Mas se no respeitasse A Confidente no ficaria aqui 
nem um minuto. E tambm existe a compaixo. Voc tambm  abenoada com isso. Voc sente por sua me e tambm sente por Grace.  tudo isso que mantm voc aqui. 
Voc  uma jovem muito especial, Sophie.
- E o que eu fao? - ela gritou. Era muito bom ser todas as coisas que Padre Jim dissera, mas isso no acalmava a agitao que sentia.
Ele pegou sua mo.
- Continue firme. Voc d  sua me e  sua av o apoio de que elas necessitam, porque este  um momento difcil para elas, mas mantenha em sua mente que as coisas 
vo melhorar.
- No para Grace.
- Sim, para Grace. Neste momento, ela tem conscincia do que est acontecendo. Daqui a algum tempo, no ter. Nossa funo  fazer com que fique o mais confortvel 
que puder enquanto mantiver sua conscincia. D tempo ao tempo, Sophie. Pouco a pouco as coisas clarearo. Sua famlia est vivendo um trauma. Pense em uma pessoa 
que perca um membro. Existem o choque e a dor iniciais, depois a cura, e isso envolve adaptao, reeducao, mudanas. Sua vida no ser sempre assim. Existiro 
mudanas com os novos acontecimentos que viro, mas voc ter energia, cada vez mais, porque sua me precisa de voc para isso. Ento, ser capaz de dirigir as mudanas 
e ajudar a mold-las. Veja esta situao como um desafio. Voc, Sophie Dorian, est em
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uma posio privilegiada para moldar pessoalmente A Confidente. Falando honestamente, estou impressionado.
Colocadas as coisas daquela forma, Sophie tambm ficou.
Grace acordou com um ligeiro toque no ombro. Sentiu-se desorientada at ver o rosto de Jim e ento sorriu.
- Hora de ir para a cama - ele disse.
Grace presumiu que fosse, j que no se lembrava de nada que acontecera antes, naquela noite. Acostumava-se quilo e a acreditar no que lhe diziam. Se Jim disse 
que era hora de ir para a cama, ento era.
Levou a mo at seu rosto.
- Isto  bom.
- Dormir no sof?
- Acordar com voc.
Ele beijou sua mo com um carinho que lhe provocou lgrimas.
-Oh,Jim.
- Sim, minha querida?
- O destino no foi justo conosco.
Ele fitou a mo da amiga, acariciou seus dedos com o polegar.
- Nenhuma vida  perfeita. Vencemos em muitas outras coisas.
- Mas voc nunca pensa... nunca deseja... Ele tocou seus lbios.
- Shh.
- Nunca? - ela murmurou. Ele concordou.
- Eu sonho com isso - ela disse. - Sonho conosco juntos. Ser que ficaremos um dia?
- Sim, ficaremos.
- E voc ento me amar?
- Muito.
- Mesmo depois... depois...
- Shh.
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- Este tem sido o meu castigo, tantos anos depois.
- No.  simplesmente a vontade de Deus.
- Mas, se no for um castigo, por que ento?
- Para dar-nos a todos uma chance de mostrar-lhe nosso amor.
Ela apertou as mos.
- Estou com medo.
- Estou aqui.
- E se eu repudi-lo?
- Voc jamais faria isso.
- Sem saber. - Ela segurou as lgrimas fechando os olhos e repetiu, mais suavemente - ...sem saber. - Abriu os olhos lentamente. - Se voc fosse outra coisa para 
mim, eu terminaria isso antes do pior.
- Mas eu no sou e voc no terminar - ele comandou. - Voc no far isso comigo, ou com Francine, ou com Sophie.
- Serei um fardo.
Ele acariciou seus cabelos.
- Ns a amamos, e o amor faz com que tenhamos vontade de cuidar das pessoas. Voc fez isso conosco todos estes anos. Agora  a nossa vez.
Naquele momento, Grace detestava o conceito de amor. Julgou-o penosamente difcil. Julgou-o sem piedade. O amor tornava mais difcil aceitar sua doena. Fazia com 
que o resultado fosse devastador.
Francine chegou em casa s onze horas. Estava fisicamente exausta - membros fracos, msculos doloridos - mas sentindo-se pecaminosamente feliz, muito mais forte 
do que se sentia h dias. Vestiu uma camisola que a cobria do pescoo aos ps, que escondia todas as marcas rosadas deixadas pela barba de Davis, e foi ao quarto 
de Sophie.
Apesar de as luzes estarem acesas, a corujinha estava dormindo. Quando Francine a observou da porta, o horror da noite anterior passou como um relmpago por sua 
mente. Tinham conversado um pouco sobre o que acontecera, mas aquele pouco
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no fora o suficiente. Sophie culpava sua falta de ateno com raiva. E aquela raiva tinha que ser endereada. O egosmo de Francine reagia da mesma forma. Queria 
que Sophie ficasse com ela, mas Sophie preferia ficar com seus amigos na cidade. Sophie mexeu-se, abriu os olhos, espreguiou-se.
- Oi - murmurou.
- Quando chegou em casa?
- H pouco tempo. - Foi at a cama e afundou-se. Seus olhos caram sobre uma coisa peluda na extremidade do edredom. Quando o puxou, surgiu uma orelha. - O que  
isto?
Sophie pegou um adorvel ursinho de pelcia.
- Padre Jim me deu de presente.  uma lembrana de que nunca somos suficientemente crescidos como pensamos.
- Mas que coisa mais linda - disse Francine. - Que Deus o abenoe, ele sempre acerta no alvo. Como se sente?
- tima. Meus nveis ficaram estveis o dia inteiro.
- Emocionalmente. Est muito aborrecida e no quer contar-me?
- Eu contaria - Sophie disse. - Verdade. No estou infeliz. A propsito, Padre Jim disse que agi muito bem, fazendo com que voc sasse. - Seus olhos sondaram o 
rosto de Francine. - Voc est com um ar melhor. O que foi que fez?
Francine lutou para no corar.
- Oh, dirigi por a. Parei em alguns lugares. - Parte dela, a parte que tivera a noite mais incrvel e sentia-se tonta cada vez que se recordava do que acontecera, 
queria contar para sua melhor amiga, Sophie, cada detalhe mnimo e lascivo. A outra parte, a mais sensata, no poderia faz-lo. Francine no tinha a menor idia 
de para onde iria seu relacionamento com Davis, nem se iria. Um romance de uma noite no era o melhor dos exemplos para ser dado a uma filha.
- S libertei um pouco a minha mente - Francine disse sem mentir. - Coloquei um pouco de distncia entre mim e tudo o que tem se acumulado. Tenho estado muito perto 
de tudo. Incapaz de ver as coisas em perspectiva.
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- E agora pode?
Francine concordou. Apesar de os detalhes do futuro ainda permanecerem duvidosos, sentia uma nova esperana.
- Estamos fazendo mudanas. No podemos mais ter repeties da noite passada. A vida tem mais coisas para ns do que o passado. No temos que ficar acorrentadas 
a esta casa.
Sophie pareceu hesitante:
- E quanto a Grace?
Francine sabia o que ela estava pensando. O pesadelo da sada da vspera com Grace era uma previso do que ainda estava por vir. Mas se elas se limitassem a seu 
mundo que agora encolhia enlouqueceriam.
- Portanto, disse resignada, mas firmemente. - Podero existir momentos em que precisaremos afastarnos de Grace. No posso cuidar dela durante vinte e quatro horas, 
no com tudo o mais que ela colocou na minha bandeja. No tenho conseguido fazer nada bem. - Isto era, pelas leis de Francine, um insulto muito maior a Grace do 
que tirar algum tempo livre. - Vamos ter que contratar algum para ajudar.
Os olhos de Sophie arregalaram-se.
- Vamos?
- Para comear, precisamos de algum que fique com Grace quando no pudermos.
- E ela deixar que voc contrate algum para sso?
- Se chamarmos essa ajuda de assistente-executiva deixar. Contrataremos tambm algum para ajudar com A Confidente. Seja quem for, dever tambm ser capaz de ajudar 
Grace com seu livro.
- E como encontraremos a pessoa certa?
Francine evocou a imagem de Robin Duffy. Ela era escritora. Conhecia A Confidente, conhecia Grace. Mas Robin representava problemas, portanto disse:
- Amanda nos ajudar a encontrar algum. Ela tem muitos contatos no mundo da edio. Alm disso, acho que j  hora de ela saber a verdade.
Os olhos de Sophie ficaram ainda maiores.
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- Mas Grace disse para no contarmos a ningum. Francine deu-lhe uma cotovelada.
- Ei, onde est a rebelde?
- Estou surpresa. Nunca a vi desobedecendo a Grace antes.
- No estou desobedecendo. Bem, no com uma inteno maldosa. Se eu fosse to boa quanto ela  (foi) e tivesse que tomar conta de tudo  minha prpria maneira, guardar 
segredos poderia ser muito fcil. Mas os telefonemas esto chegando rpido e cada vez mais furiosos e no posso lidar com eles e com tudo o mais. Se no fizermos 
alguma coisa, o mundo inteiro ficar sabendo. Amanda ser nosso abafador. Se existe alguma esperana de manter o estado de Grace em segredo por mais algum tempo, 
 atravs dela.
Sophie parecia assombrada.
- Quando voc toma decises, toma mesmo. Tudo isso s por dirigir por a uma noite?
Francine sentia-se quase to assombrada quanto a filha. Alguma coisa acontecera na casa de Davis. Mas tambm poderia ter acontecido no hospital na noite anterior. 
Chegara a um ponto em que as consideraes prticas sobrepujavam tanto o medo que sentia de Grace quanto o que sentia do fracasso.
No que tivesse j resolvido todos os detalhes. Era o que fazia enquanto falava. Poder-se-ia chamar de atos impulsivos, mas droga, ela era impulsiva, no se parecia 
absolutamente com Grace, que pensava e planejava muito bem cada movimento. Mas no era Grace quem estava tentando cuidar sozinha de uma empresa to grande quanto 
sua carreira se tornara.
Com aquela percepo - chocante, como todas as percepes - veio uma sensao de triunfo e de alegria.
-  muito diferente agora do que nos primeiros dias, quando A Confidente ainda era um negcio pequeno, e Grace nunca tivera que cuidar sozinha de sua carreira. Ela 
teve ajuda, primeiro eu, depois voc. Portanto, se agora ela est fora da coisa, precisamos de uma terceira pessoa, certo?
- Certo.
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- Telefonarei para Amanda logo pela manh e marcarei uma reunio.
- E o que diremos a Grace?
Francine pensou durante um momento. Sentindo uma ousadia que poderia ou no ter alguma coisa a ver com a noite que passara com um sujeito de Tyne Valley, disse:
- S o suficiente para no deix-la nervosa. Se a meta  manter A Confidente como sempre, o fim justifica os meios. - Isso sem mencionar que, se Francine estava 
pecando, com seu egosmo, impulsividade, dormindo com o inimigo, pelo amor de Deus... um pecadinho a mais no poderia causar qualquer mal.
Francine tomara para si a tarefa de cuidar de Grace  noite. Esta freqentemente precisava de algum que lhe lembrasse que era hora de ir para a cama. Muitas vezes 
tambm precisava que algum lhe garantisse que a salinha de estar estava vazia.
Naquela noite, Francine nem precisou chegar  sala de estar. Grace andava de um lado para o outro no corredor que ficava alm dela. A um primeiro olhar, parecia 
muito elegante em seu robe branco, com a pele devidamente hidratada e os cabelos cuidadosamente escovados. A uma segunda observao, seu distanciamento desmanchava 
a primeira imagem.
Quando viu Francine, parou de andar, apertou os lbios e abraou sua prpria cintura.
Francine adivinhou o problema.
- Eles esto aqui novamente?
Grace concordou com a cabea, mas no disse nada. Francine sabia que o medo da me vinha tanto da presena que sentia de sua famlia quanto de sua conscincia de 
que estava tendo alucinaes.
- Voc chegou a deitar-se? - Francine perguntou.
- No. Jim chegou tarde. Tomei um longo banho e fui  cozinha para tomar um lanche. Eles estavam aqui e eu voltei. Fui para o escritrio e tentei trabalhar, mas 
no tinha idia do que escrever.
- No  de admirar.  muito tarde.
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- Eu no sei o que devo e o que no devo contar. Pacientemente, j que aquela discusso no era novidade, Francine disse:
- Conte a histria de sua vida. Trata-se de uma autobiografia. Escreva o que tiver vontade de escrever.
- No sinto vontade de escrever nada.
- Est dizendo que no quer mais escrever o livro? - Isso era uma novidade e certamente resolveria um dos problemas de Francine.
- Eu quero escrever. Mas no posso contar como foi a minha infncia ao mundo. - Ergueu a cabea e levantou uma das mos. - Est ouvindo agora?
Francine olhou na direo da sala de visitas.
- Eles esto conversando?
- Toalto!
- E o que esto dizendo?
Grace murmurou muito desconcertada:
- Que eu estou sempre criando problemas. Mas no  verdade. Ns ramos incontrolveis s vezes. Mas nem sempre.
Francine no conseguia imaginar Grace descontrolada. Grace escutava, com a sobrancelha franzida.
- Bem, se bebamos era s porque toda a cidade fazia o mesmo. Mas, meu Deus, no havia mais nada a fazer. E no era eu quem instigava. Nunca fui presa. Wolf foi, 
e Scutch tambm. Mas Johnny e eu nunca.
- Beber? Presa? Francine ficou perturbada. - Mame, do que est falando?
-Eu no. So eles que esto falando. Eu nunca falaria do que aconteceu. Fizemos um pacto. Juramos que nunca falaramos.
- Quem jurou?
- Est bem, eu fui irresponsvel. Mas eles eram piores. Eles mandavam que sassemos de casa com fome. Mandavam que sassemos sem roupas apropriadas. Nem pensavam 
em mandar-nos para a escola... no ligavam a mnima at o inspetor de disciplina ir l em casa, e ento disseram que ns nos recusvamos
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a ir, o que no era verdade. Portanto, quem so eles para dizer que eu bebia demais? Quem so eles para chamar-me de vagabunda? Eu agi corretamente, no agi?
- Mame - Francine disse com suavidade, segurando seu brao na tentativa de faz-la voltar  realidade. - Voc est dizendo coisas sem nexo.
-  o que eles diro se eu escrever essas coisas. Por isso no posso. No posso escrever esse livro.
Francine tinha duas escolhas. Ou Grace sonhava com horrores inexistentes de sua infncia ou mentira durante todos aqueles anos.
Mas Grace no mentia.
- Eu acho - Francine props gentilmente, engenhosamente - que voc est pegando coisas das cartas que recebeu todos estes anos e confundindo-as com sua prpria vida. 
Voc era introspectiva e tmida. Voc nunca foi uma criadora de problemas. Voc no bebia e com certeza no era uma vagabunda.
Grace cruzou os braos, abraando seu peito.
- Diga isso a eles.
- Est bem - Francine abriu a porta da saleta e anunciou.
- Grace no cria problemas, nem bebe, nem dorme com qualquer um. Vocs todos esto errados. E se no acreditam em mim - continuou - perguntem s centenas de milhares 
de pessoas do mundo todo que dependem de cada palavra dita por ela. - Olhou para Grace e perguntou: - Tudo bem?
Grace concordou. Depois, sua expresso ficou tmida.
- Voc pensa que sou tola.
- No - Francine disse tristemente. - Sei que voc os escuta, mas eles agora foram embora. Voc deve estar cansada.
- Passou um brao pela cintura da me e guiou-a para o quarto. Percebeu como Grace olhou nervosamente para a saleta, mas manteve-a na direo de seu quarto.
- Quer que eu lhe traga alguma coisa?
- No, estou bem. - Grace pendurou seu robe na cadeira que ficava ao lado da cama e, usando uma camisola de seda que
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lhe dava um ar muito frgil, deitou-se na cama. Recostou-se sobre os travesseiros e olhou preocupadamente para Francine.
- Onde voc esteve antes?
Francine segurou sua mo.
- Eu sa. Precisava de ar.
- Estou fazendo voc trabalhar demais. - Seus olhos mostraram um toque de humor, que desapareceu rapidamente em um piscar de olhos. - Estou preocupada.
- No  preciso, mame. Vamos cuidar de tudo.
- Estou preocupada. Isto no devia ser assim. Francine sacudiu a cabea, concordando.
Grace respirou profundamente, comeou a falar e parou.
- O que foi? - Francine animou-a, exatamente como Grace fizera tantas vezes, durante tantos anos, quando queria que a filha falasse.
Grace pareceu perdida em seus pensamentos por outro longo minuto. Ento, com a voz mais macia, desculpando-se, disse:
- Ainda existe o problema, sabe? Se eu no puder escrever a verdade, o que posso escrever?
Francine no tinha idia sobre a espinha dorsal do livro. Havia muitas histrias tiradas de A Confidente. No, sua preocupao sempre fora que a infncia de Grace 
fosse montona demais para fornecer uma leitura excitante. Passou-lhe pela cabea que Grace pudesse estar criando aquela preocupao para ornamentar o livro.
Depois de um segundo, pensou que poderia haver mais coisas na infncia de Grace do que ela jamais contara.
Afastou essa possibilidade. Mas ela voltou imediatamente. Wolf. Scutch. Johnny. O pensamento de uma histria no contada chocava-a e, ao mesmo tempo, intrigava-a. 
Se alguma parte, mesmo que mnima, das alucinaes de Grace fosse baseada na realidade - se ela no tivesse sido uma menina quieta e tmida e sim uma criana selvagem, 
se ela tivesse uma famlia maior, se membros daquela famlia ainda estivessem vivos - as ramificaes seriam surpreendentes.
Treze
Quando surge o vento, fecho a porta para afastar minha filha do frio. Quando algum a ameaa, lano sobre ela minha fora, como uma capa de l.
- Grace Dorian, em A Confidente
Francine e Sophie encontraram-se com Amanda na tarde seguinte, em um pequeno e elegante restaurante na Baixa Manhattan. A urgncia fora de Francine. No queria descartar 
a resoluo que tomara.
Amanda ficou compreensivelmente chocada com a notcia da doena de Grace, apesar de no completamente surpresa. Percebera que alguma coisa acontecia, com os boatos 
recentes que corriam por Nova York, e, apesar de as Dorian afirmarem oficialmente que tudo corria bem, trabalhava com Grace h muito tempo - e achava seu prolongado 
silncio muito estranho - para suspeitar que algo estivesse errado.
A boa novidade era que se sentia bastante confortvel com Francine escrevendo A Confidente.
A notcia ruim era que Katia Sloane perguntava se o livro de Grace seria mesmo escrito.
Francine perguntava-se a mesma coisa. No podia escrever o livro. No sabia por onde comear, e isso s para falar no estilo.
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O contedo ficara ainda mais nublado com as recentes alucinaes de Grace.
Francine queria poder neg-las categoricamente, mas o fato desconcertante era que sabia pouco mais sobre os anos prDorian de Grace do que o resto do mundo. Grace 
sempre disse que tivera uma infncia tranqila, em uma famlia tranqila, em uma cidade tranqila afundada no esquecimento. No existiam parentes vivos nem pequenas 
anedotas familiares, apesar de Francine sempre ter implorado que sua me lhe contasse um pouco mais. Para todos os efeitos, a vida de Grace comeara quando conhecera 
John.
Se pudesse acreditar nas alucinaes de Grace, isso poderia no ser inteiramente verdadeiro. Francine sentiu uma necessidade premente de saber alguma coisa sobre 
aqueles anos antes de Grace perd-los para sempre.
- Voc j perguntou ao Jim sobre isso? - Davis perguntou. Estava deitado sobre a manta que colocaram diante da lareira, quando a idia de fazer amor sobre as lajes 
nuas no pareceu muito boa.
Francine estava encolhida a seu lado, sentindo-se suficientemente segura, suficientemente repleta, para confidenciar-lhe o dilema.
- Milhares de vezes. Mas ele no diz nada.
- Ser que  porque no sabe?
- Pode ser. - Passou a mo pelas costelas de Davis. Sua pele estava mida, aquecida pelo fogo, almiscarada pelo sexo. - Mas ele no diz exatamente "eu no sei".
- O que ele diz?
-Ou diz que Grace no gosta de falar sobre isso, ou que eu mesma deveria perguntar, ou que isso no importa. No estou bem certa de que ele me dissesse, mesmo que 
soubesse. Consideraria uma informao confidencial. - Mudou de posio de modo a colocar a orelha sobre o corao de Davis e suspirou alto. - Esta  a coisa de que 
eu mais gosto no mundo. - Durante todos aqueles anos em que fantasiara estar com algum to gloriosamente
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msculo quanto Davis, nem um de seus sonhos inclura batidas de corao.
- Essas batidas podem significar culpa - observou. - Padre Jim disse-lhe alguma coisa?
- No, senhora.
- E Grace, quando voc fazia seu histrico?
- Eu s fiz seu histrico mdico. Perguntei se havia algum sinal de demncia senil em sua famlia. Ela negou.
Durante todo tempo Francine desejou conhecer a famlia de sua me, agora no queria tanto saber de uma fonte e sim de uma reserva de informaes.
- Se ao menos houvesse algum a quem eu pudesse perguntar, mas todos esto mortos, e eu no saberia por onde comear a procurar as pessoas que a conheceram enquanto 
crescia. Eles espalharam-se quando a cidade sofreu uma inundao.
Sempre lhe parecera um crime inundar uma terra que continha o passado das pessoas. Gostaria de ter visto onde Grace nascera, onde crescera, todos os pequenos refgios 
que ela chamara de seus durante os dezessete anos que vivera l.
Olhou para alm do peito de Davis, para o fogo.
- Ela poderia orientar-nos, mas no o far. Tentei novamente. Talvez ela no entendesse a pergunta. Talvez sua mente tenha escolhido aquele momento para recuar. 
S que, olhando para trs, existe alguma consistncia na histria. Ela no quer falar sobre aqueles anos. Por que ser?
A pergunta era somente uma das muitas que assaltavam Francine. Outras tinham a ver com deixar que alguma coisa vazasse. Agora que Amanda conhecia a verdade, o fato 
passara a ser oficial. A tocha fora passada. A Confidente mudara de gerao. A capacidade de Francine estava prestes a passar por um teste formal, bastante penoso.
Era de novo a competio estadual. Seu arco fora untado com resina, seus dedos estavam flexveis, seu estmago com um n. Chegara a hora de lutar.
Respirou profundamente para afrouxar o n. Ajudou bastante
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quando passou a mo sobre a pele de Davis, deslizando por sua cintura, pela cicatriz em seu abdome, e continuando. Colocou os dedos em seu prprio rosto.
- Eu no quero pensar sobre isso. Distraia-me. Os olhos dele estavam escuros e maliciosos.
- Como eu poderia fazer isso?
Ele suspirou audivelmente quando ela passou as costas da mo sobre sua ereo e quando ela comeou a massagear o peso existente sobre ela. Davis ficou inspirado 
rapidamente.
Francine adorava isso em Davis. Ele era rpido para excitar-se, rpido para satisfazer suas necessidades, rpido para tomar o controle e elev-la ainda mais quando 
ela j pensava que pudesse morrer de satisfao. Quanto ao aspecto da distrao, ele era o melhor.
O fogo estava transformando-se em cinzas, quando ele finalmente separou-se dela e jogou vrias achas de lenha na lareira. Ao voltar para a manta, enrolou as pernas 
em torno dela, puxando-a para seu colo.
Ela ajeitou-se com um longo suspiro estremecido.
-  uma vergonha a maneira como estou usando voc.
-  uma estrada de duas mos.
- Teve um dia ruim?
- Sim.
- O que foi?
Passou-se um minuto antes que ele dissesse:
- Perdi um paciente.
- De qu?
- Ele tinha o mal de Parkinson. Mas no foi isso que o matou.
- E o que foi?
- Uma overdose de plulas. Plulas que prescrevi para ajud-lo a dormir.
Ela procurou seu rosto perturbado.
- Oh, Davis, sinto muito.
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- Eu tambm.
- No pode culpar-se.
- Fcil de dizer.
- Ele deu algum sinal antes?
- Nenhum. Sua famlia est to chocada quanto eu. Francine tentou imaginar como seria lidar com a vida e a morte todos os dias. Acreditava que no conseguiria. Comparado 
com o que Davis fazia, escrever uma coluna de conselhos era uma bobagem.
- Deve ser muito difcil manter uma distncia emocional.
- ...
Ela acariciou sua garganta, correu a mo sobre seu pomo-de-ado, levemente, muitas vezes.
Depois de algum tempo, ele suspirou:
- Mas a morte  somente uma parte do que eu fao. Tambm existe a cura. E isso  maravilhoso.
- Aposto que voc fica envolvido mais com os pacientes do que muitos mdicos. - Ele ficava inquieto com essa caracterstica de sua personalidade.
- Envolvi-me com voc - ele disse com seu sorriso torto, perturbadoramente interessado.
- No sou uma paciente. Mas com certeza estou muito necessitada. - Sabendo que estava chegando a hora de voltar para casa, ela perguntou em uma voz mais suave, mais 
urgente:
- O que eu fao a respeito da Grace?
- Deixe-me sondar Jim. Ele pode baixar a guarda comigo. Sou apenas um bandido de sua cidade natal.
Francine emitiu um rudo seco.
Apenas um bandido. Hum... hum. Mas eu seria uma cmplice se permitisse que voc tentasse arrancar segredos dele. Ns dois estaramos correndo o risco da danao 
eterna. Na qual nenhum de ns dois acredita. Ele  um padre, Davis. Alm disso, eu o amo. No posso usa-lo. Minha conscincia no permitiria. Grace lembra-se de 
Sua infncia. Ela s prefere no falar sobre ela.
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- Ento continue tentando. Raciocine com ela. Faa perguntas especficas. Voc pode peg-la em um momento de fraqueza.
- E se ela explodir?
- Tem feito isso ultimamente?
- No, desde que voc a medicou. Est mais calma. Mesmo assim, no consegue lembrar-se do dia da semana em que estamos. Mas fica mais calma quando se esquece.
- Bem, isso j  alguma coisa. Francine acreditava que era mesmo.
Sophie estava fazendo as unhas quando Robin Duffy entrou no salo de manicure e matou dois coelhos, de uma cajadada. - As grandes mentes pensam igual. Lucy  a melhor 
manicure por aqui. Sou sua cliente das duas e meia - disse para Lucy. - Cheguei um pouco adiantada. Vou sentar-me e relaxar at chegar a minha vez. - Pendurou seu 
casaco no cabide, ajeitou-se no sof perto da mesinha da manicure e sorriu para Sophie. - Voc vem aqui sempre?
Sophie estava de muito bom humor at Robin entrar, mas sua alegria acabou naquele instante. No gostava de gente falsa. Robin no fora at l por coincidncia. Queria 
obter informaes.
Olhando-a dentro dos olhos, disse:
- Eu venho todas as semanas, e acredito que voc saiba. Robin sorriu.
- No. - Pegou uma revista People, folheou vrias pginas, depois recolocou-a no lugar e fingiu uma preocupao genuna. Como est Grace? No a tenho visto. Ouvi 
dizer que est doente.
- Na verdade - o demnio que existia dentro de Sophie falou - ela est visitando uns amigos em Antibes. No foi divulgado, naturalmente - isso faria com que Robin 
fosse atrs de uma pista falsa.
- Francine est com ela?
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- No. Francine est em casa, trabalhando. Pobre Francine. Eu adoraria estar em Antibes. - Folheou a revista novamente. Sophie estava apostando consigo mesma qual 
seria a prxima pergunta, quando Robin disse: - Quanto tempo Grace ficar fora?
- No muito tempo. Ela tem muito trabalho a fazer. Robin concordou. Fingiu estar lendo, at as unhas de Sophie ficarem prontas, e trocarem de lugar.
Sophie teria sado do salo imediatamente se tivesse para onde ir. Mas estava um dia frio e chuvoso, nada ideal para um passeio, e Gus s voltaria dentro de quinze 
minutos. Ento, pegou a revista que Robin largou e comeou a folhe-la por sua vez.
Robin ento disse:
- Estou tentando conseguir uma entrevista na cidadezinha onde Grace nasceu. Para um artigo sobre mulheres que venceram na vida, mesmo tendo origens em cidades pequenas. 
Voc sabe o nome dela?
Sophie no teria dito, mesmo se soubesse.
- No. Desapareceu h muito tempo.
- Foi o que me disseram. Inundada. S que no consegui encontrar uma cidade no Maine que tivesse sido sacrificada por uma enchente no ano em que Grace disse. Era 
de imaginar que tivesse sado nos noticirios.
- Tenho certeza que sim, talvez no nos noticirios que voc esteja buscando.
- Verifiquei quase tudo. Mas sem o nome da cidade no posso conseguir os noticirios locais, e se no consigo obter qualquer meno em algum lugar onde uma cidade 
foi inundada no posso descobrir o nome.
- Isso  um grande problema - Sophie disse e virou a pgina, mas o diabinho dentro dela continuava trabalhando. -voc no gostaria de roubar a cena de Grace, no 
 mesmo?
- Roubar a cena dela?
- Ela contar tudo em sua autobiografia.
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-  mesmo?
Alguma coisa na maneira como Robin dissera aquela frase fez com que Sophie dissesse:
- Por que ela no contaria?
- Os detalhes do incio de sua vida poderiam ser embaraosos.
- Embaraosos? Na vida de Grace? Voc deve estar brincando.
- Voc conheceu os pais dela?
- Eles morreram muito antes de eu ter nascido.
- Tem certeza?
- Claro que tenho certeza. Seno eu os teria conhecido. Grace no esconderia sua neta de seus pais.
- E se fosse o contrrio? E se ela estivesse escondendo seus pais de sua neta?
- E por que diabos ela faria isso?
- Vergonha. Suas razes encontram-se em uma classe muito inferior.
Sophie levantou e foi buscar seu casaco, como a nica forma de protesto adequada. Ressentia-se da interferncia e da intruso no que poderia ter sido uma hora de 
relaxamento.
Depois de enfiar as mos nas mangas do casaco, ajeitou a gola e saiu para a rua, ao encontro de Gus.
- No tem nada a negar? - Robin perguntou s suas costas.
- No merece esse esforo - Sophie disse, sem virar-se. - Voc no tem a menor idia do que est falando. J chegou minha conduo. - E na hora exata, pelo menos 
por uma vez. - Obrigada, Lucy. Estarei aqui na prxima semana.
Saiu sem dirigir a palavra a Robin. Mas entrou rapidamente no banco traseiro do carro.
- Epa - Gus protestou com sua voz profunda, cheia de usque. - Por que vai a atrs?
- Porque estou sendo observada. Vamos sair depressa. Ele desceu a rua, virou a esquina e estacionou.
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Sophie esperou que ele saltasse e fizesse o que pretendia fazer. Quando tudo o que ele fez foi olhar para ela pelo espelho retrovisor, ela perguntou:
- O que houve?
- Preciso de voc aqui na frente. Ela percebeu para que ele precisava dela a seu lado e Sentiu uma pontada de aborrecimento.
- Desculpe, Gus. Mas no estou disposta.
- A manicure fez mal suas unhas?
- Voc me faz sentir como um motorista.
- Voc  o motorista. Seus olhos procuraram os dela no espelho.
- .
Ela suspirou.
- Dirija, Gus.
Ele pisou no acelerador at o fundo e saiu voando rua abaixo.
- Voc ainda est zangada pelo seu aniversrio. Est muito estranha desde aquela noite. Voc me culpa.
- Eu disse isso? - Ela culpava-se, no a ele.
- Talvez no voc, mas todos os outros. Sua me, Jim O'Neill, at Davis Marcoux.
Davis? Sophie sabia que eles se conheciam de Tyne Valley, mas acreditava que Davis estivesse com quarenta e poucos anos, enquanto Gus estava com vinte e tantos, 
o que no os tornava exatamente contemporneos.
- Voc conhece Davis bem?
- No muito bem. Mas ele conhece minha famlia. Ele pensa que agora pode ser o manda-chuva, j que  um mdico importante. Ele me disse para ser mais cuidadoso. 
A velha tambm disse alguma coisa parecida.
O aborrecimento de Sophie aumentou.
- Voc tem que cham-la de velha? Ela  minha av.
Sua observao silenciou-o, mas somente pelo espao de mais algumas quadras.
- Isso nunca a incomodou antes. Voc est zangada
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Ela considerou o que ele disse.
- Agora que voc mencionou, sim, estou zangada. Prestar um pouco mais de ateno em mim no teria matado voc.
- Eu era seu acompanhante, no seu guardio.
Sophie lembrou-se do pedido de Grace, de que ela se casasse com um homem bom e responsvel que tomasse conta dela. A parte do casamento continuava errada, mas o 
resto - a de tomar conta dela - no lhe parecia to ruim agora. O que acontecera com ela naquela noite poderia ter sido letal.
Tentou lembrar-se se, nas muitas vezes em que estiveram juntos desde ento, Gus expressara preocupao pelo que aconteceu, ou se desculpara.
- Toda aquela coisa no o assustou, nem um pouco?
- Claro. Quase perdi meu emprego.
Isso lhe mostrou o que ela significava para ele. No que tivesse muitas iluses. Mesmo assim...
- Voc  um cretino - murmurou, quando ele virou para entrar no caminho que levava a casa. No instante em que o carro parou  porta, ela saltou e subiu as escadas 
correndo.
Ele segurou seu cotovelo j no alto.
- E esta noite?
- Que  que tem?
- Voc vem me ver?
Ela relanceou os olhos lentamente por ele, demorando-se em sua braguilha, antes de parar no cotovelo que ele segurava.
- Se eu precisar. - E soltou seu brao de um arranco.
- Vagabunda.
Ela entrou explodindo de raiva, bateu a porta atrs de si e dirigiu-se rapidamente para o escritrio, afastando Gus de sua mente. Queria contar para Francine sobre 
Robin Duffy.
Mas Francine sara, o que aborreceu Sophie ainda mais. Tinham concordado em que uma delas ficaria sempre com Grace at contratarem algum - e isso aborreceu Sophie 
ainda mais. Apesar de todos os impulsos racionais que diziam que ter cuidado era a coisa certa, Sophie aborrecia-se com a idia de ter que
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cuidar de Grace. Parecia o mesmo tipo de manipulao em que Grace era especialista.
Estava prestes a refugiar-se na sua ala da casa quando seus olhos passaram pelo escritrio de Grace. A porta estava aberta. Sua av estava parada diante da janela, 
com os ombros encurvados, a cabea baixa. A posio no tinha nenhuma das caractersticas de Grace, o que fez com que a raiva de Sophie desaparecesse.
- Oi, v.
Grace levantou os olhos. Seu rosto iluminou-se por um segundo e apagou-se no seguinte. Seus olhos voltaram para suas mos.
- Marny estava tomando conta de mim. Mas era uma perda de tempo. Mandei-a de volta para seu escritrio.
No parecia manipuladora. Parecia derrotada. Mas a derrota era uma faceta desconhecida de Grace, pelo menos sempre fora at agora.
A raiva de Sophie aumentou. No sabia o que dizer a essa Grace diferente. Ento, percebeu que as mos de Grace estavam ocupadas. Aproximou-se, curiosa.
- O que est fazendo?
Ela tinha um pedao de barbante entre os dedos.
- Cama-de-gato. Costumvamos brincar disto. S que no consigo lembrar-me de tudo. S consigo chegar at aqui. - Mexeu os dedos mindinhos e o barbante ficou reto. 
- Gostaria de conseguir fazer o resto. - Sacudiu o barbante. - Seriam necessrias quatro mos para algumas partes. - Enrolou o barbante nos dedos novamente. - Minhas 
irms e eu costumvamos apostar quem fazia mais rpido. - Usando alternadamente os dedos de cada mo, continuava a manipular o barbante. Um desenho cedia lugar a 
outro.
Suavemente, Sophie disse:
Voc no fala muito sobre suas irms.
Grace levantou os olhos.
- Irms?
Voc acabou de dizer que brincava com suas irms.
Minhas amigas. Eu brincava com minhas amigas.
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Sophie largou o casaco sobre uma cadeira.
- Fale-me sobre elas, ento. Quais eram os seus nomes? Grace estudava seus dedos, franzindo novamente a testa.
- Os de sempre. Existiam Roses, Marys e Rosemarys. No adianta. - Deixou cair uma das mos. - No consigo. - O barbante balanava a seu lado. Ela suspirou e olhou 
pela janela.
- No consigo trabalhar. Estou esperando sua me chegar em casa.
- Onde ela est?
- Foi buscar ladrilhos de cermica.
Sophie no sabia de nada sobre planos para redecorar a casa - a menos que Francine finalmente tivesse decidido substituir o carpete que Legs fizera em pedaos na 
entrada de seu closet. Mas com ladrilhos de cermica?
- Disse que era para uma amiga. No me lembro quem. - Grace afundou-se em uma cadeira, olhou pela janela e suspirou.
- A primavera est to distante.
O desnimo em sua voz dizia que ela se perguntava se chegaria at l. Sophie afastou suas dvidas.
- Ela chegar antes que voc perceba.
- Nem chegamos aos feriados.
- Mas eles sero divertidos. As Dorian fazem grandes festas.
- Elas sero diferentes este ano.
- Talvez melhores. No precisamos que venha muita gente. Eles s vm para comer nossa comida, cuspir nosso vinho e urinar na tbua do vaso do lavabo. Portanto, este 
ano faremos festinhas ntimas. - As reunies ntimas no eram to dinmicas quanto as grandes festas, mas diminuam o potencial de desastres. Ningum sabia como 
Grace estaria em mais um ano. Esta poderia ser sua ltima estao lcida. O tempo que ainda teriam para passar com ela deveria ser bem saboreado.
- S ns - Grace disse.
- S ns - Sophie confirmou.
- E Jim.
- Naturalmente.
- E talvez Robert.
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Sophie permaneceu em silncio. Robert parecia ter evaporado.
- E para voc? - Grace perguntou. - Quero ver voc casada.
Sophie sentiu um incio de irritao. A Grace antiga e controladora tinha que trazer aquilo  baila.
- Isso pode no ser possvel.
- Por que no?
- Porque no encontrei ningum para amar. i
- Esquea o amor. Eu no amava seu av. Sophie surpreendeu-se.
- No?
- No no princpio. Ele oferecia segurana. O amor veio mais tarde.
-  inacreditvel. Sempre pensei que voc tivesse tido um romance de livro.
Grace sacudiu a cabea.
- No era necessrio para mim. Nem  necessrio para voc.
- Mas os tempos mudaram, v. No preciso de um marido. No quero ter um marido s para exibir para os outros. Antigamente, as pessoas casavam-se por segurana. Agora, 
no.
- Ah, casam sim. S que agora chamam de amor.
- O vov j tinha segurana. O que havia no casamento para ele?
Grace ficou pensativa durante um longo minuto. Ento, parecendo confusa, disse:
- Algum telefonou pouco antes de voc chegar em casa.
- Oh, no - Sophie provocou. - No mude de assunto. O que havia nessa histria para o vov? Aposto que ele estava completamente apaixonado.
Grace franziu a sobrancelha.
- Ela disse o nome, mas no consigo lembrar qual era.":
Sophie, quando criana, passara muitas horas deslumbrando-se com as fotos do casamento de Grace, junto de sua me.
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- Voc foi uma noiva lindssima. Aposto que ele pensou que voc era a coisa mais deslumbrante para mostrar  cidade.
- Fawn? No. Seria Lily? - Grace emitiu um som de frustrao. - Era do jornal. Foi o que ela disse.
Sophie ficou tensa.
- O qu? Quem disse isso?
- A mulher que telefonou.
- De que jornal?
Grace franziu os lbios. Parecia preocupada. Sophie teve um pensamento alarmante.
- No foi a Robin, foi? Grace iluminou-se.
- Sim, acho que foi. Sophie ficou incrdula.
- Mas como ela conseguiu chegar a voc? Marny deveria ter atendido a ligao, ou ento Margaret. - Era essa a cadeia que tinham organizado para evitar que as pessoas 
erradas conseguissem falar com Grace. - Como voc atendeu o telefone, pelo amor de Deus? - Ela nunca conseguia atender.
Grace levantou o queixo.
- Tenho atendido telefonemas minha vida inteira. Sophie no perdeu tempo discutindo. Tinha que saber o mal que fora feito.
- O que Robin disse?
- Ah, o de sempre.
- E qual  o de sempre?
- S queria ter um... qual  a palavra? - Fez um gesto, como que a procurando. - Um bate-bola educado.
- Bate-bola?
- Bate-bola. Voc sabe. Um pequeno... pequeno bateestaca educado.
- Bate-papo?
- Bate-papo.
- Ela perguntou sobre seu livro? Grace aproximou-se da cmoda.
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Sophie acompanhou-a.
O que voc disse para ela, vov?
Grace abriu a porta de baixo e retirou um pote muito familiar.
Voc no concordou em encontrar-se com ela, no ?
Segurando o pote na curva do brao, Grace mergulhou a mo nele e retirou uma caixinha de passas.
- Coma isto. Faz algum tempo que voc no come nada e j  hora.
Durante um timo de segundo, Sophie era uma criana novamente. Naquela poca, o pote ficava no canto da escrivaninha de Grace e continha todos os tipos de doces 
que os jovens diabticos muito ativos mastigavam no final do dia, quando seus nveis de glicose no sangue tendiam a cair.
- No acredito que voc ainda tenha isso - murmurou. Grace colocou a caixinha na mo da neta.
- Coma isto. Por mim. ". Sophie sentiu um n na garganta. Coma isto. Por mim. Era o velho refro do qual ambas riam durante anos. Mas Grace no estava brincando 
agora. No parecia lembrar-se da brincadeira nem do nmero de vezes que dissera aquelas mesmas palavras, que agora eram ditas com total inocncia, sadas diretamente 
de sua mente e seu corao, com aquele tipo de cuidado que tantas vezes fora sobrepujado pelas presses do trabalho e da vida adulta.
Naquele momento, Sophie foi atingida com muito mais agudeza do que em qualquer momento anterior pela idia de que o mundo de Grace encolhia. O passado vinha para 
o primeiro plano, misturando-se com o futuro. Vov comeava a falhar.
Sorrindo entre as lgrimas, abriu a caixa obedientemente e jogou vrias passas na boca. Estavam duras como pedras, muito secas. Mesmo assim, engoliu aquelas primeiras 
e pegoumais.
Catorze

O gnio pode ser motivo de admirao, mas a melhor parte do brilho de uma pessoa vem do bom senso.
- Grace Dorian, em A Confidente
Francine ainda no dera dois passos para dentro de casa quando foi abordada por Sophie.
- Temos grandes problemas, mame. Robin Duffy apareceu l na Lucy's e comeou a fazer perguntas e eu disse que Grace estava na Europa. Ela deve ter apanhado o telefone 
no momento em que sa do salo e, no sei como, conseguiu falar com Grace; ento, ela sabe que menti sobre Grace estar viajando e eu no tenho a menor idia do que 
vov disse para ela. Depois, Grace mencionou suas irms, mas quando lhe perguntei, negou tudo. Uma coisa muito estranha.
Estranha era uma palavra que definia a situao, pensou Francine. Assustadora era outra.
- Ento, Grace teve irms ou no teve? - Sophie perguntou.
- No teve - Francine respondeu, depois hesitou. - A no ser que tenham morrido cedo, como seu irmo - raciocinou alto. - Mas por que ela falaria na morte dele e 
no nas delas? No, no podem ter existido irms.
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- A menos que Grace esteja mentindo.
H muito pouco tempo, Francine teria negado veemente mente essa possibilidade. Agora, disse simplesmente:
A menos que Grace esteja mentindo.
Temos que descobrir se est - Sophie sussurrou.
Francine concordou, no sem sentir remorsos. Grace sempre fora a personificao da bondade, uma me atenta e amorosa uma mulher de negcios bem-sucedida. No pregava 
simplesmente a compaixo, vivia-a em suas colunas, no patrocnio de eventos de caridade, na generosidade com que se dava. Sugerir que fosse uma mentirosa parecia 
uma blasfmia
- Devamos comear prevenindo-a contra Robin - Sophie continuou. - Ela precisa ser sacudida. Se souber o que est em jogo, poder colaborar. A propsito, ela disse 
que voc foi comprar ladrilhos de cermica. Ela sonhou isso tambm?
Durante um breve segundo, Francine pensou na possibilidade de dizer que sim. Muita coisa poderia ser atribuda  desintegrao da mente de Grace. Mas no era a verdade, 
e a verdade importava, principalmente agora. Suavemente, disse:
- Ela no estava sonhando.
- Ladrilhos de cermica para qu?
- Para o cho da cozinha de Da vis Marcoux. Sophie sorriu curiosamente.
- Para o cho da cozinha de quem? Francine mostrou desinteresse.
- O bom doutor. Ele est sobrecarregado escolhendo essas coisas e eu ofereci-me para ajudar.
O sorriso curioso alargou-se.
Voc odiava ter que decorar seus prprios cmodos.
-  mais fcil faz-lo para outra pessoa. H menos coisas em jogo. Ele  quem vai ter que viver com elas, no eu. - Francine lanou os olhos para o escritrio de 
Grace e para um problema mais imediato do que Davis. Ela est l agora?
- Est. Esperando por voc. Vai enfrent-la?
Francine no conseguia pensar em outra escolha.
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- Precisamos saber o que est acontecendo.
Sentiu um golpe quando encontrou Grace  sua mesa, meio engolida pela cadeira e parecendo perdida. Era uma sombra da Grace que ela conhecera durante toda sua vida, 
um eco desmaiado daquela mulher forte, centrada, objetiva. Essa Grace era uma mulher mais velha.
Envelhecida, seus olhos brilharam quando viu Francine.
- Voc voltou. Estava com medo de que tivesse sado de frias.
- Sem dizer nada para voc? - Francine disse, sorrindo apesar da dor que sentia no corao. - Eu no faria isso. Voc sabe onde eu estava.
- Mas voc foi embora para sempre.
- S por algumas horas. - Puxou uma cadeira. - Sophie disse que voc conversou com Robin Duffy. O que ela disse?
- Robin Duffy?
- Ela escreve para o Telegram. Grace fez um esforo para lembrar-se.
- Ela telefonou? Sim, algum telefonou. Mas no conversamos muito tempo. Eu disse que estava bem.
- Mais alguma coisa?
Grace franziu a testa, pensou e sacudiu a cabea.
-  importante - Francine insistiu.
- Eu deveria dizer alguma coisa?
- Voc no deveria ter falado com aquela mulher, ponto final. Tenho medo de que voc possa ter dito alguma coisa sobre sua infncia.  o que Robin est querendo 
saber.
- Mas por qu? - Grace perguntou. Francine lembrou-a da carta que Robin enviara.
- Ela intitula-se uma especialista em A Confidente. Sem a menor dvida, est procurando alguma coisa que ainda no tenha sido impressa por algum. Ningum mais publicou 
algum detalhe sobre sua infncia. Ningum os conhece, nem eu. Voc tem que contar-me, mame, tem que contar-me qualquer coisa de sua infncia que Robin possa querer 
publicar.
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- No h nada - Grace disse.
- Gostaria de acreditar - Francine implorou. - E acredito, mas voc insiste em dizer-me coisas que me fazem pensar.
Grace levantou o queixo.
- No h nada.
- Nenhuma irm? Nenhum segredo?
- Nada.
- Tem certeza? Preciso saber com o que estou lidando. No posso manter A Confidente em andamento, no posso escrever seu livro, a menos que conhea os fatos.
Grace apertou os lbios.
- Voc teve irms, no teve? - Francine disse, com umaconvico sbita. Sentiu a novidade daquela notcia, a emoo,a ansiedade. - Aconteceu alguma coisa terrvel? 
Houve alguma doena? Uma traio? Um escndalo? - Se houvesse algumador profunda envolvida naqueles fatos, compreenderia por queGrace quisera bloque-los.
Grace franziu novamente as sobrancelhas.
- Por favor, conte-me. Grace sacudiu a cabea.
- Isso significa que no existe nada para voc contar, ouque existe, mas voc no quer contar?
- No posso - Grace disse, e fechou os olhos.
- No pode porque  to ruim? Nada pode ser to ruim, mame. Mas uma reprter como Robin Duffy pode tornar as coisas ruins demais se no conseguirmos derrot-la 
logo. Vocdiz que no estou a par de todas as coisas. Pois estou tentando ficar agora. Estou tentando salvar A Confidente. Estou tentando salvar seu livro. Estou 
tentando salvar a nica histria que eu sempre soube. - E ela estava terrivelmente apavorada. - Existe alguma coisa que possa contar-me?
Grace comeou a balanar-se, lenta e silenciosamente.
Francine esperou que ela falasse, mas ela continuou balanando-se, e quando finalmente abriu os olhos foi para olhar ao longe, alm da janela, alm do gramado, na 
direo do rio. Sua
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expresso dizia que ela estava a quilmetros de distncia. E Francine no fazia a menor idia de onde.
Grace sempre amara aquela paisagem. Ser que ela lhe lembrava algum pequeno prazer da infncia?
Talvez sim, talvez no.
Ser que, se Grace tivera irms, elas ainda estariam vivas?
Talvez sim, talvez no.
Ser que, se Grace mentira sobre essas coisas, mentira sobre outras tambm?
Talvez sim, talvez no.
Francine sentiu-se subitamente desanimada, como se toda a vida estivesse escapando dela e ela no pudesse fazer nada. Estava sendo tipicamente a Francine, uma plida 
imitao da Grace que teria segurado o touro pelos chifres.
E como se segura um touro pelos chifres?
A melhor parte de uma pessoa vem do bom senso, Grace sempre dizia, mas s existia uma pequena parte do bom senso de que Francine conseguia lembrar-se agora. Procurou 
outra, no conseguiu encontrar, procurou mais, no encontrou nada.
Como pegar aquele touro pelos chifres?
Levada pela necessidade de agir e, sim, tambm por puro instinto, voltou a seu escritrio, e procurou at encontrar a carta que Robin Duffy enviara h trs meses.
Menos de duas horas depois, Francine entrou no pequeno caf no centro da cidade. Determinada a ser to pontual quanto Grace, chegou cinco minutos antes. Mal se sentara 
a uma mesinha em um canto, quando Robin passou pela porta.
Atravessando o curto espao, ela tombou em uma cadeira. Sua mochila de couro bateu no cho com um rudo que denunciava os instrumentos letais que carregava. Sem 
flego, espalmou a mo sobre o peito.
- Espero no t-la feito esperar muito. Depois de seu telefonema, corri para casa para pegar meu carro, que naturalmente
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no estava l, j que meu filho se esquecera que teria que levar a irm ao professor particular de matemtica e sara com seus amigos; ento, tive que procur-lo, 
traz-lo para casa, entregar a menina, colocar gasolina, pois no preciso dizer que o tanque do carro estava vazio... - Perdeu o flego novamente.
Francine no poderia ter desejado nada melhor para quebrar o gelo. Uma Robin perturbada era menos ameaadora.
- No estou aqui h mais de um ou dois minutos - disse com um sorriso. - Ambas chegamos cedo. Minha desculpa  ser filha de Grace Dorian. Qual a sua?
Robin retirou sua echarpe.
- A minha  ser filha da discpula de Grace. O resto do mundo pode atrasar-se, mas eu morrerei primeiro, j que a pontualidade  to importante para mim. - Abriu 
o casaco e, parecendo aliviada por estar finalmente parada, recostou-se em sua cadeira.
- Agradeo por ter vindo to rapidamente.
- No parece to rpido assim para mim. Estou esperando para conversar com voc h meses. Trata-se de uma entrevista?
- No. Alguma coisa est ligada dentro de sua mochila? Robin enfiou a mo em sua mochila, retirou um gravador e colocou-o sobre a mesa. A fita estava parada.
- Obrigada - Francine disse e viu a garonete aproximando-se. Quer alguma coisa? - perguntou para Robin.
Robin pediu caf puro.
Francine pediu o mesmo e ficou observando a garonete enquanto esta se afastava. Quando se voltou para Robin, viu uma ansiedade que espelhava a sua prpria.
- Voc deve estar possivelmente perguntando-se por que pedi este encontro.
- Suponho que seja por eu ter encontrado Sophie hoje.
- S indiretamente. Seu nome tem surgido demais nos ltimos anos, sem pular um dia. Voc tem sido um espinho em nossas vidas.
Robin parecia realmente embaraada.
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-  o meu trabalho. A poca do jornalismo elegante acabou. Um reprter tem que ser duro para sobreviver. Existem momentos em que odeio isso, mas no tenho muita 
escolha. Sou divorciada. Tenho que escrever uma histria que venda se quiser que meus filhos freqentem a faculdade.
Francine no podia culpar seus motivos.
- Quantos anos tem a irm do filho de dezessete anos que bate com os carros?
- Quatorze. E ela ri as unhas. Francine riu.
- Lembro-me dessa poca. Mas tudo melhora com o tempo.
- Quando? - Robin perguntou to honestamente que Francine riu novamente.
- Dentro de mais alguns anos. Possivelmente quando ela for para o curso superior. Quando crescem ficam mais delicadas e carinhosas.
- No acredito que sobreviverei at l.
Francine dissera a mesma coisa, como a maioria de suas amigas. Era uma coisa que todas as mes diziam. Ela e Robin tinham, pelo menos, aquilo em comum.
- Voc trabalha para o Telegram em tempo integral?
- Trabalho como freelance para vrias revistas, mas o Telegram  meu trabalho fixo.
- Est ligada a ele por contrato? Agora cuidadosamente, Robin respondeu:
- No. Por qu?
Francine estudou-a. Ela era uma mulher atraente - mignon, com cabelos cor de areia, e vestida com blue jeans - com um bonito sorriso, uma caneta habilidosa e uma 
fascinao confessa pela Confidente. Meu sonho  ser uma das reprteres mais informadas sobre assuntos relativos a Grace. No estou bem certa se desejo isso por 
minha me ou por mim mesma, mas em qualquer dos casos minha histria com A Confidente torna-me a candidata perfeita, escrevera em sua carta. Se a melhor parte do 
brilho de uma pessoa estava mesmo em seu bom senso, contrat-la seria um ato realmente brilhante.
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- Estou procurando um ghost writer.
Os olhos de Robin arregalaram-se.
- Para o livro de Grace? Francine concordou.
- Nem Grace nem eu sabemos nada sobre escrever livros. Ns tentamos, mas ainda temos que escrever A Confidente todas as semanas. Precisamos de ajuda.
- Est oferecendo-me o cargo?
- Estou pensando no assunto.
- Estou surpresa - Robin disse com sinceridade.
- Por qu? Voc  uma escritora. E conhece Grace melhor do que a maioria das pessoas.
- Mas ns tivemos nossas diferenas, Grace e eu, voc e eu.

- Isso porque estvamos em lados opostos. Se trabalhssemos juntas, essas diferenas deixariam de existir.
-Estou estupefata - Robin repetiu, respirou outra vez profundamente e disse, em tom acusatrio: - Voc quer calar a minha boca!
- Como disse?
-  isso, no ?-Tomou um ar presunoso. - Estou aproximando-me demais da verdade. Sophie contou-lhe sobre a cidade que no foi destruda. E sabe o que mais? No 
existe um registro do nascimento de uma Grace Laver em qualquer lugar do Maine, nem prximo da data que ela diz. Revistei todos os registros. Pedi a amigos que revistassem 
os registros. Portanto, ou o nome dela no  Laver ou ela no nasceu no Maine. Quem  ela?
Francine gostaria de saber. A nica coisa que poderia fazer naquele momento era no demonstrar como estava surpresa, e que seu choque aprofundava-se cada vez mais. 
A histria de Grace tambm era a sua. Tudo o que ela desconhecia tinha relao com sua ascendncia.
Tentou controlar-se diante do caf forte que se materializara diante dela - tomou um gole, um segundo, e colocou a xcara sobre a mesa.
- O que mais voc descobriu?
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- No muita coisa - Robin disse - mas estou investigando. Grace  uma pessoa interessante... franca aqui, enigmtica ali. Quando a entrevistei no vero retrasado, 
percebi que ela no queria falar sobre nada que acontecera antes de ela conhecer seu marido. Quanto mais eu perguntava sobre aqueles anos, mais enigmtica se tornava. 
Estamos falando de impasses.
Francine sabia muito bem. Deus, sempre soubera. E o pior de tudo era que Grace estava junto dela, cheia de respostas e recusando-se a divulgar uma que fosse.
Robin continuou, agora mais sria.
- Talvez seja uma obsesso minha. Grace sempre foi o modelo que me ensinaram a admirar, ensinaram-me a imitar, s que nunca pude fazer as coisas como ela. Sofri, 
durante anos, tentando alcanar seus padres. E agora esses padres comeam a parecer arbitrrios, provavelmente Grace criou-os quando criou A Confidente. Existem 
muitas perguntas, Francine.
- Eu sei - Francine deixou escapar, porque tudo o que Robin lhe dissera, ela mesma se dissera mil vezes. Imaginou que Robin pudesse compreender. Portanto, quanto 
mais cedo contasse com sua colaborao, melhor. Francine atirou diretamente no alvo.
- Venha trabalhar conosco - disse. - Voc ter um escritrio em nossa casa, crditos iguais na capa do livro e uma verba para as despesas com pesquisas. Pagaremos 
muito mais do que o jornal. E voc ter acesso livre a Grace.
Robin estava completamente surpresa. Ento, engoliu em seco e disse:
- Voc est falando srio?
-Completamente. Isso resolveria problemas para ns duas. Voc precisa escrever sobre Grace, eu preciso que algum faa isso. Voc precisa de dinheiro, eu preciso 
de ajuda. - Precisava tambm de algum que soubesse bisbilhotar, e Robin era especialista nisso. Contrat-la era um ato brilhante de sua parte. Qual a melhor maneira 
de controlar aquela mulher, de evitar que ela ferisse Grace, do que t-la em sua folha de pagamento? Puxe o inimigo para seu lado, Grace sempre dissera. Isso fazia 
sentido.
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- E at onde terei liberdade para trabalhar?
- Tanta quanta precisar para escrever um livro justo.
- E como voc define "justo"?
Francine pensou por uns instantes. Ento, disse:
- Queremos que o livro seja um sucesso. Grace encara-o como a obra definitiva de sua vida, a coisa mais importante, mais duradoura que ela far, mas no apelar 
para sensacionalismo a fim de aumentar as vendas.
- Estamos falando sobre a verdade? - Robin perguntou. - Porque no quero participar de falsetas. E no escreverei uma cpia de todas as outras entrevistas que j 
foram feitas. Qualquer coisa que eu fizer tem que ser honesta.
- Existem diferentes nveis de honestidade - Francine argumentou. - Seu artigo sobre o acidente de Grace foi tecnicamente honesto, mas no intrinsecamente. Poderia 
ter escrito aquele artigo com a mesma honestidade, porm de maneira mais gentil. E  essa honestidade carinhosa, essa honestidade gentil que desejamos para o livro 
de Grace. Publicar qualquer coisa que manche sua imagem ser autodestruidor.
- Para voc. No para mim. Pode desprezar o sensacionalismo o quanto quiser, mas ele vende livros.
- Se  esse o seu ponto de vista, estamos perdendo tempo.
Francine preparou-se para sair.
Robin segurou seu brao.
- Espere. O sensacionalismo no  a minha primeira prioridade. Eu tenho padres. - Retirou a mo e colocou-a em torno da xcara de caf. - Se eu for trabalhar para 
voc, preciso afastar-me do jornal e posso no ter outro lugar para o qual voltar.
- Talvez no precise voltar. Ter melhores opes. Alm disso, dar-lhe-emos um adiantamento, mais os royalties, e voc ter dinheiro entrando durante anos. - Amanda 
poderia fazer um contrato. Melhor seria compartilhar aquela oferta do que no ter qualquer outra, o que seria o caso se o livro nunca fosse escrito. No que as Dorian 
precisassem do dinheiro. Mas Robin Duffy precisava.
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Francine imaginou que Robin estivesse pensando somente nisso, porque ela ficou mais conciliatria.
- Uma das piores coisas dos jornais  ter que ser controlada pelo editor. Grace far isso?
- Grace no pressionar voc, se  o que est temendo. - Em sua atual condio, Grace no podia controlar ningum, no que Francine fosse contar para Robin naquele 
momento. Era uma informao tremendamente sigilosa, terrivelmente perigosa. - Voc ter a mesma liberdade que eu, ou que a prpria Grace. Todas as decises sobre 
o que incluir no livro sero tomadas por todas.
- Haver aspectos questionveis, alm dos que j descobri? Tranqilamente, confiando em Robin, mesmo que uma parte sua soubesse que no deveria faz-lo, disse:
- Eu no sei. Grace nunca falou muito sobre sua infncia.
- E at onde ela j foi no livro?
- Ela tem anotaes. Mas no tem certeza de como organiz-las - o que era dizer a verdade, de forma delicada. -  que precisamos de algum como voc.
- Por que ela no est aqui? Se esse livro significa tanto para ela, creio que deveria estar. Ela est doente?
- Est em casa trabalhando.
- Por que Sophie disse que ela estava em Antibes?
- Porque aborreceu a voc. Imaginou que voc pensasse que ela era muito jovem e ingnua para dizer inadvertidamente alguma coisa que no devesse. Sophie  inteligente. 
No a subestime.
- Ela sabe que tivemos este encontro?
- Sabe. - No era verdade, mas e da?
- Trazer o inimigo para seu lado? Francine sorriu e disse:
- Voc est falando como Grace.
- Fui criada para ser como Grace.
Francine vislumbrou uma alma delicada. Assaltou-a a idia de que pudesse realmente gostar de trabalhar com Robin.
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- Coitada de voc. Coitadas de ns. - Sacudiu a cabea com satisfao. - Voc  realmente a melhor escolha para a funo.
- Mas sobreviverei?
- Sobreviver trabalhando com Grace? Sim, voc sobreviver o que no aconteceria com Grace, embora isso nada tivesse a ver com a feitura do livro. - Veja as coisas 
por este ngulo: se est pensando em seus filhos, trabalhar conosco envolver menos riscos e uma melhor recompensa do que qualquer outra coisa que possa fazer.
- E se eu disser que no?
- Contrataremos outra pessoa. Mas voc  nossa primeira escolha.
Robin revirou a xcara de caf nas mos.
- Mesmo apesar de algumas coisas que escrevi sobre Grace?
- Isso tornar essa unio mais interessante. Admiro sua persistncia. Como disse antes, voc tem sido um espinho em nossas gargantas.
- Em dez anos como reprter, jamais fiz qualquer coisa que merecesse uma indicao para o Pulitzer.
-  verdade. Mas voc tem uma coisa que ningum mais tem. Voc tem interesse pessoal nisto. Voc cresceu com Grace. Exatamente como eu.
Robin no sabia se fora o destino, sorte ou sua persistncia que lanara a oportunidade de sua vida em seu colo, mas estava muito contente. Quanta diferena um dia 
pode fazer. Que diferena fantstica um dia pode fazer.
O que escrever a biografia de Grace significaria para ela?

Significava horas regulares, para comear, o que permitiria que passasse mais tempo com seus filhos. Significava mergulhar com profundidade em um nico tpico, em 
vez de ficar borboleteando aleatoriamente sobre vrios. Significava dinheiro, que pagava o conserto do carro, um apartamento melhor, talvez
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at uma casinha, depois de pagar a matrcula da faculdade. Significava publicidade, que significava por sua vez um futuro de oportunidades maiores e melhores do 
que qualquer coisa que o Telegram pudesse oferecer-lhe.
Estranho, mas ela no pensara antes alm do Telegram. Mas ao mesmo tempo no era to estranho assim. Os padres to elevados a que se apegara - que causaram muitos 
desentendimentos com seus pais, que corroeram seu casamento at ele acabar e que perturbaram seu relacionamento com as crianas tantas vezes - aqueles padres fizeram 
sempre com que falhasse. E assim aprendera a baixar suas aspiraes e fazer o que tinha a fazer o melhor que podia. E agora, finalmente, eles valiam a pena.
Sua me teria morrido se soubesse.
E seu pai? Ela nunca mais falara com ele desde que a me morrera. Robin perguntou-se se ele se importaria com o que ela estivesse fazendo. Perguntou-se se ele veria 
a ironia de tudo aquilo. Seu irmo teria, mas seu irmo via as coisas como ela. Os padres ditados por Grace tinham-na derrotado e agora a prpria Grace levantava-a.
No contou nada para os filhos, os amigos, ningum do Telegram. No queria queimar seus trunfos at ter um acordo escrito - o que estava marcado para dois dias depois 
- e quando isso aconteceu ela ficou esttica. Os termos eram justos. Mais do que justos. Se trabalhasse para Grace, ganharia duas vezes mais do que trabalhando por 
sua prpria conta - trs vezes - quatro vezes. O contrato chegava a oferecer bnus nada desprezveis.
Havia aquela clusula,  claro. Como uma precondio para colocar o p na casa das Dorian, teria que concordar em que qualquer coisa que visse ou soubesse sobre 
Grace e sua famlia, alm do que devesse aparecer no livro, deveria permanecer confidencial. No poderia vender noticiazinhas para os tablides, nem outros livros 
com sobras do primeiro, nem artigos para revistas sobre sua vida com as Dorian.
Com o desenrolar dos delrios de imaginao que teve logo em seguida, Robin vira o livro de Grace como a primeira de vrias
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publicaes assinadas por ela. Mas isso estaria fora de questo se assinasse o acordo.
Mas a clusula levantava outras possibilidades - ou melhor, sugeria que existiam problemas por trs das paredes das Dorian. Grace Dorian jamais poderia estar com 
os cabelos despenteados, com o esmalte descascando, nem perder a calma. Mas se existissem outras coisas e se Robin tivesse acesso a elas, e se conseguisse convencer 
Grace de que o mundo a adoraria apesar de suas falhas, o que provavelmente no seria verdade, porque as pessoas gostavam de ser enganadas - que diabo! - as coisas 
poderiam acabar funcionando.
Havia vrias maneiras de tirar a pele de um gato, Grace sempre escrevera. E Robin estava jogando seu futuro nisso.
Quinze

Como a verdade, o Sol pode ser obscurecido pelas nuvens, eclipsado pela Lua ou relegado para a parte posterior da Terra, mas sempre brilhar de novo.
Grace Dorian, em Donahue
Grace sentia-se mais segura em casa, onde as coisas eram familiares, mesmo que estivessem etiquetadas para lembr-la do que estava onde. Em lugares estranhos, arriscar-se-ia 
a cometer o tipo de enganos humilhantes que passara uma vida inteira evitando.
Como o ptio dos fundos tambm fosse seguro, foi passear por l com Francine. O ar estava cortante, as conferas rendadas de gelo, o gramado intacto. Enrolada em 
roupas pesadas, estava protegida do frio e da umidade.
Admirava a neve - sua pureza, o modo como ela enterrava as coisas mortas pelo frio, a brilhante continuidade que dava ao espao que ia da casa at o bosque das margens 
do rio. Procurou trilhas de pssaros e encontrou-as, viu uma coisinha cinzenta fugir na direo da copa de uma rvore, sacudindo sua pequena cauda. Tentou lembrar-se 
do seu nome, mas esqueceu-se do que estava pensando.
Como precauo, enfiou o brao pelo de Francine enquanto
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caminhavam. s vezes perdia o equilbrio, confundia-se sobre o caminho que estaria tomando e acabava caindo. Felizmente, quando isso acontecera, no havia ningum 
por perto para presenciar sua indignidade.
- Mame?
- Sim, querida?
- Podemos conversar sobre seu livro?
- Em um dia to lindo? - Conversar sobre o livro a tornava inquieta e sofrida. Precisava concentrar-se, s isso. S precisava de algumas boas horas e o livro estaria 
pronto.
- Estamos nos enganando - Francine disse. - No podemos faz-lo sozinhas.
- Meu Deus. Pense no copo.
- Meio cheio, no meio vazio. Agora pense na prova do pudim. Ele no existe, mame. No existe nem um tero do livro pronto, nem um quarto. Precisamos de umsghost 
zvriter. Contratei Robin Duffy.
Grace ouvira aquele nome antes, mas no sabia onde.
- Eu conheo Robin Duffy?
- Ela escreve para o Telegram. A me dela era uma grande f sua. Robin foi criada pelas suas colunas.
- E eu a conheci?
- Ela entrevistou-a no vero do ano retrasado. Voc gostou. Grace subitamente lembrou-se de uma coisa diferente.
- Foi ela quem escreveu aquele artigo horroroso depois de meu acidente com o carro.
- Sim, mas aquilo foi um problema de comunicao - Francine disse apressadamente. - Pode ter sido minha falta tanto quanto a de outro qualquer, mas o caso  que 
no haver qualquer problema de comunicao se ela estiver do nosso lado. Amanda pensa que  uma grande idia. E a Katia tambm.
Robin Duffy escrevera um artigo horrvel sobre seu acidente de carro. Robin Duffy queria prejudic-la. Como tambm Amanda e Katia.
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- No creio que seja uma grande idia - Grace disse. Soltou seu brao do da filha e saiu andando acompanhando a corrente do rio. No tinha dado mais do que cinco 
passos quando tropeou na raiz de uma rvore, escondida pela neve. Francine segurou-a antes que casse.
Grace chutou a raiz. Todos, tudo parecia estar contra ela, s vezes. At a raiz de uma rvore. Era uma... uma... todos estavam maquinando contra ela.
Permitiu-se ser amparada de volta para casa e para um lugar mais seguro.
- No quero que outra pessoa escreva meu livro.
- Mas  voc quem ir escrev-lo. A outra pessoa vai ajudar.  s isso.
- O livro  meu.
- No haver um livro se ele no for escrito. Grace olhou para Francine.
- No h necessidade de falar assim comigo. O que aconteceu com voc? Fica feliz por conseguir despedaar-me? Voc gosta de depreciar-me?
Francine negou, naturalmente.
- S estou querendo ter certeza de que o livro ser publicado. A Katia j est implorando pelo manuscrito.
- Preciso de tempo, no de uma auxiliar. Meu Deus do cu, algum poderia acreditar que voc pensa que sou uma criana. Posso vestir-me sozinha. No preciso de uma 
camareira pessoal.
- Claro que no...
- Ento por que contratou uma? - Grace no conseguia lembrar-se do nome da mulher, mas j tinha maus pressentimentos sobre ela.
-Jane Domenic no  uma camareira pessoal. Ela ser sua assistente.
- Voc  minha assistente. Ela  uma bab. - Grace no poderia ser considerada uma tola. Ela lera sobre a doena. Sabia que aquilo iria acontecer. E era a parte 
mais humilhante de tudo.
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- Jane Domenic no  uma bab. Passou os ltimos doze anos como secretria executiva e trabalhou oitenta horas semanais para um executivo de Wall Street.  qualificada 
para fazer qualquer coisa. Voc poder implicar inicialmente, mas ela ser capaz de ajudar Sophie e a mim tambm.
- Posso muito bem cuidar de mim sozinha, obrigada.
Francine suspirou.
- Por favor, mame, voc implorou-me para ajud-la a escrever seu livro. Admitiu que no poderia faz-lo sozinha.
Grace absolutamente no se lembrava daquilo. (Obviamente nunca teria implorado.
- Ento voc me ajuda. No uma estranha.
- Mas eu no sei nada sobre como escrever um livro - Francine falou alto - e mesmo se soubesse voc no me d as informaes de que preciso!
- A culpa  minha. A culpa  sempre minha. Puxou seu brao, mas Francine segurou com mais fora.
- Muito bem. Se voc se sente desconfortvel com eles, podemos pular aqueles anos iniciais e escrever um pequeno livro misturando resumos de suas colunas com a histria 
de sua vida, comeando quando voc conheceu papai.
Grace enrijeceu.
- No misture seu pai com essas coisas. Ele no tem nada a ver com isto. Ele no estava nem perto daqui quando A Confidente nasceu.
- Ele estava aqui. Eu estava aqui. Eu o vi aqui
Grace ficou horrorizada. Trabalhara tanto para apagar o passado. E conseguira, no  mesmo?
- Est tentando enganar-me? - perguntou, porque tinha certeza de que ela no dissera uma palavra.
Pelo menos pensava que no dissera.
Mas no conseguia lembrar-se de nada. Existem grandes vcuos onde deveria estar uma srie de acontecimentos. Ontem, Por exemplo. No conseguia lembrar-se do que 
tinha feito. Poderia ter trabalhado, depois ido ao cabeleireiro, depois feito compras.
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Poderia at ter-se encontrado com Amanda. Ou tinham se encontrado no dia anterior? No. No dia anterior, almoara com Mary. Ou no?
Francine disse:
- Vou encontrar-me com Robin amanh de manh. Depois, vou traz-la aqui para falar com voc.
- Robin? - Grace perguntou. Presumia que Robin fosse uma nova amiga de sua filha. Francine sempre apresentava suas novas amigas para Grace, sempre queria a aprovao 
de Grace. Era uma boa menina.
- Robin Duffy - Francine disse. - A mulher que escrever seu livro.
Mas... mas essa no era uma amiga.
- Oh no. Ela no vem encontrar-se comigo. E tambm no escrever meu livro. Ela tomar tudo o que eu disser e distorcer at que tudo se transforme em besteira.
- Besteira? Besteira. Voc sabe... sujeira.
- No deixarei que ela faa isso.
- Voc no poder impedir. Eu sei como essa gente age. Eles transformam tudo o que  dito e no desistem at... at... - Sua mente apagou-se. Fez um gesto como que 
buscando os pensamentos que desapareceram. S sobrara um pressentimento. - No adianta.
- Estarei vigiando-a - Francine insistiu. - Nada ser feito sem a sua aprovao. Ela no poder feri-la. Eu prometo.
O pressentimento era como uma nuvem enorme e escura.
- Ela vai me ferir.
- No pode.
A nuvem escureceu mais, baixou. Grace queria empurr-la para cima e para longe, mas ela era grande demais, pesada demais. Abanou a mo, frustrada.
- No vai dar certo. Estou dizendo, no vai dar certo. - Puxou o brao, lutando contra a resistncia de Francine, at conseguir se libertar. Ento resolveu afastar-se, 
mas seus sapatos
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no conseguiam firmar-se naquele solo escorregadio, e caiu quando fez outro movimento mais brusco.
Francine ajoelhou-se rapidamente, ajudando-a a sentar-se.
- Meu Deus, mame. Est machucada? Grace abraou o joelho. Ele estava estranho.
- Acho que o torci. Francine apalpou-o.
- Ele no parece estar torto. Est doendo?
- Oh, meu Deus. Veja minhas calas. Esto molhadas.
- S nos joelhos, onde voc caiu. - Francine limpou a neve. - Pode ficar de p?
- No sou uma aleijada - Grace murmurou, apesar de deixar Francine ajud-la a levantar-se. Depois de ajustar as luvas, endireitou os ombros e recomeou a andar, 
mas sentiu uma pontada no joelho.
- Di? - Francine perguntou.
- Um pouco. Estranho, mas devo t-lo torcido. No percebi ter acontecido nada. Acho que estou ficando velha.
- Sessenta e um anos no  velha - Francine disse. Aquela pequena dor no joelho deveria ser um incio de artrite, mas recordava Grace de algumas coisas que deveria 
fazer. Ela no estaria ali para sempre. Ningum estaria.
Triste. To triste, pensou. A casa parecia to bonita, toda mida e fresca, com a neve presa em seus beirais e cantos, brilhando sob o sol. A primavera viria logo. 
Depois, as flores.
Grace adorava flores, adorava a variedade de cores que cercava o ptio. Daria uma festa em abril, quando tudo estivesse florido. Os convites teriam as bordas pintadas 
 mo. Ela vira alguns assim uma vez. Eram encantadores.
Uma festa de incio de vero. Definitivamente.
Francine sentiu-se aliviada quando Da vis passou para v-la ao voltar do trabalho. Precisava de sua magia. A tarde fora exaustiva.
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Grace estava graciosamente recostada no sof do escritrio, escutando Mozart. Levantou-se quando ele entrou, para protestar que estava perfeitamente bem e que no 
necessitava da presena de um mdico, mas fez uma careta quando ele examinou seu joelho.
- No h fraturas - disse ele para Francine no corredor, um momento mais tarde. - Se a dor e o edema aumentarem, podemos tirar uma radiografia, mas no h motivo 
para lev-la a um hospital agora. Isso s iria deix-la nervosa.
Francine sabia muito bem disso. At mesmo as consultas regulares com Davis deixavam Grace aflita e de convivncia difcil. Ficar alerta era o suficiente para Francine. 
S agora comeava a relaxar.
Davis caminhava a seu lado, olhando para ela de vez em quando. Ela recordou-se da noite, h sete meses, quando ele viera pela primeira vez a sua casa. Ela estava 
furiosa na poca, sentia-se ameaada, mas ao mesmo tempo estava consciente dele, e essa conscincia crescera e tornara-se mais vvida com o tempo. As batidas de 
seu corao confirmavam o fato. Infelizmente, elas no lhe diziam o que fazer com ele, agora que tudo j acontecera.
- Fique de olho na Grace - ele disse em um tom suficientemente profissional, que no lhe dava qualquer pista. - Ela pode esquecer-se de que o joelho est ferido 
e esforar-se mais do que pode. Quer que eu traga algum para ficar com ela durante a noite?
A idia era celestial, mas no poderia ser.
- Grace no gostaria de uma enfermeira noturna. Fica zangada sempre que menciono a idia de contratar alguma ajuda extra. Foi por isso que houve a exploso esta 
tarde. - Ele j sabia sobre Jane Domenic. Agora ela contou-lhe sobre Robin.
Ele surpreendeu-se.
- Voc contratou a inimiga?
Ela cutucou suas costelas com o cotovelo. Rindo, ele puxou-a para junto de si.
- Foi um golpe inteligente.
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Seu elogio fez com que ela se derretesse por dentro.
- Ou inteligente ou terrivelmente imbecil - ela disse. - Robin ainda pode apunhalar-nos pelas costas.
- Ela no desejar arriscar-se a sofrer um processo, com filhos para proteger. Alm disso, se o que ela diz for verdade, Grace faz parte do que ela .
- Parte do que ela se ressente. Ela  como eu, Davis. Ela teve uma vida sob a sombra da Divina. Vamos torcer para que tenha mais sentimentos positivos do que negativos. 
Tenho suado h meses por causa desse livro. Voc nem imagina como ser bom ter uma ajuda.
Alcanaram a entrada. Davis apontou com o queixo para ocorredor do lado oposto e perguntou com uma voz rouca:
- O que existe ali?
- A sala de jantar. A cozinha.
- E depois?
Ela sorriu.
- Tem trs chances.
Ele segurou sua mo e partiu para o local.
Rindo, ela tentou impedi-lo.
- Epa. Espere. O que est pretendendo, Dr. Marcoux?
- Trs chances.
- No posso - ela disse alto, ainda rindo. - Agora no. Quando ele parou de repente, ela caiu em cima dele e em seguida descobriu-se pressionada contra a parede 
elegantemente forrada por Grace. Ele colocou as mos dela atrs de suas coxas e inclinou-se.
Sua boca estava quase colada na dela.
- Eu nunca vi seu quarto - ele murmurou.
- Eu sei.
- Quero ver.
Ela sacudiu a cabea.
- Por que no?
- Vai assustar Legs.
- Ela j me conhece. Tente outra coisa.
- Est desarrumado.
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- No pode estar pior do que a minha casa.
Os olhos de Francine passaram de sua boca para os olhos, e, subitamente mais sria, ela disse:
- Preciso separar as coisas, Davis. O que ns temos... o que fazemos... coloca-me em outro mundo. Tudo aqui est sob a sombra de Grace e de sua doena. Principalmente 
devido  forma como nos conhecemos, quero que nosso relacionamento esteja separado de tudo isso.
- Voc se abstrai de tudo em minha casa. Pode acontecer o mesmo aqui, tambm. O problema no  onde voc est e sim com quem est.
- Talvez logo, mas ainda no.
Ele moveu-se contra ela e emitiu um som que dizia que ela se sentia bem. O sentimento era mtuo. No importava que a magia tivesse desaparecido, que ela conhecesse 
exatamente o que havia sob suas roupas, que tivesse tocado e provado tudo. Nem a novidade nem a atrao acabaram. Ela adorava seu cheiro, adorava o calor de seu 
corpo, adorava a promessa daquele calor. Quando ele se aproximou mais, suas entranhas tremeram.
Ele envolveu sua boca com um beijo que cresceu do sussurro at uma carcia, at uma loucura faminta, e ela permitiu-se aquele prazer, aceitando aquela fuga da forma 
como ela vinha.
Ento, ouviu-se um pigarrear.
- Com licena? Ah, desculpem. Estou interrompendo alguma coisa?
Francine custou a reconhecer a dona da voz. Quando percebeu, o mal j estava feito.
Sua lngua soltou-se lentamente da de Davis. Suas bocas separaram-se. Respirando sofregamente, colocou sua testa no queixo de Davis.
- Sophie.
- Eu estava vindo pelo corredor, e aqui estavam vocs - Sophie disse provocativa. - Mas que surpresa.
- Sophie - Francine disse, desta vez com mais fora.
- Comprando lajotas de cermica, hein?
- Sophie.
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- Conseguimos encontrar umas lindas - Davis disse, apesar de sua voz estar tensa. Francine sabia por qu. Era pelo mesmo motivo que fazia com que ele no se separasse 
dela. - So italianas - ele disse. - Vinte centmetros quadrados. So meio castanhas, cor de tijolo. Do um ar de calor.
- Aposto que sim - Sophie disse.
Francine olhou para o outro lado. Qualquer filha que encontrasse a me nos braos de um homem teria fugido embaraada. Mas Sophie estava perfeitamente  vontade, 
com o ombro encostado na parede, a uma distncia de um metro mais ou menos de onde eles estavam. E no pretendia sair.
- Alguma novidade?
- Pode-se dizer que sim - Francine disse.
- Alguma coisa com que eu deva preocupar-me?
- Ainda no.
- Oh. Bem, eu tenho que dar um aviso.
- Aviso?
- Vocs, dos anos setenta, esto acostumados com essa coisa de "faa o amor, no faa a guerra", mas no fazemos mais isso, porque esta  a gerao da AIDS. Sim, 
eu sei que  difcil para vocs acreditarem que possam ser suscetveis  AIDS, mas nunca se pode ter certeza, portanto quero dizer que se absolutamente no conseguem 
abster-se no podem deixar de usar preservativos, e no apenas ficar naquela coisa antiga...
Francine livrara-se dos braos de Davis para calar a boca de Sophie com a mo e empurr-la para o corredor.
- Voc  muito sabida, garotinha. Pelo canto da boca, Sophie murmurou:
- Dr. Marcoux?
- O que h de errado com o Dr. Marcoux? - Francine murmurou de volta.
- Voc o odiava.
- No. Eu odiava o que ele dizia. Existe uma diferena.
- Voc j dormiu com ele?
- Mas que tipo de pergunta  essa?
- Do tipo que voc faz para mim.
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Francine estava a ponto de comear a explicar a diferena de suas idades, quando resolveu calar-se. Grace estava no local onde o corredor encontrava-se com o vestbulo. 
Seu olhar era fulminante. Sem dizer uma palavra, ela virou-se e voltou para o escritrio.
Francine tentava decidir o quanto ela vira, adivinhando pela sua atitude que teria visto mais do que o suficiente, perguntando-se se deveria confront-la, confessando 
ou negando, quando Sophie disse:
- Voc cuida do Davis. Eu cuido da Grace.
Davis j chegara ao vestbulo quando ela o alcanou. Naquele momento, a prpria Francine sentia-se arrasada.
- Viu? - disse - era por isso que eu no queria mostrar-lhe meu quarto.
- Se voc tivesse mostrado, isso no teria acontecido.
- Voc no est compreendendo. Grace no est preparada para uma coisa dessas.
- Para o qu? Para v-la beijando o mdico dela? Pensei que j havamos falado sobre esse ngulo da questo. Nosso relacionamento est completamente fora do lado 
profissional. Ento, qual  o problema?
- A Grace. Ela tem idias preconcebidas. Ela no est acostumada a ver-me beijando homens no corredor. Teria sido melhor se ela tivesse tido a oportunidade de ver-nos 
juntos primeiro. Estaria mais preparada.
- Mas por que essa necessidade? Voc  uma mulher adulta.
- Que se preocupa muito com sua me, - Francine disse quase suplicante - que, a propsito, est atravessando uma fase difcil. Deixe-me falar com ela, Davis.
- Deixe que eu falo com ela.
- E dir o qu? Que a filha dela deixa voc excitado? Que  a pessoa mais interessante que voc teve na cama h anos?
- Que tal eu dizer que a amo? Francine revirou os olhos.
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- Voc no dir isso porque no  a verdade, porque eu no sou seu futuro. Eu disse isso desde o incio. - Passou as mos pelo pescoo dele, acariciando a aspereza 
de seu queixo com os polegares. - V para casa agora, Davis. Eu ligo para voc mais tarde. Por favor!
Ele parecia querer discutir o assunto - estava to sombrio e disposto - e naquele instante Francine sentiu-se meio apaixonada por ele.
Mas logo em seguida colocou os dedos em seus lbios e sussurrou:
- Mais tarde - e deixou que ele sasse sozinho enquanto procurava por Grace.
Grace estava no escritrio, no mais embalada pela msica, apesar de os sons sinfnicos encherem o ambiente. Estava sentada rgida, com os lbios franzidos enquanto 
Sophie falava.
Francine no conseguiu ouvir o que Sophie dizia. A conversa parou no instante em que ela apareceu.
- Ora, mas que surpresa - Grace disse, com tanta acuidade que uma coisa to amortecedora quanto o mal de Alzheimer parecia nunca ter existido.
Francine tentou parecer casual.
- Ele  um homem bom.
- Robert sabe sobre ele?
- Duvido. Robert no conhece os detalhes de minha vida. E no tem o menor motivo para conhec-los.
- Tem, se voc deseja casar-se com ele.
Chegara a hora, Francine pensou. Uma Grace to lcida quanto aquela poderia ser realista.
- Ah, mame, voc  a nica pessoa que quer que eu me case com ele. Eu no quero. Ele no quer. No est escrito. No existe a paixo.
Pelo canto do olho, Francine viu Sophie levantar um pulso no ar e murmurar um sonoro: "Isso!"
Poderia ter sorrido para a filha, se Grace no parecesse to desanimada.
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- Ento voc est apaixonada pelo meu mdico, mas eu gostaria de saber, isso  tudo. Foi esse o problema com o seu casamento?
Ah, a memria, Francine pensou tristemente.
- Davis e Lee so to diferentes quanto a noite e o dia. Lee veio do mesmo molde que todos os outros jovens cavalheiros simpticos que conheci no clube. Davis no 
pertence  classe dos cavalheiros simpticos do clube.
-  por isso que no dar certo. Ele  diferente demais.
- No espero que nada d certo. Ele beijou-me. Ponto final. - No era exatamente uma mentira. Eles s beijaram-se no corredor.
- Eu vi muito mais - Grace insistiu. - Muito mais. No  correto fazer essas coisas em plena luz do dia. Pense um pouco em quem poderia ter aparecido. E com crianas 
por perto. Meu bom Deus.
Crianas? Francine estremeceu ao pensar no que Grace estaria pensando, lembrando ou imaginando.
- E se eu quisesse que as coisas dessem certo com Davis, isso seria to ruim assim? Ele  um bom homem, um mdico habilidoso.
- Ele veio do nada - Grace disse.
- E isso importa? Voc escreveu coluna aps coluna falando da importncia do amor sobre o dinheiro. O que mudaria se ele tivesse um punhado de dinheiro em casa?
- Se no fosse pelo Jim ele estaria na sarjeta.
- Talvez sim, talvez no. Mas ele no est na sarjeta. Ele  um mdico muito respeitado. Como pode ignorar isso?
- Ele  de Tyne Valley - Grace gritou, como se isso explicasse tudo. Mas certamente no explicava nada para Francine.
- E o Padre Jim tambm. Isso o torna um homem menos admirvel?
- O Padre Jim... - A voz de Grace suavizou-se -...  um homem maravilhoso.
- Sim. De Tyne Valley. E tambm Davis Marcoux.
- No  a mesma coisa. No veja mais Davis Marcoux.
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- Mame - Francine disse, com um sorriso de incredulidade - voc no est falando com lgica.
- Eu no falo com lgica. Eu no falo com lgica.  s isso o que escuto. Eu falo com lgica, s que voc no gosta do que est ouvindo. Davis Marcoux no  meu 
amigo. No  seu amigo. Ele traz m sorte.
- Mame!
- No quero que ele pise mais nesta casa.
- Sinto muito ouvir isso - Francine disse, desta vez magoada. - Eu pretendia convid-lo para a ceia do Dia de Ao de Graas.
- Se fizer isso, no estarei presente. Francine suspirou.
- Que  isso, mame? Mas que tolice. Mas Grace parecia determinada.
- No estarei presente.
- Escute - Francine insistiu, mais carinhosamente - no vamos discutir. At onde sei, ele no vai querer vir para a ceia de Ao de Graas.
- Ele estar juntando evidncias contra mim. Estar vigiando-me e fazendo seus relatrios. No suportarei isso. - Quase chorando, baixou a cabea. - No desse jeito. 
No  justo. No  bom de se ver.
Francine imediatamente sentiu-se arrependida. Quando Grace se dissolvia daquela maneira, chorando, de cabea baixa, dolorosamente consciente de sua doena e da pessoa 
arrasada que ela produzia, havia pouco a dizer para consol-la. Portanto, passou um brao sobre seu ombro e abraou-a, dizendo suavemente:
- Se Davis vier, ser como um amigo.
- S ns, voc disse.
- Mas ele no tem ningum.
- Ele estar me espionando.
- Ficar assistindo televiso. Ele adora futebol.
Grace afastou-se, lanou a Francine seu olhar mais desaprovador e levantou-se.
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- No o quero nesta casa. Agora, vou trabalhar. No posso dar-me ao luxo de ficar sentada por a. Tenho que escrever uma coluna.
Robin Duffy chegou ao caf faltando cinco minutos para as nove horas da manh seguinte. Reparou que Francine estava com um ar arrasado, quando chegou um minuto atrasada, 
despencou em uma cadeira e disse, sem uma pausa:
- Voc deve estar se perguntando por que eu quis encontr-la aqui antes de irmos para a minha casa. - Chamou a garonete. - Caf quente e forte, morangos e um bolinho. 
Robin?
Robin realmente perguntara-se por que se encontrariam ali. Apesar de no pensar que se encontraram naquele local com o nico motivo de tomar o caf da manh, pediu 
o mesmo que Francine, menos o bolinho. Tomara seu caf com os filhos para variar. No que no pudesse tomar um segundo desjejum. A energia nervosa teria queimado 
o que comesse.
- Existem coisas que voc precisa saber antes de ver Grace - Francine continuou.
- Ah, - Robin no resistiu - a vem coisa.
- No poderia dizer-lhe tudo antes que estivesse do nosso lado.
- Eu imaginei. Fiquei pensando que segredos poderiam vir. Cheguei a sonhar com uns timos.
- Por exemplo?
- Por exemplo: Grace morrera h cinco anos e fora mantida viva e ativa atravs de meios experimentais artificiais, s que esses meios desenvolveram um vrus e ela 
seria desativada temporariamente enquanto os tecnocratas descobrissem uma cura.
Francine tomou o caf que a garonete trouxe, sorriu e sacudiu a cabea.
- Sinto muito.
- Depois, voltei a minhas teorias originais. Drogas, lcool ou doena.
- Doena - Francine disse sem pestanejar. - Ela est com o mal de Alzheimer.
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Robin ficou congelada, com a xcara de caf na mo, o corao disparado. Mal de Alzheimer. Imaginara cncer.
Imaginara uma doena cardaca, um infarto ou alguma coisa que debilitasse fisicamente, como esclerose mltipla ou doena de Parkinson. Mas nunca imaginara Alzheimer. 
-
- Ela j sabe h algum tempo - Francine disse. - Eu soube em abril passado.
Robin no precisou somar dois mais dois.
- O acidente de automvel.
- Ela no sabia como parar o carro. Foi simples assim. Quando vi voc naquela noite no hospital, acabara de saber do diagnstico. Negava tudo na poca e continuei 
negando por mais trs meses.
No foram necessrios clculos de grande elaborao.
- At Chicago, em julho.
Francine lanou-lhe um olhar aguado.
- Voc alcanou tudo.
Mas alcanar no era o suficiente para entender a extenso da tragdia.
- Nunca pensei no mal de Alzheimer. No  o tipo de coisa que algum possa associar a Grace Dorian.
- No mesmo - Francine observou.
- Ela est mal?
- Isso depende de como voc define que uma pesssoa esteja mal. Ela continua sendo aquela pessoa tranqila, intuitiva, estudiosa, lder confivel que escrevia sozinha 
A Confidente? No. No pode escrever, no pode juntar as palavras, no pode mais criar como fazia antigamente. Mas ela ainda funciona, ainda se comunica. Existem 
momentos em que  to racional que comeamos a duvidar do diagnstico. E em seguida ela perde o controle.
- Perde o controle? - Robin perguntou, querendo na realidade saber exatamente o quo difcil seria seu trabalho.
- Oh, ela no  violenta. S muda de assunto, comea a falar coisas sem sentido, ou fica silenciosa e perdida. Tambm fica Paranica, s vezes. Por exemplo, est 
convencida de que voc vai juntar-se a ns para acabar com ela. Eu disse sobre o acordo
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que voc assinou. No tenho certeza se ela confia nisso. De qualquer maneira - Francine disse timidamente - ela pode ficar um pouco difcil no comeo.
Robin teve uma suspeita horrvel.
- Quando ela descobriu que voc me contratou? Sentindo-se culpada, Francine admitiu:
- Ontem  noite. Escute, no creio que ser to terrvel. Voc s ter que trabalhar um pouco mais para ganhar sua confiana. Quanto mais ela a vir no escritrio, 
mais aceitar sua presena. Alm disso, ela esquece. Se voc for gentil com ela, se fizer progressos em seu livro, se a elogiar pela ajuda que ela lhe der, ela pensar 
que teve o crdito pessoal por t-la contratado. E no ser voc quem far todo o trabalho. Ela tem mesmo anotaes, um punhado delas. Como disse, s tero que ser 
organizadas. E ela pode falar. Pode responder a perguntas. Lembra-se de quase tudo sobre o incio de A Confidente. Os acontecimentos antigos permanecem, os mais 
recentes... - estalou os dedos -... desaparecem.
- E quanto  sua infncia? - Robin perguntou. Com certeza isso est dentro da categoria dos assuntos antigos. - Foi onde encontrei as maiores contradies.
- Sua infncia - Francine repetiu.
- A verdade - Robin insistiu, sentindo uma ponta de aborrecimento. - Voc me deve isso, Francine. Teria sido timo se eu tivesse todos os fatos antes de comprometer 
a minha vida.
- Existe uma clusula de escape no acordo. Pedi que o advogado a inclusse por este motivo. Se quiser sair,  s dizer. A clusula do segredo permanece, mas voc 
estar livre em todos os outros sentidos.
- No ficaria livre em nenhum sentido - Robin argumentou, pensando na emoo, na honra, no triunfo que sentira, e no desapontamento que sentiria se desistisse do 
trabalho agora. - Mais do que qualquer outra coisa, eu sempre quis escrever sobre Grace.
- Para desmanchar o mito.
- Para contar toda a histria como ningum contou. No h nada de ilegal, de imoral ou de inferior no mal de Alzheimer.
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Isso no destruir nenhum mito. Mas a verdade de sua identidade pode destru-lo. Fale-me sobre sua infncia.
Francine parecia lutar durante uma frao de minuto, antes de levantar os olhos e confessar com a maior franqueza:
- O que eu disse no outro dia  verdade. No sei mais do que voc. Sei menos, na realidade. As contradies que voc encontrou vieram de uma pesquisa. As minhas 
vieram de Grace, inadvertidamente por parte dela, o que torna sua veracidade questionvel. Ela tem alucinaes. A cena  sempre a mesma. Sua famlia est no quarto 
ao lado - pais, irmo e irms.
- Pensei que ela s tivesse um irmo.
Francine lanou-lhe um olhar que dizia: eu tambm pensava. A garonete depositou na mesa duas vasilhas de morangos e um bolinho. Robin comeou a comer seus morangos 
e a tentar digerir o que Francine lhe dissera.
- Algum deles tem nome? - perguntou.
- Seus pais so Thomas e Sara. Seu irmo  Hal.
- E as irms?
- Eu nunca tive coragem de perguntar.
- Eu podia pesquisar Thomas, Sara e Hal. Especialmente Hal. Poderamos descobrir o ano em que ele morreu. Deve haver um registro de sua morte em algum lugar. - Fez 
uma pausa. - A no ser que ele no tenha morrido.
- Ele morreu sim. Essa parte da histria nunca mudou. Nem uma vez. Grace sempre disse que ele morreu de coqueluche aos cinco anos de idade. - Colocou a mo sobre 
o peito. - Ms Pode imaginar se no for verdade? Pode imaginar que eu tenho um tio por a? Tias, primos?
A excitao de Robin crescia. Esse era o seu livro. A Grace
Dorian que o Mundo Jamais Conheceu.
- O problema - Francine disse -  que Grace nega tudo, a no ser sua histria original. E a histria pode ser verdadeira. As alucinaes no so necessariamente 
exatas.
- Sou uma especialista em descobrir. Vou chegar  ver-dade.
- no temos muito tempo.
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- Quando devemos entregar o manuscrito?
- No  esse o problema. O problema  a mente de Grace. Precisamos chegar at onde houver alguma coisa, antes que ela pare.
Pensamentos mortos, passados apagados, personalidades desaparecidas. Robin teria que ser muito desumana para no sentir nada por Grace. E ela sentia ainda mais por 
Francine. Assistir sua me perder lenta e sistematicamente sua faculdade mais perfeita deveria ser devastador. Perguntou, com cuidado:
- Quanto tempo ela tem? Francine encolheu os ombros.
- Semanas, meses, anos... quem sabe? Foi por isso que quis que voc comeasse imediatamente. - Franziu os lbios por um instante. - E ento? Vai ficar conosco?
Robin no teria que pensar mais tempo. No iria virar as costas para a oportunidade de sua vida.
- Estou com vocs, na alegria e na tristeza. - Franziu a testa. - Por que foi que eu disse isso? Por que sempre voltamos ao casamento, quando queremos encontrar 
o padro para um relacionamento?
- Porque  assim que a sociedade v. H quanto tempo est divorciada?
- Seis anos.
- Foi uma separao amigvel?
- To amigvel quanto qualquer divrcio pode ser. Ele  uma pessoa que pensa, eu sou uma que age. Nossas personalidades seguem direes opostas. Ele fica com os 
filhos durante os feriados e as frias, desde que eu fique com eles durante o perodo de aulas. Isso no  justo. Ele fica com os momentos alegres. - Para explicar 
melhor sua reclamao, acrescentou: - As frias esto quase chegando. Tudo fecha, a vida fica parada. Para uma pessoa como eu, que gosta de agir,  muito difcil. 
Sem as crianas, fica duplamente difcil. Nunca sei o que fazer comigo mesma.
- Junte-se a ns - Francine ofereceu. - Vamos ficar em casa este ano, s a famlia. Ser timo.
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Robin ficou surpreendida com a oferta.
- Est falando srio?
- Sobre o convite? Muito srio.
Quando viu que nada na expresso de Francine sugeria qualquer outra coisa, sacudiu a cabea, satisfeita.
- Minha me teria morrido e ido diretamente para o cu, antes de chegar a hora, se soubesse disto: sua filha trabalhando com Grace Dorian e passando o Dia de Ao 
de Graas com Grace Dorian. Inacreditvel.
Francine pareceu satisfeita.
- Ento vir?
Robin queria muito. Seu irmo estava com seu companheiro em San Francisco, e a idia pareceu-lhe muito a gradvel. Alm disso, gostava de Francine, desde o princpio. 
Ela era mais solta do que Grace, menos assustadora, mais acessvel.
- Sua me pode no aprovar.
- Bem, isso  verdade. Mas convidei tambm seu mdico e ela no aprovou. Talvez possamos passar a idia de que voc  namorada dele. No. Ela no engolir essa.
- Por que no? Ele  horrvel?
- No.  maravilhoso. Mas ela pegou-me beijando-o ontem e ficou lvida. No acreditaria nem por um minuto se eu tentasse fingir que ele era seu namorado. - Francine 
deu uma dentada em seu bolinho. - Este pode ser um Dia dee Ao de Graas muito interessante.
- Interessante  melhor do que solitrio.
- Solitrio? Para ns, ser. Estamos acostumadas a passar com uma multido: coquetis no clube e jantar para duas dzias de pessoas em casa. Grace poder estar de 
mau humor e ponto final. Venha. Quanto mais ela estiver com voc, mais fcil se abrir. E de qualquer maneira, convidei voc e quero que venha. Ora, tambm  meu 
Dia de Ao de Graas.
Colocada a idia dentro do contexto de rebelio contra Grace Dorian, Robin no poderia recusar.
Dezesseis

Os homens so criaturas solitrias, as mulheres so comunitrias. Para um homem, guardar um segredo  um ato de orgulho. Para uma mulher,  um desespero.
- Grace Dorian, em A Confidente
Grace sabia que era Dia de Ao de Graas - no porque o calendrio dizia, j que o trabalho continuava cada vez mais confuso, nem porque Francine lhe recordara, 
j que se esquecia rapidamente do que lhe era lembrado, nem porque as lojas vendiam os perus de chocolate de que tanto gostava, j que no ia a uma loja h meses. 
Sabia que era Dia de Ao de Graas por causa dos aromas. Eles traziam-lhe de volta os Dias de Ao de Graas do passado, naquela mesma casa, com John e vrios amigos.
Os amigos no estariam presentes naquele ano. s vezes, compreendia o porqu e sentia a dor da mudana. Outras vezes, havia somente a sensao de perda e suas perguntas: 
O que est faltando? Onde eles esto? Por que no esto aqui?
Mas as perguntas tambm fugiam, assim como tanta coisa desaparecia de sua mente. Durante uma poca, sua vida era um desenrolar contnuo de acontecimentos. Agora, 
era dividida em momentos. Os fatos ocorriam desordenadamente. Ela perdera as ligaes que faziam com que transcorressem em ordem.
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Ela foi deixada com um pot-pourri de emoes, espalhadas
ao acaso em uma cornucpia moldada pelos aromas de peru assado, cidra de ma aromatizada com especiarias e torta de carne moda recm-sada do forno.
Houve um ligeiro embarao quando ela apareceu na cozinha vestindo seu lindo vestido negro, e Margaret levou-a de volta para seu quarto, para que vestisse alguma 
coisa mais simples para o desjejum. Oh, sim, Grace explicara seu engano, dizendo que simplesmente quisera experimentar o vestido preto para ver se ainda lhe servia, 
mas o engano a deixara aborrecida. Ficou aflita a manh inteira, sem ter certeza do que deveria fazer consigo mesma, quando se vestir ou descer, ou tomar seu lugar 
 cabeceira da mesa. Seu sentido de tempo desaparecia gradativamente. No conseguia nunca saber em que momento estava.
Para tornar piores as coisas, Jim no estava presente.
-  cedo demais para a vinda de Jim - Francine explicou. - Ainda so dez horas. Ele est celebrando a missa.
Grace esperou um pouco mais. Quando achou que ele estava demorando para aparecer, teve medo de que tivesse e esquecido seus planos.
- Padre Jim esquecer voc? - Francine brincou - Ele nunca faria isso. So s onze horas. Possivelmente ele est na igreja, e de l ir ao hospital para visitar seus 
paroquianos doentes. Vir para c logo que terminar.
Grace esperou mais um pouco. Passou por sua cabea que talvez ele tivesse esquecido.
- No esqueceu, mame - Francine insistiu. - - Ele prometeu estar aqui s duas horas. Ainda falta uma hora. No se preocupe, ele vir.
Mas foi Robin Duffy quem chegou, criando uma tenso imediata em Grace. Sim, Robin trabalhava para elas agora; mesmo assim, Grace no se sentia bem. Robin vigiava-a, 
mesmo demonstrando um ligeiro respeito. Grace conhecia aquele olhar, conhecia a deferncia. Robin era sua f. Mas tambm era uma reprter. Grace no poderia cometer 
enganos.
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As coisas pioraram quando Davis Marcoux chegou. Ele observou-a com um olhar diferente - mdico demais, avaliador demais, conhecedor demais de coisas demais - como 
se esperasse algum escorrego.
Resolvendo manter-se em terreno seguro, ficou sentada quieta, sorrindo e respondendo somente aos comentrios que eram dirigidos a ela. Da mesma forma que fizera 
anos antes, parada na entrada de Palm Court, imitando as senhoras elegantes presentes, agora imitava Francine. Quando Francine pegou um canap de caviar da bandeja 
que Margaret passava, ela fez o mesmo. Quando Francine enrolou seu guardanapo de coquetel cuidadosamente em torno do pequeno palito que viera com o camaro, Grace 
repetiu seu gesto.
Francine tornara-se uma anfitri admirvel. Grace no sabia quando isso acontecera, mas era bastante confortvel para ela.
Muito poucas coisas mais o eram, especialmente a ausncia do Padre Jim. Grace continuava tentando consultar seu relgio. Quando no conseguia, lanava olhares angustiados 
para Francine.
- Ele vir - Francine tranqilizou-a vrias vezes. Mas Grace no sabia onde ele estava. Imaginava que pudesse ter ficado doente. Ou se perdera no caminho. Ou... 
pior do que tudo... fora levado de volta para o... para o... lugar onde os padres iam para estudar e rezar e nunca mais voltar. Se isso acontecesse, ela morreria. 
No havia a menor dvida, ela morreria. De alguma forma. O futuro j era bastante sombrio. Enfrent-lo sem Jim seria inimaginvel.
Ento ele chegou, alto, elegante e apaixonado como sempre. Quando ele apertou sua mo, ela sentiu o primeiro alvio aps vrios dias.
Por sua vontade, ficaria segurando sua mo a tarde toda. Mas isso era proibido,  claro. Mas ele estava l, com seu sorriso reconfortante.
O sorriso de Francine tambm representava um conforto.
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Ela sabia quando levar os convidados para a sala de jantar, sabia onde cada um deveria sentar-se, sabia quais talheres deveriam usar primeiro. Seguindo sua liderana, 
Grace saiu-se bem por algum tempo. Ento, sua mente comeou a vagar entre dvidas.
Por que Robert no estava l? Se houvesse alguma esperana para Francine e ele, Robert deveria ter passado aquela festa com eles.
Por que Davis Marcoux estava l? Sua presena seria uma precauo, para o caso de ela perder completamente o juzo?
E por que Sophie parecia to triste? Estaria doente? Ou preocupada com alguma coisa? Isso angustiava Grace. Queria para Sophie toda a paz, felicidade e sucesso do 
mundo.
Grace levantou-se da mesa vrias vezes durante a refeio, - para empoar o nariz, explicou com seus modos gentis - mas o chamado da natureza no era o responsvel 
por suas sadas. Havia momentos em que simplesmente no conseguia sentar-se quieta, quando sua intranqilidade era insuportvel, quando golpes de emoo percorriam 
seu corpo todo.
Em um minuto era a ambio, o desejo de coisas para a eternidade que no poderia ter. Em outro era a raiva, ou a tristeza, ou o medo. As festas causavam essas coisas. 
Quantas vezes prevenira seus leitores de que os primeiros feriados sem as pessoas amadas eram os piores - ela sentira aquilo quando John morreu, a quebra da tradio, 
mas isto era diferente. A nica mudana depois da morte de John foi a sua ausncia. Aqui... agora... era tudo.
Isso poderia explicar a ameaa que sentia, a sensao das coisas comeando a apodrecer, a urgncia. Alguns portadores do mal de Alzheimer permaneciam estacionados 
em plats durante anos, alguns at o tempo suficiente para morrer de causas naturais. Grace sabia que aquilo no aconteceria com ela. Podia ver a piora diria, podia 
avaliar o declnio de suas habilidades, mesmo com a diminuio constante de suas capacidades.
Comer era um exemplo perfeito. No incio, tinha problemas
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para lembrar-se se fizera uma refeio. Depois, passou a ter dificuldades para decidir o que comer, mais ainda quando havia vrias opes. Depois, descobriu-se esquecendo 
que zuaffles pediam gelia e o po, queijo. Havia ocasies em que colocava sal duas vezes em seus ovos, at mesmo trs vezes, e s Deus sabia o que fazia sem lembrar-se, 
e agora isto. Uma mesa festiva de Dia de Ao de Graas com mais prataria, mais loua, mais apetrechos extras do que ela podia saber a utilidade.
Soubera, em determinada poca. Em certa ocasio, ensinara a seus leitores a funo de cada um daqueles apetrechos. Agora, estava reduzida a imitar os outros. Voltara 
para o Plaza, uma ningum do lado de fora olhando para dentro.
A sobremesa acabara de ser servida quando Grace sentiu os olhos cheios de lgrimas. No sabia por qu. Pior, no sabia o que deveria fazer. E ficou parada, sentada 
ali, com as lgrimas escorrendo pelo rosto.
Jim segurou sua mo, mas foi Sophie quem tocou seu ombro e disse:
- No estou conseguindo comer esta droga mesmo. Quer dar uma volta comigo, vov?
Infinitamente agradecida, Grace acompanhou-a para fora da sala de jantar, dirigindo-se ao closet do corredor de entrada.
- Aonde vamos? - perguntou, quando Sophie entregoulhe a raposa prateada que fora o ltimo presente de John.
- Vamos dar uma volta. Onde esto suas botas? - Retirou-as da porta do closet e ajudou Grace a cal-las.
Grace apoiou-se em seu ombro, para manter o equilbrio.
- No faz tanto tempo assim que eu fazia isto para voc. Depois, voc comeou a dizer: "Eu posso fazer isso sozinha, vov". Quatro anos de idade e to independente.
- Era uma questo de orgulho - Sophie disse, vestindo o casaco. - Queria ser to adulta quanto voc e mame.
Aquele pensamento pareceu-lhe importante. Grace tentou mant-lo em sua mente enquanto saam da casa, mas distraiu-se quando Legs escapou e passou correndo por elas.
- Meu Deus.
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- Est tudo bem, v. Ela s quer correr.
- No gosto dessa cadela.
- Por que no?
Grace ia falar qualquer coisa sobre covardia - a primeira impresso que tivera da cadela e que ainda perdurava - quando sua ateno foi chamada pela cor prpura 
que o pr-do-sol fazia cair sobre o terreno da propriedade. Era lindo - no, mais do que isso - a palavra fugia-lhe - mas ela adorava aquela luminosidade. Ela simplificava 
as coisas, produzia as formas bsicas. E as formas bsicas eram Divinas.
Ela era assim agora, menos feita pelo homem, mais bsica. Como se orgulhava de seu conhecimento adquirido e do poder que ele trazia. Talvez esse tivesse sido seu 
pecado, para ser punida daquele jeito, no de outro. Ser que Deus amava-a mais agora que estava reduzida a Seu bsico?
Qual era a expresso? O orgulho antecede a queda? Onde ouvira aquilo?
- Foi voc quem disse?-perguntou, enfiando seu brao no de Sophie, quando as duas comearam a caminhar lentamente.
- Disse o qu?
- Alguma coisa sobre o orgulho?
- Eu disse que tinha orgulho em ser to independente quanto voc.
Grace sorriu. Era disso que estava tentando lembrar-se.
- Voc saiu a mim. Independente. Mesmo quando criana.
- Voc era?
- Nunca fazia o que meus pais mandavam.
- Eles eram severos?
- Eles eram principalmente... - procurou a palavra e quando a encontrou, abenoou o ar frio da noite por clarear sua cabea - zangados. Gente zangada. No tinham 
muita coisa. Meu pai sentia... - buscou novamente, mas a palavra no vinha e ela resolveu mudar o que estava dizendo - ...ele sentia que no valia muita coisa porque 
no ganhava dinheiro. Sentia isso mais ainda quando olhava para minha me. E desforrava-se nela.
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- Batia nela?
- Minha nossa, no. Existem outras maneiras de ser cruel. - Caminharam em silncio. Ento, sentindo-se segura apoiada a Sophie naquela neblina aconchegante, Grace 
comeou a fazer reminiscncias. - Ele no falava muito. Quando o fazia, geralmente estava bbado. No dizia coisas agradveis. E minha me vingava-se dele gritando 
conosco.
- O que voc fazia?
- Oh, ficava fora a noite inteira com meus amigos.
-  verdade? - Sophie perguntou, encantada com o que ouvia.
- Ns danvamos. Fumvamos. Bebamos.
- V estou chocada. Grace cutucou-a.
- No est nada.
- Estou sim. No posso imagin-la fumando. Ou bebendo. Grace respirou profundamente. Suas reminiscncias de repente no eram mais to divertidas.
- Sim, bem, isso pode ser trgico.
- Alguma coisa aconteceu, no foi?
Grace sabia o suficiente para perceber que estava deslizando sobre gelo fino.
- Voc - disse, passando para o lado mais seguro - teve um choque de insulina.
- No estou falando de mim. - O que aconteceu com voc?
- Por que no colocou um pouco de comida no estmago?
- V.
- Voc no parecia estar muito feliz  mesa agora mesmo.
- E dizem que as lembranas mais recentes so as primeiras a desaparecer - Sophie brincou com a av. - Isso mostra o quanto eles sabem.
Continuaram caminhando.
-  uma coisa interessante, esta doena - Grace disse finalmente. - Tenho menos pensamentos. Mas os que tenho so importantes. Preocupo-me. Com sua me. Com voc.
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- No faa isso. J tem bastante coisa com que se preocupar.
- O que mais? Nada  to importante quanto vocs.
Sophie apertou seu brao com mais fora. Continuaram caminhando pela alameda, afastando-se da casa, entrando na noite.
- O que h de errado? - Grace perguntou depois de um tempo.
Sophie soltou uma gargalhada.
- Hoje? Ou todo dia?
- Hoje. - Grace viu uma fasca plida brilhar no escuro. Agarrou-se a Sophie. - O que  aquilo?
- Legs.
- O qu?
- A cadela de Francine. Ela no vai machucar voc.
Grace pensou em outra poca, outro cachorro. Era um bicho feroz, espumando pela boca no final de uma corrente, presa no jardim dos irmos Gruber. Caminhar - no 
correr - diante dele na calada da noite representava um teste supremo de coragem. Ela e Johnny fizeram aquilo juntos. No podiam ter mais do que seis anos de idade.
- Aquele cachorro teria matado - Grace disse a Sophie, como se ela no compreendesse o significado do que tinham feito.
- Legs? De jeito nenhum. Legs correria para esconder-se em um armrio antes de ferir uma mosca.
- Foi o que Johnny disse, mas s para que eu me sentisse melhor.
- O vov no chegou a conhecer Legs. Grace no entendeu bem o que Sophie disse. John no tinha nada a ver com o cachorro na corrente. Ou teria? Confusa, disse simplesmente:
- Meu Deus.
Alcanaram o final da alameda, fizeram uma grande volta e retornaram. A casa era um ornamento, parecendo ser mais alegre do que Grace se sentia.
- As coisas esto mudando - Sophie disse. - -  difcil. Grace pensou em sua queridinha.
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- Voc gosta de mudanas. Adora aventuras. Sou mais rgida do que voc. Voc rebela-se contra mim.
- Talvez.
- Voc pode ferir-se.
- O fato  que a gente pode ter todo o cuidado que quiser e, de repente, uma coisa dessas acontece e todo o cuidado no vale merda nenhuma... desculpe, v, mas  
a palavra que define melhor o que est acontecendo.
- Meu Deus - foi tudo o que Grace pensou para dizer, porque no conseguia seguir seus pensamentos, e ento o cachorro comeou a trotar do lado delas. Ela nem conseguia 
ver se ele estava espumando pela boca.
- Olhe para voc - Sophie disse. - Voc seguiu todas as regras... mais do que as seguiu... voc fez tudo certo e agora veja como est.
- Aqui estou. - Caminhando novamente dentro da noite. Tentando ignorar seus medos novamente.
- Quer saber um segredo? - Sophie disse, usando a voz sussurrante que as grandes amigas usavam para contar segredos. - Quer dizer, nunca pensei que fosse um dia 
admitir para voc, mas se pudesse escolher qualquer lugar do mundo onde quisesse estar neste momento, estaria aqui com voc e mame, celebrando o Dia de Ao de 
Graas como fizemos sempre. - Fez uma pausa. - Depois, tiraria uma folga amanh e faria uma coisa bem selvagem.
Dentro do esprito do segredo, Grace sussurrou animadamente:
- Selvagem?
- Como atravessar o pas de motocicleta. Ou mudar-me para Paris e passar as tardes em pequenos cafs discutindo literatura. Ou alistar-me na CIA como espi contratada.
Grace teve uma rpida viso.
- Voc e eu podamos fugir, ir para algum lugar novo, tomar novos nomes, arranjar novos empregos. - Quando Sophie no demonstrou felicidade diante daquela proposta,
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continuou: - Fiz isso uma vez. Posso fazer de novo. - Pensou sobre o assunto enquanto caminhavam.
- Pode ser - Sophie disse delicadamente. - Vamos pensar sobre isso.
Grace estava pensando no assunto algum tempo depois, quando chegaram em casa. Assim que Sophie abriu a porta, um cachorro passou correndo por elas e entrou. Grace 
deu um pulo.
- Meu Deus! O que... ponha esse cachorro para fora!
-  s a Legs, v. Ela  legal.
- Voc faz a mnima idia do mal que esses ces carregam? Eles reviram todas as latas de lixo de todas as vielas. - Parou, lanando olhares nervosos, primeiro em 
torno da entrada da frente, depois para dentro do vestbulo. Sua me estava l. Tinha certeza disso. Foi a voz dela que ouvira agora h pouco.
Mas Francine vinha em sua direo, com um grande sorriso no rosto.
- Ora at que enfim. Terminamos agora mesmo. Como foi o seu passeio?
Grace deixou a resposta para Sophie, enquanto outras mos ajudavam-na a tirar o casaco e as botas. Estava concentrada em observar essas outras mos quando olhou 
para cima e perdeu o flego. Vindo em sua direo com uma mulher que ela no conhecia, estava um homem mais jovem.
Sua voz era um fio.
- Johnny?
- Este  o Davis-Jim disse, passando um brao reconfortante em torno dela. - Com Robin. Vamos jogar Trivial Pursuit no escritrio. Voc ser a minha parceira. Ningum 
sabe arte e literatura tanto quanto voc.
Davis?  claro. Como poderia ter-se confundido? Johnny era muito mais jovem. No entanto, havia alguma coisa nele que fazia com que ela recordasse Tyne Valley.
Francine chorou por Grace naquele Dia de Ao de Graas. Chorou pela mulher que fora cheia de vida e alegria, pela mulher
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que fora competente, otimista e cheia de energia. Chorou pela mulher que fazia com que as festas das Dorian fossem nicas. Chorou por sua me que lhe dera vida, 
amor e felicidade.
Grace teve um sonho naquela noite. Estava de novo no celeiro com os rapazes, com as brincadeiras amigveis e o usque roubado de Scutch e aquela sensao ruim, muito 
ruim, que s vezes sentia, quando as coisas comeavam a fugir de seu controle. Sparrow estava sentado de um lado dela, Johnny do outro, rindo enquanto passavam a 
garrafa entre eles e ela tomava sua cota. No havia maneira melhor para bloquear as coisas ruins.
Wolf deu uma volta e sentou-se bem junto dela, de uma maneira que no deixava dvidas de como a bebida o afetara.
- Deixe ela em paz - Johnny disse.
- Ora, ela est gostando. - Ele aproximou-se mais, com as coxas prendendo os quadris dela.
- Deixe ela em paz - Johnny preveniu.
- Vai ter que dividir. No  o nico que tem suas necessidades.
- Afaste-se dela, Wolf - Johnny ameaou.
- Se no o qu?
As palavras ficaram suspensas no ar somente o tempo suficiente para que Johnny saltasse e desse um soco em Wolf. Ele aterrissou sobre a palha um pouco adiante e 
no se mexeu. No se mexeu. No se mexeu.
Grace acordou assustada. Tremia, suava, gemia, precisando que Wolf se levantasse daquele cho, porque Johnny podia ter sido o instrumento, mas ela fora a causa, 
e aquela sensao ruim, muito ruim, era real...
Saltou da cama, abriu a porta do quarto e olhou furtivamente para a sala de estar. Graas a Deus, estava vazia. Grace saiu correndo, passou pelo corredor e desceu 
as escadas, indo diretamente para a cozinha. Durante um minuto, ficou colada  porta, com a mo no peito. Lentamente, seu pulso foi acalmando.
Havia uma chaleira no fogo. Sem saber o que deveria fazer
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alm de um ch, ligou o gs. Depois, arrastou uma cadeira, encostando-a  parede e sentou-se ali, de onde podia ter uma viso total de todas as entradas para o aposento.
Olhou para o relgio. Olhou em volta da cozinha, para suas mos, para o relgio de novo. Estudou a porta dos fundos. Esforou-se para ouvir os sons que poderiam 
vir do corredor.
Esperou. No sabia bem o qu. Mas esperar parecia certo.
Ento, alguma coisa disse-lhe para mover-se. De olhos atentos, encostada  parede, saiu da cozinha e atravessou o corredor, passou pelo vestbulo e foi at seu escritrio. 
Uma vez l dentro, fechou a porta com um suspiro e afundou-se em uma cadeira. Esse aposento dava-lhe mais segurana do que os outros. Estava cheio das armadilhas 
de uma Grace forte e poderosa. Olhou lentamente em torno e comeou a acalmar-se vagamente.
Ento, a noite explodiu em sons e ela saltou.
Seguiu-se um instante de paralisia total, de pnico e de parania. Agindo por instinto, saiu correndo do escritrio.
- Fogo! Fogo! - gritou quando chegou ao vestbulo, porque parecia ser o que deveria fazer. Em seguida, acompanhou as fitas desbotadas de neblina que levavam  cozinha. 
Atravs da neblina que era mais espessa naquele local, viu algum cozinhando.
- Meu Deus! - gritou bem alto, para ser ouvida acima de todo aquele barulho. - Meu Deus! O que voc est fazendo?
- Estou tentando-berrou Francine, que na verdade estava na pia abrindo a torneira - fazer parar a fumaa desta chaleira.
- Voc estava fazendo ch? A esta hora? Meu Deus! - Cobriu as orelhas. - Que barulho!
Enquanto dizia isso, viu Sophie chegando pela porta dos fundos. O barulho terminou. Francine fechou a torneira, largou a chaleira na pia e abriu a janela. Sophie 
ligou o ventilador.
Nenhuma delas disse muita coisa, s Francine, com uma voz meiga:
- Volte para a cama, mame. - Mas Grace tinha a sensao opressora de que fizera alguma coisa errada.
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Solta no escritrio de Grace, Robin sentia-se proverbialmente como uma criana em uma loja de doces. Havia livros, dirios, arquivos. Havia fotografias de Grace 
com gente famosa e cartas de fs de outras. Havia uma quantidade enorme de anotaes que Grace fizera com a idia de escrever seu livro. Havia tambm outra quantidade 
enorme de notas para lembrar-se de coisas - quem eram as pessoas, como as coisas funcionavam, o que deveria acontecer, quando - escritas e reescritas como um testamento 
triste da diminuio da f de Grace em si mesma.
Robin examinou tudo desde o Dia de Ao de Graas at o Natal. s vezes trabalhava sozinha, ou  mesa de Grace ou com seus papis espalhados sobre a sua prpria, 
em um escritrio menor, no fundo do corredor. E, freqentemente, trabalhava com Francine e Sophie.
Elas aceitaram-na com uma facilidade surpreendente, dadas as diferenas passadas, geralmente descobrindo mais coisas em comum do que discordncias, quando conversavam 
sobre Grace, sobre o passado e o presente de A Confidente, sobre a dinmica da famlia. Com freqncia, essas conversas tornavam-se pessoais.
Robin nunca tomou nota durante essas conversas, simplesmente escutava e absorvia. Nem em seus sonhos mais loucos poderia ter desejado ter uma viso to clara e reveladora 
das Dorian.
Trabalhar com Grace era o grande desafio. Polida, at formal, conseguia ser boa somente durante uma hora de cada vez, - e isso sentada educadamente e calma durante 
um minuto, movendo-se impacientemente no seguinte - antes que se cansasse de falar e sasse da sala. Grace tinha histrias para contar sobre A Confidente, mas no 
conseguia narr-las sozinha. Robin tinha de encontrar as deixas nas anotaes e fazer perguntas, o que desencadeava sua conversa durante dias, quando a ateno de 
Grace surgia e flua.
Eram histrias maravilhosas - interessantes, divertidas, tocantes. Robin jamais poderia negar o respeito que sentia pelas
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realizaes de Grace. Nem poderia negar simpatia por seu empenho. A Grace que via agora era a anttese da Grace de que se ressentia - o que no significava que o 
ressentimento desaparecera, s que muitas vezes era difcil de ser mantido.
Esse detalhe era particularmente verdadeiro devido s mudanas que o trabalho com Grace trouxera  vida de Robin. Desaparecera seu ritmo febril que enlouquecera 
seu marido, a pressa em tentar tudo, na busca de superar-se em qualquer coisa, a compulso de fazer tudo o que pudesse para seus filhos a fim de compensar a culpa 
por sua ausncia. Subitamente, havia uma ordem, um dia de trabalho definido, em torno do qual poderia organizar o resto de sua vida. Havia flexibilidade quando um 
dos filhos precisava dela, e um tempo valioso com eles, mesmo sem que necessitassem. Escrever o livro de Grace era a primeira atividade prolongada que tivera em 
anos. Robin agora tinha realmente tempo para respirar.
Tudo isso, e ainda a satisfao psicolgica. Ao ser retirada da multido para fazer a crnica da vida de Grace, ela se realizava - graas a Grace - de uma maneira 
que - por causa de Grace - nunca se realizara antes.
Ainda no descobrira nada chocante. Mas os primeiros anos de Grace continuavam encobertos.
Uma manh, pouco antes do Natal, Francine entregou-lhe uma lista.
- Mame menciona estes nomes. So amigos de infncia. Ela menciona algum deles em suas notas?
Robin examinou a lista. Nenhum daqueles nomes despertava alguma coisa.
- O que ela diz sobre eles?
- Pouca coisa. Quando fao perguntas, ela desconversa. Pensei que talvez voc pudesse tentar pinar algo quando conversasse com ela. Sutilmente. Muito sutilmente. 
Talvez ela se abra.
- Mas tambm pode levantar-se e sair.
- No. Ela gosta de voc. Ela sente que voc conhece A Confidente.
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Robin sentiu-se tremendamente lisonjeada.
- Ela disse isso?
- H-h. Ento? O que acha? Temos material para um livro?
- Temos sim, e s revisamos dois teros do que temos aqui, mas o material  muito interessante. Como a histria daquele homem que processou Grace por alienao de 
afeto, quando ela aconselhou sua mulher a perguntar-lhe sobre suas reunies tarde da noite, suas freqentes viagens de negcios e contas de cartes de crdito estranhas. 
Ou, por outro lado, a da esposa que citou Grace como sendo "a outra mulher" quando seu marido pediu o divrcio, porque ela no poderia ser comparada a Grace. E aquela 
outra do casal que recortava todas as colunas que tratavam de assuntos sexuais e fez um caderno com elas, para ensinar os fatos da vida para sua filha. Minha me 
fez coisa parecida.
- Fez um caderno?
- No, s me entregava as colunas, como elas vinham. Ela mesma no me ensinou nada sobre sexo. Como se fosse uma coisa muito ruim para ser discutida. Ou muito ruim, 
ou muito boa. Nunca descobri realmente o que ela pensava. E nunca tive a coragem de perguntar.
- Sei o que  isso - Francine disse. - Engraado, pensamos que somos diferentes de nossos pais, que podemos falar sobre tudo. Mas no podemos. Eles estabelecem as 
regras. Isso, naturalmente, sobre sexo. Quer saber a minha opinio? Acho que eles faziam e muito.
- No a minha me - Robin disse com convico.
- Como voc sabe o que ela fazia enquanto voc e seu irmo estavam na escola?
- No sei. Mesmo assim... - Robin pensou sobre o assunto, sacudiu a cabea. A imagem no combinava.
- Como era seu pai?
- Dominado pela mulher. Dcil, obediente. As nicas vezes em que elevava a voz eram em defesa de minha me quando eu ou meu irmo ousvamos falar mais alto; ele 
tinha esse tipo de lealdade.
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- Foi bom ele ter morrido antes dela. Teria ficado perdido sem ela.
- Ah, mas ele ainda est vivo.
- Desculpe, eu pensei...
- No faz mal. Nunca mais o vi desde que ela morreu. Ela e eu tnhamos coisas que no foram resolvidas. Nem ele nem eu ousamos tocar nisso.
-  triste - disse Francine.
Robin tambm pensava assim, com uma espcie de nova viso que viera com os ltimos acontecimentos. A doena minava Grace, tornando-a cada vez menos a pessoa que 
fora, levando-a a ficar cada dia mais longe de Francine e Sophie - enquanto Robin deixava que seu pai, saudvel e lcido, desaparecesse.
Ela supunha que deveria telefonar para ele. Mas ele nunca se preocupara com seu bem-estar emocional, nem mesmo quando ela se divorciara. No sabia por que deveria 
preocupar-se com ele.
Bem, ela sabia por qu. Mas no tinha certeza se seria suficientemente capaz de perdoar para tomar a atitude.
- A propsito, - disse com um suspiro - e quanto a John Dorian? Era um homem preocupado?
- Somente com Grace. Ele era gentil, carinhoso e meigo com o resto de ns, mas no era do tipo preocupado.
- Como era a famlia dele?
- Rgida, pelo que Grace contava. Ela suavizou-o.
- Esto todos mortos, pelo que sei.
- Na verdade, ainda existem irmos e irms. Ele era o mais velho, por isso herdou a fazenda, por assim dizer. Os outros espalharam-se. No se davam muito bem. Ele 
no falava sobre eles.
- Sobre seus sentimentos ou sobre sua famlia?
- Os dois. Eu sempre perguntei. Era louca para ter parentes pelo lado dele, j que no havia nenhum por parte de
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Grace. Pelo menos... - ela hesitou, olhando para Robin com alguma coisa parecida com um pedido de socorro - no parecia haver nenhum pelo lado de Grace.
Robin sentiu uma agitao interna. Se Grace no queria falar, tinha que haver outros que quereriam. Sua Alteza Real Grace Dorian. Era a sua passagem para a fama.
- Eu no tenho acesso a suas fichas pessoais, mas voc tem. Tem que haver uma certido de nascimento em algum lugar. Existe algum cofre de segurana?
- Sim. Seu advogado tem a chave. Mas ele nunca a daria a mim sem a permisso de Grace. No, enquanto ela tiver um resto de lucidez.
Robin tentou outra tacada.
- E quanto a algum amigo ntimo? Algum em quem ela confie? Jim O'Neill?
- Ele , sem dvida, seu melhor amigo. Leal como ningum. Mas pode esquecer. Ele nunca a trairia.
- H quanto tempo eles se conhecem?
- Desde que eu me entendo por gente.
- Importa-se se eu falar com ele?
- No. Mas ele no dir nada.
- E o que pensa da idia de entrar em contato com os parentes de seu pai?
- Pode ser difcil. A ltima vez que soube deles estavam vivendo em West Coast. Perguntei a Grace sobre eles, mas ela no tem nada a dizer. Dorian no  um nome 
muito incomum. Eu no saberia por onde comear.
- Eles no foram ao enterro dele? Francine sacudiu a cabea lentamente.
- Eu teria telefonado para eles, se Grace no tivesse ficado to nervosa. Mas ela foi veemente. No queria a presena deles. Quando chegou o momento de arrumar o 
escritrio de papai, ela mesma empacotou tudo. Se existiam documentos relativos  sua famlia, eles esto com todo o resto na sala dos fichrios,
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devidamente lacrados. - Fez uma pausa. - Nunca tif e motivo para quebrar aquele lacre. Ou coragem.
Robin estava pensando que Grace possivelmente passara do ponto de perceber, quando Francine disse, suavemente:
- Posso fazer isso agora, suponho. Quem sabe h uma agenda de endereos. Isso nos daria um ponto de partida.
Francine encontrou a agenda naquela noite, mas no contou imediatamente para Robin. Alguma coisa a impediu.
- No paro de perguntar-me o que seria - disse para Davis. Tambm no planejara contar-lhe, mas havia alguma coisa na intimidade de compartilhar as paredes de um 
banheiro depois de desfrutarem um banho quente aps o sexo. O que passava por sua mente passava imediatamente para sua lngua.
Ela estava de joelhos, usando um pincel nos rodaps com os movimentos regulares que Davis lhe ensinara.
- Sempre odiei no mantermos contato com os parentes dele. So minhas tias e tios. Encontrei-os uma vez, totalmente por acaso. Estava com papai em Nova York. Dissemo-nos 
ol, depois cada um partiu para seu lado e isso foi tudo.
- O que causou a briga?
- Cime, ambio, as coisas normais que costumam afastar as famlias. Papai era o mais velho. Os outros no se conformaram por ele ter herdado a casa e o moinho. 
Nem mesmo sei se os quatro ainda esto vivos. Mas devem existir primos, tambm. Sempre desejei ter primos. - Sentou-se nos calcanhares. - E por que estou guardando 
essa agenda como se fosse a caixa de Pandora?
- Porque ela pode ser isso mesmo - Davis disse, como sempre tipicamente direto. - Voc j examinou? Os endereos esto l?
- Esto. Mas so antigos. Eles podem estar mortos.
- Os quatro? No me parece provvel. Entre em contato com um deles. Vai dar os telefonemas?
- Robin faria isso em um minuto, ela est muito ansiosa.
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Mas isso  minha funo, voc no acha? Se eles baterem o telefone... - Era seu maior medo... - Robin pode ligar por mim. - Ela pressionou o pincel contra a madeira 
distraidamente.
Davis colocou seu pincel sobre a tampa da lata e sentou-se no cho.
- Qual  a pior coisa que pode acontecer?
- Se no baterem com o telefone? - Francine estava agachada novamente. - Um discurso contra John, depois contra Grace, depois contra mim. - Lanou-lhe um olhar brincalho. 
-  o meu antigo medo de rejeio.
Ele ajeitou-se at ficarem lado a lado.
- Uma pessoa que rejeite voc no vale merda nenhuma. Tirou o pincel de sua mo e colocou-o de lado.
- ... bem... - ela sorriu - voc  suspeito. Escorregando sua mo enorme pela coxa dela, puxou-a para junto de si. Num tom de voz mais suave, com os olhos tocando 
sua boca, disse:
- Sentirei sua falta no Natal.
- No sentir no. Voc vai para sua terra.
- No existe ningum como voc em Tyne Valley. Quem poderei amar?
- Se amar outra pessoa, nunca mais quero saber de voc.
- Ah. Ultimatos. Mas que virada.
- Davis.
- Tem certeza de que no quer ir comigo?
- No posso ir para o norte se vou para o sul.
- A viagem ento est acertada? Francine concordou.
- Receberei a confirmao hoje. Teremos um jato particular para St. Barts, uma villa particular, uma praia particular, um cozinheiro particular. Com um pouco de 
sorte, esqueceremos que se trata de um feriado.
- O que Grace diz?
- S que gostaria que Jim fosse junto. Mas ele no pode,  claro, sendo Natal. Mas tudo o mais sobre a viagem estar sob controle para que nada d errado. - Ela 
fitou-o. Suas feies
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continuavam duras como sempre, mas agora eram mais delicadas, ntimas, preocupadas. - Ser que pode acontecer?
- No deveria. Grace pode ficar inquieta no primeiro dia, mas depois disso, em um espao privado, sem estranhos por perto, ela ficar tima. A mudana de cenrio 
ser boa para voc e Sophie.
- O Dia de Ao de Graas foi to difcil. Algumas coisas continuam as mesmas, enquanto outras no... - Fora um inferno ter que exibir um sorriso quando desejava 
chorar. No repetiria aquela tortura. - Prefiro fazer alguma coisa completamente diferente. Ficaremos l at o reveillon e voltaremos reconfortadas. Que tal meu 
otimismo?
- Nada mau - ele disse, e beijou seus lbios suavemente, depois seu rosto, depois seu queixo.
Ela abriu os lbios para apanhar sua boca no prximo beijo, mas ele se manteve fora de seu alcance. Ento ela fechou os olhos e simplesmente desfrutou da expectativa.
Percebeu que o fato de abrir seu corao para Davis no tinha realmente a ver com a intimidade do banheiro, mas com o prprio Davis. Ele era compreensivo e acessvel, 
inteligente e musculoso, carinhoso e divertido. E falava coisas indecentes na cama.
Ela gostava muito disso.
Dezessete

- Sou uma otimista. Sonho durante o dia e durmo  noite.
- Francine Dorian, em A Confidente
De volta a Nova York depois de dez dias em St. Barfs, Sophie sabia que estava bonita. Usava camadas de roupa branca, acrescentadas uma a uma  medida que o avio 
se dirigia para o norte, at estar toda coberta como um coelho de neve, mas descansada e bronzeada. Nem mesmo a corrente de ar frio que a atingiu quando deixou o 
abrigo do terminal do aeroporto para encontrar-se com Gus esfriou seu esprito. Viu-o, acenou para ele e voltou para buscar Francine e Grace. Quando as duas j estavam 
dentro do carro, ela foi at a traseira, onde Gus colocava as malas, e deu-lhe um abrao rpido.
- Como tem passado? Ele no sorriu.
- No to bem quanto voc. - Inclinou-se para dentro do porta-malas para ajeitar as coisas. Sua voz ressurgiu, acusadora. - Voc esteve na praia.
Ela perguntou-se onde ele pensou que estivesse, passando dez dias em uma ilha do Caribe.
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- Praia, piscina; a temperatura estava perfeita.  um lugar lindo.
- Aposto que sim.
- Como estava o Valley? - perguntou, esperando animlo. Ele passara o Natal na sua terra.
- Sei l - ele respondeu. - Fiquei o tempo todo bbado.
- Gus, voc no fez isso.
Ele lanou-lhe um olhar, antes de endireitar-se novamente.
- Eu disse que faria, se voc me deixasse sozinho.
- Ah, no, no jogue a culpa em mim - ela disse, mas ele bateu com fora o porta-malas e abriu a porta traseira com a maneira prpria de um motorista.
Sophie no estava disposta a perder o bom humor que trouxera do Caribe. Fez uma careta, passou por ele, abriu a porta da frente e entrou. Virou-se de modo a encar-lo, 
passou um brao sobre as costas do banco e disse para as duas que estavam atrs:
- Querem que eu ligue o aquecimento?
Grace pareceu incerta,  sua maneira desorientada. Francine parecia divertir-se atrs dos culos de aviador que usara durante a maior parte da viagem.
- Est bastante quente, obrigada.
- Ansiosa para voltar para casa, v?
Grace no respondeu. Olhava pela janela, com a sobrancelha franzida.
- V?
Gus mergulhou no trnsito.
- Aproveitou suas frias, Sra. Dorian? - perguntou, olhando pelo espelho retrovisor.
- Aproveitou - Francine respondeu por Grace - Ns todas.
Sophie aproveitara com certeza. No tivera que sofrer toda a tristeza do Dia de Ao de Graas, qualquer lembrana de comemoraes passadas. O cenrio era diferente 
demais para Permitir comparaes.
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- E ento? - Gus perguntou com um tom um pouco aborrecido. - O que mais voc fez alm de sentar-se ao sol?
- Caminhei pela praia. A vov gostou muito disso. O lugar era bastante isolado, pacfico.
- Parece muito aborrecido.
- Era muito romntico. - No pde resistir  provocao. Ele merecia, tentando estragar sua chegada. - Havia pequenas lojas e cafs, locais abertos para sentar e 
conversar com as pessoas.
- Ela conversou com as pessoas? - ele murmurou, com um olhar duvidoso para o espelho.
- Muitas vezes. - Grace tivera seus momentos de pessoa socivel. - Ela ficou tima, desde que estivssemos por perto.
- Que coisa mais aborrecida - Gus murmurou.
-No foi aborrecido absolutamente. Foi bom ficar com ela desse jeito. Alm disso, - Sophie provocou - eu saa  noite. Mame e eu alternvamos ficando com Grace. 
Havia dana em um lugarzinho prximo  praia. Era muito romntico.
O perfil do rapaz endureceu.
Satisfeita, ela virou-se completamente para a janela e ignorou-o. Ele no acabaria com seu bom humor, que fora to arduamente conquistado. Durante anos, a famlia 
representava um misto de emoes para ela, uma fonte tanto de orgulho quanto de opresso. Incrvel, talvez at cruel, mas a opresso afastava-se.
Como explicar aquilo? Sim, ela sentia falta das facetas da antiga Grace que amava, mas com certeza no sentia saudade das que odiava. Os tempos estavam mudando. 
St. Barfs mostrara-lhe que o novo nem sempre era o pior.
- Voc conheceu algum, no foi? - Gus grunhiu um pouco mais tarde.
Ela o olhou surpresa.
- O que o leva a dizer isso?
- Est convencida.
- S estou sentada aqui, pensando. Tive umas frias adorveis e sinto-me bem por isso.
- Quem  ele?
Sophie recostou-se na porta, para ter uma viso mais ampla
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de Gus. Ele no era muito mais alto do que ela, mas tinha um peito amplo, quadris estreitos e mos fortes. Era bem-feito e terrivelmente inseguro.
Levantar seu ego seria a misso da vida dela? De jeito nenhum.
- Para falar a verdade, ele  francs - ela respondeu. - Cabelos louros, muito alto.  um homem de negcios. Voa por toda parte em seu jato particular.
- Voc dormiu com ele?
Sophie olhou para trs, deu com os olhos de Francine por trs dos culos de aviador e piscou.
- No responderei a essa pergunta. Minha me est ouvindo nossa conversa. - Francine sabia que no houvera francs algum. Mas Sophie no confessaria isso a Gus.
Ele no lhe dirigiu a palavra novamente at chegarem em casa, at o carro ter sido descarregado e a bagagem colocada no vestbulo. Sophie estava em seu gabinete, 
escutando as mensagens da secretria eletrnica, quando ele colocou as malas em seu quarto e encostou-se no batente da porta.
- Voc vai me dizer? - ele perguntou. Ela no bancou a boba.
- Relaxe. Eu no dormi com ele.
- Mas voc queria, no queria?
- Honestamente, nem estava pensando nisso.
Gus olhou-a por um instante com olhos brilhantes, depois fez um rudo de desprezo, endireitou-se e dirigiu-se para a porta.
- Se voc no estava pensando nisso, meu bem,  que ele no quis nada.
- Epa - ela chamou, fazendo-o parar. - O que isso quer dizer? V se acorda, Gus. O sexo no  tudo.
Ele permaneceu parado, de costas para ela.
- Voc poderia ter me enganado, do jeito que voc gosta de sexo. Se existem outras coisas na vida, voc no as conhece.
- No com voc, - ela reagiu - isso com certeza.
Ele virou-se lentamente. Ela poderia jurar que viu no seu semblante um lampejo de sofrimento, antes que este fosse mascarado pela raiva.
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- Est se queixando?
Ela pensou por um minuto. Gus no era seu futuro, nem nunca passara por perto. No na mente dela, pelo menos. Se ele tivesse outras idias, j era hora... Francine 
no dissera isso h pouco tempo?... j era hora de esclarecer as coisas.
O problema, ela pensou quando sua raiva diminuiu, era como fazer sem feri-lo mais. Gostava dele de certa forma, sentia compaixo por ele, atrao fsica, talvez 
at lealdade.
- Aonde voc vai? - ela perguntou.
Ele olhou para a frente, para os lados, para trs.
- Parece que no vou a lugar algum. - Na vida. O que voc quer?
- Ah, meu Deus. - Ele tirou o bon e passou a mo nos cabelos. - Que tipo de pergunta  essa?
- Uma pergunta vlida. Voc nunca se perguntou?
- No, se puder evitar.
- Talvez devesse.
- ? E por qu?
- Porque voc no tem uma meta. As pessoas precisam de metas.
- Qual  a sua?
- Ter sade. Ser bem-sucedida no trabalho. Ele riu.
- Como se precisasse de mais dinheiro.
-No pelo dinheiro. Pelo respeito prprio. Onde fica o seu? Ele olhou-a diretamente nos olhos.
- O meu fica l no Grady's.
- Um bar. Isso  timo.
- No deboche. Ele me deixa feliz.
- No. Deixa voc bbado. Existe uma diferena.
- Eu poderia nem ter percebido.
- Bem - ela disse, respirando profundamente -, talvez seja a que tomamos caminhos diferentes.
- Est me mandando cair fora?
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- Estou dizendo que pense. Ficar bbado no resolve nada. No leva voc para a frente neste mundo.
- E o que me levar? - ele perguntou ofendido. - No sou um intelectual. S recebi o diploma do colegial porque a diretora era tarada por mim. Ficou chocada? No 
fique. Isso acontece o tempo todo.
- Voc dormiu com a diretora?
- Se dormi? No exatamente. Ns transamos na mesa da sala dela. Recebi o diploma, mas no muito mais, nem crebro, nem dinheiro, nem sorte. E para onde acha que 
devo ir? O que voc acha que eu devo querer na vida?
Sophie poderia comear a expor as metas de seus outros amigos, mas Gus no era como eles.
- Trata-se do que voc quer, no eu.  voc quem tem de decidir. Mas no vai conseguir se estiver bbado o tempo todo.
Ele franziu os lbios. Seus olhos insolentes percorreram o corpo de Sophie, passeando por seus seios, depois por sua virilha, antes de subir novamente. Endireitou 
o corpo e recolocou o bon.
- Mais alguma coisa, madame?
- Gus... - ela protestou, desejando que ele ouvisse e entendesse, mas ele j estava saindo.
- Estou trabalhando - retrucou. - Se quiser conversar mais, venha ao meu quarto esta noite. Falaremos depois.
- Voc voltou! - Davis disse. Francine esboou um sorriso.
- Hum... hum. H mais ou menos uma hora.
- Voc parece feliz. Isso  porque a viagem foi tima ou por estar aliviada por voltar para casa?
- As duas coisas. A viagem foi tima, mas  muito bom estar em casa. - E maravilhoso ouvir a voz dele. No percebera como sentira sua falta at agora. - Feliz Ano-novo!
- Igualmente. Como est Grace?
- Neste momento? Em toda a sua glria. O Padre Jim acabou de chegar. Ela passou muito bem, Davis. Seguimos seus
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conselhos e ficamos prximas  villa nos primeiros dias. Depois, comeamos a lev-la para dar uma volta durante uma ou duas horas, s caminhando para ver as lojas. 
Desde que uma de ns ficasse a seu lado, ela ficava tima. No... - ela continuou, antes que ele pudesse dizer alguma coisa - no estou me enganando pensando que 
ela est melhorando. Ns  que estamos nos especializando em cuidar dela. S isso.
- Muito bem, menina. E voc descansou?
- Na verdade, sim. Sophie e eu alternamo-nos tomando conta dela, e ela gostou da cozinheira, ento chegamos a sair as duas juntas sozinhas.
- Voc est bronzeada?
- Respeitavelmente.
-Pelo corpo todo?
O sorriso de Francine tornou-se tmido. No disse uma palavra.
- Conheo essas ilhas francesas - Davis disse. - Topless, na melhor das hipteses.
- Tnhamos nossa praia particular.
- Nua. Droga! O que est fazendo agora? Ela disse, inocentemente:
- Desfazendo as malas.
- Posso dar um pulo a? Quero mostrar-lhe uma coisa.
- Voc fez uma tatuagem. - Ela costumava brincar muito com ele a esse respeito, dizendo que um homem com seu passado deveria ter uma tatuagem.
- No. Um cavalo. Voc monta? Um cavalo?
- Bem, j montei. Mas no fao isso h anos.
- Vista seu jeans. E coloque alguma coisa quente.
- Davis, estamos no meio do inverno!
-  a melhor poca. Daqui a pouco a gente se v.
- Davis? Davis! - Ela ouviu um sinal de telefone sendo desligado, olhou para o aparelho e desligou-o.
Um cavalo?
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Com um olhar ligeiro para a baguna sobre sua cama, ela puxou um jeans, uma blusa de gola rul e um suter pesado do armrio. Calou meias de l e olhou pela janela. 
A luz baixava rpido.
Um cavalo? No meio do inverno? No escuro?
Durante a viagem de avio, tivera momentos de melancolia pensando na realidade que a aguardava em casa, mas no havia nada de melanclico nessa imagem. Ela era de 
um vermelho brilhante.
Entrou no suter, mirou-se no espelho, achou-se gorda.
Portanto tirou-o e pegou um mais fino. Depois, juntou-se a Grace e a Padre Jim na sala de estar.
- Sabe alguma coisa sobre Davis e um cavalo? - perguntou a Jim.
O padre sorriu.
- S que ele costumava limpar as baias para os fazendeiros locais, como penitncia por seus muitos pecados. E agora ele tem um cavalo prprio, no ?
Francine na realidade no sabia de nada.
- Talvez seja emprestado. Ele vai dar uma passada por aqui.
- Ele no precisa me ver - Grace protestou, segurando a mo de Jim com fora. - Estou perfeitamente bem.
Sempre gentil, ele acariciou seu rosto.
- Melhor do que bem. Sua me est maravilhosa, Francine. Havia qualquer coisa nessas ilhas que combinava com ela. Voc esteve ao sol, Grace.
Grace corou.
- Eu tive muito cuidado. Uma senhora no fica bronzeada, voc sabe. Mas o sol estava divino. No consegui resistir a sair de baixo daquele guarda-sol de vez em quando.
Francine saboreou a imagem. Parecia sada de um livro de fotografias. Na verdade, poderia ter vindo de qualquer daquelas vrias lojinhas de arte que visitaram em 
St. Bart's. Seurat, ela acreditava.
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A campainha da porta tocou, e ela j estava a meio caminho do corredor quando se lembrou de que Grace no se queixara por ela estar saindo com Davis. Preocupada 
consigo mesma, como freqentemente eram os portadores do mal de Alzheimer, apenas temia que ele viesse v-la.
Grata por no ter que se sentir culpada, Francine abriu a porta. Lanou apenas um olhar para ele, e suas entranhas manifestaram-se imediatamente. Colocou a mo no 
peito e deu um passo para trs.
- Ol, garota - Davis disse, sorrindo. - Est pronta? Seu rosto estava corado, seu hlito branco, seu leno era de um verde-neon, tudo isso mais um chapu de abas 
largas, um casaco longo de couro e botas, e todo ele brilhava coberto por uma poeira de neve. Antes que ela dissesse como estava espetacular, ele levantou a bainha 
de sua cala jeans para mostrar-lhe as botas, caprichosamente paramentadas.
- Isto aqui  o principal. No so fantsticas?
- Onde foi que voc encontrou essas botas?
- Precisei procurar um pouco. - Voltou-lhe as costas e desceu os degraus. L embaixo, amarrado ao poste de cobre da entrada da casa de Grace, muito adequado, muito 
digno, muito polido, estava o cavalo. O cavalo, o poste, tudo  vista estava coberto com uma camada fina da neve que continuava a cair.
Davis retirou alguma coisa de trs da sela. Quando chegou novamente  porta, trazia aberto um casaco de couro igual ao dele. Encantada, Francine enfiou um brao, 
depois o outro. Davis abotoou o casaco de alto a baixo, passou os braos pela cintura de Francine e enterrou o rosto em seu pescoo. Seu beijo era barulhento, molhado 
e frio. No tirou a boca de seu pescoo, enquanto falava de maneira calorosa.
- Tenho um chapu para voc na sela, mas vai precisar pegar suas prprias botas. Sinto muito, mas meias de l s no bastam.
Francine no se apressou em afastar-se dele. Estar em seus braos era como estar em casa, s que uma casa diferente da que
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conhecera a vida toda. Esta era descuidada e desestruturada, at mesmo ligeiramente bagunada. Mas prometia o inesperado.
Francine passou os braos sobre os dele e disse, com a boca colada em seu rosto gelado:
- Ns vamos mesmo cavalgar? Agora? Onde conseguiu o cavalo? Voc no veio desde a sua casa at aqui a cavalo. Veio? Como conseguiu? So dez minutos de carro. Tem 
que ser trinta, no, quarenta minutos a cavalo. Pelo menos. Tenho que prevenilo, Davis, a ltima vez em que andei a cavalo ca de cabea sobre uma plantao de tomates 
e quebrei o cccix. Esquece-se de que est lidando comigo?
Davis ria com o rosto encostado no pescoo de Francine.
- No. Mas eu vou guiando o cavalo. Voc s tem que se segurar. Confia em que eu consiga lev-la s e salva?
- Sim.
- Ento, v buscar as botas. Ah, e luvas e uma echarpe. Respondo a suas perguntas quando voc estiver a bordo.
O cavalo era dele mesmo. Era de Tyne Valley. Ele comprara-o vrios anos antes, de um amigo de sua irm que precisava do dinheiro. No era um puro-sangue, nem ao 
menos um cavalo bonito, mas Francine no estava propensa a perceber esses pequenos detalhes, quando o quadro inteiro era to provocante. O cavalo era grande e gentil 
e corria quando instigado. Mas, durante a maior parte do caminho, trotava confortavelmente.
Francine montou atrs de Davis, com seu corpo colado ao dele e os braos passados ao redor de sua cintura. Quando a casa desapareceu  distncia, a nica luz existente 
vinha do azul plido da neve; o nico rudo, do sussurro de sua queda e das batidas abafadas dos cascos do cavalo sobre a estrada que parecia atapetada.
Davis guiava o cavalo delicadamente, um leve puxo das rdeas aqui, uma presso do joelho ali. Francine deveria ter sabido que ele tambm era bom nisso. Sentindo-se 
falvel, aquilo a enfurecia. Sendo mulher, achava tudo muito atraente.
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Seguiram pela estrada at pegar um caminho que levava ao bosque. Francine queria perguntar-lhe vrias coisas, - sobre o cavalo, sobre sua visita a Valley, sobre 
a quantidade de pecados que Padre Jim mencionara - mas no falou nada. Estava enlevada demais pela beleza do bosque no inverno, pelo ritmo do cavalo, pela presso 
de suas coxas contra os quadris de Davis, o calor de suas costas.
Davis parou o animal quando chegaram ao rio. Francine reclinou o rosto sobre o ombro dele, para ver tambm. O rio estava congelado, coberto de neve, exceto por pequenas 
faixas que cantavam suavemente dentro da noite.
Temendo impor sua voz quela melodia, no dizia nada. Davis devia sentir a mesma coisa, porque permaneceu parado, segurando as mos de Francine sobre seu estmago, 
durante um longo tempo. Ento, pressionou sua mo e murmurou:
- Passe para a frente.
Disposta quase sempre a tudo, apesar de, s vezes, reclamar e negar, deixou-se ser guiada - um brao em torno dele, depois uma perna, depois o tronco e os quadris 
- at ficar sentada sobre a sela, de frente para ele. Davis passou a mo sob suas ndegas, puxando para o pouco colo que tinha, com as pernas segurando o cavalo. 
Quando ela j estava acomodada, o colo dele parecia ter aumentado, fato que ela reparou com satisfao e um sorriso felino.
- Est quentinha? - ele perguntou, empurrando a aba do chapu para trs, de modo a v-la melhor.
Ela passou os braos em volta de sua cintura.
- Sobre seu cavalo? Sempre. Ele sorriu.
- Diga-me - ela disse. - Onde voc o esconde quando no o est mostrando para mim?
- Como? - ele perguntou, com uma alegria mal contida.
- Seu cavalo - ela especificou com uma seriedade fingida.
- Meu cavalo. A propsito,  uma gua. Ela fica em um estbulo na casa de Paley. No Valley, ela ficava no mercado. Eu sempre imaginei que seria uma questo de tempo 
at poder
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busc-la e como j estava l, e sabia que Paley tinha espao aqui, aluguei um trailer e trouxe-a.
- Como est sua famlia? Ou no devo perguntar? Ele ficou srio imediatamente:
- Pode perguntar. Esto na mesma. Mais velhos e mais cados, exatamente como a cidade. Eu tenho mais um sobrinho-neto.
- Sobrinho-neto? Voc no tem idade suficiente para ter nenhum neto.
Ele deu seu sorriso torto.
- Tenho, sim. E voc tambm.
- No, eu tambm sou jovem para isso.
- Sophie tem idade suficiente para ter um filho.
- Tem mesmo. Os tempos mudaram. Ele suspirou.
- No em Tyne Valley. Eles ainda ficam deslumbrados com cada filho, eles ainda os tm e quem somos ns para dizer que esto errados? Mas ali tudo  muito montono.
- Como est seu pai?
- Acabando. Enfisema, cirrose, possivelmente muitas outras coisas, mas no quer ir a um mdico, nem me deixa trat-lo. Deixo plulas l em casa, mas ele as joga 
fora.
- Sinto muito. Isso deve ser frustrante.

- Ele  um bode velho e teimoso - Davis replicou de uma maneira que confirmava que era realmente muito frustrante. - Levei-os a todos para a ceia de Natal em uma 
estalagem encantadora. Eles adoraram. Alm disso, bem, no h muito a se dizer, depois de perguntarmos sobre quem est onde, fazendo o qu. Sempre penso que perguntaro 
sobre meu trabalho, mas nunca o fazem. Creio que esteja tudo to distante de seu mundo que eles nem sabem por onde comear. Ou isso, ou no esto mesmo interessados. 
De qualquer maneira, no tivemos muito tempo mesmo para conversar. Voltei para c no dia seguinte ao Natal.
- Mas pensei que voc fosse passar toda a semana l! - Francine disse, sentindo-se culpada por ter ficado deitada ao sol, enquanto ele estava sozinho no frio.
Ele fez uma careta.
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-  muito estranho. Eles no sabem o que fazer comigo, da mesma forma que no sei o que fazer com eles.
Ela levantou os braos, passando-os por seu pescoo.
- Sinto muito. Ficar com a famlia significa muito para mim. Gostaria que voc tambm tivesse isso.
- Talvez um dia - ele disse alegremente e apertou-a mais. - Senti sua falta. Me d um beijo. - Abaixou a cabea e beijoua longamente. Tirou as luvas e colocou as 
mos nuas por dentro do casaco de Francine, passando sob seus braos e acariciando-a at os ombros, continuando a beij-la.
Francine sentiu o mesmo frio no estmago, a mesma sensao de desmaio que sempre sentia quando ele a beijava. Seus beijos pareciam elev-la do cho e lev-la para 
longe, tirando tudo de sua mente a no ser sua presena, fazendo com que se sentisse faminta, no, totalmente morta de fome por ele.
Quando ele levantou a cabea, sua voz estava entrecortada.
- Puxa, como voc  boa nisso. Voc me excita muito, Frannie.
- No  preciso muita coisa - ela sussurrou. Suas entranhas doam. Ela apertou seu corpo ao dele para alivi-lo.
Ele falou, com voz rouca.
- Faa isso de novo.
Mas teria sido muito cruel, devido s limitaes do local onde se encontravam.
- Talvez seja melhor no.
- Faa de novo - ele ordenou, enquanto segurava seu queixo e procurava seus lbios para um beijo. Quando mergulhou a lngua na boca de Francine, ela fez o que ele 
queria. Sem vontade prpria, arqueou o corpo para colar-se ao dele.
Ele riu, com a boca encostada na dela.
- Tambm sentiu a minha falta, no foi?
- No, no senti. - Sentiu prazer em responder-lhe daquela forma. - No pensei nisto nem uma vez.
- Nem uma vez?
Bem, talvez s uma. - Tateando, encontrou seu cinto e desabotoou-o.
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- O que est fazendo?
- Quero aquecer-me. - Mergulhou as mos dentro de seu jeans e de sua cueca. A carne dele estava ardendo o suficiente para satisfazer todos os desejos dela.
- Ai, meu bem. Como voc faz isso gostoso.
-  s uma questo de sobrevivncia - ela replicou, mas havia um tom de desespero em sua voz. Ela queria mais do que esfregar-se nele em cima de um cavalo. - Est 
nevando, Davis.
Ele gemeu e deteve as mos de Francine. Depois, suspirando, retirou-as e ajeitou suas roupas. Mudou-a de posio, de modo que ela ficasse virada para a frente, e 
delicadamente fez o cavalo tomar o caminho de casa.
Novamente junto ao poste, saltou para o solo, ajudou-a a descer e ficaram frente a frente por um instante.
- Tomei uma deciso no Ano-novo.
- Conte-me.
- Vou dormir com voc logo. Ela tentou no sorrir.
- Ainda no fez isso?
- No. Nunca acordei do seu lado. No de manh, e  o que quero.
- Fico horrvel de manh.
- Eu tambm. Mas no importa.
Ela sabia que no, mas no sabia o que dizer. Passar a noite com Davis, no s fazer amor com ele, mas acordar com seus beijos suaves, o caf, o jornal da manh, 
isso era outra coisa. Isso era srio. Talvez srio demais.
- De qualquer maneira - ele facilitou as coisas, dizendo: no h pressa. Enquanto isso no acontece, quer ir a uma partida de hquei?
Era uma idia nova.
- Nunca fui a uma. Estamos falando do MadisCri Square Garden?
- No. Da Hotchkiss School. Mdicos versus atle as.
- Voc vai jogar? - ela perguntou animadamente. - E o que voc , mdico ou atleta?
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- Mdico.
- Mas voc jogou hquei no colgio. Ele sorriu seu sorriso torto.
- Os atletas no sabem disso. Eles pensam que fao gols por acaso.
- Mas isso  desonesto.
- . A desonestidade  boa para a alma, s vezes. E para a carteira. Quem perde paga o jantar. Voc est convidada para ele tambm. O jogo ser neste domingo s 
duas horas. Terei que pegar voc por volta de uma hora. Pode conseguir algum para ficar com Grace?
Francine no pde deixar de pensar nos pequenos revezes da vida. Durante uma poca, pedia a Grace para ficar com Sophie. Agora, pedia a Sophie para ficar com Grace.
Sophie fizera planos de encontrar-se com amigos na cidade no sbado pela manh e voltar no domingo. Mas garantiu a Francine que estaria de volta  uma hora.
Isso estabelecido, Francine comeou a preocupar-se com o que vestiria. Depois de revirar o closet trs vezes, experimentando e rejeitando roupa aps roupa, ligando 
a televiso para ver um jogo e saber como as pessoas vestiam-se para assistir a uma partida de hquei, decidiu que precisava de alguma coisa nova.
Passou a noite de sexta-feira fazendo compras. Sophie, que testemunhara o drama da me diante do closet, expulsara-a de casa. No fizera planos para aquele dia. 
Queria estar descansada para passar o dia seguinte com seus amigos, disse. Ficaria com Grace antes e depois do Padre Jim, afirmou.
Tranqila, Francine saiu.
Dezoito

Observe uma aula de dana. Em uma pea bem coreografada, o passo para trs, estrategicamente cronometrado,  to fundamental quanto aqueles que levam o bailarino 
para diante.
-Grace Dorian, em A Confidente
Sophie jantou com Grace, s as duas, fazendo um ngulo reto em uma das extremidades da longa mesa da sala de jantar. Teria preferido um jantar mais simples na cozinha, 
onde delcias como molho de salada sobre batatas assadas e linguado, comidas com uma colher, no seriam mais emocionantes. Mas o jantar era um ritual. At o dia 
em que Grace se esquecesse desse fato, seria servido na sala de jantar.
H no muito tempo, Sophie ficaria ressentida com toda essa rigidez, mas no momento era difcil manter qualquer tipo de ressentimento. Tambm teria adorado as gafes 
de Grace, mas essa alegria agora desaparecera. Onde antigamente Grace controlava e dirigia as discusses durante o jantar, agora Sophie esforava-se para manter 
a conversa fluindo de forma a deixar Grace o mais confortvel possvel. Era triste, era muito triste, as palavras esquecidas, a mente divagante, as novas falhas. 
Nesses momentos, Sophie descobria-se desejando a antiga Grace de volta.
Grace levantou-se da mesa antes mesmo de sua preciosa torta de frutas ser servida. Precisava refrescar-se, disse, precisava
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preparar-se para a chegada de Padre Jim. Sophie conseguira convenc-la de que seu vestido de noite azul era elegante demais, fazendo-a vestir um conjunto de saia 
e blusa mais simples - no antes de Grace acus-la de tentar sabotar seu relacionamento com Padre Jim.
Triste, sempre triste. Aquela no era a Grace que ela conhecia.
Sentiu-se aliviada com a chegada de Padre Jim. Ele beijou o rosto de Grace e passou seu brao firmemente sob o dela.
De volta  ala sul da casa, Sophie trocou de roupa, vestindo algo mais  vontade. Verificou seus nveis de glicose no sangue, passou vinte minutos na bicicleta ergomtrica, 
mais vinte em outro aparelho e fez outro teste. Depois de enxugar o rosto e o pescoo, despencou sobre uma cadeira e pegou o telefone.
Ainda estava conversando, uma hora e meia depois, quando Gus apareceu na porta, vestindo jeans rasgado e uma jaqueta preta. Seus cabelos estavam despenteados e sua 
expresso sombria. Suas mos estavam enfiadas nos bolsos.
Sentindo que teria problemas, Sophie encerrou a conversa.
- O que houve? - ela perguntou.
- Aonde voc foi?
Ela lanou-lhe um olhar curioso.
- Combinamos alguma coisa?
- Esperei por voc a semana inteira.
Ele estivera bebendo. Sophie podia ver, sentir uma inquietao denunciadora, uma agitao vaga.
- Gus - ela preveniu.
Ele avanou para ela, apontando o telefone com o queixo.
- Quem era?
- Samantha.
- Era o cara da semana passada?
- J disse que era a Samantha. E, antes dela, Julie e Kate.
- Claro. - Ele parou acima dela, com um ar implacvel.
- Quem era?
- Gus - ela protestou, esforando-se para rir, mas j se sentindo desconfortvel. - Qual  o seu problema?
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Sua resposta foi olh-la de alto a baixo. Quando seus olhos voltaram para seu rosto, estavam mais sombrios do que nunca. Debruou-se sobre ela, apoiando-se nos braos 
da cadeira.
- Meu problema  o meu pau. Ele precisa se exercitar.
- Gus - ela suspirou e olhou para o outro lado.
- Gus o qu? Gus, agora eu quero? Gus, preciso dele? Gus, d ele pra mim, depressa?
- Gus, agora no! - ela respondeu, olhando para seus olhos, que pareciam querer preveni-la de algo.
Ele lanou-lhe um olhar raivoso. Antes que ela se convencesse de sua inteno, ele arrancou-a da cadeira e arrastou-a na direo do quarto, murmurando, em voz rouca:
- Gus agora no uma droga! Vai ter agora mesmo, meu bem, e vai ter das boas!
Furiosa, Sophie empurrou-o com toda sua fora, mas ele era mais forte.
- Pare com isso, Gus! Voc est bbado! Voc no quer de verdade!
- Estou querendo a semana inteira - ele grunhiu, atirando-a na cama, jogando-se por cima dela e prendendo-a ao leito com um brao atravessado sobre sua garganta. 
Ela agarrou seu brao e tentou arranc-lo de cima dela, mas ele simplesmente imobilizou uma de suas pernas e usou a agitao da outra para facilit-lo enquanto arrancava 
suas calcinhas.
- Sai de cima de mim! - ela gritou, agora j assustada. Ela e Gus brincaram violentamente algumas vezes, s que agora no era brincadeira. No havia nada de engraado 
nas mos que rasgavam suas roupas, nada de excitante no corpo que prendia o seu  cama com uma fora brutal. Mesmo tentando com todas as foras que possua, ela 
no conseguia libertar-se.
- Pare! Pelo amor de Deus, Gus! Pare!
Ele respirava descompassadamente, no pelo esforo que fazia, mas pela excitao, agora j completamente em cima dela, com sua jaqueta aberta deixando ver o peito 
nu, abrindo as calas rapidamente.
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- Saia de cima de mim - ela murmurou. - Saia de cima de mim, saia de cima de mimll! - Ela empurrou e empurrou sem o menor sucesso, arranhou-o at ele gritar e recuar 
por um momento, mas isso s serviu para faz-lo voltar com mais fora, empurrando seu tronco brutalmente sobre a cama e em seguida penetrando-a com fora.
Ela gritou uma vez e mais outra, e mais outra, to aterrorizada pela dor quanto por sua impotncia e medo, mas as pancadas dos quadris de Gus no pararam. A cada 
vez que pressionava, ele rugia, cada vez mais rpido e cada vez com maior fora.
- No! - ela gritou. - No! com fora decrescente,  medida que o brao que estava sobre seu pescoo pressionava com mais fora. Quando quase j no agentava 
mais, segurou aquele brao, lutando para poder respirar, reagindo contra a sufocao ao mesmo tempo que contra a dor que a dilacerava por dentro, e contra a terrvel 
percepo de que, com apenas uma toro de seu brao, Gus tinha o poder de terminar com sua vida, e que ela no poderia impedi-lo.
Estava completamente em pnico, sentindo-se tonta, mergulhando e saindo da semi-inconscincia, quando uma voz que no era a de Gus penetrou sua mente.
- Mas que diabo  isto...? - e Gus foi arrancado dela.
- Que diabo voc pensa que est fazendo...?
Lutando para conseguir respirar, rolou para o lado, enrolada como uma bola apertada, cobrindo a cabea para no ouvir os sons terrveis que vinham de trs dela, 
e logo em seguida comeou a chorar, ouvindo ainda menos, ainda lutando parapoder respirar, enquanto pressionava suas coxas com fora contra aquela dor e tentando 
tornar-se invisvel, impenetrvel, invulnervel. Quando nada funcionou, ela apertou as pernas com mais fora ainda.
Depois o edredom foi enrolado em torno dela, e Padre Jim murmurava com uma voz comovida:
- Est tudo bem agora, minha querida, ele j foi, ele no
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vai machuc-la de novo. - Acariciou os cabelos de Sophie. - Voc est salva... shhh... est segura agora, shhh... ele j foi, pronto, meu bem, j passou.
Sophie no conseguia parar de soluar. Com um cuidado infinito, ele juntou-a e abraou-a, com edredom e tudo, envolvendo-a carinhosamente em seus braos. Continuou 
a falar baixinho e, inacreditavelmente, quando uma voz e uma mo masculinas poderiam t-la assustado mais, sentiu-se segura. Padre Jim era sempre o Padre Jim, sempre 
gentil, seu anjo da guarda. Sua voz era dolorosamente gentil, seu abrao era um blsamo, no um elo.
- Nunca imaginei que ele pudesse fazer isso, nunca imaginei, ou jamais teria deixado que pusesse os ps nesta casa - afirmava.
Ela chorava mais baixinho agora.
- No foi culpa sua.
- Eu sabia que ele tinha um problema com a bebida. E sabia que ele estava envolvido com voc. Deveria saber que essa combinao s poderia criar problemas.
As lgrimas dela transformaram-se em soluos.
- Meu envolvimento. A culpa foi minha. Provoquei-o e depois evitei-o. Ele quis vingar-se.
- E conseguiu, minha Me do cu. Est ferida, criana?
- Estou. - E comeou a chorar novamente.
Ele abraou-a em silncio por mais algum tempo.
- Acho que devemos ir ao hospital.
- No! - Um hospital significava que mos estranhas, frias, estariam inspecionando no local onde mais lhe doa. No queria ir. S iria a algum lugar onde pudesse 
lamber suas feridas e esconder-se. Mas onde? - E se ele voltar? - gritou. - Pode vir diretamente para c, ele tem uma chave, ele tem as chaves de toda parte.
-Trocaremos as fechaduras pela manh. Eu o despedi, Sophie. Ele no voltar. Mas quero que voc veja um mdico. Existem coisas que s eles podem fazer em... em casos 
como este.
Sophie levou um minuto para compreender o que ele queria
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dizer. Ento, sacudiu a cabea, com movimentos longos e vigorosos.
- No. No quero ir ao mdico. No quero ir  polcia!
- Ele estuprou-a.
Sophie continuou sacudindo a cabea.
- No vou apresentar uma acusao.
- Ele tentou estrangul-la. Isso  tentativa de assassinato.
- No posso.
- Ele tem que ser punido. Ele no tem o direito...
- No posso - ela gemeu e comeou a chorar novamente. Como explicar que alm do medo e da dor, alm da raiva, existia a culpa, e que alm da culpa, mesmo agora, 
existia alguma coisa mais carinhosa? Ela e Gus foram amantes por muitos meses. Ele podia ser perturbado e perdido, podia beber demais, mas no era mau.
-Jim? - a voz de Grace chegou at eles, distante a princpio, depois mais prxima. - Jim? Jim, onde voc est? Ah, voc est aqui. Mas... o que est fazendo? Quem 
 essa... como... Claire? - Sua voz elevou-se. - O que est acontecendo aqui? Que coisa mais terrvel, terrvel, terrvel... Johnny? Johnny! O que est fazendo nesta 
cama? Meu Deus! Meu Deus!
- Est tudo bem, Grace - Jim disse. - Sophie s est um pouco nervosa.
A voz de Grace tornou-se ainda mais estridente.
- Eu deveria ter desconfiado! Era s... era s uma questo de tempo! Eu devia... eu devia ter sabido!
- Grace, por favor. Por que no volta para o outro quarto...
- E deixar voc... com ela? - gritou. - Eu... no... no! Quem? Quem  ela? Meu Deus! Meu Deus! Johnny, voc sabe quem ela ...
- Quem... quem ? - A voz de Francine juntou-se  da me, mais clara, quando entrou no quarto. - Por que est gritando, Grace? Jim? O que aconteceu? - Houve uma 
pausa e ento sua voz saiu mais fraca, assustada: - Sophie?
- Claire, Claire, Claire! - Grace gritava.
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- Sophie est um pouco nervosa - Jim explicou a Francine. - Se quiser cuidar dela, eu cuido de Grace.
E s quando a transferiu para os braos de Francine, quando esta estava  distncia de um sussurro, que ele lhe contou o que acontecera. Francine gemeu, engoliu 
as lgrimas, e apertou Sophie em seus braos, enquanto Jim levava uma Grace relutante para fora do quarto.
- Estou bem - Sophie murmurou entre as dobras do edredom.
Francine apertou-a convulsivamente.
- Meu Deus! Estupro.
- Ele estava bbado.
- Isso no desculpa o fato! J passou, meu bem,passou, vai ficar tudo bem. - Dizia, embalando-a. - O que houve? Aconteceu aqui? No precisa falar se no quiser.
Sophie estava quieta, no porque no quisesse falar, mas porque estava ocupada demais, absorvendo a segurana que os braos de Francine proporcionavam-lhe.
Depois de algum tempo, Francine perguntou suavemente:
- Ele bateu em voc?
- No. S me prendeu na cama. Estava me sufocando. - A lembrana f-la estremecer. - Pensei que ele fosse me e matar.
Francine embrulhou-a melhor no edredom. Depois de mais algum tempo, perguntou:
- Voc est sangrando?
- Eu no sei.
- Vou lev-la ao hospital.
- No! No quero ir l!
- Ento ao Davis. Peo que ele venha aqui.
- No!
- Eu no deveria ter sado. Se eu estivesse aqui, isto no teria acontecido. Mas eu queria comprar jeans novos, aqueles malditos jeans...
- Teria acontecido de qualquer maneira - Sophie disse alto. - Se no fosse esta noite, teria sido em qualquer outra. Aconteceria mais cedo ou mais tarde. Eu devia 
ter visto
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Francine apertou-a com mais fora nos braos e, inesperadamente, comeou a chorar.
- No chore, mame.
- No posso evitar. - Soluou e disse: - Quero que voc procure um mdico.
Mas tudo o que Sophie queria era um banho quente. Quando sentisse vontade de mover-se, o que ainda no acontecia. Por um lado, sentia frio, estremecia a cada lembrana 
do terror da morte to iminente. Por outro, tinha medo de abrir o edredom, medo de olhar para o dano feito, medo de que pedaos de seu corpo cassem pela cama. Seu 
corpo passara de atordoado para dolorido - garganta, peito, coxas e entre as pernas - e temia que qualquer movimento causasse mais dor.
- Se tomar um banho, - Francine disse - voc apagar as evidncias. Mesmo que no apresente uma acusao, o fato de o hospital ter um registro do que aconteceu ir 
ajud-la a mant-lo afastado de voc. No foi sua culpa, Sophie.
- Eu provoquei-o.
- A provocao no justifica o estupro. Voc no fez nada para merecer o que ele fez. - Abraou Sophie com mais fora, embalou-a mais carinhosamente. - Como se sente 
agora?
- Abalada.
- Precisa de uma injeo?
- No.
- Tem certeza?
Sophie sabia que um choque emocional podia provocar a hiperglicemia, mas no sentia nenhum dos sintomas - febre, nusea, sede. Quando muito, a tremedeira poderia 
significar uma queda do acar no sangue, mas estava convencida de que a dela era devida somente ao susto.
- Vou buscar alguma coisa para voc beber-Francine disse, e Sophie sentia-se fraca demais para impedi-la. Sabia que no deveria esperar por nada mais forte. Esperava 
um suco de laranja, e suco de laranja foi o que recebeu. Tomou-o lentamente.
- Est melhor? - Francine perguntou, quando ela acabou,
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tirando o copo de suas mos e depois afastando seus cabelos do rosto com os dedos.
Sophie concordou. Um brao intacto estava fora do edredom. Precisava ver se o resto tambm continuava inteiro. Precisava lavar-se para tornar-se ela novamente.
- Gostaria de tomar um banho agora.
- Tem certeza?
Tinha toda a certeza. No iria apresentar acusaes, no tornaria um problema pessoal em um acontecimento pblico, no pretendia reviver nem um nico minuto do que 
j passara naquela noite.
- Seria diferente se eu no o conhecesse - tentou explicar - mas foi o Gus. Na verdade, ele no estava querendo me matar. S estava zangado e caindo de bbado... 
- Soltou um nico soluo. No, ele no estava tentando mat-la, mas poderia ter conseguido e se isso tivesse acontecido ela agora estaria morta e ele seria um criminoso, 
e s Deus sabe qual teria sido seu castigo por isso. - Um pesadelo. Um pesadelo. Muito bem, ele foi um canalha. Mas agora est sem emprego, foi despedido, acabou. 
Perder a casa e o salrio. O que far?
- Est sentindo pena dele? Sophie tentou decidir.
- Eu sinto... alguma coisa.
- No amor - Francine declarou por ela.
- No. Amor no. Talvez empatia. Ns dois estvamos um pouco perdidos. E familiaridade. ramos amantes. Ele podia ser abrutalhado, mas nunca levantou a mo para 
mim, antes. Eu gostava do Gus, em alguns aspectos.
- Eu no. Poderia mat-lo. Sophie sorriu.
- Voc  minha me. Era o que deveria sentir mesmo.
- E voc tambm, depois do que ele fez. Onde est minha filha rebelde?
Sophie suspirou, subitamente cansada.
- Tornando-se realista. Se eu for ao hospital, se eles conseguirem as evidncias, vo chamar a polcia. E se algum deixar
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alguma coisa escapar para a imprensa? D para ver as manchetes! J imaginou os telefonemas? Os tablides por todo o pas: "Neta de Grace Dorian Estuprada pelo Motorista". 
Ento, depois de farejarem um pouco a histria: "O Estupro de Dorian Encobre seu Caso de Amor com o Chofer".
No valeria a pena. Sophie nunca desejara capitalizar em cima do nome Dorian. Grace era a nica platia que ela queria. Nunca pedira a ateno da mdia, nunca buscara 
os refletores. E ser jogada para diante de suas luzes daquela maneira seria mais cruel que a prpria violentao que sofrera.
Sim, ela estava zangada - e assustada por sua impotncia - e sobressaltada com a percepo de que o controle que possua sobre sua vida era limitado. Tambm estava 
triste. Seu relacionamento com Gus fora condenado desde o princpio, mas nunca imaginara que terminasse daquele modo. Ento, havia tambm a sensao de perda. Mas 
muito mais. A perda da inocncia. Desaparecera a sensao de imunidade. Desaparecera a iluso de que podia enfiar o nariz onde desejasse e sair completamente limpa. 
Era responsvel por suas aes, assim como o resto do mundo.
Enquanto Sophie tomava um banho, Francine desmanchou a cama, limpou tudo o que estava  vista e tentou no pensar nas manchas roxas no corpo de Sophie.
- Como ela est? - perguntou Padre Jim da porta.
Francine apoiou-se no p da cama.
- Ela sobreviver. Como est Grace?
- Mais calma.
- Jim, quem  Claire?
- Claire?
- Quando entrei em casa, ouvi Grace gritando. Ela mencionava os nomes Claire e Johnny. Johnny  meu pai, apesar de eu nunca ter ouvido ningum trat-lo dessa maneira. 
Claire  um nome novo para mim. Voc conhece alguma Claire?
Jim encolheu os ombros, franziu os lbios num sorriso e sacudiu a cabea.
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- Voc j perguntou a Grace?
- Ainda no. - Tivera a esperana de poder evitar ter que perguntar  sua me, vasculhando as lembranas de Padre Jim. - Ela no reage muito bem a perguntas sobre 
o passado e no gosto de deix-la nervosa. Mas  estranho.
- O qu?
- Johnny. Voc conheceu meu pai. Ele no era um Johnny. Talvez fosse a maneira como Grace o tratava. No entanto, se fosse assim, era de se esperar que isso escapasse 
pelo menos de vez em quando na minha frente. - Francine tentou expressar o que a aborrecia sem sentir-se uma traidora, mas no podia evitar. - Fico pensando que 
talvez ela esteja referindo-se a outra pessoa.
- Por qu?
- O contexto. Est bem, uma vez ela confundiu Davis com Johnny. Isso poderia ser uma troca inocente: um homem mais jovem, um John Dorian mais novo, apesar de eles 
no se parecerem em nada. Freqentemente, ela agora menciona esse Johnny juntamente com seus pais.
Padre Jim parecia perdido. Arqueou uma sobrancelha, sacudiu a cabea.
As antenas maternas de Francine, dirigidas para o banheiro, ouviam os rudos ocasionais da gua, mas era um som que refletia paz. Ento, perguntou:
- Quando voc conheceu Grace?
- Mudei-me para c pouco depois dela. Ela freqentava a igreja regularmente, naqueles dias.
- E vocs dois conversavam muito?
- Ela sempre foi uma mulher fascinante.
- Ela falava sobre sua famlia?
- Francine...
- J sei. - Levantou a mo. - O segredo da confisso e essas coisas todas. Mas ela diz coisas estranhas, e muitas delas no se encaixam. Existem muitas dvidas. 
Comeo a perguntar quem sou eu.
- Voc  a filha de seus pais.
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- E o que aconteceu antes de mim? No conheo um nico parente. No  incrvel?
Padre Jim encolheu os ombros, desanimado.
- Nem tanto, nos dias de hoje.
- Mas  triste. Muito triste. Pode ser que Claire seja uma tia minha, apesar de sempre que pergunto sobre os nomes de suas irms Grace negue ter tido alguma. Talvez 
Johnny seja... tenha sido... no sei... um parente, um amigo, um namorado. Por que ela no fala sobre ele? Por que ela no fala sobre nenhum deles?
- Ns conversamos sobre isso, ela e eu. Quando ela se casou com seu pai, comeou uma vida nova. A outra ficou encerrada para sempre.
- Certo, mas por que ela no pode falar sobre essa vida?
- Aqueles primeiros anos foram conturbados.
A porta do passado abrira uma fresta. Era a primeira afirmao daquele tipo que Francine ouvia.
- Conturbados, como?
Ele sorriu novamente sem jeito, como se tivesse falado mais do que deveria.
Mas Francine queria que aquela porta fosse mais aberta.
-  a minha ascendncia, Jim, quem eu sou - ela implorou. -  tudo o que fez de Grace o que ela ... No, no negue. As pessoas no do simplesmente uma volta um 
dia e se tornam outras, sem qualquer toque do passado. Mesmo que Grace no tivesse escrito sobre isso tantas vezes, trata-se de bom senso. Quem so seus parentes 
representa o que eu sou. E se eu no descobrir logo nunca mais descobrirei.
Ela aguardou, implorando em silncio, e finalmente, suspirou. Jim ou era um servo fiel de Deus ou um servo fiel de Grace, no sabia exatamente qual. Nesse momento, 
Sophie chamou-a do banheiro, e ela j no queria saber. Por mais que desejasse descobrir de onde viera, Sophie era sua vida.
Receosa de dormir em seu quarto, ainda mais sozinha, at que as fechaduras fossem trocadas, Sophie ficou com Francine aquela
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noite. Mesmo assim, teve pesadelos. Acordou duas vezes sobressaltada e coberta de suor. Duas vezes Francine embalou-a at dormir.
Cansada, ferida e no se sentindo nem um pouco aventureira, cancelou sua ida a Nova York para encontrar os amigos e passou o sbado em casa. Como Grace, sentia necessidade 
de estar rodeada por paredes familiares e rostos confiveis. Apesar de seus motivos serem diferentes, a segurana era a meta de ambas.
Padre Jim ajudou-a nisso. Supervisionou de perto a troca das fechaduras, conversou pessoalmente com Marny sobre o destino de seu irmo. Providenciou ele mesmo a 
partida de Gus.
Margaret tambm ajudou. Limpou a sute de Sophie de alto a baixo, lavando tudo o que podia ser lavado, comprou lenis e um edredom novo para substituir os outros, 
fez com que tudo cheirasse, parecesse e fosse macio e novo.
Mesmo assim, Sophie continuava constrangida. A cena com Gus permanecia muito viva, assim como a dor, o medo e a sensao de impotncia eram coisas muito novas para 
ela. Como diabtica, ensinaram-na a controlar sua vida. Gus ensinara-lhe uma coisa muito diferente.
Descobriu-se atrada para onde quer que Grace estivesse. Fato estranho, mas nem tanto. Grace era a espinha dorsal daquela famlia. Grace conversaria com ela, absolv-la-ia 
de sua culpa, afirmaria que seus ferimentos sarariam, que o terror desapareceria, que o controle retornaria. Grace certamente tinha as respostas.
Mas Grace no tinha. Segurara a mo de Sophie, perguntando-lhe como ela se sentia. Acariciou seus cabelos e sorriu daquela maneira amorosa, que era uma caracterstica 
de quando era Grace Dorian, A Confidente, mas no fez qualquer referncia, mesmo que indireta, ao que vira ou dissera.
Sophie e Padre Jim? Em qualquer outra situao, isso seria risvel. Agora era triste, at mesmo apavorante, pensar por onde
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a mente de Grace poderia divagar. Grace sempre fora constante. Agora no era mais, e Sophie sentia essa perda.
Constncia, era do que ela precisava naquele momento - constncia, segurana, companheirismo. Mesmo sem perceber o quanto estava amedrontada, sentiu-se aliviada 
quando Francine lhe participou que ela no ficaria sozinha em casa naquele domingo com Grace, que iria com ela e Davis ao jogo.
Jane Domenic desejava mais do que qualquer outra coisa ficar com Grace, e apesar de Grace no sentir a mesma coisa, Francine colocou as necessidades de Sophie em 
primeiro lugar. Quando Davis estacionou diante de sua casa  uma hora, Francine empurrou Sophie na direo de sua caminhonete.
- Mas isso  bobagem - Sophie protestou.
- No  bobagem coisa nenhuma.
- Vocs no precisam da minha presena. Francine passara o brao sob o dela, carregando-a.
- Eu preciso.
- Vou atrapalhar.
- Vai atrapalhar o qu? Ele vai jogar hquei, depois iremos jantar com amigos dele. - Parou, sentindo-se envergonhada pela caminhonete, tomou o rosto de Sophie entre 
suas mos e disse: - No fico sem meus laos. Se Davis ainda no souber disso,  melhor que descubra logo. Quem me amar tem que amar minha filha. Entendeu? - Virou 
Sophie para a porta do lado do passageiro, que estava aberta, e empurrou-a para dentro. Ficou junto  janela. Quando se inclinou para sorrir para Davis sobre Sophie, 
seu estmago teve um pequeno sobressalto. - Oi.
- Oi, garota.
- Isto no foi idia minha - Sophie disse rapidamente.
- Eu imaginei - Davis disse. - Nenhuma jovem bonita e em seu juzo perfeito desistiria voluntariamente de sua tarde de domingo para ver um bando de velhos tentando 
recapturar sua juventude perdida.
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Sophie lanou-lhe um olhar dbio.
- Juventude perdida?
- Eu podia patinar a noite inteira sem ficar cansado. Agora? Pode esquecer. Antigamente, eu costumava ter olhos at na nuca. Sabia instintivamente tudo o que estava 
acontecendo em toda parte, mas agora no tenho mais aquele... aquele gestalt, sabe o que estou dizendo? E quanto a meus joelhos... - Fez uma expresso de desgosto.
- O que h de errado com os seus joelhos? - Sophie perguntou.
- Eles falham. S peo que no ria, poderia ser embaraoso. - Olhou para Francine. - Acho que talvez nenhuma das duas deveria ter vindo.
- Ns vamos - Sophie disse.
- Tem certeza? Estamos falando de uma coisa bem marginal.
- Bem que eu gostaria de rir um pouco.
- Eu pedi para voc no rir.
Prendendo um sorriso nos lbios, Sophie levantou a mo direita, em juramento.
Davis olhou para Francine, que colocou as pontas dos dedos sobre a boca para esconder seu riso e repetiu o juramento de Sophie, sacudindo a cabea sem convico.
Durante o jogo, as duas riram s gargalhadas, mas no s custas de Davis. O jogo era srio, mas ao mesmo tempo no, a disputa acirrada, mas ao mesmo tempo no. Os 
espectadores, todos amigos ou parentes dos patinadores, aplaudiam qualquer coisa que animasse o jogo. Quando acontecia alguma falta, todos uivavam; quando brigavam, 
ouviam-se gritos, e os gols faziam com que todos se levantassem aos berros.
No incio, Francine e Sophie ficaram juntinhas e quietas, mtts o entusiasmo dos outros era contagiante. Sophie aderiu primeiro, saltando junto com os outros, gritando 
com os outros, e depois sentou-se, olhou para Francine e disse.
- Mas isto  muito bom.
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Francine achava a mesma coisa. Rapidamente, as duas tornaram-se parte da torcida agitada da arquibancada, divertindo-se loucamente, aplaudindo, vaiando e estimulando 
os patinadores tanto quanto eles mesmos.
Davis era, naturalmente, o melhor de todos no gelo. Movia-se veloz, com economia de movimentos, usando o taco de uma maneira que fazia com que os adversrios girassem 
e se retorcessem, enquanto ele deslizava graciosamente pelo gelo com os braos para o alto, quando marcava um ponto.
- Os joelhos dele esto falhando, hein? - Sophie observou em um minuto, e no seguinte saltava de seu lugar para juntar seu grito aos dos outros torcedores, quando 
se iniciou uma briga.
As brigas eram a atrao mxima do jogo. Havia uma grande exibio de discusses, braos agitados e gritos no gelo, muitas vezes seguidos pelo esvaziamento das arquibancadas, 
mas o riso dominava at mesmo os esforos para terminar com as brigas. E o riso continuou durante o jantar que aconteceu em seguida, em um restaurante de estilo 
familiar, que no se importava com o fato de que o maior de seus jantares estivesse meio passado. Houve brindes. Houve piadas. Houve cerveja gelada e brincadeiras 
alegres.
Francine e Sophie compartilharam uma mesa com Davis, um de seus companheiros de time e sua mulher, mais o irmo e a irm de sua mulher. O amigo fora um antigo colega 
de faculdade de Davis e era clnico no oeste de Massachusetts. Sua mulher era advogada e dividia um escritrio com a irm, seis anos mais nova, tambm advogada. 
O irmo, ainda mais novo, se constitua na ovelha negra da famlia. Era um artista.
- Voc ouviu o que ele estava falando? - Sophie perguntou para Francine, depois que as duas chegaram em casa, puseram Grace na cama, deitaram-se frente a frente 
sob o edredom novo de Sophie e apagaram a luz. Sua voz era um sussurro no escuro. - Ele faz ilustraes para a Sociedade Audubon.  isso
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que o mantm, enquanto trabalha em arte pura. J fez exposies. Seu trabalho est em galerias em Nova York e San Francisco. Aposto que ele  bom.
- Tambm aposto - Francine disse. No queria se entusiasmar demais, para que Sophie no imaginasse que estava: fazendo presso para aproxim-los. Mas o artista - 
Douglas -: parecia ser um rapaz gentil, tranqilo, confivel.
- Ele me convidou para sair.
-  mesmo?
- Para jantar. Eu disse a ele que no sabia se podia.
- E por que no sabe?
- Voc sabe.
Francine acariciou seus cabelos. Grata pela abertura feita por sua filha, disse:
-No h pressa. Jante com ele daqui a um ms ou dois, ou nunca, se ele no estiver suficientemente interessado. Mas no comece a bancar a tmida comigo, Sophie. 
No se isole do mundo. Nem todos os homens so como Gus.
- Eu sei. Mas o que aconteceu foi apavorante. Nunca imaginei uma coisa daquelas. E se no imaginar outra vez?
- Voc perceber. Sabe onde procurar o perigo - na bebida, na frustrao, na raiva. No vai colocar-se em uma posio vulnervel.
- Talvez se Douglas fosse feio. Ou aborrecido...
- Voc se sentiria muito infeliz. Voc gosta de gente interessante, porque voc  interessante. Voc  corajosa. No perca isso, Sophie.
- Por falar nisso, gosto do Davis. E voc? Francine sorriu.
- Hum... hum.
- As coisas continuam quentes e fortes entre vocs dois?
- Quem disse que elas eram quentes e fortes?
- Ningum disse. Eu vi.
- O que foi que voc viu? - Francine perguntou, tentando minimizar o beijo no corredor.
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- Eu vi a lngua dele.
- Meu Deus, Sophie. No deveria ficar procurando ver essas coisas quando esbarra em pessoas se beijando.
- Mas eu vi. Ento, a coisa  sria?
- Como posso saber? No saio com ele h algum tempo.
- Eu acho que . Vi como voc olha para ele. Havia um certo sentimento.
- Sentimento? - Ah, sim. Especialmente naquela tarde. Davis fora perfeito com Sophie, oferecendo as quantidades certas de ateno e alegria para que sua mente se 
afastasse de Gus, sem tocar no assunto. Fora perfeito com Francine tambm, carinhoso, atencioso, sensual.
Ela reparou que ele patinava da mesma maneira com que fazia amor, um pouco spero, um pouco deslizante, simples mas um especialista.
- Voc se casaria com ele? - Sophie perguntou.
- No. Ele quer filhos.
- Voc o ama?
- Gosto dele.
- Muito?
- Oh, sim. Mas no sou a pessoa certa para ele. Sou muito velha.
- Muito velha para qu?
- Para filhos.
- Voc no  velha, no que isso importe...
- Importa. - Especialmente sabendo que seu destino poderia ser um dia igual ao de Grace.
- O que importa  voc e ele.
- Mas ele quer ter filhos.
- Voc pode ter filhos.
- Se estivesse na sala de espera de um pediatra, pensariam que eu era a av. - E o que aconteceria quando seu filho fosse um adolescente?
- Existem muitas mes de primeira viagem da sua idade. Voc poderia ter dois filhos, at trs, se quisesse.
- Um por ano. D para imaginar?
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- Voc fala como se no fosse ter ajuda de ningum.
- No vou ter filhos para que outros os criem para mim.
- No foi isso o que eu quis dizer, e voc sabe. Voc no gostaria de ter filhos de Davis?
Francine abriu a boca para dizer que no teria nenhum filho, mas as palavras no vieram. Ter filhos de Davis era um pensamento to tentador.
Da mesma forma que tomar suplementos de clcio para evitar a osteoporose, passar cremes super-rejuvenescedores no pescoo que envelhecia, arrancar cabelos brancos 
ou tomar uma poo orgnica que algum holstico, ou qualquer outra coisa, anunciava como preventivo contra o mal de Alzheimer.
- Eu no me importaria - Sophie disse. - Se voc quisesse se casar com ele, quero dizer.
- Grace se importaria. Ele  de Tyne Valley.
- O Padre Jim tambm , mas se voc olhar para Grace quando ela est do lado dele pensaria que so amantes.
- Sophie.
-  verdade. Voc acha que eles foram?
- No.
- Ela espera o dia inteiro pela chegada dele. Isso no lhe diz nada?
- Isso me diz que ela o adora. No significa que tenham sido amantes.
- Voc acha que ela teve algum amante antes do vov?
- Ela sempre disse que o maior presente de casamento que uma mulher pode dar ao marido  a sua virgindade. - Mas pensou imediatamente... - Ela tambm disse que seu 
nome era Grace Laver e que nasceu em uma pequena cidade do Maine que foi inundada e desapareceu. No sei mais o que pensar.
- Isso tudo afeta a maneira como pensamos a nosso respeito - Sophie disse, bocejando.
Francine bocejou tambm.
- Hum... hum. - Pensou no assunto por algum tempo, e ia fazer uma declarao quando percebeu que Sophie adormecera.
Dezenove

Nunca podemos afastar o passado totalmente. Muito depois de seu sol ter-se posto, a sombra do ontem paira sobre o hoje e o amanh.
- Grace Dorian, em uma palestra na Associao Nacional para a Melhoria da Sade Mental
Francine entrou em becos sem sada em suas tentativas para contactar parentes de John Dorian. Dois dos nmeros da agenda de telefones j no existiam, o terceiro 
foi atendido por algum que afirmava no ser parente daquele Dorian, o quarto bateu o telefone quando ela se identificou - e ela resolveu entregar a agenda para 
Robin.
Robin no poderia ter ficado mais feliz. Tinha certeza de que conseguiria mais de pessoas que no queriam colaborar do que Francine. J que no era uma Dorian, poderia 
ser mais inocente e incisiva.
Seguindo a premissa de que poderia saber mais face a face, e como Francine hesitasse em deixar Grace sozinha, Robin viajou para a Costa Oeste. Depois de aterrissar 
em Sacramento, alugou um carro e dirigiu at um endereo da agenda de John - de um dos telefones que j no existiam -  procura de seu irmo mais novo, Milton. 
A casa era de tamanho mdio, bem cuidada, com um bonito jardim. A porta foi aberta por uma mulher jovem
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que afirmava ter comprado a casa depois da morte de Milton Dorian. E que at onde sabia ele vivia sozinho
- E com quem conversou durante a compra?
- S com corretores e advogados.
- Ningum da famlia?
- Ningum que eu soubesse.
Robin pegou o nome do corretor, atravs de quem poderia encontrar o advogado, caso fosse necessrio, para saber se Milton tivera filhos. Mas algum contemporneo 
de Milton deveria saber mais sobre Grace. E ento, na manh seguinte, partiu para San Jos, em busca de Millicent Dorian Bluet.
Sua casa era bastante parecida com a outra, de tamanho mdio, bem cuidada, com um jardim bonito. At mesmo o estilo georgiano era semelhante. Robin levou s um miluto 
para perceber que as duas apresentavam uma semelhana da casa maior, com frente de pedra,  beira do Housatonic
Uma mulher alta abriu a porta. Robin procurava uma semelhana com o John que vira em fotografias, quando a mulher perguntou:
- Sim?
Robin sorriu.
- Millicent Bluett?
- Quem  voc?
- Meu nome  Robin Duffy. Sou escritora e estou trabalhando em uma biografia de Grace Dorian...
- Quando falou comigo ao telefone, voc disse que era filha dela-Millicent acusou. - Eu disse-lhe ento e repito agora que no tenho o menor parentesco com Grace 
Dorian.
- Com o marido dela...
- No tenho parentesco - a mulher disse e fechou a porta na cara de Robin. Segundos depois, a porta abriu-se novamente. - E no volte aqui fingindo ser outra pessoa! 
No sei quem voc  na realidade, ou o que quer, mas no vai qonseguir nada comigo.
A porta fechou-se outra vez e manteve-se fechada. Robin
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aguardou cinco minutos, antes de ter coragem de tocar novamente a campainha. Suspeitou que a mulher estivesse observando da janela, porque a porta nem foi totalmente 
aberta quando ela ouviu um estridente:
- J disse para ir embora!
- Uma pergunta - Robin disse rpida e humildemente. - Se a senhora no  a Dorian certa, talvez a conhea. Estou querendo saber sobre Grace Dorian antes de seu casamento...
A porta desta vez foi batida.
Robin parou de falar. Portas fechadas no do informaes. Nem senhoras teimosas com sapatos de saltos tortos.
Mas existiam vrias maneiras de tirar a pele de um gato, de conseguir o que ela queria. No  mesmo, Grace?
Afastou-se da casa de Millicent e procurou o restaurante de comida caseira mais prximo. Seu nome era Over Easy e ele era pequeno mas aconchegante. Entrou, sentou-se 
ao balco e pediu um caf. A garonete conversava com trs pessoas ao mesmo tempo.
Robin tomou seu caf. Quando a mulher se aproximou para servi-la novamente, colocou a mo sobre a xcara.
- Parece que voc conhece todo mundo aqui - observou, olhando para os outros fregueses.
- Tinha que conhecer. Trabalho aqui h trinta e dois anos. Quase todos que moram a um raio de trinta quilmetros j passaram por aqui em determinado momento.
- Estou procurando os parentes de Grace Dorian.
- Grace Dorian?
- A Confidente.
- Sei quem  A Confidente. - Pegou um jornal sob o balco e procurou. - Ela est bem aqui. Leio o que ela escreve o tempo todo. Nem sempre concordo com ela, se quer 
saber, especialmente nestes ltimos tempos. Ela est ficando moderna demais. - Curvou-se um pouco e sussurrou: - Sabe que ela sugeriu que os jovens deveriam satisfazerse 
sozinhos, est me entendendo? Em vez de fazer sexo. Ns nunca ensinaramos uma coisa dessas aos nossos filhos. Quem voc disse mesmo que era?
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- Sou uma escritora. Existe uma Dorian que mora a umas trs quadras daqui. Disseram que era parente dela.
- Uma Dorian? Aqui? Puxa, eu nunca soube disso. Como  o nome dela?
Primeiro fora, Robin pensou. Dentro de poucos minutos estava de novo na rua, perguntando-se por que imaginara que uma mulher to reservada quanto Millicent Dorian 
Bluett pudesse freqentar um lugar como o Over Easy.
Por outro lado, mesmo as pessoas reservadas precisavam de algum tipo de ferragem. Atravessou a rua, entrou na loja de ferragens e perguntou pelo dono. 1
- Est falando com ele - disse um homem com um HARRY bordado na camisa.
Robin sorriu.
- Oi, Harry - disse, esticando a mo. - Sou Robin Duffy. Estou escrevendo um trabalho sobre Grace Dorian, sabe? A Confidente.
- Sei. Minha mulher l as colunas dela.
- Estou procurando por parentes distantes dela e soube que existe uma Dorian aqui, nesta cidade.
- A Millie. Mas ela no tem parentesco. Eu sei. Perguntei. Minha mulher me obrigou. Ela faz contabilidade e e viu o nome. Isso foi h muitos anos.
- No tem qualquer parentesco?
- No, e ela no gosta que lhe perguntem sobre isso. Tenho a impresso de que todo mundo a incomoda por causa do nome. No deve agentar mais.
Ou no agenta mais ou est na defensiva, pensou Robin. Disse silenciosamente para si mesma. Segundo fora. Agradeceu a Harry e voltou ao carro. Avanou mais duas 
quadras e comeava a sentir-se desencorajada quando pisou no freio, parou o carro e deu uma marcha  r.
Uma casa de estilo rstico tinha em sua facha uma tabuleta onde estava escrito A FOLHA VIRADA. As vitrines junto da garagem estavam cheias de livros. Uma placa de 
Aberta estava pendurada em uma delas.
Pgina 324 Barbara Delinsky
Robin estacionou na entrada da garagem e procurou a porta mais prxima. Quando entrou, um sino tocou. O ar l dentro estava abafado.
- Ol. Posso servi-la em alguma coisa? - perguntou uma senhora de idade, empoleirada sobre um banco atrs do balco.
Robin ouviu uma msica prpria para a poca, sentiu o aroma de livros antigos, viu cadeiras de balano entre as prateleiras e decidiu que, se Millicent freqentava 
algum lugar na cidade, esse lugar s poderia ser aquela casa.
- Pode, com certeza - disse. - Estou vindo de Nova York procurando parentes de Grace Dorian. A senhora sabe quem  Grace Dorian?
- Sei - a mulher disse em um tom opaco.
- Sabe quem  Millicent Bluett?
- Conheo Millie h anos.
Graas a Deus, Robin pensou.
- Conversaram alguma vez sobre a cunhada dela?
- Conversamos. Elas eram muito ntimas. Ficou arrasada quando a coitadinha morreu.
- Morreu? Mas Grace no morreu.
- A Lynette. Eu nunca a conheci, eles moravam no norte, mas Millie visitava-a todos os anos. Alfred tambm est morto, que sua alma descanse em paz. Era o irmo 
dela. Alfred.
Robin sabia da existncia de um Alfred. Era o irmo que vinha a seguir a John em idade.
- E quanto a John?
- John de qu?
- John Dorian. O outro irmo. Ela alguma vez falou sobre ele?
- No.
- Ele era casado com Grace. Millicent alguma vez falou sobre Grace?
- Comigo, no.
- Mas a senhora sabia que elas eram parentes?
- No. No sabia.
Robin dirigiu-se mais uma vez para a sada. Se Millicent
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era parente de Alfred, era parente de John, mas se ela no falasse e suas amigas tambm no, e se Alfred e Milton estavam ambos mortos, s restava uma esperana.
Janet Dorian Kerns.
Robin devolveu o carro alugado e voou para Seatle, mas foi somente no final da tarde do dia seguinte que conseguiu encontrar uma pista da mulher, passando, nas trs 
maneiras que fizera at chegar a ela, por trs casas progressivamente menores. Janet parecia-se surpreendentemente com Millicend. Robin rezou para que tivesse a 
lngua mais solta.
Depois de apresentar-se, disse:
- Estou aqui em nome de Francine Dorian. Ela est procurando seus parentes. Seu pai morreu h trs anos. O nome dele era John.
Janet observou-a em silncio.
- Seu nome estava no caderno de endereos dele. Suponho que seja sua irm.
Janet nem piscou.
- Na verdade, trabalho com Francine... e com Grace, sua me... em um livro. Estamos tentando reunir os pedaos do incio da vida de Grace.
- Algum falou comigo ao telefone - Janet retrucou.
- Deve ter sido Francine. E voc desligou.
- John no  meu irmo.
Robin prendeu o flego. Aquilo poderia ser o mais prximo a uma admisso que ela conseguiria. Ento, atacou.
- Soube que houve uma rusga.
- Voc no sabe a metade.
- Ouvi dizer que teve alguma coisa a ver com Grace.
- Quem lhe disse?
- No  verdade?
Janet pareceu recompor-se. Esticou as costas e levantou o queixo.
- No importa.
- Importa, sim - Robin insistiu, com medo de perder o fio
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da meada depois de chegar to perto. - Esse  o tipo da coisa que os fs de Grace gostariam de saber. Os olhos de Janet apertaram-se.
- No costumo lavar minha roupa suja em pblico.
- Oh, eu no faria isso, - Robin segurou-se - mas qualquer coisa que me contar poder fazer com que eu compreenda Grace melhor. Isso me ajudaria a escrever um livro 
mais honesto. A rusga foi por causa de Grace?
- Por que pergunta a mim? Por que no pergunta a Grace?
- Porque Grace fica perturbada em falar sobre isso. - No era uma mentira. -  uma espcie de problema emocional.
- Ora, no sei por que deveria ser - Janet disse, elevando um ombro. - Ela no nos conheceu. Ela entrou e ns samos.
- John fez com que sassem?
Novamente, Janet recomps-se. Desta vez, afastou-se um pouco da porta. Rapidamente, Robin avanou um passo.
- No, no, Sra. Kerns. No feche a porta para mim. A senhora foi a primeira que encontrei. Por favor. Eu vim de to longe.
Isso realmente irritou-a.
- No lhe pedi que viesse. Deixei bem claro que no queria falar ao desligar o telefone, quando aquela garota me ligou.
- Francine  sua sobrinha.
- No .
-John cortou relaes com a senhora? - Isso explicaria as negativas.
- John no teve que nos cortar da famlia. Ele era o filho mais velho. Era tudo dele. - Aquela confisso parecia ser a abertura de uma comporta. - Ele poderia ter 
dividido a herana se quisesse, mas ele no quis e logo que se casou no fomos mais bem-vindos. Vivamos juntos, e ele pediu-nos que sassemos. No que quisssemos 
ficar. No com aquela mulher. Ela obrigava-o a fazer o que quisesse, com um movimento do dedo mnimo, e ponto final. O interessante foi ela ter conseguido subir 
na vida, enquanto ele fechou o moinho e perdeu todo
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dinheiro da famlia em investimentos arriscados: essa foi a histria que nos contaram. Mas nunca acreditamos nisso. Ele s estava escondendo seus bens, para que 
no o levssemos ao tribunal. Sabe... quando ele morreu, a herana deveria ir para seu herdeiro, s que ele no teve um herdeiro.
- Teve, sim. Francine.
Janet no respondeu a isso, inicialmente. Ficou em silncio por um perodo to longo que Robin comeou a temer que, interrompendo o monlogo, fechara a comporta.
Ento, com palavras deliberadamente pronunciadas e um olhar de desdm, Janet disse:
- Quando John Dorian era jovem, caiu embaixo de seu cavalo durante um jogo de plo. O acidente deixou-o estril.
Estril. A mente de Robin comeou a girar. Sendo estril, isso significava que Francine no era biologicamente sua filha. Significava que Grace estivera com outro 
homem antes do casamento, motivo mais do que suficiente para esconder seu passado.
E Francine no sabia.
Robin tentou absorver as implicaes desse fato. Continuou tentando enquanto voava de volta, mas alguma coisa esfriou o que deveria ter sido um grande triunfo. Parte 
dela sentia que esbarrara em alguma coisa to pessoal que fazia com que se estivesse intrometendo onde no tinha o menor direito de estar.
- O qu?-Francine perguntou, quase sem poder acreditar. Robin hesitou e ento repetiu, lentamente e com um ar de lamento que tornava a palavra ainda mais plausvel:
- Estril.
O estmago de Francine comeou a arder.
- Talvez depois de eu ter nascido. Isso explicaria o motivo de Grace no ter tido outros filhos, apesar de no explicar o porqu de nunca ter me contado. Ou Janet 
estaria mentindo, ou estaria confusa.
- Ela disse que ele sofreu um acidente em um jogo de plo quando era jovem.
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- Ele no jogava plo.
- Nem quando jovem?
Francine no saberia responder. A nica coisa que sabia era que ele nunca jogara quando adulto e que no era estril. Se fosse, no poderia t-la gerado.
- Janet est pretendendo criar uma polmica, levantando a possibilidade de ele ser estril.
Mas no conseguia deixar de pensar no assunto, no podia parar de pensar sobre John e certas coisas que sempre foram importantes para ela. Como sua falta de demonstraes 
de carinho com ela. Como sua aceitao de Grace, Francine e Sophie como um trio que geralmente o exclua. Como a complacncia que demonstrava a respeito de seu prprio 
desinteresse por Francine e da diabete de Sophie, que no poderia ser relacionada a gerao anterior.
Fatos inocentes, per se, mas que pareciam diferentes, vistos sob uma luz diferente.
Francine procurou a certido de casamento de seus pais, para ver se teriam mentido sobre a data, mas no. Ela nascera nove meses depois de seu casamento. No havia 
dvidas quanto a isso.
Mas a hiptese da esterilidade era como uma cobra, esgueirando-se por perto, alimentando dvidas estranhas e uma mente imaginativa.
Descobria-se observando Grace quando esta no sabia que estava por perto, imaginando se aquilo podia ser possvel. As fotografias do casamento de Grace afirmavam 
que ela fora uma noiva linda. Mesmo sem o elegante vestido de renda, mesmo sem a grinalda elaborada, as prolas em volta do pescoo, o anel de brilhante no dedo, 
ela teria sido linda. Mesmo que estivesse vestida com trapos, chamaria a ateno dos homens.
Talvez eles tivessem sentido atrao por ela. Talvez a atrao fosse recproca. Talvez uma coisa tivesse levado a outra e Grace ficasse grvida. Talvez ela no soubesse 
disso quando veio para Nova York. Ela e John conheceram-se na primeira semana de sua chegada e casaram-se em um ms. Talvez houvesse
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um motivo para tal pressa. Talvez a certido de casamento tivesse sido alterada. Talvez Grace tivesse carregado Francine em seu tero durante dez meses. Talvez John 
nem tivesse ficado sabendo que Francine no era sua filha.
Mas ele teria sabido. E Grace tambm.
John estava morto e Grace caminhava para a mesma direo.
Embora Francine j estivesse passando por uma crise de identidade com a mudana com a mudana de poder naquela casa, este dado novo tornara as coisas ainda mais 
complicadas.
Uma tarde, sem saber o que fazer, cansada de ruminar sozinha suas dvidas, Francine procurou Grace. Encontrou-a em seu quarto, de p sobre o que parecia ser todo 
o contedo de seu closet.
- O que est fazendo? - perguntou o mais carinhosamente possvel.
Grace empurrava um vestido para c, um conjunto para l.
- Limpando. Eu sempre limpo. - Duas vezes por ano, como um relgio, Grace retirava todas as roupas que no queria mais de seu armrio.
- Mas voc j fez isso o ms passado.
- Eu acho que no.
A tristeza apertou o corao de Francine.
- Vamos. Eu a ajudo a colocar tudo de volta no closet. Se tirar muitas coisas mais, vai ficar sem nada para vestir. - O fato de ela no necessitar daquelas roupas, 
de que a maioria era inadequada para sua vida que se encolhia cada vez mais, no importava. O closet de Grace sempre fora to elegante quanto ela prpria.
- Bonito - Grace disse, pegando um conjunto de l vermelha da pilha e encostando-o em seu corpo. - Bonito. Eu useio em Dallas. Deveria d-lo para aquela mulher gentil... 
voc sabe, aquela da cidade... sabe, daquela loja...
Francine nem imaginava a quem ela se referia, mas Davis encorajara-a a ser bem especfica sobre as coisas. Concretude", era a palavra que ele usava para o que Grace 
precisava quando no conseguisse ordenar seus prprios pensamentos.
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Ento, Francine disse: - Da loja de vestidos? - porque aquela foi a primeira coisa que veio  sua mente. Grace mal conhecia a dona da loja, na verdade nunca fizera 
compras l, e Francine duvidava que a mulher fosse querer as roupas usadas de Grace. Mas esse no era o ponto. O motivo era dar uma palavra, uma pessoa, uma coisa 
para Grace.
No mesmo instante, Grace iluminou-se.
- Da loja de vestidos. Voc entrega para ela?
- Entrego.
Francine botou o conjunto vermelho de lado e comeou a recolocar as outras coisas no closet. No tinha certeza se aquela seria a melhor hora para mencionar a esterilidade. 
Grace no estava em um de seus melhores momentos. Mas ela quase nunca mais estava, e o tempo tornava-se curto.
Respirando profundamente e esperando conseguir a verdade pegando Grace desprevenida, disse:
- Mame? Lembra que eu disse que Robin ia  Califrnia? Pois ela conheceu Janet Dorian. - Fez uma pausa e quando no viu qualquer reao acrescentou: - A irm do 
papai. - Nada. - Janet disse uma coisa que no faz o menor sentido, mas que s voc poder refutar. Disse que papai era estril.
Grace olhou atordoada para as roupas sobre a cama.
- Voc ouviu, mame? Grace levantou os olhos.
- O que foi que voc disse?
- Janet disse que papai era estril. Era?
- Por que ela disse isso?
- Eu no sei. Vingana, talvez. Trata-se de uma idia absurda! Quer dizer, - Francine forou um riso - ele  o nico pai que eu conheci.
- Eu acho que no.
- Voc acha que no o qu?
- Eu acho que no - Grace repetiu, como se aquela frase respondesse a tudo.
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- Voc acha que ele no era estril? Mas isso no  uma coisa que voc acharia, voc saberia.
- Eu acho que no - Grace insistiu.
Francine tentou permanecer calma. Um sim ou um no era tudo o que queria ouvir. No precisava de detalhes, no precisava de grandes narrativas ou explicaes. No 
estava pedindo nada a Grace que ela no pudesse dar. Um sim ou um no. S isso.
- Sempre perguntei por que voc nunca mais teve filhos - disse, em um tom quase implorativo. - Voc no poderia ter tido, se papai fosse estril. Se ele fosse estril, 
voc no poderia ter tido a mim, o que significaria que outra pessoa seria meu pai biolgico. Tenho quarenta e trs anos de idade, tenho o direito de saber.
- Virgem Maria...
- No. No a concepo imaculada - Francine falou em um tom mais agudo. Seu estmago girava. - Escute, papai est morto e o que voc me contar no ir feri-lo. Pode 
ter certeza de que eu no pensaria menos nele... na verdade, muito mais, percebendo tudo o que ele fez durante todos aqueles anos pela filha de outro homem. E tambm 
no pensarei mal de voc. Droga, eu estava grvida de Sophie quando me casei com Lee, isso no seria to chocante, - divagou impotentemente - depois de sentir-me 
to culpada por t-la desapontado. - Essa era apenas uma das coisas que teria que olhar diferentemente, se descobrisse que a histria de seu pai era uma fraude.
Grace cobriu as orelhas e sacudiu a cabea. Francine tomou suas mos, baixou-as novamente e disse em um tom urgente:
- Por favor, mame. Preciso saber.
A respirao de Grace tornara-se ofegante.
- Acho que no - sussurrou.
- So os meus genes, minha ascendncia. E tambm de Sophie.
- Acho que no.
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Francine segurou as mos de sua me com mais fora.
- Conte. Papai era estril? Eu descobrirei de qualquer maneira. No vou deixar de investigar at saber com certeza. Se me disser, no terei que procurar em outro 
lugar. Ser mais secreto, se voc me disser.
Grace apertou os lbios.
- O que h de to horrvel? - Francine gritou. - Ento, voc estava grvida quando o conheceu. E da? Eu no me importo. S quero saber a verdade. Quem foi meu pai? 
Voc tem que me dizer.
- Acho que no.
- Mame!
Seu grito mal atingira as paredes quando Grace estremeceu e comeou a chorar. No chorava de uma maneira senhoril, nem educada, nem adulta. Era o desmoronamento 
incontrolvel de uma criana confusa, alm do que poderia suportar, e aquilo partiu o corao de Francine.
Grace no sabia o que estava acontecendo. As roupas estavam espalhadas sobre sua cama, mas ela no se lembrava de t-las colocado ali. Poderia ter feito. Ou qualquer 
outra pessoa, apesar de no conseguir imaginar por que algum faria aquilo. S sabia que havia gente demais correndo pela casa e que havia uma grande confuso ali 
dentro.
As coisas no estavam em seus devidos lugares. No sabia se conseguiria arrumar tudo.
Por exemplo, aquela histria sobre John. No sabia por que Francine mencionara aquilo, ou quem lhe teria dito, mas de repente havia um zumbido dentro de sua cabea 
que fazia com que ela no ouvisse nada do que John dizia, exceto alguns fragmentos.
"Tudo bem... no se preocupe... como se fosse meu..." To calmo, to reconfortante. E at mesmo aliviado, porque ele tambm tinha segredos. Mas os segredos ficavam 
entre eles. Fizeram um acordo sobre isso. Juraram.
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Fragmentos. Ela ouvia coisas, sentia coisas, pensava coisas. Mas as coisas iam e vinham desordenadamente.
E agora uma coisa surgia inesperadamente e ela no sabia o que fazer. Deveria saber. Sabia h um ano, talvez h uma semana. As pessoas procuravam-na para ouvir respostas 
o tempo todo. Mas ela no tinha mais respostas. No tinha mais nada. Tantos anos. Tanto trabalho. Nada.
Perturbada com tudo aquilo, sem conseguir ter controle sobre qualquer coisa, comeou a chorar. Odiava os sons horrveis que emitia, odiava a umidade em seu rosto, 
mas no conseguia parar, e isso tornava tudo ainda pior.
De repente, foi envolvida por braos. Braos carinhosos, preocupados e gentis. Braos amorosos que perdoavam. Sua me? No, no era ela. Mas eram to maternais. 
Entregou-se ao conforto que eles ofereciam e sentiu-se melhor.
Francine encontrou Padre Jim na pequena sala de aula que ficava no poro de sua igreja. O ar carregava ainda a friagem do ms de janeiro, conduzida pelas paredes 
de pedra com que toda a igreja era construda, mas a sala no era sombria. Padre Jim no o permitia. Sua presena era calorosa - seus olhos, sua voz, seu sorriso.
Ensinava catecismo para uma classe cheia de crianas, cada uma delas sentada em sua prpria carteira de madeira. Francine lembrou-se de quando era uma daquelas crianas. 
Padre Jim - um Padre Jim muito mais jovem - era novo na parquia. Apesar de Francine odiar o constrangimento da sala de aula e o tdio do catecismo, adorava Padre 
Jim.
Quase quarenta anos j se tinham ido, assim como grande parte dos cabelos de Padre Jim, mas o catecismo continuava o mesmo, assim como o amor das crianas por seu 
professor.
Francine aguardou fora da sala, recostada na parede de pedra, impaciente, mas ao mesmo tempo embalada pela doura da voz de Padre Jim. Quando as crianas saram 
correndo, ela entrou.
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Ele olhou-a alarmado, com um brao suspenso e o outro cheio de livros.
- Francine? Grace est bem?
- Est. - O choro passara e fora esquecido com a caminhada at o solrio. - Eu no. - Sorriu fracamente. - So os antigos macaquinhos no sto novamente. - O sorriso 
desapareceu. - Voc sabe alguma coisa sobre o fato de meu pai ser estril?
Padre Jim ficou plido. Depositou os livros e descansou os dedos sobre a mesa.
- Quem disse que ele era?
- A irm dele. At onde ela sabe, no sou sua sobrinha. Grace no confirmou nem negou; s comeou a chorar. - A lembrana do acontecimento trouxe lgrimas aos olhos 
de Francine. - Foi horrvel, horrvel. No consegui pression-la depois disso. Portanto, vou pression-lo. Voc conheceu meu pai. Alguma vez ele mencionou esse problema?
Padre Jim ficou pensativo.
- No.
- E Grace?
- Isso teria sido uma coisa particular, entre seus pais...
- ...e Deus, e como voc  um servo de Deus saberia tambm.
- No necessariamente. No, a menos que a situao criasse problemas com os quais no pudessem lidar.
Francine adorava Jim. Confiava nele. Mas ele estava protegendo Grace novamente.
-Por que no pode me dar uma resposta direta? Tudo o que quero  um sim ou um no. John Dorian era estril ou no era?
- No posso dizer-lhe isso.
- No pode? Ou no quer? - Lgrimas brotaram em seus olhos. - No se trata de uma coisinha incidental. Tem a ver com a minha paternidade. Chamo a isso um problema 
muito srio. Mas ningum me dir a verdade. No  justo, Jim.
Jim ento abrandou a maneira de falar e agir. Aproximou-se dela, passou o brao por seus ombros e disse, naquela sua voz suave:
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- Por que isso  to importante, Frannie? Seja qual for a verdade, John foi seu pai. Ele amava-a, preocupava-se com voc, dava-lhe tudo que qualquer mocinha pudesse 
desejar.
-  verdade, - ela confirmou - s que no sou mais uma menininha e estou cansada de me responderem com evasivas.  verdade, no ? Ele era estril.
Padre Jim sacudiu a cabea, no em uma negativa, mas com tristeza.
Francine libertou-se de seu abrao e dirigiu-se para a sada.
- Existem outras maneiras de descobrir.
- Frannie...
Ela voltou-se.
- Eu descobrirei tudo. Se voc e Grace querem jogar, podem ir em frente. Para mim, chega.
Francine hesitava em pedir a Davis que olhasse as fichas mdicas de John. Uma esterilidade estaria anotada em uma de suas fichas, e ele teve muitas fichas mdicas 
nos ltimos anos de vida. Mas pedir a Davis que olhasse poderia compromet-lo. No poderia pedir, antes de esgotar todas as outras fontes.
Paul Hartman no era somente o mdico de Grace, ms de John tambm, s vezes parceiro de golfe e convidado frequente de suas festas. Fora ele quem indicara Davis 
para Grace e continuava a visit-la freqentemente. Jamais saa da casa delas sem fazer com que Francine prometesse telefonar para ele se pudesse ajudar em alguma 
coisa.
Portanto, Francine no teve o menor pudor em telefonar para sua casa naquela noite, pedindo para v-lo, e em bater na pesada aldrava de bronze de sua porta, vinte 
minutos mais tarde. Deixou-se guiar por ele at uma biblioteca forrada de couro mas permaneceu cerimoniosa e de p. Recusou o brandy que ele ofereceu.
- Aconteceu uma coisa, Paul. Preciso saber a verdade. Voc tratou de meu pai durante... quantos anos?
- Exero meu trabalho aqui h trinta anos - ele disse, sem Uma pausa. - John foi um de meus primeiros pacientes.
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- Ele era estril? Paul retraiu-se.
- Estril? De onde saiu isso?
- Da irm dele. E penso que seja verdade. Isso explica algumas dvidas. E infelizmente levanta outras. Era?
- Ora, Francine, - Paul censurou - voc sabe que no posso divulgar informaes particulares.
- Ele era - ela decidiu.
- Eu no disse isso.
- Mas ningum nega. Todos vocs esto fazendo a mesma coisa, devolvendo a pergunta para mim, evitando uma resposta direta. Se no fosse verdade, algum teria dito: 
"No, ele no era estril." Por que eu no deveria saber? Que dano isso poderia causar a esta altura da vida? John est morto, e Grace tem coisas muito maiores a 
esconder do que um romance antes do casamento. Mas para mim isso  muito importante. Sou o produto desse romance. Estamos falando da minha paternidade.
Paul coou a nuca, ajeitou os cabelos, respirou profundamente e olhou-a implorativamente.
- Por favor, Paul? - Sua voz tremia. - No sei mais a quem me dirigir. John est morto, Grace est apagando-se rapidamente. No tenho qualquer parente para perguntar, 
porque no conheo meus parentes, e quando Grace partir no restar nada.
Ele parecia arrasado. Ela apertou seu brao.
- Se John no  meu pai biolgico, eu poderia descobrir quem , e quando soubesse teria uma chave para saber quem  Grace. Essa  a parte mais importante no caso, 
Paul. Grace no quer falar, no sei mais o que ela faz deliberadamente ou no, mas se conseguir desvendar essa chave poderei saber de coisas antes da partida de 
Grace.
Manteve seus olhos presos aos dele, e continuou esperando. Apertou um pouco mais o brao do mdico.
- Por favor?
Os ombros de Paul caram.
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- Voc est sendo muito dura comigo.
- Estou desesperada. John Dorian era meu pai?
Ele hesitou durante um ltimo minuto, antes de dizer, relutantemente:
- Nunca lhe perguntei diretamente, mas acredito que no. Ele era estril. Quando lhe perguntei como isso acontecera, ele mencionou um acidente. Quando perguntei 
quando, ele respondeu que muitos anos antes. Lembro-me de seus olhos ao contar-me, prevenindo-me para no perguntar mais nada, e no perguntei. Nunca tocamos no 
assunto novamente.
Francine soltou um suspiro longo e trmulo. Afundou em uma cadeira e colocou a cabea entre as mos. Dessa vez, aceitou a oferta que Paul lhe fez de um brandy porque 
necessitava de alguma coisa para sacudi-la e coloc-la novamente nos eixos.
Meia hora. Era o tempo que imaginava ser necessrio para encontrar Davis.
Ele encontrou-a  porta, tirou-a do frio, e escutou sua histria.
Depois, tomou-a nos braos, apertando-a enquanto ela tremia e chorava e deixou que ficasse to fraca quanto sentia necessidade, sem faz-la sentir-se diminuda. 
F-la sentir-se honesta, f-la sentir-se justificada em cada uma de suas preocupaes. E quando ela libertou-se de tudo aquilo e sentiu-se cansada das palavras, 
quando ela procurou o esquecimento, fez amor com ela com tanto carinho que no final ela estava em prantos.
A paixo que ele demonstrava era uma cano que a atravessava e percorria de lado a lado, passava sob ela e levava-a s alturas. Fosse por suas mos nas costas de 
Francine levantando-a, ou por sua boca rodeando as arolas de seus seios, ou pela maciez de seu tronco musculoso, ou pela abraso de seus membros peludos em partes 
macias e pequenas do corpo dela, ele conseguiu acalm-la.
E no se tratava de uma nsia somente sexual. Ela tivera apenas sexo com Lee. Isto agora era diferente. Era cheio de alma.
Quando ele fez amor com ela, havia uma sensao de deslumbramento primeiro em seus olhos, depois no resto de seu
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corpo. Ele a fez sentir-se sagrada, apesar de onde e como amaram, e experimentaram tudo o que podiam, por muito tempo, to forte e profundamente quanto possvel. 
O tempo todo, o corpo dele acalentava o dela, suas mos adoravam-na. O tempo inteiro ele a fez sentir-se perfeita.
Ela estava apaixonada por ele, naturalmente. Era tolice querer enganar-se e negar aquele amor. Adorava o jeito com que ele olhava, sentia, pensava. Adorava o modo 
como se divertiam e o calor que compartilhavam. Adorava a maneira como podia reclinar-se sobre ele sem que ambos cassem ao solo.
Adorava a maneira como ele passava os dedos por seus cabelos, acariciava seu rosto com os olhos e sussurrava "Eu te amo", quando a urgncia do orgasmo finalmente 
permitia que ela respirasse. E adorava tambm como ele no exigia uma resposta, de como ele compreendia que, atravessando tal transio, no pudesse pensar no futuro.
Algum dia, em breve. Mas no ainda.
Francine nunca chegou a pedir que ele investigasse, mas, trs dias depois de contar-lhe que John era estril, Davis entregou-lhe uma cpia do antigo relatrio do 
hospital que ligava a esterilidade de John a um acidente causado enquanto cavalgava, e que ocorrera quando ele tinha dezenove anos de idade.
Vinte

Apesar de a vida muitas vezes parecer to complexa, seus maiores mistrios so to simples quanto o choro de um beb, o toque de um amante ou o sorriso de um amigo.
- Grace Dorian, em A (Confidente
- Oonde vamos agora? - Robin perguntou.
Francine fazia-se a mesma pergunta ininterruptamente. A resposta era sempre outra pergunta: Quem sou eu?
Era a me de Sophie, mais necessria agora do que jamais fora antes. Era a amante de Davis, de quem necessitava mais agora do que nunca. Era a filha de Grace, apesar 
de Grace no a chamar mais pelo nome.
Seria ela A Confidente? Conseguia satisfazer Tony com cinco colunas por semana, apesar de tornar-se suspeita por no excursionar mais. Na realidade, Grace tornava-se 
suspeita por no excursionar mais. Os convites continuavam a chegar e tornavam-se cada vez mais difceis de serem recusados.
Grace teria querido que ela fizesse aparecimentos pblicos, mas no era aquilo o que Francine desejava para sua vida. No falemos do medo de falar em pblico. Simplesmente 
preferia ficar em casa com as pessoas que amava.
Grace estaria decepcionada com ela? Provavelmente. Portanto, um pouco mais no faria mal algum.
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- Vamos descobrir quem  meu pai - disse para Robin lanando um olhar seco para Sophie. - Parece bastante fcil. - Todos sabiam que no era. Sem conhecer o passado 
de Grace, seria muito difcil descobrir o amante de Grace.
Mas havia uma pequena cidade da Nova Inglaterra  qual Grace estava ligada.
- Vamos comear por Tyne Valley.
- Grace no  de Tyne Valley - Sophie argumentou. - Ela odeia Valley. Padre Jim  o nico motivo pelo qual ela envia dinheiro para l todos os anos.
- A questo - Robin disse, enquanto servia uma segunda rodada de caf em volta da mesa da cozinha -  se existir outro motivo.
- Davis tinha a impresso de que Grace era de Valley - Francine disse. - Ficou muito surpreso quando eu disse que no era.
- Bem, posso verificar isso com facilidade - Sophie declarou. - Devem existir registros de nascimentos, registros escolares, jornais antigos. Se no conseguirmos 
localiz-los daqui, posso ir at l. - Seu rosto subitamente ficou sombrio.
- Gus no estar l - Francine garantiu-lhe suavemente.
- Ele est em Chicago. O amigo de Davis confirmou para mim.
- E pensou que seria bom para Sophie afastar-se um pouco. Desde o incidente com Gus, passara a ficar s dentro de casa, comunicando-se com os amigos somente por 
telefone. Precisava ter certeza de que no se sentiria acovardada com essa viagem No que Francine fosse deix-la ir sozinha. Mandaria Robin junto com ela.
-Devemos procurar pelo nome Laver?-Robin perguntou
- No temos outra escolha no momento. Enquanto estive"rem fazendo isso, vou entrar em contato com Joseph Crosby.  o padre da parquia que administra os donativos 
de Grace. Padre Jim envia-os, Padre Crosby os distribui.
- Por que no perguntar diretamente ao Padre Jim? - Sophie quis saber.
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- Porque ele no falar. Pensa que est protegendo Grace.
- E se Padre Crosby sentir o mesmo? Francine j considerara aquela possibilidade.
- Talvez eu possa peg-lo distrado. Estamos em fevereiro, no ? Nosso contador est organizando a declarao do imposto de renda de Grace, certo? Direi ao Padre 
Crosby que precisamos analisar as sadas do dinheiro de Grace.
- Voc mentiria para um padre? - Sophie perguntou, meio sria, meio brincalhona.
Francine deu-lhe um olhar expressivo.
- Jogue a culpa em Padre Jim. Jogue a culpa em Grace. Jogue a culpa em John Dorian. - A dor que nunca passara muito alm da superfcie agora era profunda. - Muita 
gente mesmo no nos contou a verdade. De alguma forma, uma pequena mentira parece justificvel, j que procuramos uma verdade maior.
No havia registro de uma Grace Laver que crescera em Tyne Valley.
- Vasculhamos tudo - Sophie informou, quando voltaram. - Descobri trs outras Graces nos lbuns escolares durante um perodo de cinco anos. Mas o presidente da congregao 
presbiteriana, que recebeu esse cargo de seu pai h trinta e oito anos, conhecia todas as trs. Nunca ouviu falar no nome Laver. Grace Dorian, sim. A Confidente, 
sim. Grace Laver, no.
- E quanto a Thomas, Sara e Hal?
Sophie negou com um aceno de cabea. Existe um monto de famlias espremidas na parte mais pobre da cidade. Segundo Padre Crosby, ningum sabe os nomes deles todos, 
eles vo e vem, as pessoas chegam em um dia e desaparecem no outro, havia muitas crianas perambulando por l, esfarrapadas, morando cedo naquela poca.
- E o pai de Davis?
- No conseguiu ajudar em nada.
- Bbado?
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- Hum...hum.
Francine sabia como isso aborrecia Davis. Esse foi um dos motivos para ter recusado sua oferta de lev-la a Tyne Valley ele mesmo.
- Por outro lado, Padre Jim  adorado - Robin acrescentou. -  um heri local. Todos na cidade o conhecem. Alguns se lembravam do passado. Parece que ele era um 
selvagem antes de a Igreja dom-lo.
Davis j mencionara aquele fato para Francine. Agora, ela se perguntava se haveria mais alguma coisa naquela lenda.
- Um amigo dele morreu pouco antes de ele entrar para o seminrio. Pode descobrir mais alguma coisa sobre isso?
- Fcil - Robin disse. - As pessoas com quem falei eram maravilhosamente inocentes. Quando disse que estava escrevendo um livro sobre Grace ofereceram-se para ajudar 
no que pudessem. Tenho vrios nomes e nmeros de telefone.
- Talvez eles se tornem mais reticentes quando voc telefonar, - Francine preveniu - especialmente se algum falar com eles antes. - Em algum lugar existia um pai 
que ficara oculto durante quarenta e trs anos e que poderia querer que as coisas continuassem assim. Era a primeira vez, desde que soubera a verdade sobre John, 
que se ressentia contra esse homem sem rosto.
Voltou-se para Sophie.
- E como  l?
- O Vale?  rodeado de montanhas, como era de esperar. Sonolento. Pitoresco. - Franziu as sobrancelhas. - Sabe quando Grace compra um casaco novo para Margaret que 
no se parece com ela? O centro de Tyne Valley  assim. Tudo  reformado e pintadinho de novo, mas  como se tivessem maquiado um cachorro.
- As pessoas de l so cansadas, - Robin disse, mais delicadamente -mesmo os jovens. A vida no  fcil. E por isso admiram o dinheiro de Grace. Padre Crosby no 
sabia dizer nada alm de elogios para ela.
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- E negou que Grace fosse de l - Sophie acrescentou. Francine fizera-lhe a mesma pergunta e tentara racionalizar o assunto desde ento.
- Ele chegou  cidade pouco depois de Grace ter partido, portanto pode no saber a verdade. Quanto ao dinheiro, ele vai para um fundo da Igreja para ser usado conforme 
Padre Crosby decidir - se para algum que precise de ajuda depois de sua casa ser incendiada ou em alguma emergncia mdica, ou para algum que esgotou o auxlio-desemprego 
e precisa de um acrscimo at aparecer um emprego. Ele faz doaes anuais para o Comit de Embelezamento da cidade e para as mes da Estrela Dourada, uma grande 
soma para a biblioteca, outra para um lar de mulheres maltratadas.
- Mulheres maltratadas - Sophie refletiu. - Interessante. O abuso cometido em casamentos  um tema recorrente nas colunas de Grace.
- O que pode significar - Francine concluiu com clareza - que ou ela foi maltratada ou sua me foi maltratada, ou suas irms, se ela tiver irms, mas no chegaremos 
a lugar algum sem um nome. - Virou-se para Sophie e perguntou, com curiosidade: - Voc sentiu... alguma coisa l?
- Algo como um elo gentico? No. Voc seria mais capaz de sentir do que eu. Mas, se Grace era de l, algum no faria a ligao?
- J se passaram muitos anos desde a sua partida. As pessoas podem ter esquecido de como ela era na poca. Possivelmente s tm visto fotos recentes. As roupas e 
a maquiagem podem modificar completamente uma pessoa, e se no existir ningum procurando uma ligao...
- Como no o fariam, com a quantidade de dinheiro que ela envia para l?
- Ns tambm no fizemos essa ligao. - As pessoas pensam o que querem pensar, Grace sempre disse. - Simplesmente presumimos que ela enviasse aquele dinheiro por 
causa do Padre Jim. - As coisas sempre voltavam para ele. - Ele  a
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chave - Francine disse com convico. Infelizmente, ela no conseguia ficar aborrecida com o padre. Ele continuava sendo o homem vestido com um hbito e um amigo. 
Ela no poderia apunhal-lo pelas costas.
- Vejamos o que eu consigo descobrir - Robin disse. Sua voz estava calma. Seus olhos diziam que compreendia o dilema de Francine.
Francine ficou infinitamente grata.
Davis alterou os medicamentos de Grace, na esperana de aplacar um pouco a doena, mas Francine percebia pouca melhora. A lucidez tornava-se alheamento sem o menor 
aviso. Grace poderia estar ligada em uma discusso, reagindo racionalmente, mesmo com as frases curtas e simples que passara a adotar, quando repentinamente divagava 
em outra direo. s vezes, a transio era to suave que Francine poderia jurar ser intencional. Grace divagava ou fingia divagar quando Francine puxava assuntos 
mais diretos.
E ela sempre puxava os assuntos diretos. Apesar de se sentir dilacerada - odiando-se por deixar Grace nervosa, querendo ao mesmo tempo agrad-la - enquanto houvesse 
uma informao racional na mente de Grace tinha que tentar arranc-la.
Os tpicos mais dolorosos eram a paternidade de Francine, o nome verdadeiro de Grace e Tyne Valley. Grace ou ficava nervosa e comeava a balbuciar coisas sem nexo 
quando algum desses assuntos era mencionado, ou ficava to astuta quanto uma raposa, evadindo-se  discusso. E Francine no conseguia qualquer avano.
-  como se ela estivesse escapando entre meus dedos - Francine tentou explicar para Davis. - Consigo segurar alguma coisa dela que j conheo, mas o resto atravessa 
meus dedos e vai embora. Chego to perto, s vezes. Tenho certeza de que est prestes a dizer alguma coisa, e ento ela muda de idia.  to estranho. Ela perdeu 
a conscincia de tanta coisa, mas no disso. Ela no contar seus segredos.
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- Mantenha-se prxima - Davis sugeriu. - Avise Jane e Margaret do que voc quer ouvir. Mantenha a mente de Grace ativa. Mostre-lhe fotos antigas. Alguma coisa pode 
surgir inadvertidamente.
Francine tentou. Conseguiu obter referncias quanto a Thomas e Sara, Hal e as irms de Grace, apesar de elas nunca terem nomes. Conseguiu obter informaes relativas 
a Johnny e aos rapazes do celeiro, Scutch e Sparrow, e a Wolf, que "no se levantava, no se levantava", repetia sempre duas vezes, angustiadamente. Mas jamais conseguiu 
um sobrenome, jamais conseguiu o suficiente para dar ao incidente um tempo ou um lugar. Poderia ter ocorrido quando Grace tinha seis, dez ou dezesseis anos.
Ento, Robin voltou de uma segunda viagem a Tyne Valley com mais informaes sobre Padre Jim.
- Ele e seus amigos no eram marginais, realmente. Acampavam em casas vazias, pegavam emprestados os carros de seus pais sem pedir, tiravam bebida de esconderijos 
e bebiam sem parar. No usavam armas nem eram violentos.
- Mas um deles morreu.
- Seu nome era William Duey. Os jornais disseram que bebeu at morrer, e as pessoas que se lembram do fato dizem a mesma coisa. Ningum mais conhece os detalhes, 
alm de ele estar bebendo com os amigos. O jornal no citou seus nomes. Foi um obiturio bastante resumido. Nem tenho certeza se a polcia soube quem estava l, 
- examinou seu caderninho de anotaes - mas as pessoas que estavam por perto na ocasio mencionaram Spencer Heast, Francis Stark, Rosellen McQuillan e naturalmente 
James O'Neill. Foi Padre Jim quem levou o mdico at l. Todos tinham fugido, menos a garota. - Rosellen McQuillan - Francine disse, experimentando o nome. - Era 
a namorada firme, de longo tempo, de Jamie O'Neill. Saiu da cidade quando Jim entrou para o seminrio.
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Francine perguntou-se se Grace poderia ter sido essa Rosellen McQuillan, mas rapidamente rejeitou a idia. Poderia ser uma possibilidade, se houvesse um Scutch, 
um Sparrow ou um Wolf na lista de amigos de Padre Jim - e talvez houvesse, se soubessem de quem seriam esses apelidos. Mas se fosse assim, o que dizer de Johnny? 
Ele era o namorado de Grace, naquele celeiro onde estava Wolf. E Wolf no bebera at morrer". Ele s caiu e bateu com a cabea.
Sem um grande esforo da imaginao, os detalhes superficiais no se encaixavam.
Grace estava dormindo no sof. Padre Jim puxou seu cobertor at o queixo, ajeitou-o sob seus ombros, tocou seu rosto.
Francine observava diante do tabuleiro de xadrez. Fixou os olhos nas peas, quando Padre Jim voltou para seu lugar, fingindo estar concentrado.
Ento, cansada de permanecer no escuro, de bater com a cabea em paredes de tijolos, de ser uma covarde, levantou os olhos.
- Voc  apaixonado por Grace?
Jim arqueou ligeiramente uma sobrancelha, antes de voltar os olhos para o tabuleiro.
- Sou um padre.
- Voc vem aqui uma vez por dia, s vezes duas.  como se fosse sua segunda casa.
- Tenho bom gosto, no acha?
- O que acho - Francine disse -  que voc trata Grace com uma gentileza muito estranha, que ou  amor ou loucura. Voc no  louco, Jim. Devoto, certamente. Cauteloso, 
talvez, Mas no louco.
- Obrigado. Vou aceitar o que disse como um cumprimento.
Como ele no respondeu  pergunta, Francine tentou outra.
- Se voc no tivesse virado padre, teria se casado com Grace?
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- Grace j era casada.
- Se voc a tivesse conhecido antes. Digamos, em Tyne Valley.
A nica reao que ela conseguiu observar, se pudesse cham-la assim, foi a contrao de um dedo apoiado no tabuleiro.
Francine insistiu.
- Estamos tentando juntar as peas para os possveis passados de Grace. Uma das teorias  que ela teria nascido em Tyne Valley... no como Grace, nem mesmo como 
Laver, procuramos por toda parte por esses nomes e nada. Ento, ela poderia ser talvez algum chamado Rosellen McQuillan.
Ao ouvir aquilo, ele levantou os olhos.
- Como soube a respeito de Rosellen? - Ele mesmo respondeu a pergunta. - Robin e Sophie.
- Parece que voc era uma peste. Ele pigarreou.
- Eu era jovem. Lutava contra o que meus pais exigiam.
- Quanto tempo voc ficou com Rosellen? Seus olhos abrandaram-se quela lembrana.
- Para sempre, era o que parecia. Brincamos juntos, quando crianas. Chegando  idade escolar, ramos inseparveis. - Um pequeno sorriso surgiu em sua boca. - Bem, 
eu passava o tempo necessrio com os meninos e ela com as meninas, mas o resto do tempo ramos s ns dois. Mesmo no meio de uma multido. ramos almas gmeas. Sabamos 
o que o outro pensava sem precisar falar. - Ele suspirou, cruzou os dedos sobre a mesa, examinando-os. - Ela representou a parte mais importante de meus anos de 
crescimento, mais do que qualquer outra pessoa. Vivemos a adolescncia juntos, a puberdade juntos. Contvamos um ao outro as nossas coisas mais ntimas, coisas que 
no contaramos nem a nossos pais.
- Por que no?
- Minha famlia era muito religiosa. Fui eleito por eles para ser o padre. Assuntos ligados  carne... - Sacudiu a cabea em um "no" veemente.
- E a famlia dela?
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- Muito medocre. Ns nos amvamos, o que tornava o resto mais fcil de suportar.
- Mas voc foi embora. Ele pareceu desolado.
- Sim.
- Voc lamenta ter se tornado padre? - ela perguntou, mas em seguida repreendeu-se pela invaso. Claro que ele no lamentava. Ele amava Deus e a Igreja. Quanto maior 
fosse seu sacrifcio, maior seria a prova daquele amor.
Ficou muito surpresa quando ele sussurrou:
- s vezes. - Os olhos dele tocaram os dela por um instante, mas logo baixaram novamente.
- Voc ainda a ama.
- Um amor como aquele nunca morre.
- Onde ela est agora?
Ele franziu os lbios e estudou suas mos. Quando levantou os olhos, eles estavam cheios de lgrimas.
Francine no conseguiu perguntar mais nada.
Annie Diehl telefonou a fim de convidar Grace para um programa de entrevistas na televiso, e no ficou muito satisfeita quando Francine recusou. Tony ligou logo 
depois para perguntar o que Grace tinha contra programas de entrevistas e no ficou satisfeito quando Francine disse que ela estava cansada daquela vida. George 
telefonou em seguida para perguntar por que elas pagavam a uma agente de publicidade se Grace no aceitava os convites.
Amanda telefonou para desculpar-se por no passar de uma incompetente.
- Todos esto ficando impacientes - preveniu. - Sabem que existe alguma coisa errada com ela e querem saber o que e. Talvez tenhamos que comunicar a eles em breve.
- Ainda no - Francine disse. Grace fora veemente. Francine queria cumprir seus desejos por quanto tempo fosse humanamente possvel.
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Ainda no se passara um dia quando Robin puxou uma cadeira e escolheu uma variao do tema.
-J estou com o corpo do livro esboado e pronto para ser escrito. Poderia ser feito em um ms. Mas o incio e o fim so outras coisas. Est certo, ainda estamos 
trabalhando no incio. Mas e o fim? Falaremos sobre o mal de Alzheimer? A publicao est marcada para a poca do Natal. Tornar pblico um fato como esse, no meio 
do perodo onde pregam a boa vontade, garantiria o sucesso do livro.
- Tenho certeza - Francine concordou. - Teremos todas as manchetes: na TV, nos jornais, revistas. Grace odiaria.
Robin observou-a em silncio.
- Eu sei, eu sei - suspirou. - Ela pode nem ficar sabendo, mas e se souber? E se for a ltima coisa que ela souber? Vou me sentir como uma traidora. Vou decepcion-la 
mais do que qualquer outra vez antes. E poderei viver com isso para o resto da minha vida?
Naquela noite, Francine saiu para fazer compras com Davis. Ele tinha uma casa para mobiliar, e como ela ajudara a terminar os assoalhos, as paredes e as janelas, 
naturalmente deveria ajudar nessa parte tambm.
Passavam de uma exposio elegante a outra. A maioria era formal demais na opinio de Francine.
- Mas no ligue para o que eu digo - preveniu. - Tenho um pssimo gosto.
- Quem lhe disse isso?
- Grace, que tem um gosto impecvel.
- Foi ela mesma quem decorou a casa?
- Com um decorador fazendo a superviso. A casa foi fotografada para a revista Architectural Digest no ano passado.
- timo. Muito bem. Mas no quero que a minha Casa seja to afetada quanto a dela. Quero que a minha seja acolhedora, convidativa e alegre.
Levou-a pela mo, passando de novo pelas salas de exposio,
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apontando para um sof em uma delas, uma cadeira em outra, uma escrivaninha em uma terceira, um armrio em uma quarta, sem preocupar-se muito com as combinaes. 
Francine adorou o que ele escolheu.
- Essas coisas no combinam - disse. - Grace no aprovaria.
- No estou preocupado com Grace. Estou preocupado com voc. - Mergulhou a mo de Francine no bolso de seu casaco, para sentir sua respirao mais prxima enquanto 
caminhavam.
Ela no tinha muita certeza de querer ouvir o que ele continuaria a dizer. Ento, falou:
- Eu estou preocupada com Grace. As pessoas esto querendo v-la. Por quanto tempo mais poderemos esconder o fato de que ela est doente?
Davis no disse nada; simplesmente segurou-a mais firmemente do seu lado e avanou. Parou diante de uma exposio de gabinetes mediterrneos. As cores eram fortes, 
o cheiro custico. - Eu compraria aquele tapete - ele disse. Em seguida, perguntou: - Por que continua querendo esconder?
- Porque Grace quer.
- Ela quer? Ou  voc?
A pergunta pegou Francine de surpresa. No examinara muito o fato por aquele ngulo. Mas no podia deixar de pensar agora.
- Eu. Sou eu.
- Voc tem vergonha por ela estar doente?
- Meu Deus do cu, no! S no estou pronta para deixar que as pessoas saibam que no  ela quem est fazendo seu trabalho, que sou eu. - Esse era o ponto crucial.
- Qualquer outra pessoa estaria contando para o mundo todo que fazia o trabalho - Davis disse, saindo da sala mediterrnea. - Deveria sentir-se orgulhosa. Est fazendo 
o trabalho sem Grace e est fazendo bem.
- No sei dizer.
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- Recebeu alguma reclamao?
- No.
- Isso no lhe diz alguma coisa?
- No sei. O que diz para voc?
- Voc sabe. Ela sorriu.
- Sei, mas gosto de ouvir voc dizer.  por isso que passo tanto tempo com voc, Davis. Voc faz bem para meu ego.
Estavam em uma sala de exposio de mveis com estilo safri, que apresentava um leito nupcial todo envolvido em cortinados de filo. Enquanto os outros acessrios 
falavam de aventura, a cama era pura fantasia.
- Case-se comigo, Francine.
Ela perdeu o flego e olhou-o espantada. Ele sorriu.
- O gato comeu a sua lngua?
- No. Quer dizer, o gato no. Estou chocada.
- No sei por que deveria estar. - Passou umrao pelo ombro dela e saram da sala. - Vivo dizendo que amo voc.
- No calor da paixo.
- E da? Existe entre ns uma qumica suficiente para faz-la voltar procurando mais. No preciso jurar amor para t-la de novo. Mas juro assim mesmo. Isso no lhe 
diz nada?
Ela inclinou a cabea para que o lado de seu rosto se recostasse sobre o pulso dele.
- Oh, Davis.
- Que quer dizer "Oh, Davis"?
- J falamos sobre isso antes.
- Nunca lhe pedi para casar-se comigo antes.
- Mas eu j disse que no sirvo para voc. No posso dar-lhe o que precisa.
- Pois eu acho que j est me dando.
- Bebs. Sou velha demais.
- ? - ele perguntou inspirando profundamente. - Pois eu acho que talvez no seja. Vamos experimentar?
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O olhar de Francine subiu para o rosto de Davis. Seus traos diablicos continuavam no mesmo lugar - a cicatriz, os olhos escuros, os cabelos eriados, a sombra 
da barba, mas a boca era reta e ela no via seu sorriso torto.
- Voc est falando srio.
- Pode apostar.
- Experimentar?
- Fazer amor sem camisinha.
Francine percebeu os olhares de duas mulheres jovens.
- Est bem, - disse quando as duas passaram, para que ouvissem - vou fazer com que ele seja testado.  melhor estar segura do que se arrepender.
Mas ela no pensava em segurana. Pensava no trabalho sem fim que um beb representava, o choro, as fraldas, os vmitos, o carinho, a brincadeira, a alegria...
- Eu serei testado, se quiser - Davis disse. Francine falou, entre risadinhas:
- Pelo que me lembro, ns negamos esse lado na primeira vez em que fomos para a cama. Voc no usou nada naquela vez.
- Era a primeira vez em que eu no usava em anos.
- E era a primeira vez que eu usava h anos, isso quer dizer que estamos seguros.
Entraram em uma cozinha. Era em estilo americano antigo, colorida, completamente prtica.
- Vou levar aquelas panelas - Davis disse.
- As panelas no esto  venda, s a mesa e as cadeiras, mas voc j tem mesa e cadeiras.
- Elas so de cobre?
- Eles no vo vender as panelas.
- Gosto desta cozinha.  to aconchegante.
Francine ficou imaginando de onde ele teria vindo e querendo adivinhar tudo o que no tem em criana. J pensara antes e pensava novamente agora que pai maravilhoso 
ele seria.
- Ento, o que me diz? - ele perguntou de um modo aparentemente descuidado, que Francine sabia no ser absolutamente negligente.
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- Digo que podem existir alguns problemas bem grandes.
- Por exemplo?
- O mal de Alzheimer. E se eu tiver?  justo ter um filho agora, sabendo que posso estar doente quando ele se formar no ginsio?
- Voc pode morrer em cinco anos de alguma coisa totalmente diferente, mas no pode deixar de viver por causa desse medo. Pense em tudo o que poderia dar para uma 
criana antes disso.
- Mas minha vida est em completa desordem.
- Que desordem? Sua me est doente, por isso voc est ocupando o lugar dela no trabalho e est se saindo muito bem. Est no controle de tudo.
- Mas criar um beb...
- Voc no far isso sozinha. Criar o beb comigo. Farei a minha parte. E se no ficar grvida...
- Ficarei muito triste. Nunca me perdoaria porque voc quer tanto um filho.
- Mas quero voc mais.
-Voc diz isso agora, mas daqui a dez anos, se n houver uma criana, pensar diferente.
- Poderamos fazer tratamentos de fertilidade, fertilizao in vitro, inseminao artificial, ou poderamos adotar uma, mas no  esse o ponto. Voc me ama?
Ela suspirou.
- Muito.
- Voc quer um beb?
- Adoro bebs.
- Voc quer os meus?
Francine suspirou profunda e dolorosamente, e de repente todas as preocupaes do mundo pareciam bobagens.
- Quero muito.
Ele sorriu. Depois, tomou-a pela mo e saiu num passo rpido.
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- Mas voc no ficou com nada, Davis - ela protestou, enquanto atravessavam sala aps sala.
- Ah, fiquei sim.
A cama estava forrada de amarelo, as fronhas eram verde-escuras e brancas. Ambos se deixaram cair sobre lenis de percal branqussimo, macios e perfumados. Uma 
cmoda antiga os presenciava, assim como os quadros da parede e um buqu de lavanda, e se os arabescos de cobre atrs de suas cabeas tinham uma mensagem eles no 
a compreenderam.
A hospedaria era elegante e cara, e o quarto estava vazio somente porque estavam no meio da semana. Davis permitira que Francine desse um telefonema no caminho, 
para dar a Sophie o nmero de seu bip. No tinham roupas extras. Mas elas no eram necessrias. Por consentimento mtuo, dormiram pouco.
Grace estava assustada. Sentia falta de alguma coisa, mas no sabia de qu. Sentou-se na beira da cama, tentando ignorar as vozes na saleta, e esperou que viessem 
socorr-la, mas ningum apareceu.
As vozes elevaram-se. Ela passou da cama para a cadeira e depois arrastou-se at a parede. Dali, esticou a mo e pegou o telefone.
- Onde voc est? - murmurou baixinho, mas a nica coisa que ouvia era um zumbido.
Largou o fone, abraou seu estmago e olhou para fora, mas no conseguia ver nada no escuro.
Faltava alguma coisa. Palavras, pensamentos, ajuda.
Silenciosa e furtivamente, caminhou encostada na parede at a porta. Sabia que eles estavam l fora, mas no tinha outra escolha. No poderia permanecer ali sozinha 
a noite inteira.
Abrindo ligeiramente a porta, espiou pela nesga. Observou-os atentamente, escolheu um momento em que estavam perdidos em uma discusso entre si, ento passou rapidamente 
pela abertura e saiu correndo at a outra porta no outro lado da
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saleta. Seus ps nus no fizeram o menor rudo, mas eles devem ter ouvido o farfalhar de sua camisola, porque giraram as cabeas. Correu pelo corredor e bateu a 
porta, fechando-a com todo o cuidado para ter certeza de que estava trancada.
Eles estavam loucos. Podia ouvi-los rindo estridentemente. Temendo que desta vez pudessem vir atrs dela, desceu as escadas ainda correndo. Alguma coisa estava faltando. 
Algum.
Tinha que encontrar socorro, mas no sabia para que lado, no havia sinais, nem placas. Ento, correu alguns passos, colou-se  parede, correu mais alguns passos. 
Correu para um quarto, mas no havia ningum l, nenhuma ajuda. Correu para outro. Foi pior. Estava completamente escuro.
Tudo estava daquele jeito, se no totalmente escuro, cheio de sombras. Formas escuras escondiam-se nos cantos tirando seu flego, fazendo com que tivesse que correr, 
olhando por cima do ombro. Estavam atrs dela, ouvia sua conversa zangada. Tinha que continuar correndo, tinha que encontrar algum que a fizesse sentir-se salva.
Virou-se para outro quarto, depois para outro do lado, to certa de que nele encontraria a ajuda de que precisava que fechou a porta e trancou-a com a chave. Voltou-se 
e encontrou um pequeno abajur brilhando sobre uma mesa, olhou ao redor em uma expectativa esperanosa, somente para ver - engoliu em seco e colou-se  parede aterrorizada 
- um cachorro!
Estava acabada! Com toda certeza no conseguiria passar por ele desta vez! Estava to perto, era to grande, to louco!
Cambaleando, pressionou o peito com uma das mos, para acalmar as batidas violentas de seu corao. Pensou em abrir a porta e fugir. Mas eles estavam l fora, podia 
ouvi-los nitidamente, e, alm disso, o cachorro a estraalharia, arrancando membro por membro, se ela tentasse sair. Cachorros presos, cachorros sujos, cachorros 
espumando pela boca eram acorrentados por bons motivos, sua me sempre dissera.
E o fato mais assustador seria aquele co no estar acorrentado.
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Mas... ele no estava. Nem espumava pela boca. Nem parecia sujo, e ela podia ter certeza disso porque seu plo era muito curto. Aquele cachorro no era monstruoso. 
Era magro e possua uma forma estranha. No estava rosnando. No parecia prestes a atacar.
Estranho, mas ele fazia a mesma espcie de som lamuriento que ela. Perguntou-se se tambm estaria com medo.
- Cachorrinho - disse, com voz trmula. - Cachorrinho bonzinho. Muito bonzinho. - Como suas pernas tambm estivessem trmulas, ela escorregou pela parede at o cho.
O cachorro baixou a cabea. Com os olhos fixos nela, deu um passo para a frente. Ela engoliu em seco. Ele parou e ganiu.
- Cachorrinho, cachorrinho, cachorrinho - ela sussurrava. Ele sacudiu sua cauda curta e baixou a cabea novamente. Ela no achava que ele parecesse assustador naquela 
posio. Reparou que parecia triste. Talvez fosse solitrio.
Desta vez, quando ele deu um passo para a frente, ela prendeu o flego. No pensou que ele fosse atac-la, e de qualquer maneira no poderia ir mesmo para lugar 
algum. Parada, encolheu tudo o que pendia - mos, cotovelos, joelhos, artelhos.
Quando ela se moveu, o cachorro parou e aguardou. Ficou colada  parede o mais que podia. O co avanou. Quando chegou juntnho dela, sentou-se, com a cabea no 
nvel da dela.
- Cachorro bonzinho, cachorro bonzinho.
Grace tinha que fazer com que o cachorro soubesse que ela no era a inimiga, e sim os outros l fora, tagarelando. Ento, esticou a mo trmula. O cachorro cheirou-a. 
Ao primeiro toque de sua lngua, recolheu a mo novamente para o peito. O cachorro simplesmente observava. No rosnava, no mostrava os dentes. E no estava sujo, 
podia ver agora claramente, mais de perto. Nem, apesar do que sua me sempre, sempre dissera, cheirava mal.
Enquanto observava, dividida entre o alvio e o terror, o cachorro deitou-se no cho, junto da bainha de sua camisola, que ia at os ps, e colocou o focinho entre 
as patas. De tempos em tempos, levantava os olhos para ela.
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Abriu lentamente o punho que se encontrava fechado junto ao peito. Baixou a mo e tocou sua cabea, pensando sempre: cachorro bonzinho, cachorro bonzinho. Sua cabea 
era ossuda, mas macia e sedosa. E quente.
O cachorro fez um rudo. Desta vez, no era un gemido, mas um som doce. Ela esfregou o topo de sua cabea. Quando ele no atacou nem se afastou, ela acariciou com 
mais fora.
Era realmente um bom cachorro. Acarici-lo era gostoso, todo sedoso e macio. Parecia gostar do que ela fazia. Sua me tambm estava errada nisso.
Lentamente, foi relaxando. O calor do animal acalmou-a. F-la sentir-se menos sozinha, quase contente na noite silenciosa.
S ento, pensando naquele silncio, percebeu que o barulho do lado de fora da porta desaparecera. Escutou atentamente. Era verdade. Ou tinham desistido de encontr-la 
e partiram ou ficaram assustados demais com o cachorro para ficar.
Quando sua tenso diminuiu e seus membros deixaram de ficar enrijecidos, seus ps escaparam por baixo da camisola. Momentos depois, o cachorro cobriu-os com seu 
queixo, aquecendo-os.
Vinte e um

As lembranas dolorosas so como os ns em uma pea de pinho. Mesmo sendo lixados e amaciados nunca desaparecem para sempre e por um bom motivo: acrescentam carter 
 obra terminada.
Grace Dorian, em A Confidente
Robin digitou em seu computador at tarde da noite. Estava to envolvida em seu trabalho que no ouviu nada, at que uma voz tocou seu ouvido.
- Mame? Virou-se rapidamente.
- Megan! Megan, voc me assustou! - Olhou para o relgio. Quase uma hora. - O que est fazendo acordada at to tarde?
- Precisei ir ao banheiro. - Sua voz estava sonolenta os olhos espremidos contra a luz. Parecia sem defesa, para variar. - Como vai o livro?
Robin pressionou a tecla Salvar. No tinha o menor desejo de perder o que escrevera. Estava muito bom.
- Vai indo bem.
- Voc est gostando?
- Estou, sim.
- Quando vai acabar?
- Com um pouco de sorte? Em maio.
- Em tempo para a formatura de Brad. E depois?
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- Profissionalmente? No sei. Ainda no pensei. Megan reclinou em seu brao, que estava pousado no brao da cadeira. Parecia muito jovem com o rosto nu, os cabelos 
espetados e a camiseta enorme escondendo as curvas surgidas h pouCo tempo. Robin amava a menininha inocente que ela fora. No apreciava muito aquela adolescente 
malcriada que estava sempre provocando o irmo, mas havia uma mulher crescendo dentro dela. Robin desejava ter com aquela mulher o mesmo tipo de relacionamento que 
Francine tinha com Sophie, ou mesmo que Grace tivera com Francine. Com todas as diferenas, elas eram muito prximas. Talvez Grace tivesse feito alguma coisa certa.
- Algumas sugestes? - perguntou para Megan. Megan sacudiu o ombro.
- Voc vai ganhar muito dinheiro. Acho que podia tirar uns meses de frias.
- Durante o vero?
- No outono. Quando Brad for embora. Nunca tive voc sozinha. Ele teve, antes de eu nascer. Quero a minha vez.
Robin surpreendeu-se ao lembrar que Brad estava to crscido que em breve faria as malas e iria para a universidade. Para onde fora o tempo? Ela correra tanto  
sua margem.
No que a ausncia dele no fosse trazer uma certa paz  casa e, sim, tambm um tempo s com Megan.
- Gostei da idia - disse, passando o brao em torno da cintura da filha.
- Eu tambm. Vamos deixar o chato do Brad encher outro. Puxa. Vai ser estranho.
- Acho que voc vai sentir saudade dele.
- No vou nada.
- Com quem vai brigar?
- Eu no sei. - Deu um meio sorriso sonolento. - Talvez a gente possa brigar pelo telefone.
- E eu vou ter que trabalhar para pagar a conta.
- Mas voc vai ter todo o dinheiro do livro, que vai continuar entrando. Voc vai participar de programas de entrevistas, essa coisa toda?
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- Talvez. A publicidade aumenta as vendas.
- Quer escrever mais livros?
- Gostaria. O que voc acha? A filha mordeu o lbio.
- Acho que gosto mais de voc escrevendo livros do que ficando todo aquele tempo fora por causa do jornal. Gosto que voc escreva A Confidente.
A vida realmente estava mais fcil agora, Robin refletiu. Mesmo deixando de lado as horas normais e a estabilidade financeira, havia aquela pequena emoo que sentia 
todas as vezes que entrava na propriedade das Dorian, cada vez que entrava no escritrio de Grace como se seu lugar fosse l, cada vez que conversava com Grace. 
Em seu estado debilitado atual, a mulher era mais humana. Era simptica. Apesar de ter ficado s com uma sombra do carisma que possua antigamente, continuava sendo 
ela. A Confidente poderia viver para sempre.
- No escrevo A Confidente - Robin disse. -  a Francine.
- Ela  sua amiga.
- Ela  minha chefe.
- Vocs saem para almoar juntas. Fazem compras juntas. Francine pode fazer a maior parte da coluna, mas voc ajuda.  sobre isso que voc fala sempre que volta 
para casa.
- Falo mesmo?
Megan concordou.
Todas as noites, Robin lembrava-se vividamente de sua me falando sobre A Confidente. A coisa que menos desejaria no mundo era ver a histria repetindo-se.
- Isso  horrvel?
- No. Eu gosto.  brbaro ler o jornal e saber que a minha prpria me ajudou a escrever aquilo.
- E o que me diz de todos os outros artigos que j escrevi?
- Eram s artigos. Agora  A Confidente. Minhas amigas lem o tempo todo. Eu conto para elas que sei sobre as colunas antes do jornal. Elas ficam to invejosas. 
Voc  uma celebridade. No me importaria nada se continuasse fazendo isso.
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Robin pensou que tambm no se importaria. No que fosse provvel. Ela s participava de A Confidente agora, porque escrevia o livro de Grace - e estava fazendo 
um timo trabalho, diria, se pudesse deixar a modstia de lado. Sua me teria ficado to orgulhosa. Mas tambm possivelmente no. Encontraria alguma coisa para criticar. 
Nunca ficava satisfeita por muito tempo. A perfeio era a sua nica meta na vida.
Sua me deveria ver Grace agora. No havia mais a perfeio. Entre Francine, Sophie, Robin, Jane, Marny Margaret e, naturalmente, o Padre Jim O'Neill, raramente 
ficava sozinha. Mas estava sozinha. A conversa poderia rode-la, atravessar sua cabea, enquanto ela estava a quilmetros de distncia em seu prprio no-mundo, 
parecendo solitria, assustada ou perdida. Naqueles momentos, Robin realmente sentia pena dela.
Mas no o suficiente para esquecer seus objetivos. Eles estavam presentes em sua mente quando chegou ao trabalho na manh seguinte. Grace tomava seu desjejum na 
cozinha. Quando Robin se juntou a ela, Margaret foi arrumar as camas.
- Como est esta manh?
- tima - Grace disse alegremente. Conhecia Robin agora, apesar de nem sempre lembrar seu nome. - Como voc est?
- tima, tambm. Mas fiquei acordada at tarde, tentando juntar os fatos para o livro. Ainda no consegui encontrar a cidade onde voc nasceu. Qual era o nome dela?
Grace franziu a testa.
- A cidade onde voc nasceu - Robin insistiu, delicadamente.
- Isso foi h muito tempo.
- Foi em New Hampshire?
- No vamos ao norte.
-  porque voc no quer voltar l? Grace considerou a pergunta.
- Meu Deus - foi tudo o que disse. Ento, Robin tentou por um ngulo diferente.
- Conheceu Margaret em Tyne Valley? - Quando Grace
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lhe lanou um olhar curioso, que poderia significar uma dzia de coisas, tentou: - Seus pais ainda esto l?
- Meus pais esto mortos.
- Suas irms?
- Irms?
- Seu irmo? - Quando Grace pareceu confusa, ajudou: - Hal.
- Mas Hal morreu.
- E Johnny? Ele ainda est em Tyne Valley?
- Por que ele estaria l?
- Talvez ele more l.
- Johnny? Meu Deus, no.
- Onde ele mora?
Grace pareceu preocupada.
- Por que pergunta?
Robin endireitou-se na cadeira.
- Estou tentando escrever sua biografia, mas no tenho esses dados mais antigos.
- Por que pergunta sempre?
Mais delicadamente - porque Grace parecia estar a ponto de chorar, o que, apesar de lamentar, fazia com que se sentisse horrvel - Robin disse:
- Porque seus leitores querem saber sobre o lugar onde voc cresceu e o que fez l.
- No vou dizer nada.
- Mas se quiser que comprem seu livro...
- Nada - Grace gritou e levantou-se.
- Eu nem sei qual era o seu nome naquela poca - Robin disse, mas Grace atravessou a porta e desapareceu.
Tendo sempre sido uma pessoa que gostava de carinhos, sentia ainda mais necessidade de contato fsico agora do que antes. Gostava de ser acariciada, de ser abraada. 
At mesmo o menor toque parecia acalm-la.
Portanto, naquele dia, Francine sentou-se com ela no banco do piano e tocaram juntas.
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- "Existe um caminho longo, muito longo a ser percorrido..." - Grace cantava, com sua voz suave de soprano.
Francine atrapalhou-se uma ou duas vezes, riu e recomeou.
- "... onde o rouxinol est cantando" - Grace continuou, reclinando-se sobre a filha, balanando - "e a lua branca brilha..." - continuou a cantar. Francine continuou 
a tocar, e as duas balanavam juntas at o final da msica. - "... at o dia em que percorrerei aquele caminho longo, muito longo junto com voc.
Francine teria comeado a gritar se tivesse demorado mais naquelas palavras, mas Grace parecia completamente feliz.
- Muito bem. Voc  uma tima pianista.
- Obrigada. E voc  uma tima cantora. Essa cano  linda.
- Era muito popular quando eu era pequena.
- Mas naquela poca voc ainda no era Grace. Grace sorriu para a filha de maneira estranha.
- Como?
- Qual era o seu nome quando voc era pequena?
- Quando eu era pequena?
- Acho que no era Grace. Pode ter sido Doris. Ou Kathleen.
Grace no disse uma palavra.
- Estou ficando quente? - Francine brincou.
- Onde voc estava?
- Quando?
Grace agitou sua mo livre sobre o ombro.
- Ontem  noite? - Francine perguntou, e pela primeira vez nem pensou em esconder-se. Raramente passava cinco minutos sem pensar em Davis e no que queriam fazer. 
Estava apaixonada. Queria a aprovao de Grace. Mas isso poderia ser pedir demais. Mas no conseguia parar de tentar.
- Estava com Davis - respondeu.
- Davis?
- Marcoux.
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- Todas as noites. Isso  todas as noites. Voc no fica mais em casa. Est sempre saindo correndo. No sei aonde voc vai, Mas isso no  bom.
As palavras eram to absurdas, a voz tomava um tom to oposto ao da doce cantora que Grace fora momentos antes, que Francine teve um pensamento.
-  o que sua me costumava dizer?
- Todas as noites. E voc est com ele. Eu sei que est.
- Quem  ele?
- Ora, ora, voc disse seu nome.
- No do meu namorado. Do seu namorado. Quem era ele? Grace olhou para a porta com um ar de esperana no rosto.
Jim est a?
- Ele ainda no vai chegar. Mas pense, Grace. No no Padre Jim. No seu namorado de antigamente.
Grace pensou. E pensou. Doce, quase carinhosa, disse:
- Seu pai era o meu namorado.
- Qual era o nome dele?
- Diga voc - Grace disse.
- Johnny.
- John.
- Antes de John Dorian. Johnny. Quem era ele? Grace pareceu confusa.
Francine acariciou seu brao, do pulso ao ombro, suave e amorosamente.
-  importante, mame. Eu quero uma famlia. Se ainda tenho parentes, preciso saber.
- A famlia dele no gostava de mim. Eu lhe disse isso? Diziam que eu no era nada. Partiram quando eu cheguei.
Isso parecia mesmo com os Dorian.
- Por que pensavam que voc no era nada?
- No tinha dinheiro. - Sorriu provocativamente. - Mas eu mostrei a eles.
Francine no pde deixar de rir.
- Mostrou mesmo. E quanto  sua outra famlia? Existe alguma famlia sua em Tyne Valley?
O sorriso de Grace desapareceu e ela gemeu.
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- Preciso de um ponto de partida. Qual era o seu nome?
- No me pergunte isso. J estou cansada dessa histria. - Comeou a levantar-se, mas Francine segurou-a pelo brao.
- Eu j conheci algum da sua famlia?
- No me pergunte isso. Est tentando me confundir. - Soltou um gemido e sacudiu a cabea. Sentou-se novamente no banco do piano e lanou um olhar temeroso para 
a porta. - Eles esto atrs de mim, voc sabe. Recebi telefonemas do presidente e do vice-presidente. Eles disseram que estou sendo protegida, mas sei como esses 
compls funcionam. Sempre existe algum que consegue furar o cerco. Trata-se de uma grande conspirao. De Dallas.
- No, no, mame, no existe nenhuma conspirao. Grace permaneceu insegura por mais um minuto.
- No?
- No. Sou s eu. Francine, sua filha, que est querendo saber mais sobre a minha origem. - Porque talvez eu tenha outro filho. Outro filho. Inacreditvel. - Preciso 
saber, mame.
Grace colocou a mo sobre o peito.
- Meu Deus. No posso.
- Algum em nossa famlia tinha diabete. Sabe quem era? Grace pensou um pouco.
- No ... no ...? - Apontou para a outra sala.
- Sophie, sim, mas algum em uma gerao anterior tambm deve ter tido. Talvez uma de suas irms?
Grace retirou o brao.
- Preciso ir.
- Aonde?
Grace comeou a puxar sua prpria blusa.
- Esta... esta coisa no presta. Pensei que fosse boa. Mas no tenho feito compras. Preciso mudar de roupa.
Quando ela se levantou desta vez, Francine deixou-a ir.
- Muito bem, Grace - Robin disse. - Vamos fazer um jogo da memria. - Valia a pena fazer mais uma tentativa, j que mais
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nada parecia funcionar. - Vou dizer um apelido e voc diz o nome verdadeiro correspondente. Diga o primeiro em que pensar. Grace recostou-se nas costas da cadeira 
de sua escrivaninha e cruzou as mos no colo.
- Por qu?
- Talvez voc se lembre de alguma coisa se fizermos dessa maneira.
Grace ficou preocupada.
- No sou muito boa para lembrar. Antigamente eu era. Agora, no. Nem posso fazer mais meu trabalho. E h tanta coisa.
-  por isso que estou aqui - Robin acalmou-a. - Estou ajudando-a a fazer seu trabalho. -Mas o tempo encurtava cada vez mais. No poderia incluir qualquer coisa 
que no fosse confirmada, e no encontrara nenhuma pista em Tyne Valley; alm do mais Grace tinha razo sobre sua memria, que cada vez ficava pior. - Quando digo 
"Sparrow", qual  a primeira coisa que vem  sua mente?
- Por que todos fazem tantas perguntas?
- Sou sua bigrafa. Minha funo  fazer perguntas. Quem  Sparrow?
- Conheo Sparrow.
- Qual seu nome verdadeiro? Grace pensou.
- No sei. S o chamvamos assim.
- Como os pais dele o chamavam?
- Os pais dele? Meu Deus.
- Quais eram os nomes deles? Grace afastou a pergunta.
- Ento, Scutch - Robin tentou. Grace ficou tensa.
- Como conheceu Scutch?
- No conheo, mas voc diz muito esse nome.
- Digo? - perguntou e ficou pensando no assunto.
- Scutch era outro amigo. Qual era seu verdadeiro nome?
- Eu falo sobre Scutch?
- Qual era o sobrenome dele?
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- Eu no faria isso - murmurou para si mesma
- O que me diz de Wolf?
A cabea de Grace levantou-se rapidamente.
- Eu no disse nada. Nada.
- Eu sei, - Robin acalmou-a - mas se tivesse um amigo chamado Wolf qual seria seu nome verdadeiro?
Grace virou-se na cadeira at ficar de frente para o outro brao.
- Eu no disse nada. - Sacudiu a cabea e engoliu em seco. - Eu, no.
Robin tocou seu ombro, que parecia to frgil.
- Ningum a est acusando, Grace. Estou perguntando, s isso.
Grace recolheu-se.
- Eu disse isso? No lembro. No. No disse. Eu no disse!
Robin queria acreditar que Grace estivesse sendo deliberadamente evasiva, mas no tinha certeza. Ela parecia assustada, como se os segredos que guardasse fossem 
to dolorosos para ela quanto para os outros.
Subitamente, Robin decidiu parar de atorment-la como se cutucasse um pssaro ferido com uma vara e convidou:
- Quer tomar uma xcara de ch?
Grace permaneceu encolhida de lado na cadeira. Robin resolveu tornar o convite mais tentador.
- Um ch quentinho, talvez com bolinhos? Margaret estava colocando um tabuleiro no forno. Se quiser, eu pego um para voc. Ch com bolinho, Grace?
Grace suspirou profunda e dolorosamente. Lanou um olhar esperanoso para Robin. Apesar de desanimada, Robin, desejando confort-la, dirigiu-se para a cozinha.
A me de Robin morrera rapidamente, seis meses depois do diagnstico, mas de um ataque cardaco e no do cncer que a consumia lentamente. Robin visitara-a uma vez, 
no incio daqueles seis meses, uma visita rpida que fora to vazia quanto as melhores de suas discusses mais recentes. Robin no a levara a nenhuma das consultas 
mdicas, no lhe comprara
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uma nica camisola ou lhe fizera um nico jantar. E subitamente ela partira e era tarde demais.
Robin sentia que a vida lhe dera uma segunda chance de provar que era um ser humano na pessoa de Grace. Com o passar dos dias, cada vez pensava menos em criar manchetes 
e mais em escrever o melhor livro que pudesse.
Grace virou o rosto para o sol. Antigamente, preocupava-se com os efeitos dele sobre seus cabelos e sua pele, mas esquecera tudo isso. Reagia agora somente s sensaes.
Francine deitou-se em uma espreguiadeira a seu lado. Se estivessem em maio, o calor sob o vidro do solrio as obrigaria abrir as janelas e ligar o ventilador. Mas 
era o incio de maro. O mundo alm do vidro era cristalino, depois de uma noite de chuva gelada. O sol brilhava alegremente.
Conhecedora das boas coisas da vida, Legs seguira-as e estava deitada aos ps da cadeira de Grace, onde no seria vista, a menos que ela se inclinasse para olhar. 
Mesmo assim, no seria um grande problema. Grace parecia ter esquecido seu medo de cachorros.
- Confortvel? - Francine perguntou. Grace no respondeu, mas parecia feliz.
- Tenho repassado a lista das organizaes para as quais voc d dinheiro. O Comit de Embelezamento de Tyne Valley  uma delas. No sabia que voc conhecia aquele 
lugar. - Esperou, mas Grace parecia nem perceber que uma resposta era esperada. Ento, Francine perguntou diretamente. - Voc foi alguma vez a Tyne Valley?
- No vamos para o norte. No gosto do frio.
- Voc tambm faz donativos para as mes da Estrela Dourada. Conheceu rapazes que morreram na guerra?
- Na guerra?
- A guerra da Coria.
Grace deveria estar no curso superior na poca. Mesmo que no se tivesse formado, - uma possibilidade surpreendente,
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Francine percebeu - teria conhecido rapazes que morreram na guerra.
Grace estremeceu, mas continuou quieta, de olhos fechados, com o rosto virado para o sol.
- Voc teve amigos que morreram na guerra da Coria? - Francine repetiu.
- No sei o que aconteceu depois que sa.
- Depois que saiu de onde?
- Do ginsio.
- Que ginsio?
- Ns sempre imaginvamos o que aconteceria.
- A quem?
- A todos. Ento, eu sa. - Encolheu os ombros, como se aquilo fosse tudo.
Francine partiu para outro ponto.
- Voc d dinheiro todos os anos para a biblioteca pblica de Tyne Valley.
- Uma biblioteca  uma coisa boa. Eu costumava freqentar. - Encolheu os ombros novamente.
- Onde ficava a biblioteca que voc costumava freqentar?
- Ora essa, na cidade.
- Mas em que lugar? Lembra do que ficava ao lado dela? - Havia uma loja de doces de um lado da biblioteca de Tyne Valley, Sophie dissera, mas se Grace dissesse alguma 
coisa diferente isso poderia lev-las a outra cidade.
- Usvamos a porta lateral.
- Onde ficava a porta lateral? Quer dizer, o que havia do lado dela?
Grace lanou-lhe um olhar que parecia querer significar: "Do que est falando?"
Sua expresso era to lcida e a necessidade de Francine to forte que esta se mudou para a cadeira de sua me e segurou-a pelos ombros.
- Diga-me, mame, - implorou, antes que o momento de lucidez terminasse - onde ficava essa biblioteca?
Grace ficou repentinamente surpresa.
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- Por favor. Onde era? Nada.
- Voc sabe. Eu sei que voc sabe. Onde voc nasceu? New Hampshire? Vermont? Canad? - Francine sacudiu-a levemente. - Est tudo a, dentro de sua cabea.
- No - Grace disse.
- Est. Assim como seu nome. Seria a ltima coisa a desaparecer. Seu nome. Voc no poderia t-lo esquecido.
- Grace.
- Antes de Grace. Pense. Pense no homem que amou, aquele a quem amou o suficiente para carregar seu filho e deixar que outro homem o criasse como se fosse seu. Quem 
era ele? Quem foi meu pai?
Grace encolheu-se toda.
- No fique zangada. Nunca fiz nada para voc.
- Voc mentiu. Todos esses anos me fez acreditar em uma coisa que no era verdade. - E agora havia Davis e um possvel beb entre eles. Francine atualmente pensava 
em genes como nunca pensara antes de ter Sophie.
- No conte para eles - Grace disse.
- Conte para mim e eu no terei que contar para eles.
- Ns devamos estar em casa. Se eles soubessem... se soubessem...
Francine acariciou a me com dedos mais gentis.
- Se eles soubessem, o que fariam?
- Oh, meu Deus - Grace falou quase que em um grito. - No pergunte.
- O que eles fariam?
- Gritar. Bater. Cozinhar. Limpar. Correr. Correr. Partir.
- Foi o que voc fez? Voc partiu, quando eles bateram em voc?
O que quer que fosse que existia na mente de Grace desapareceu em um momento.
- O qu? - perguntou, com um olhar que no denotava nada mais que a simples curiosidade.
- Voc saiu de casa porque algum bateu em voc?
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Grace no respondeu. At sua curiosidade estava desaparecendo.
- Foi por isso que fundou um lar para mulheres maltratadas?
- Mulheres maltratadas. Escreva para elas, por mim.
- Escreva para quem? - Francine gritou.
- Minha coluna. As pessoas no sabem o que fazer. Respondi quela carta?
Francine no fazia a menor idia de que carta sua me falava e duvidava que ela tambm fizesse. As palavras pareciam mais um reflexo do que qualquer outra coisa 
e eram acompanhadas por um olhar vazio. O momento de lucidez desaparecera.
- Sim, acho que sim, - Francine respondeu com tristeza.
- Isso  bom - Grace disse e, cantarolando, encostou novamente a cabea na cadeira e fechou os olhos.
Antes daquela poca, Francine via Grace como sua adversria, a esperta monopolizadora das informaes de que ela necessitava. Em seu desejo de obt-las, nunca pensara 
muito sobre seu contedo. Agora, pela primeira vez, perguntava-se se Grace fora uma vtima.
Assaltada por aquela imagem, passou mais tempo do que nunca examinando o pacote que o correio trouxera de Nova York.
"Querida Grace", uma mulher escrevia, "H seis meses conheci um homem que parecia ser a resposta s minhas preces. Era bonito e tinha um bom trabalho. Dizia que 
me amava. Chegou at a pagar para ter um grande casamento. Depois ele mudou. Comeou a queixar-se de tudo o que eu fazia. Uma noite dessas, ele no gostou do jantar 
que eu fizera e me bateu..."
"Querida Grace", outra escrevia, "Meu namorado foi despedido no ms passado e est descontando em mim. Ele me chuta sempre que passa por mim. Quando peo para no 
fazer isso, ele diz que s est chutando a cadeira porque est zangado. Mas so minhas pernas que esto todas pretas e azuis. Ele diz que se eu contar para algum 
ele far mais do que chutar..."
"Querida Grace", uma terceira escrevia, "J no tenho mais
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desculpas. J ca das escadas, bati em paredes e escorreguei no chuveiro tantas vezes que os mdicos comeam a fazer perguntas. Entende o que estou dizendo? Mas 
se eu deixar meu marido perderei tudo.  ele quem tem uma profisso. Os cartes de crdito, os carros e a casa esto em seu nome. Tive um problema com drogas h 
uns anos, mas j estou curada, ele diz que no estou. Ele mantm o poder."
Escreva para elas por mim, Grace dissera. E Francine obedeceu.
Vocs no esto sozinhas. A violncia contra mulheres alcanou propores epidmicas. As estatsticas do FBI dizem que, a cada quinze segundos, uma mulher apanha 
do homem de sua vida. Ela nem pediu por isso nem o merece. Assim como nenhuma de vocs.
Enquanto a violncia contra as mulheres pretende ser uma demonstrao de poder, o abuso que  cometido contra vocs no significa que no tenham poder. Vocs tm. 
Tm o poder de sair. Podem no querer. Podem ter medo, ou vergonha ou orgulho demais. Podem estar apaixonadas por seus homens. Mas o amor vale a dor e a degradao 
do que ele faz contra vocs?
Existem muitos motivos para um homem bater em uma mulher, que geralmente so muito mais profundos do que as frustraes por ter perdido um emprego ou uma refeio 
da qual ele no gostou. Se ele se recusar, sugiro que procurem um conselheiro matrimonial juntos. Se ele continuar se recusando, procure um advogado. D queixa na 
polcia. Pea uma ordem de priso no tribunal.
Mas, seja o que for que faa, aja agora. Uma nica surra deve alert-la do potencial de seu homem. No espere a segunda surra. Lembre-se de outra estatstica: quase 
um tero de todas as mulheres vtimas de homicdio so mortas por maridos ou namorados.
Verifique em sua lista telefnica local os nmeros dos abrigos das Mulheres Maltratadas e suas linhas diretas. Acrescento vrios nmeros abaixo. Use-os. Por favor.
Francine gostou da coluna. Era mais audaciosa do que outras que escrevera, mas estava sentindo-se corajosa. No
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parava de pensar no que Davis lhe dissera sobre o fato de estar agindo bem. A confiana dele dava-lhe confiana. E no poderia escolher uma causa melhor para us-la.
Foi a coluna mais lida da semana seguinte. Francine leu-a para Grace de manh bem cedo, quando ela estava mais fresca e mais apta para absorver as coisas. Ela ouviu 
e concordou, mas disse "Est parecendo bom" de uma maneira que sugeria que no compreendera tudo.
- Nunca fomos to diretas - Francine disse - mas isso reflete o nosso presente da maneira mais clara. As mulheres agredidas tm que dar o fora. Voc no acha?
Grace concordou.
- Isto  - Francine acrescentou, aproveitando a chance de a me no ter compreendido - sei que, s vezes,  mais fcil falar do que fazer, principalmente quando 
existem filhos, mas  uma das formas de acabar com a agresso.
Grace concordou novamente.
- Como quando voc saiu de casa - Francine disse cuidadosamente, temendo distrair Grace do assunto imediato, que era ser elogiada por ela, e por isso acrescentou: 
- Tony adoou.
Grace sorriu. Francine teve a sensao horrvel de que sua me no se lembrava de quem era Tony, mas que tivera vergonha de perguntar. Mesmo j tendo perdido tanto 
de si mesma, Grace ocasionalmente ainda tinha os recursos para esconder a extenso dessa perda.
Francine suspirou.
- Quero que voc sinta orgulho do que estou fazendo. Grace concordou.
- Voc tem?
Grace franziu a testa.
- O qu?
Francine suspirou novamente, deu um abrao em Grace e saiu para o trabalho, dizendo-se que a coluna fora o mximo, que A Confidente estava no auge e que Grace com 
certeza teria aprovado, se ainda fosse ela mesma.
Nesse momento, Tony telefonou, desesperado.
Vinte e dois

Est muito bem relacionar a coragem com grandes projetos e ideais elevados. Mas freqentemente ela  o resultado do noconformismo e de um pensamento ambicioso.
- Grace Dorian, no talk Aow de Oprah
- Desta vez ela exagerou - Tony declarou. - Ela est afastando-se do seu estilo h meses, mas agora ela foi longe demais. Os telefones no param de tocar. Os patrocinadores 
dos ncleos familiares esto nervosos. Um momento de falta de controle e a mulher deve ir embora? Que tipo de conselho  esse?
- Conselho adequado - Francine respondeu, apesar de sentir um n formando-se na boca do estmago. - Aquelas cartas no falavam de falta de controle. Falavam de surras. 
Um homem que bate uma vez bater de novo, a menos que receba a mensagem de que bater  errado.
- Ento, fale com ele. No precisava mandar a mulher abandon-lo.
- Pelo amor de Deus, Tony, ento acha que aquelas mulheres no tentaram falar? No acha que ficar encolhida em um canto, tentando defender-se dos golpes, no  dizer 
alguma coisa?
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Mas isso no leva a nada. Homens desse tipo precisam levar um choque.
- Ah, pode ter certeza de que levaro um choque. Ficaro chocados o suficiente para fazer pior. Isso  o que as estatsticas mostram, sabia?
Francine sabia e isso assustava-a, mas no voltaria atrs. Tony continuou.
- Voc faz idia do que aconteceria se toda mulher que alguma vez apanhasse procurasse um abrigo? Os abrigos explodiriam.
- Isso mesmo, e as pessoas que negam que isso seja um problema teriam que admitir que .
- Sim, mas enquanto isso essas pessoas ameaaram boicotar os jornais que apresentam A Confidente.
Francine riu.
- Legal.
- Estou falando srio. Um boicote. Desta vez, ela no riu.
- Por causa de uma coluna?
- Essa coluna chegou s bancas no momento exato em que os extremistas desejam um projeto. Enquanto assuntos mais leves so publicados sem destaque, difamar maridos 
vai l no alto junto com aborto. No importa que outras pessoas tenham dito o mesmo que Grace, ela tem uma audincia que as outras no tm. Sua popularidade ser 
usada contra ela... contra ns. No gostamos de boicotes, Francine. E duvido que seus outros afiliados gostem.
Francine teve a viso sbita do trabalho do qual se orgulhava tanto destruindo A Confidente. Tentava compreender o horror daquela idia, quando Tony insistiu:
- Ser que Grace imaginou que alguma coisa desse tipo poderia acontecer? Seu pblico representa a mdia da Amrica. Ele quer solues moderadas para os problemas, 
no extremadas. Por Deus, se eu no soubesse, pensaria que voc escreveu a
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coluna. Mas afinal onde ela est? No falo com ela h meses. Se ela se recusa a sair de seu castelo, no admira que esteja remando contra a mar.
- Ela no est remando contra a mar - uma Francine irritada metralhou de volta. - E se estivesse, no haveria nenhum escndalo. O que assusta esses extremistas 
 que tantas mulheres possam concordar com sua coluna. E falemos um pouco sobre esse ncleo familiar que eles tanto adoram. De que ele adianta, se mulheres so agredidas 
pelos maridos? De que adianta se os filhos testemunham o dio, o desrespeito e o derramamento de sangue?
- Est perdendo seu tempo, meu bem - Tony disse cinicamente. - O ncleo familiar no  problema meu. Este jornal . Estamos neste negcio para ter lucro. Se formos 
boicotados, no haver lucro.
- E o que voc sugere? - Francine desafiou.
- Um pouco de humildade, talvez.
- Grace deveria desculpar-se por dizer a coisa certa? Pense um pouco, Tony. Se o ncleo familiar for mantido pelo medo, no vale um centavo.
- Muito eloqente. Esse  o seu ponto de vista ou o de Grace?
- O meu - Francine disse sem desculpar-se - e estou em posio de influenciar Grace neste aspecto, portanto  bom que voc saiba qual a minha importncia. No vamos 
recuar, Tony. No vamos publicar uma retratao. Algum tem que se levantar contra as injustias, e estou orgulhosa de que tenha sido A Confidente.
- E quando ela perder seu veculo?
- A coluna no perder seu veculo, vamos ser realistas.
- Est bem - ele disse, com um suspiro profundo. - Diga-me o que voc acha que Grace deva fazer.
- Quer saber o que penso? Vamos convencer a oposio. Penso que devemos dedicar uma semana inteira ao assunto das mulheres agredidas. Que os malvados ameacem com 
um boicote.
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Deixe-os fazerem isso no noticirio noturno. Que eles faam isso esta noite. - Ela riu e continuou. - Quanto mais cedo melhor, quanto mais alto melhor. As cartas 
de seus leitores comearo a jorrar. Publiquemos o que elas disserem.
- E se discordarem de Grace?
- J publicamos muitas cartas que discordavam de Grace.
- Grace admitir que estava errada?
- Acha necessrio?
- Se perdermos as vendas, pode ser. Subitamente, Francine percebeu uma coisa.
- Voc dizia que gostava dessa coluna. Voc saiu do seu caminho para dizer-me isso... ou aquela bobagem toda foi s para que ficssemos felizes?
- Voc parecia deprimida. Tentei anim-la.
- Por favor. - Seus instintos machistas tinham o ritmo de um batrquio. Pelo menos, no a convidava mais para sair. Francine jamais poderia imaginar ficar com Tony 
e muito menos ter um filho seu.
Davis era outra coisa.
- Voc no parece compreender o que est em jo go quando os negcios vo mal - Tony insistiu. - Ns dois podemos perder os empregos.
- Eu no. No tenho essa preocupao.
- Seja espertinha, boneca. Se acabarmos com sua coluna, onde pensa que estar?
- No Telegram - Francine disse calmamente. - E em todos os outros jornais que saltaro para apresentar a coluna de Grace, no tanto apesar do boicote, mas por causa 
dele. Os boicotes representam milhes de dlares de publicidade grtis. Pense um pouco. A Confidente estar em todos os cabealhos do pas. Time, Newsweek, People, 
as possibilidades so infinitas. O Telegram est louco para nos ter. Devo telefonar para eles?
- Pelo amor de Deus, no. George pediria minha cabea.
- Ento ter que nos apoiar, Tony. Porque posso afirmar-lhe
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que, se no nos apoiar neste caso, estamos prontas para sair alegremente.
- Voc disse isso a ele? - perguntou pelo viva-voz uma Amanda apavorada, para uma platia composta por Francine, Sophie e Robin.
- Disse - Francine confirmou. Estava com espasmos nervosos no estmago para comprovar, mas no iria recuar. - Grace foi leal com Tony e George, quando o jornal mudou 
de dono e estava perigando. Agora chegou a hora de retribuir. Alm disso, Tony est em pnico sem motivo. Os telefonemas que recebeu possivelmente foram dados por 
membros annimos de um grupo annimo, que no saberia como organizar um boicote, mesmo que quisessem. Estamos falando da ral.
- A ral pode fazer muito barulho - Amanda preveniu.
-  isso que os deixa assustados.
- E porque eles esto assustados temos que enfrent-los.
- Com cuidado.
- No existe lugar para o cuidado quando estamos tratando do abuso.
- No sabia que esse assunto mexia tanto com voc. Francine tambm no. Mas a coluna escrevera-se praticamente sozinha.
- Talvez tenha sido pela conversa que tive com Grace, ou por saber que ela financia um abrigo em Tyne Valley... - Ou olhar para Sophie, que fora violentada. Ou pensar 
em ter outro filho, que poderia ser vulnervel anos mais tarde. - Gostaria de fazer o que disse ao Tony. Vamos desafiar qualquer um que ouse boicotar nossos jornais. 
Vamos fazer uma semana das cartas dos leitores de Grace. O que voc acha? - perguntou para Sophie.
- Perfeito - foi o que Sophie declarou sem nem ao menos hesitar.
- Robin? Robin sorriu.
- Mas  emocionante demais. A idia de deixar que as
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agredidas falem por si mesmas  brilhante. O que elas tm a dizer, e o fato de poderem dizer, vai esvaziar qualquer boicote. Sem mencionar que, falando egoisticamente, 
quanto mais notoriedade Grace obtiver agora mais o livro vender.
- Amanda?
Houve uma pausa. Francine prendeu a respirao. Amanda era sua ligao com o mundo comercial. Seu apoio era importantssimo.
Amanda suspirou.
- Parece que tenho que concordar com tudo o que disseram. Alm disso, a coluna j est no prelo. Amolecer depois desses contras no ser bom, pode levantar dvidas 
sobre o que est acontecendo em sua preparao.
Francine sentiu-se culpada por um momento. Era o seu pensamento, sua preparao, sua incapacidade de antecipar um problema... obrigada, Grace.
- Acha que um boicote pode materializar-se?
- Algum poderia tentar. Mas duvido que d certo. Esperemos que eu esteja certa.
A histria saiu nos noticirios vespertinos, nos noturnos, nos shows de espetculos variados e nos jornais da manh. No dia seguinte, ao meio-dia, foi convocado 
um boicote contra os jornais que apresentavam A Confidente, e o telefone das Dorian parecia enlouquecido. Todos procuravam por Grace. Os reprteres queriam falar 
com ela, os talk shows queriam falar com ela, os amigos queriam falar com ela.
Francine estava encurralada.
Novamente, ouviu-se a voz de Amanda no viva-voz:
- Voc no tem escolha, Francine. O mundo da mdia quer Grace, mas ela no pode aparecer. Voc ter que resolver esse assunto.
O estmago de Francine dava voltas.
- Voc sabe que no posso.
- Certo, eu sei que voc est
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nervosa. Mas voc  uma porta-voz articulada, especialmente neste assunto. Eu mesma j a ouvi falar.
- Eles querem Grace, no a mim.
- Eles no podem ter Grace. O que diremos a eles? Francine procurou desculpas viveis.
- Que Grace est doente. Que no pode viajar. Droga, dizemos que A Confidente fala atravs de suas colunas e ponto final.
Robin, ento, disse:
- Isso estaria muito bem se Grace no tivesse sempre sido to visvel. Mas, se ningum aparecer em seu nome, surgiro as dvidas, e se isso acontecer as controvrsias 
sobre Grace sero perigosas para ela.
- Mas elas no surgiro de qualquer maneira, se eu repentinamente aparecer no lugar de Grace?
- No, se voc enfrentar as perguntas corajosamente. Destaque o fato de que A Confidente tem sido o resultado de um esforo conjunto h anos, e diga simplesmente 
que Grace passou esse caso para voc. As pessoas esperam por Grace porque nunca tiveram outra alternativa. D-lhes uma e todos ficaro satisfeitos.
Sophie aproximou-se de Francine.
- Elas tm razo, mame. Voc pode odiar o lado pblico do negcio, mas neste momento ficar sentada em casa seria pior. Seria visto como covardia. Ou indiferena. 
Seria o mesmo que dar um tiro em nossos prprios ps.
Portanto, eram trs contra uma.
Depois, quatro contra uma. S que os argumentos de Davis mergulharam mais profundamente.
- Lembra-se de quando falamos de voc escrever A Confidente da sua prpria maneira? Pois bem, voc quase chegou l. Voc est colocando seu selo nas coisas de uma 
maneira que jamais pensaria ser capaz h poucos meses, mas isso s acontecia porque nunca teve a oportunidade. Agora voc tem a chance de fazer alguma coisa ainda 
maior.
- Mas eu no quero ser uma celebridade - Francine implorou. Certas coisas tornaram-se bastante claras nas ltimas
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semanas. Francine desejava uma vida tranqila... sim, escrever A Confidente, mas, acima de tudo, ser uma esposa e, isso mesmo, uma me.
Estava esperando a menstruao para dentro de alguns dias.
Que pensamento absurdo.
Na sua idade, mesmo que concebesse, levaria algum tempo.
po. Eles no tiveram relaes no primeiro dia sem preservativo?
E ela no ficara grvida.
Ele apoiou o rosto dela nas mos.
- Tambm no desejo que voc se torne uma celebridade. Mas se voc fizer isto provar que pode, e logo que isso acontecer, no ter que faz-lo de novo. A transio 
ser completa. A Confidente ser sua. Voc far o que quiser com a coluna. Ento poder mant-la da mesma maneira, mud-la um pouco, acabar com todas as aparies 
pblicas. Mas no pode deixar que ela morra agora. A coluna faz parte da sua razo de existir.
Olhando para ele naquele momento, completamente perdida em seu amor, ela teria acreditado em qualquer coisa que ele dissesse.
- E se eu vomitar sobre a mesa de um apresentador da TV?
Ele riu e abraou-a apertado.
- Voc achou o homem certo, mocinha. Eu tenho tudo: aquilo de que voc precisa.
Ela precisava era de um calmante para o estmago, e apesar de ele no fazer nada por seu corao disparado ou suas mos suadas, impediria a possibilidade daquele 
embarao terrvel. Servia de algum conforto. J tinha bastante com o que se preocupar.
Tinha medo de tropear em um fio e cair de rosto no cho, ou olhar para a cmera errada, ou esquecer o nome do entrevistador. Temia parecer desinteressante, boboca, 
completamente diferente de Grace. Tinha medo de dizer alguma coisa imbecil, de que as pessoas pudessem rir dela, de que pudesse envergonhar A Confidente e negar, 
com isso, tudo o que tentava provar.
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Preocupava-se com o destino d'A Confidente, se um boicote realmente acontecesse.
Tinha medo de que Grace sasse de casa, ou no soubesse onde estava ou se esquecesse dela, enquanto Francine estivesse viajando.
Tinha medo de que Grace se esquecesse de tudo, sem deixar-lhe qualquer esperana de saber determinadas verdades.
Tinha medo de que sua menstruao viesse.
Sophie era sua enviada de Deus, sua companheira-amiga-animadora na viagem.
- Voc foi fantstica, mame - disse depois do primeiro show. - Deslumbrante - depois do segundo, e: - Olha, no me importo com essa histria de voc dizer que est 
com as mos tremendo, mas voc parecia completamente calma - depois do terceiro.
A cada apresentao, tornava-se mais fcil; no que Francine ficasse tranqila antes ou louca para ver as fitas depois, mas descobriu que podia cuidar de quase todas 
as perguntas feitas. Projete a confiana, Grace sempre dizia, e aquilo funcionava. Ela apareceu como A Confidente, portanto era A Confidente. Tendo decidido nem 
tentar parecer-se com Grace, parecia mais bomia do que elegante, com seus cabelos cacheados e roupas que no eram de alta-costura, mas poucas comparaes foram 
feitas.
Na verdade, isso aborreceu Francine. No compreendia como as pessoas podiam esquecer-se to depressa, assim como no compreendia como os amigos de Grace, a maioria 
dos quais j sabia de sua doena, pudessem manter-se afastados daquela maneira. At a enxurrada de visitantes diminura. A rainha estava morta; viva a rainha.
Aqueles pensamentos aumentaram sua fria. No momento em que partiu para a defesa d'A Confidente, agia com paixo. Em entrevistas, desde que a atuao d'A Confidente 
no se relacionasse ao modo de vida dos americanos, e sim ao mbito mais estreito da violncia domstica, estava em seu elemento. Seguindo a
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anlise feita por Robin, sugeria que as cartas que A Confidente recebia todas as semanas refletissem o estado de esprito das pessoas. Ela lia aquelas cartas, dizia. 
Sabia o quanto A Confidente significava para seus leitores. Imaginar a existncia de foras externas manipulando a coluna era um insulto a seus milhes de fs.
Ela era sempre mais eloqente depois de receber notcias sobre o boicote, que agora tomava a forma de panfletos entregues nas bancas de jornais, e dos piquetes colocados 
estrategicamente para chamar a ateno da mdia. As vendas dos jornais caram ligeiramente, Tony contara satisfeito, quando Francine perguntou. S que ela insistiu 
em saber o quanto, e ele admitiu que a queda fora muito baixa, com certeza relacionada com as tempestades de fim de inverno, que mantinham alguns leitores em casa, 
e que dificilmente poderia atingir com gravidade a sade geral do jornal.
No final da semana, Francine estava louca para chegar em casa. Robin ajudara a separar as cartas enviadas de Nova York, mas queria uma ajuda para decidir quais as 
que deveriam ser publicadas. Portanto, havia esse aspecto aenfrentar. Alm de Grace, que no estava mais lidando bem com o telefone, que estivera mais agitada do 
que o normal, mais paranica. E Davis, que ainda no sabia que sua menstruao estava atrasada. S em um dia. Mesmo assim...
- Voc  mesmo muito boa nessas coisas - Sophie disse pouco antes de aterrissarem em La Guardia. - Tem certeza de que no quer se apresentar de novo?
- Nunca mais - Francine declarou. - Ficarei contente s de poder ficar mais reclusa. Voc compreende - acrescentou, brincando - que fiz isto s por voc.
- No  verdade.
- Fiz sim. Tinha de mostrar-lhe que uma mulher pode fazer at as coisas que pensa que no pode.
- Por exemplo?
- Se eu posso engolir meu pavor e aparecer em pblico, voc pode ir a um encontro. - Ignorou o olhar meio aborrecido
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com que Sophie a fuzilou. - No pode esconder-se para sempre. - Apesar de adorar ficar sempre com Sophie a seu lado, vinte e quatro anos de idade no era a idade 
ideal para ficar andando com a mame.
- No estou me escondendo - Sophie insistiu. - Vejo meus amigos.
- S as moas.
- Tambm me encontro com os rapazes. Falo com Jamie, o cozinheiro, e Alex o irmo da companheira de quarto de minha amiga Julie. Falo com Barry, o produtor, e Dave, 
o tcnico de som. E com o Douglas. Falamos muito ao telefone. S no estou louca para sair.
- Por causa do Gus?
Sophie hesitou, depois fez um gesto de cabea que possivelmente queria dizer que era. Emocionada, Francine disse:
- Se no fosse pelo fato de desejar que ele fique bem longe daqui, eu ligaria para seu patro e faria com que fosse despedido.
Sophie suspirou.
- Aquele cretino merecia isso mesmo!
- Mas ele est longe. E voc, mais velha e mais esperta. Verdade. Se eu posso confiar em mim para aparecer em um programa de entrevistas, voc pode confiar em si 
para encarar um compromisso.
- Farei isso. Dentro de pouco tempo.
Grace no sabia do boicote. Francine no ousara contar-lhe - primeiro, porque no sabia se ela compreenderia depois, como reagiria. Uma Grace crtica a tornaria 
ainda mais nervosa. Portanto, antes de viajar, ela disse simplesmente que faria um tour de publicidade, o que deveria agradar a Grace, mas, em essncia, contara 
essa mentira porque sabia que ela no provocaria qualquer reao.
No espere demais, diziam todos os livros sobre o mal de Alzheimer. Mesmo assim, com o avano da semana e o aumento
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de sua confiana, Francine teve esperanas. Naturalmente Grace teria assistido a um dos programas de televiso. Naturalmente, teria ficado impressionada.
Francine sentiu-se nervosa quando avistou sua casa. Lembrou-se de outras separaes e reunies, do aperto no peito que sempre sentia quando criana, e do alvio 
de ter sua me de volta novamente. Seu alvio agora estava misturado  apreenso.
Grace estava na cozinha. Quando apareceram, levantou os olhos assustada e disse, tremulamente:
- Meu Deus. Vocs j chegaram. Mas chegaram muito cedo, ainda no estou pronta.
Francine julgava que ela estava completamente pronta; mesmo assim, surpreendeu-se ao encontrar essa Grace mais velha, mais frgil e de mente mais estreita do que 
a de suas lembranas, aquela que ela queria.
Sorrindo entre as lgrimas que escondia, abraou-a.
- Senti sua falta, mame. - Afastou-a um pouco de si, para olh-la melhor. - Voc est bonita. Muito domstica. - Francine no a via usando um avental h anos.- 
que est fazendo?
- O jantar. Vem muita gente para o jantar hoje. Vocs chegaram cedo demais.
Grace as reconhecera? Era difcil dizer. Pelo menos no se recolhera para a parede e as chamara de espis.
- Ah, mas voc pode continuar cozinhando - Francine assegurou-lhe. - Nosso avio acabou de chegar. Sophie de e eu no conseguimos esperar para v-la.
- Como vai, v? - Sophie perguntou, abraando-a com fora. - O que est fazendo?
- Uma coisa... hum... - Grace parecia procurar as palavras -... uma coisa gostosa.
-  vitela  la Russe - Margaret disse - com batatas e brcolis. Vocs j comeram?
- No comemos h horas - Francine disse, apesar de no estar particularmente faminta, e sim com o estmago enjoado. - E, alm disso, no h nada como vitela  la 
Russe. Tocou o
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rosto de Grace. - A entrevista em Los Angeles foi bem. Vai ser passada para todo o pas esta noite. Quer assistir conosco? Grace franziu as sobrancelhas.
- Vem muita gente jantar aqui hoje. Pelo menos, umas cem pessoas. Talvez trezentas. No sei quanto tempo eles vo ficar.
- Olhava para Francine, parecendo confusa. De repente, a placidez de seu rosto partiu-se. Parecia muito infeliz.
- Onde voc estava? Procurei por toda parte, mas no encontrei voc em lugar algum.
Francine tomou-a em seus braos, assustada pela fragilidade que agora sentia nela. Levou um minuto para poder falar novamente.
- Estvamos fazendo todas as coisas que voc queria que ns fizssemos, ir a talk shows, a entrevistas com a imprensa. Teria ficado orgulhosa de mim. No tropecei 
nem uma vez.
- Voc no estava aqui - Grace gemeu. - Eu no sabia para onde tinha ido. Tive medo de que algum tivesse levado voc embora. Que a tivesse seqestrado.
- Oh, no. Isso nunca teria acontecido. Foi por isso que levei Sophie comigo. Ela foi minha guarda-costas.
- Eu tambm tenho um - Grace disse. - Um cachorro.
Francine afastou-se um pouco da me para olh-la  distncia, com um olhar ctico. Foi quando viu Legs do outro lado da mesa.
- Ela no sai do lado de sua me - Margaret disse. - Mantm os conspiradores afastados. Mantm at os pesadelos longe. Grace leva-a at l fora para passear, no 
, Grace? O ar fresco  bom para ambas.
Francine desejaria a aprovao de Grace em uma dzia de outras coisas, uma dzia de coisas mais importantes e mais imediatas. Mesmo assim, sentiu uma estranha alegria 
com este pequeno fato.
- E ento? - Davis perguntou. Ele viera diretamente do hospital, entrara pela porta da frente, tomara a mo de Francine e foi junto com ela pelo corredor at o quarto 
que nunca vira antes.
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Um momento depois, estava sendo pecaminosamente pressionada contra a porta fechada, feliz demais por v-lo, excitada demais por senti-lo. Tinha esperado demais aquele 
encontro para fingir que no sabia o que ele queria.
- Um dia. Mas pode no querer dizer nada. Pode ser pelo trauma da viagem.
Davis deu aquele seu sorriso de lado.
- Quer dizer alguma coisa.
- Sempre atrasa quando fico tensa.
Ele colocou a mo entre as dela.
- No est s atrasada.
- Um dia, Davis. Isso no  nada.
 Seu sorriso cresceu. 
- Minha nossa.
- Davis - ela protestou, apesar de faz-lo com dificuldade, principalmente agora, com a mo dele sobre sua barriga. - Voc no est escutando. Eu nem teria dito 
nada se voc no tivesse perguntado. Voc pode ficar esperanoso, eu tambm, e depois no ser nada.
Davis sacudiu a cabea lentamente, seu sorriso agora era a coisa mais linda que ela j vira.
E como Francine desejava muito pensar que ele estava certo, riu feliz.
- Voc no passa de um animal arrogante. O que foi que eu vi em voc?
- A bestialidade - ele disse, e beijou-a vorazmente.
A menstruao de Francine atrasou dois dias, depois trs. No contou para ningum alm de Davis, e continuou a citar as vrias outras possibilidades. Quando ele 
insistiu para que ela fizesse um teste caseiro, ela hesitou. Tinha medo de que pudesse dar negativo.
A Confidente era uma atividade consumidora. Das milhares de cartas que chegaram, dois teros apoiavam a atitude de Francine, metade das restantes discordava e o 
resto pedia conselhos sobre variaes do tema. Trabalhando em conjunto com Sophie
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e Robin selecionou uma amostra representativa dos prs e dos contras para publicar na semana seguinte.
Apesar de a ateno da mdia ter diminudo, as tentativas de reforar o boicote continuaram. Dois dos associados menores deixaram de publicar A Confidente, causando 
uma pequena queda na mdia. Os outros associados continuaram a monitorar suas vendas.
Se Grace tinha conscincia de qualquer ameaa pairando sobre A Confidente, no demonstrava absolutamente nada. Antigamente uma leitora dos jornais de cabo a rabo, 
agora mal dava uma olhada na primeira pgina, quando ia  cozinha para seu desjejum. Conseguia ler as palavras individualmente, mas coloc-las em um grupo, localizado 
entre outros grupos, fazia com que ficasse perdida. Por isso, Francine lia para ela - os jornais, as revistas, os livros. No leu nada sobre o boicote.
O tempo passava.
Francine atravessou momentos de dvida intensa, alternadamente convencida de que arruinara A Confidente, de que o livro de Grace seria um fracasso, de que no estava 
grvida, de que Davis no a quereria apesar de tudo o que dizia, j que, aparentemente, seu prprio pai no a quisera.
Ento, George telefonou para dizer que as vendas comearam a crescer, e Amanda telefonou para dizer que A Confidente seria publicada por quatro jornais novos, os 
manifestantes dispersaram-se e os panfleteiros tinham ido para casa.
Francine esqueceu todas as outras dvidas. Como A Confidente, aquele era seu momento de glria.
Triunfante, correu para Grace e disse-lhe que o livro estava chegando ao final, mantendo-a ligada, segurando suas mos e seu olhar.
- Vencemos, mame! - gritou concluindo, e esperou que Grace oferecesse um elogio ou um sorriso.
Mas ela no apresentou nenhum dos dois. Francine sacudiu suas mos suavemente.
- Vencemos - repetiu, agora com mais urgncia. Grace tinha que compreender. - Ns no s no perdemos a popularidade,
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como ganhamos novos editores. A Confidente est mais forte do que nunca. Voc est contente?
Grace pareceu insegura por um minuto. Depois, concordou.
- Pense, mame - Francine continuou, desejando tanto que sua me desse um sinal. - Eu no tinha certeza de que iria conseguir. Lembra quando me pediu para pegar 
as rdeas da coluna? Eu fiquei apavorada. Mas conseguimos. Ns vencemos.
Grace permaneceu em um silncio profundo, depois disse:
- Isso  muito bom.
- Voc acompanhou a minha histria?
- Sim.
- Est orgulhosa de mim?
- Sim.
Francine sentiu vontade de chorar.
Durante aqueles primeiros dias, fora fcil ignorar as perguntas no respondidas sobre a vida de Grace. Mas de repente, com o final da crise e todas as confuses 
terminadas, as perguntas sem resposta ressurgiram.
Grace no oferecia nada alm de lampejos de pensamentos. Continuava a mesma - o que significava que nunca estava igual.
Podia estar calma ou agitada, falante ou silenciosa, confiante ou paranica. Davis mudara sua medicao na esperana de estabiliz-la, mas a doena era incansvel.
- Por que ela est se deteriorando to depressa? - Francine perguntou a ele depois de acalmar Grace em uma crise difcil de parania.
- A doena atinge cada doente de maneira diferente - ele explicou, tambm frustrado. - E  desta forma que est atingindo Grace.
O tempo estava se esgotando. Francine tinha de saber o que Grace escondia, nem tanto pelo livro como por si mesma. Implorava, mas Grace no podia oferecer nada. 
Implorava a Padre Jim, mas ele no queria dar nada.
Outra viagem para Tyne Valley foi organizada. Francine sabia que era ela quem deveria faz-la, j que era quem estava
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mais em jogo. Mas tinha medo do que poderia encontrar. Portanto, cancelou-a.
Ento, Davis soube que seu pai morrera.
Sem a menor hesitao - porque Davis era o homem que amava e seu pai o fizera, e porque sabia que apesar da distncia entre eles Davis sofria, e porque o pai de 
Davis era o av da criana que ela podia estar carregando, e portanto precisava prestar sua homenagem a ele e queles que poderiam ser sua famlia, fosse atravs 
do sangue ou do casamento - Francine fez as malas.
Vinte e trs

Como acontece com a maioria das virtudes, a honestidade  relativa. Em pequena escala, acontece com a mulher que comessa usar culos para leitura, em grande escala 
com aquela que admite que suas jias esto no penhor.
- Grace Dorian, em uma entrevista em Huribel
Tyne Valley, exatamente como Francine imaginara, era um retrato da desolao. Apesar de estarem no meio da tarde, a rua principal se encontrava deserta.
- Posto de gasolina, armazm geral, loja de peas de automvel - Davis narrava. - Aquela  a prefeitura. As reunies importantes so feitas ali, geralmente no segundo 
domingo de maro.
- No h muito a ser discutido. O fato principal  dar s pessoas alguma coisa para fazer, alm de tentar que saiam da lama. H uma garagem no fim daquela rua. Quando 
um carro quebra,  uma ddiva. Isso, junto com a lama de maro e a reunio geral. L est a biblioteca.
Era uma casinha branca encantadora, pouco depois do armazm, e tinha uma porta na parede lateral. Francine perguntou-se se aquela seria a porta por onde Grace entrava 
e saa escondida, quando no queria ser vista.
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- Vou mostrar-lhe a escola - Davis disse. Francine tocou seu brao.
- Isso pode esperar, se preferir primeiro ver seu pai.
- No estou pronto.
Ela aproximou-se dele. Davis passou a mo em torno de sua coxa e lanou-lhe um sorriso, mas ele era triste. Francine cobriu a mo dele com a sua.
Davis mostrou-lhe as escolas onde fora um menino terrvel - a escola primria, o ginsio, que ficava prximo, e o colgio regional. Depois, fez uma curva, voltou 
para o centro da cidade e parou diante da igreja, apesar de no fazer o menor movimento para sair da caminhonete. Seu olhar dirigiu-se para o cemitrio, que ficava 
ao lado. Um momento depois, Francine viu dois homens cavando nos fundos.
Davis emitiu um som dolorido.
Francine puxou a mo dele para seu pescoo.
-  l que est sua me? Ele concordou.
Francine no perdera seus pais jovem e mal podia imaginar o que ele sentia em relao  sua me. E agora ele perdia o pai.
Francine lembrou-se do enterro de John e da sensao de aperto no corao quando viu aquela terra, aquele buraco, o mergulho para toda a eternidade. Estremeceu, 
lembrando que poderia passar por aquilo novamente com Grace, mais cedo do que desejara - Grace, que deveria viver para sempre, ou muito, porque era boa.
Mas nem sempre fora assim.
- Existe alguma coisa estranha que sentimos em relao a nossos pais - Davis murmurou. - Alguma coisa estranha quando os perdemos. - Coou o queixo. - Quando os 
colocamos ali dentro.
O tremor que havia em sua voz fez com que Francine lutasse para manter a compostura. Afastando seus pensamentos sobre Grace, disse:
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- Voc fez tudo o que podia por ele.
- No foi o suficiente. Ele viveu uma vida triste Morreu uma morte triste.
Duncan Marcoux morrera sozinho, fora encontrado j rgido depois de uma noite longa e fria. Davis repetia aquele fato mais de uma vez. A idia apavorava-o.
- Voc tentou - ela disse suavemente.
- Eu sa da cidade.
- Mas quando saiu ajudou centenas e centenas de pessoas.
- Mas no a ele.
- Ele tinha orgulho de voc. Davis gemeu tristemente.
- Ele mal sabia o que eu fazia.
- Sabia que voc era mdico.
- Mas nunca soube o que eu fazia. No verdadeiramente.
- No precisava, para sentir-se orgulhoso.
- Ele nunca disse uma palavra.
- Isso no significa que no se sentisse orgulhoso. Acha que ele no contava vantagens para seus amigos de copo?
- Sim. Quando estava bbado.
- Est bem, ele no falava muito quando estava sbrio, mas tinha que sentir orgulho. Voc conseguiu se formar, fazer a faculdade de medicina, anos de especializao. 
Construiu uma carreira e uma casa. Ajudou tanta gente a viver vidas melhores. Ele tinha que sentir orgulho, Davis.
Davis levou a mo de Francine at seus lbios e manteve-a l enquanto observava os homens trabalhando, como se fosse responsabilidade sua supervisionar, sendo o 
filho de Duncan. Depois de algum tempo, ligou o motor da caminhonete.
Atravessou a cidade indo at a outra extremidade passando por uma estrada de lama que dava no aude, onde as crianas nadavam no vero. Ficaram ali durante algum 
tempo, depois ele levou-a pela estrada que subia a montanha at o mirante da cidade, l no topo. Abotoando os casacos para se protegerem contra o vento de maro, 
saltaram da caminhonete.
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A vista era encantadora, toda cinza-esverdeada com manchas ocasionais de algum telhado dos celeiros cor de laranja ou vermelhos, ainda maltratados pelo inverno, 
mas mesmo assim mantendo seu encanto. Francine divisou as aldeias vizinhas, pelas elevaes brancas que se erguiam como alfinetes em um mapa.
- Sente alguma coisa? - Davis perguntou.
Francine olhou-o surpresa. Achava que ele estivesse consumido por seus prprios pensamentos para se preocupar com os dela. Mas deveria ter adivinhado. Ele era um 
homem notavelmente sensvel. E esta era apenas uma das coisas que admirava nele.
- Gostei da cidade - ela disse. -  pequena, simptica, tranqila. Todo esse verde  emocionante e ainda nem estamos na primavera. Ser que me sinto como se tivesse 
estado aqui em outra vida? No.
- Voc ainda no conheceu as pessoas. A cidade inteira agita-se com velrios e enterros.  uma espcie de reunio da cidade. Melhor do que a lama. - Fariam o velrio 
do pai de Davis naquela noite, e ele seria enterrado na manh seguinte. - Pode ser que algum reconhea alguma coisa em voc, ou saiba de alguma coisa que possa 
ajudar.
- Pode ser - ela disse, e enterrou a mo no bolso dele.
No dcimo quarto aniversrio de Sophie Grace dera-lhe um livrinho de poemas com as pginas enfeitadas com guirlandas. Ainda sabia a maioria deles de cor, uma dcada 
mais tarde, ainda se sentia confortada com seus ritmos alegres e pensamentos comoventes. Na esperana de que Grace sentisse o mesmo, tirou o livro de seu esconderijo 
sagrado e tentou ler seus favoritos em voz alta.
Mas Grace estava inquieta. Sentava-se, levantava-se. Caminhava pelo solrio, voltava para sua cadeira e sentava-se, decidindo levantar-se um minuto depois.
Sophie fechou o livro.
- O que est havendo, v?
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Grace cruzava e descruzava os dedos, franzia e desfranzia
a sobrancelha.
Sophie olhou para a janela.
- Se no estivesse chovendo, poderamos dar uma volta. Quer dar um passeio de carro? S at o final da rua e depois a gente volta? Eu vou bem devagar.
- No posso ir to longe - Grace olhou para a janela e depois voltou os olhos para Sophie. - Onde ela est?
Era a quarta vez que Grace perguntava em menos de uma hora. Se fosse antigamente, Sophie teria dado uma resposta malcriada, mas esta Grace estava doente.
- Francine est em Tyne Valley com Davis. O pai dele morreu.
- O pai dele?
- Duncan Marcoux.
- Duncan Marcoux - Grace repetiu. Balanava-se paradiante e para trs, com os dedos cruzados. - Acho que no  seguro. Algum pode peg-la.
- Francine?
- Por que ela no est aqui?
Ainda paciente, ainda confiante em uma tentativa para tornar Grace mais segura, Sophie disse:
- Porque o pai de Davis morreu. Ela est em Tyne Valley para o enterro. Ela disse que iria e vai telefonar mais tarde.
Grace balanou-se um pouco mais, apertou um pouco mais os dedos. Olhou preocupada para a porta. Com voz temerosa, disse:
- As pessoas de todo o pas esto atrs de mim. Acho que no estou bem escondida. Preciso de um lugar onde ningum possa encontrar-me.
Sophie passou o brao sobre seus ombros.
- Voc est bem, vov. Est comigo. Eu cuido de voc. Anda, vamos dar uma volta ao redor da casa.
- Onde... ahn... est a outra menina?
- Jane tinha uma consulta com o dentista. Saiu h uma hora.
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- No a Jane - Grace disse, visivelmente frustrada enquanto tentava lembrar-se do nome que queria.
- Robin? - Sophie perguntou.
- Robin chegando - Robin disse, ao entrar. Voc tem uma visita - falou para Sophie, piscando o olho.
Sophie imediatamente ficou agitada.
- Quem?
- Douglas.
Com medo no olhar, Grace agarrou o brao da neta.
- Meu Deus. Meu Deus. Onde est o meu cachorro? Preciso do meu cachorro. Meu cachorro me proteger se me atacarem. Cachorro? - Procurou no lado extremo da cadeira, 
depois freneticamente pelo aposento. - Cachorro?
Legs estava sob a cadeira, bem embaixo dela. Sophie apontou-a e esperou at Grace certificar-se.
- Ela est vigiando, vov. Ela protege voc.
Sem estar absolutamente segura de desejar ver Douglas, Sophie atravessou o corredor. Ele estava no vestbulo, usando jeans e uma jaqueta e tinha o brilho suave da 
chuva.
- Sei que no me convidou, - ele comeou, antes que ela pudesse falar alguma coisa - mas estava passando por aqui a caminho de Greenwich e resolvi parar para ver 
se estava em casa.
Ele estava molhado, parecia suave e inofensivo. Sophie reclinou-se sobre o balastre da base da escada, cruzou os braos e ousou um pequeno sorriso.
- Estou em casa. O que h em Greenwich?
- Uma galeria interessada em uma exposio. Tenho alguns trabalhos a fora, dentro de uma minivan. Quer dar uma olhada?
- Quer que eu veja as coisas emocionantes que faz? Ele enfiou as mos nos bolsos.
- Tudo muito inocente. Pelo menos isto . Nem todos os meus pensamentos so. Vivo convidando voc para sair. Voc diz que no est saindo com ningum. O problema 
 comigo?
- No.
- Ento o que ?
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Sophie gostava de Doug. Se ele era a ovelha negra da famlia, era uma ovelha gentil, de cabelos longos, pernas longas, tolerncia longa. A mesma fora criativa que 
fazia dele um artista fazia com que valesse a pena conversar com ele por horas interminveis, o que fizeram outro dia. Sophie pensou que poderia conversar mais com 
ele.
Largando o corrimo da escada e sentando-se no segundo degrau, enlaando os joelhos, Sophie disse:
- A ltima vez em que estive com um rapaz fui estuprada. Os olhos dele arregalaram-se.
- Ns saamos juntos h algum tempo - ela disse. - Eu queria que as coisas parassem ali. Ele no quis.
- Puxa, Sophie, eu sinto muito.
- Por isso, estou me sentindo um pouco... assustada  a palavra que minha me usa e acho que  a mais adequada.
- No saiu com ningum desde ento? Ela negou com um gesto de cabea.
- Aconteceu dois dias antes de conhecer voc. - Forou um riso. - Mas talvez tenha sido bom, eu acho. De outro modo, voc poderia ter me odiado  primeira vista. 
Eu tenho um lado perverso, quer dizer, fao algumas coisas s porque me dizem que no devo fazer. Engraado como certas experincias nos modificam rapidamente. Ento, 
como estava dizendo... - falou, sentindo-se mais autoconsciente, mesmo que fraca, lanando os cabelos para trs para sugerir uma indiferena que no sentia. - Estou 
ferida, como dizem. J no estou bem certa de que queira sair comigo.
- Eu quero sair com voc - ele disse, sem pensar nem por um momento. Alm disso, voc no me parece ferida. Parece bastante lcida. J fez terapia?
- Minha nossa, claro que no. As Dorian no fazem coisas desse tipo.
- Por que no?
- Porque isso no parece bom. Na realidade, isso no  verdade. Bem, , mas no  o motivo principal. No vamos a psiquiatras
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nem freqentamos grupos de apoio, porque nos temos umas as outras. Esta  uma casa de mulheres fortes. - Menos uma agora, lembrou-se, mas mesmo assim ainda forte. 
Sim, forte, apesar de tudo.
- Isso  um pouco intimidante.
- No para um homem forte. E no quero dizer forte fisicamente.
- Sei que no quer - ele disse, com a medida exata de entonao.
- Tambm sou diabtica.
Ele olhou-a sem o menor sinal de assombro.
- Diz isso para me assustar? Ela encolheu os ombros.
- Significa que tenho que ter cuidado quando fao coisas.  uma droga.
- Tudo na vida, se quiser olhar as coisas dessa forma. Eu no quero.
Ele continuava parado na porta, ainda com as mos nos bolsos. Grace a enforcaria por no t-lo convidado a entrar, Sophie pensou, depois pensou novamente. A Grace 
da outra sala ficaria agora sentada do lado dela na escada, imaginando se Doug teria uma metralhadora escondida sob a jaqueta.
No havia qualquer arma, Sophie confiava nele.
Mas tambm confiara em Gus.
Mas Gus sempre fora s msculos - seu trabalho, suas diverses, tudo em sua vida. No conhecia sentimentos, esperanas, medos ou sensaes verdadeiras. Funcionava 
somente com seu corpo.
Doug funcionava com o corpo, a mente e a alma. Ela sabia. Ela entrara em uma galeria em Nova York e vira seu trabalho. Mas no lhe diria isso, por enquanto. Um pouco 
de insegurana era bom para o ego masculino.
Mas se seu trabalho mostrava sensibilidade, se ele ao telefone mostrava sensibilidade, se sua permanncia, em p,  porta, mostrava sensibilidade, valia a pena que 
ela o olhasse com um pouco de cuidado.
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Ento, balanando-se um pouco sobre os quadris, com as mos ainda segurando os joelhos, perguntou:
- Quer entrar?
Davis percorreu a cidade durante mais uma hora, parando ocasionalmente para mostrar alguma coisa, contar uma histria ou ficar sentado em silncio. Uma dessas paradas 
silenciosas foi na frente da casa de seu pai. Ele no saiu da caminhonete. Ficou s olhando.
A casa era pequena e menos estragada do que as outras da rua. Francine imaginou que Davis pagara a algum para pintla e ela estava pintada, que pagara algum para 
consertar os degraus e eles estavam consertados, que pagara a algum para plantar a grama e ela crescera, crescera e crescera. Mesmo no inverno, tinha um ar florescente.
Francine perguntou-se por que as irms de Davis: no mandaram apar-la. Perguntou-se muitas outras coisas, mas sentia a necessidade de Davis permanecer em silncio. 
Portanto, comunicou sua ateno simplesmente segurando sua mo.
- Ele jamais se mudaria daqui - foi tudo o que Davis disse enquanto ligava o motor e dava a partida.
Foram ento para as casas de suas irms, uma perto da outra, a uma quadra da casa de Duncan. As duas eram magras. Francine percebeu que teriam sido bonitas no passado. 
Agora, tinham o mesmo ar descuidado do gramado de seu pai.
Conheceu maridos, filhos, netos e amigos. Viu os mesmos e mais outros na capela funerria naquela noite. L ela tambm conheceu Duncan Marcoux.
- Morreu sem sofrer - era a opinio geral.
- Uma droga - Davis murmurou quando ouvia a frase mais uma vez. - Ele jamais teve esse aspecto em toda a sua vida miservel.  o fantasma do potencial que tinha 
o que st vendo. Sua morte verdadeira foi causada pelo usque.
Francine viu a semelhana fsica imediatamente. Enquanto
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as irms possuam uma feio aqui outra ali, Davis ficara com todas. Uma verso maior e mais fina daquele homem deitado no caixo com seu terno de domingo, Davis 
era definitivamente filho de seu pai.
S isso j seria motivo suficiente para que ele sofresse, mas Francine sabia que havia mais. Davis sofria por aquele potencial - pelos trabalhos nunca mantidos por 
muito tempo, por uma vida melhor nunca realizada, pela inteligncia perdida. Sofria pelo relacionamento que nunca tivera com seu pai, e pelos confortos que lhe oferecia 
e que eram recusados. Sofria por sua me, j que nunca tivera a maturidade para sofrer quando era jovem.
Francine sabia de tudo isso pelas palavras que ele murmurava, pelo modo como ele segurou sua mo durante toda a noite e, mais tarde, pelo modo como ele dormiu com 
a cabea enterrada em seu seio.
Surpreendeu-se de como podia ficar perfeitamente satisfeita no fazendo nada alm de abra-lo daquele jeito, quando ele precisava.
Surpreendeu-se tambm pensando que poderia haver alguma coisa a ser dita a respeito dos tratamentos de fertilidade, ou da inseminao artificial, ou de mes de aluguel, 
ou at mesmo de adoo, caso no ficasse grvida.
Surpreendeu-se pensando que tinha que descobrir se estava.
Mas esse pensamento ficou em segundo plano diante da emoo do enterro no dia seguinte. Depois do funeral, Davis foi ao bar favorito de seu pai, mandou levar para 
l comida suficiente para alimentar toda a cidade, e toda a cidade compareceu. O peso do velrio e do funeral deu lugar a uma coisa quase que celebratria, com Davis 
no meio sorrindo, apertando mos, at mesmo rindo com um ou outro de seus antigos amigos.
Os pensamentos de Francine mergulharam em si mesma. Desejou que aquela sala se transformasse em uma mesa branca como a usada pelos mdiuns e que seus olhos fossem 
as mos que se moveriam at parar em uma pessoa que tivesse seus genes. Mas nada disso aconteceu.
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Conversou com Padre Joseph Crosby, com o presidente da congregao presbiteriana e sua esposa, com o bibliotecrio da cidade e com vrias outras pessoas que agradeciam 
a grande generosidade de sua me, mas quando chegava o momento de fazer perguntas sua lngua ficava travada. Como algum poderia sugerir a um estranho que sua prpria 
me, agora uma mulher proeminente, pudesse ter nascido em sua cidade e que teve um amante secreto? Era uma coisa muito ntima. Seria uma traio a Grace.
Ento, sentiu-se triste, como se tivesse perdido uma oportunidade, assim que o almoo terminou. Quando Daves lhe perguntou se se importava de dar uma ltima passada 
pelo cemitrio antes de irem para casa, ela ficou quase aliviada por poder participar da tristeza dele.
Ela permaneceu no porto do cemitrio quando Davis entrou, concedendo-lhe aqueles ltimos momentos de privacidade. Os coveiros, que se juntaram ao resto dos habitantes 
da cidade no bar antes de voltar ao trabalho, estavam saindo. Davis apertou suas mos, depois enfiou as suas nos bolsos do casaco, e permaneceu parado, uma figura 
escura e distante, de costas para Francine.
Um dos coveiros passou por ela com um dedo na aba do bon. O outro parou. Era um homem alto e anguloso, com o rosto corado pelo frio, de uns sessenta anos, a julgar-se 
pelo tufo de cabelos grisalhos que escapava do bon e pelas rugas que circundavam seus olhos.
- Gostaria de apertar sua mo, Srta. Dorian, mas ela est suja - ele disse. - Meu nome  Jeb George. Sou o agente funerrio.
Naturalmente. Ela vira-o no velrio e depois, novmente, no funeral. Em ambas as vezes, ele estivera vestido formalmente, com modos discretos combinando. Agora, 
vestido de calas de l largas e uma jaqueta de caador, parecia mais  vontade.
- Jamais gostei da parte da cerimnia de meu negcio, - disse, lendo a mente de Francine - mas foi tudo o que meu pai tinha para deixar e tudo o que eu tinha para 
alimentar minha
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mulher e filhos, e quando se tem alguma coisa, qualquer coisa, em uma cidade como esta, temos que pegar. O pior  enterrar gente que conhecemos. - Lanou um olhar 
na direo de Davis. - Como Duncan Marcoux. Fomos amigos de infncia. Depois, ele comeou a beber e no sobrou mais tempo para os amigos.
Francine lembrou que Davis lhe dissera que Duncan e Padre Jim foram amigos. Puxou mais a gola do casaco para junto do pescoo e perguntou.
- Ento conheceu Jim O'Neill?
- Claro que conheci - Jeb disse. - Puxa, sentimos muito quando entrou para o Seminrio, depois de tudo o que passamos juntos, mas ele fez mais por ns saindo do 
que jamais fez quando estava aqui. Ele nos trouxe sua me. Ela ajudou a enterrar muitos habitantes da cidade que no podiam pagar. Sou muito grato a ela e  senhorita.
- O prazer  nosso. - Respirou fundo. - Ento, conhecendo Padre Jim - continuou de maneira suave - deve ter conhecido Rosellen McQuillan.
- Quem conhecia um conhecia o outro. Eles estavam juntos o tempo todo. Ela partiu quando ele partiu. No podia ficar aqui sem ele. Ele era a nica coisa que a mantinha 
s.
- Para onde ela foi?
Ele pensou, depois encolheu os ombros.
- Ningum nunca mais ouviu falar nela.
- Nem mesmo sua famlia?
Jeb George emitiu um som de desdm.
- Quantos deles havia?
- Os McQuillan? - Ele levantou os olhos enquanto contava. - Cinco. No, seis. O menino morreu cedo. Mas deve ter sido uma bno aquela morte, comparada com o que 
teria que passar vivendo com Thomas McQuillan.
Francine mal conseguia respirar.
- O rapaz est enterrado aqui?
- Claro que est. - Ele apontou para um local no cemitrio e levou-a at quase o lugar onde Davis permanecia. - Ganhou
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uma lpide nova h pouco tempo. Foi uma das primeiras coisas que Padre Jim pediu que se fizesse com o dinheiro que trouxera. Queria que fosse por Rosellen.
Era uma lpide simples, lisa na superfcie e spera nas margens. Estava ao lado de trs outras. Uma pertencia ao pai de Hal Thomas. A segunda pertencia  sua me, 
Sara. A terceira pertencia  sua irm, mas Francine no conseguiu ler seu nome atravs das lgrimas.
Levou a mo ao peito e conseguiu perguntar, tremulamente:
- Quem era Johnny?
- Johnny? - Jeb George sorriu. - Ora, Johnny  o Jim. O nome dele  James John O'Neill, exatamente como o pai. Como todos chamavam seu pai de Jim, ns o chamvamos 
de Johnny. Os sons confundem, mas fazem um sentido perfeito.
Oh, sim. Um sentido perfeito. E compreendido de uma maneira to simples. Sem brigas, sem longos interrogatrios. S foram feitas as perguntas certas para que as 
ligaes exatas aparecessem.
Francine pressionou o lbio superior com seus dedos enluvados para no soluar.
Robin mostrava as pginas do original que j estavam completas para Grace, explicando-lhe como organizara os captulos sobre A Confidente, lendo os pedaos de que 
ela mais gostava.
Grace parecia saber o que, supostamente, parecia estar ouvindo, mas Robin duvidava que absorvesse muita coisa. Olhava para as pginas e concordava, depois olhava 
preocupada para a janela ou para Legs.
- Francine voltar esta noite - Robin tentou tranqilizla. - No precisa preocupar-se. Ela est completamente segura. Voc falou com ela esta manh. Lembra-se disso?
- Acho que sim - Grace disse.
- Ela disse que estaria aqui para o jantar. Ela no mentiria para voc. Voc a criou dentro da honestidade.
- Honestidade antes.
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Robin sorriu.
- Honestidade antes da dignidade. Foi o que voc sempre disse. Era o que minha me sempre dizia, porque voc dizia. - Sentou-se na cadeira. - s vezes, ainda no 
acredito que esteja aqui com voc. Voc estava sempre presente em nossa mesa de jantar, durante todos aqueles anos, to perfeita, to fora de alcance.
Grace franziu as sobrancelhas.
- Fora de alcance?
- Minha me falava em voc o tempo todo. Achava que voc era brilhante. Lia suas colunas para ns durante o jantar, depois dizia como elas poderiam ser aplicadas 
em nossas vidas. Lembro-me de uma. Era a coisa mais bonita do mundo. "A vida  um jardim", voc escreveu. "As sementes plantadas e cuidadas crescero". Puxa, - respirou 
profundamente - minha me citava sempre isso. Segundo sua compreenso, ela explicava por que ramos filhos to ruins. Nunca pensou em cuidar de nossas sementes, 
ns  que no estvamos regando-as convenientemente. Ns no tnhamos o bsico, no sabamos somar direito, ler direito ou escrever direito, portanto,  claro que 
no recebamos notas 10. Ento, no podamos estudar direito. No podamos vestir-nos direito. E no podamos falar direito. Como poderamos pensar em crescer?
Grace estava com os olhos fixos nela, alarmada. Robin parou de falar e respirou mais calmamente. Mais tranqila, ela disse:
- Minha me levava as coisas aos extremos, mas ns no compreendamos. ramos jovens. No tnhamos como nos defender. Ela pegava o que voc dizia, interpretava-o 
 sua maneira e jogava tudo em cima de ns, repetidamente. - Emitiu um som que traduzia sua frustrao. - J faz mais de vinte anos, mas isso ainda me deixa nervosa.
Grace levantou-se e foi at a janela. Robin observou-a durante vrios minutos, depois juntou-se a ela.
- O fato  que - disse, precisando encerrar seu ponto de vista -  timo dizer que as sementes aradas e cuidadas crescero,
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mas e se no houver chuva? E se houver uma nevasca repentina, ou uma geada? E se as sementes no foren boas? A pessoa que ara e cuida tem controle sobre isso?
Houve um longo silncio, depois um "No" em voz baixa, dito por Grace.
- Tive culpa se perdi um emprego de vero porque minha maior competidora era a filha de um senador? Tinha culpa se meu cabelo era cacheado e no podia ficar como 
o de Dorothy Hamill?
Outro silncio, e outro "No" em voz baixa.
- Tive culpa se a namorada de infncia de meu marido surgiu recm-divorciada, procurando por ele? Meu irmo tinha culpa por no ter o controle motor necessrio para 
escrever com letra bonita?
- No.
- Portanto, o que me deixa furiosa  que a vida  um jardim" pode ser lindo, cheio de rosas e otimista, mas no  realista. Ento  justo empurrar a frase para dentro 
de nossas gargantas?
- No.
- Ento por que faz isso?
- No tenho essa inteno.
- Voc fala de flexibilidade, mas existe sempre uma mensagem fixa. Se no for "cresa o mximo",  "invista na vida", ou "toda nuvem tem as bordas prateadas", ou 
"o acar adoa os coraes". Veja esta ltima. s vezes funciona, s vezes no. Se estiver lidando com um filho da puta sem corao, pode usar uma tonelada de acar 
e no vai adiantar nada.
- Eu sei.
- Depois, vem aquela, "A fora  o show que tem de continuar". Bem, certamente  inteligente. Mas o fato  qui, droga, ns somos humanos.
- Sim.
- Nenhum ser humano pode ser forte o tempo todo. Ou podemos ser fortes, mas no o suficiente para fazer o que tem de ser feito. Ou podemos ser totalmente fortes 
e mesmo assim no
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conseguirmos fazer o show continuar. Portanto, tudo isso no passa de merda.
- Sinto muito.
- E depois voc acrescenta amor a tudo isso. - Robin concluiu, para que sua me pudesse ouvir uma vez, pelo menos uma vez, antes de morrer to depressa. - Voc espera 
o mundo de ns, voc espera mais do que jamais deu, e quando no o obtm recorre a pequenas frases, regras, ditados. Oh, eles so sutis, mas surgem em lugar das 
expresses de amor, e no final acabo sem saber se voc me ama ou no...
- Amo - Grace gritou. - Eu sempre amei, sempre amei, sempre amei, s que queria mais para voc, mais do que eu fiz por voc.
Robin olhou-a surpresa. Respirou sofregamente e engoliu em seco. Levou um minuto para perceber que terminara.
Sentindo-se embaraada, mas estranhamente aliviada e de alguma forma consciente de que uma desculpa foi pedida, ento ficou surpresa por ver esse lado diferente 
da antiga Grace, um lado que dizia que ela era humana tambm, lanou seus braos em volta dela e abraou-a com fora.
As duas tremiam. Grace chorava baixinho, pedindo desculpas - ou talvez a prpria Robin estivesse dizendo aquilo, com certeza pensava e suspeitava que Grace pudesse 
ser a mais honesta das duas, afinal - at que um instante depois Grace libertou-se dela e saiu correndo da sala.
Francine permaneceu diante das sepulturas de seus avs muito tempo aps Jeb George ter partido. Davis mantinha um brao carinhoso em torno dela, mas depois da exploso 
inicial, na qual contou para ele o que descobrira, no conseguia falar. S conseguia ficar parada no mesmo lugar, tremendo. Quando comeou a tremer tambm pelo frio 
que fazia, ele levou-a para a caminhonete e percorreu a cidade, quase que da mesma maneira que fizera no dia anterior, s que desta vez para reconfort-la.
Mostrou-lhe a casa onde os McQuillan moraram. No ficava
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muito distante da de seu pai e estava em pior estado, j que h anos nenhum McQuillan vivia ali.
Mostrou-lhe a casa onde Jim O'Neill crescera, onde seus pais morreram, um logo depois do outro, e as casas onde os irmos e irms de Jim ainda viviam. Perguntou-lhe 
se queria conhec-los. Queria. Mas teria que conhecer Jim como seu pai, primeiro. E ento fez um no com a cabea.
Davis estacionou a caminhonete durante algum tempo diante da biblioteca que Grace freqentara, depois percorreu o centro da cidade, mostrando-lhe alguns dos velhos 
recantos de seu pai, que tambm poderiam ser os dela.
- Seu pai era o Wolf, o Scutch ou o Sparrow? - ela perguntou, pensando que seria uma ironia quase beirando a crueldade se Duncan Marcoux representasse um papel nas 
alucinaes de Grace.
Mas Davis respondeu:
- No. A turma dele era bem mais pesada aos dezesseis anos. Talvez Jim se culpasse por ter perdido Duncan tambm. Talvez tenha sido por isso que resolveu me proteger. 
Eu no sei.
Francine tambm no sabia.
Mas tambm no tinha a menor idia do que poderia fazer Jim O'Neill vibrar. No conseguia imaginar como um homem poderia ver sua prpria filha dia aps dia, ano 
aps ano, sem deixar escapar uma palavra. Mesmo quando ela perguntara. Mesmo quando implorara.
Francine lembrou-se da histria do amor de Padre Jim por Rosellen. Lembrou-se de ter chorado por sua perda, por tudo aquilo de que ele desistira. Mas ele no se 
trara. Ele tivera o melhor dos dois mundos. E no tivera a decncia de contar-lhe.
- Na verdade, cheguei a pensar nisso e afastei a idia - disse em um momento fortuito. - Decidi que seria demais imaginar que um homem to honrado, a ponto de desejar 
ser um padre, no se tivesse casado com a moa que engravidara.
Pouco mais tarde, ela disse:
- Isso explica tanto: os presentes de aniversrio que dava
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para Sophie, jogar xadrez sempre comigo, voar para nossa casa quando qualquer coisa acontecia de errado, principalmente depois da morte de John. - Pensou de repente: 
- Ser que John sabia?
- Ter que perguntar - Davis disse, dirigindo lentamente para o desvio na estrada. - So quase cinco horas. Voc disse a Grace que estaria em casa para o jantar.
Francine sacudiu a cabea.
- No estou pronta. - Seus olhos estavam cheios de lgrimas quando os virou para ele. - Por que ela no me disse? Houve vezes em que pensei que no queria me contar 
porque meu pai seria um assassino, ou qualquer outra coisa terrvel. Mas o Padre Jim? Ela no sabia que eu poderia guardar um segredo? Ele no sabia que eu continuaria 
imaginando, continuaria perguntando? O que os dois estavam pensando?
O bip de Davis tocou. Ele pegou-o no porta-luvas e verificou o nmero que mostrava. Ento, dirigiu-se para um posto de gasolina que ficava a um minuto da estrada 
e usou o telefone pblico local. Quando voltou, seu rosto estava preocupado.
Entrou na caminhonete e ligou o motor antes de dizer:
- Grace fugiu. No conseguem encontr-la. Temos que voltar depressa.
Vinte e quatro

Vencer importa menos no esquema geral das coisas do que quem lhe traz rosas quando voc no quer
- Francine Dorian, em A Confidente
Grace apertou as pernas e colou-se  parede de tijolos. Sabia onde estava. Sempre ia para l quando estava nostlgica, ou apavorada, ou cansada de ser algum que 
no era. Mas no se lembrava de como subira. E no sabia como descer. Tudo embaixo dela estava negro.
Mas ali estava segura. Ningum a encontraria l.
Se ao menos no fizesse tanto frio.
Tocou seu rosto. Seu hlito estava morno e sentiu-se bem.
O que acontecera? Sentia-se bastante bem antes, conversando com... conversando com... qual era o nome dela? Ela conversara com... conversara com... aquela moa, 
e comeara a chorar porque a moa estava contra ela. Aquela moa sabia.
Eles estavam vindo. Sabia que estavam. Aproximavam-se h vrios dias. Agora se aproximavam para lev-la com eles.
Olhou para dentro da escurido e no viu nada.
- Onde est meu cachorro? - perguntou  noite. Seu cachorro deveria proteg-la. Mas ela o perdera. - Cachorro? Onde voc est?
Prestou ateno, mas no ouviu a resposta do co. S ouviu
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sons musicais, pingos e bolhas e agitaes, e de repente estava em outro lugar, sentada no cho encostada em ripas midas, abrigada da chuva pelos beirais, enquanto 
olhava a gua escorrendo pelo cano enferrujado da quina do telhado.
Mas aquele som era mais forte. Este era suave, macio, quase musical. Como gostava de msica, ficou parada escutando e sendo embalada por aquele som. Sorrindo, fechou 
os olhos.
Se ao menos no tremesse daquele jeito. Seria a hora do ch?
Ouviu um rudo. Levantou a cabea e olhou ao redor, com medo. Onde estava? Como chegara ali? Por que no conseguia ver?
Alguma coisa doa - seu p, pensou - portanto desdobrou a perna e esticou-a, s para que tomasse ar. Mas recolheu-a rapidamente e encolheu-se contra a parede.
Ento, ouviu a msica novamente. Ela gostava de msica. Ouvia o soar das escalas musicais, sentia os dedos pressionando as notas, mas s quando no tinha ningum 
em casa. Ningum deveria saber que ela sabia to pouco. Ningum deveria saber como ela era m.
A entrada estava cheia de carros e a casa completamente iluminada quando Francine e Davis chegaram. Entraram correndo e encontraram um grupo preocupado.
- Procuramos pela casa de alto a baixo - Sophie disse. - Procuramos pelos ptios. Revistamos a garagem e o chal. Est chovendo de novo e est frio. - Estava desesperada.
- O que aconteceu? - Francine perguntou.
- Eu estava com ela - respondeu Robin, que tambm estava preocupadssima. - Contava a ela sobre minha me, e a conversa tornou-se emocionada, mas ela estava lcida, 
mais do que tem estado h algum tempo. Ouvia-me e respondia ao que eu perguntava. Ento, ela levantou-se e saiu correndo para o outro quarto. No fui atrs por um 
minuto para que ela se acalmasse, mas quando fui procur-la no estava mais l. Procurei nos outros escritrios, no solrio, na sala de estar.
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- Pensamos que talvez tivesse levado Legs para dar uma volta - Sophie continuou - da corremos pela entrada e fomos at a estrada, mas no as encontramos. Imaginamos 
que pudesse ter ido  padaria com Jane, mas quando finalmente a descobrimos ela estava indo para sua casa sem Grace. Nesse momento, todos estvamos procurando, e 
o Padre Jim chegou.
Francine sentiu uma martelada no peito. Olhou para o outro lado da sala, para a varanda, examinando os rostos dos homens que ajudavam na busca, para Padre Jim, e 
por um minuto no conseguiu pensar em outra coisa alm do que soubera.
Ele parecia saber. Aproximou-se dela lentamente e, entre o olhar dele e os pensamentos dela, a intimidade era to forte que Francine deu um passo para trs. Ele 
levantou uma mo insegura, depois tocou seu ombro.
- Temos que encontr-la - disse com uma voz onde no havia a calma habitual.
Francine engoliu em seco. Sim, encontrar Grace era a prioridade daquele momento.
- Hubbell levar metade dos homens para procurar na estrada - disse Jim. - A outra metade ir para o rio.
Francine estremeceu quando pensou na gua escura, gelada naquela poca do ano.
- Onde est Legs?
- Deve estar com a vov - Sophie disse. - Elas esto desaparecidas h quatro horas, mame. - Parecia uma acusao.
Ningum tinha que explicar o significado do tempo, muito menos Francine, que tentava permanecer calma, mas pensando as piores coisas.
Davis colocou a mo reconfortante em seu pescoo.
- Os pacientes do mal de Alzheimer podem ser imprevisveis, mas j se descobriu que certas coisas so constantes. As ltimas lembranas a desaparecer so as mais 
antigas. Se cantarem Jingle Bells" para eles, pensaro no Natal. Se lhes dermos biscoitos sados do forno, pensaro em suas mes. Mantm os
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medos da infncia. O mesmo acontece com as coisas que os confortavam. O que acalmava Grace quando estava nervosa?
Francine no precisou pensar muito. Confortar Grace estava sendo a parte mais importante de sua vida ultimamente.
- Jardinagem. Msica.
- O que mais?
- Um banho.
- Qualquer espcie de gua - Padre Jim disse. - Quando era jovem, adorava a chuva. Ficava sentada durante horas sob um abrigo perto de uma goteira, hipnotizada pela 
gua que descia.
Sophie agitou-se.
- Ela costumava me levar at o rio quando eu estava nervosa. Caminhvamos pelas margens at o moinho velho e subamos por uma passagem atrs da roda... - Parou, 
olhou de rosto em rosto, e disse apreensivamente: - Ela no faria isso.  muito escorregadio, muito molhado, muito escuro.
Mas aquele parecia ser o lugar mais bvio para Francine. Pegando uma das lanternas que ficavam sobre a mesa, saiu correndo pela porta dos fundos, atravessou o ptio 
e dirigiu-se para o rio. A chuva agora era uma poeira fina, tornada pegajosa pelo frio. No tinha ido muito longe quando escorregou e caiu sentada.
- Mas que droga! - gritou, tentando levantar-se, escorregando mais uma vez, mais aborrecida com sua falta de jeito do que com qualquer outra coisa.
Mas Davis j estava debruado sobre ela, preocupado.
- Voc est bem?
- Ajude-me a levantar.
- Talvez fosse melhor voc voltar para casa.
- A minha me est perdida por a afora.
- E nosso filho est a dentro.
Ela retomou o flego. Depois, tomou o rosto de Davis entre as mos e disse com firmeza:
- Eu no o machucaria por nada no mundo, Davis Marcoux. Estou bem, estou mesmo, mas quanto mais tempo ficar sentada aqui mais molhada vou ficar.
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Ele ajudou-a a levantar-se. Nesse momento, os outros j tinham se aproximado e retomaram sua marcha. Enquanto se aproximavam do rio, ao norte da linha de luzes das 
lanternas dos outros que procuravam por Grace, o rudo da gua aumentava. Correram para o moinho, chamando por Grace o tempo todo, mas suas vozes eram levadas pela 
correnteza.
Legs veio correndo da margem das guas. Francine ajoelhou-se e tentou apalp-la, mas ela no parava quieta. Corria em crculos, agitava-se de um lado para o outro, 
parecia completamente desesperada.
- O que ela est fazendo? - Sophie gritou. - Ela deveria nos guiar at Grace!
Mas Legs no era um co de raa. Continuava agitada, correndo na frente e s parou quando o grupo foi na direo da sombra negra do moinho. O terreno que o circundava 
era irregular, forrado de razes de rvores e de pedras, to spero que Francine no conseguia imaginar como Grace conseguira atravess-lo.
Mas deveria ter atravessado. A outra alternativa era inimaginvel. Se tivesse ido para o rio, frio como ele estava, agitado como estava, com certeza estaria morta.
- Grace! Grace!
Legs latia um pouco adiante. Davis, que levava a lanterna maior, dirigia seu foco de luz para o moinho. Francine aconchegou-se a ele para sentir um momento de conforto.
Sophie colou-se a ele do outro lado.
- S h mais um lugar para olhar. L em cima, no canto...mande a luz para l... no... atrs da roda... mais atrs... a.
- Ela est l! - Padre Jim disse, e correu para a faixa estreita de terra entre o moinho e a gua. Legs j estava l, correndo de um lado para outro. 3
Sophie correu atrs de Jim.
- Eu subo. Ele  muito grande.
Francine alcanou-a.
- Voc no vai subir. Pode escorregar.
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- Eu sou a melhor neste caso. Sou a menor, mais magra, mais leve. Alm disso, sou a nica que est usando botas de combate.
Botas de combate. Que timo. Sophie poderia ajudar bastante. Francine lembrou que um dos homens que ajudavam na busca, corrente abaixo, poderia ser um escalador, 
mas no tinham tempo para descobrir. Grace estava precariamente empoleirada em uma pedra escorregadia, sob uma chuva fina e enregelante, e vestida com trajes leves.
A mo de Francine tremia quando iluminou os degraus de tijolos atrs da roda. Todas as outras lanternas dirigiam-se para l tambm, com exceo da de Jim. Ele estava 
parado diretamente embaixo do ponto onde Grace estava, dirigindo o foco de sua lanterna para si mesmo.
- Sou eu, Grace - chamou. -  o Jim. Sophie est subindo para busc-la. No se mova ainda. Espere por ela. Sophie vai ajud-la, no caia.
Se Grace respondeu, sua voz estava fraca demais ou a fria do rio muito barulhenta, para que pudessem ouvi-la.
Francine teve um pensamento horrvel. Aterrorizada, jogou sua luz sobre Grace. Estava to pequenininha, toda encolhida, molhada e gelada, mas levantou um brao para 
proteger os olhos contra a luz. Estava viva.
Francine rapidamente virou a lanterna para Sophie e segurou o flego. Imaginou Sophie escorregando enquanto subia, ou alcanando Grace e ambas caindo de sete metros 
do solo.
Davis encostou-se em suas costas. Ela agradeceu aquele apoio.
- Nunca soube que ela trazia Sophie aqui - gritou. - Sophie nunca disse nada. Vou torcer o pescoo da Grace.
- No, no vai nada.
- Vou sim. Mas como ela conseguiu subir at l? Est com sessenta e dois anos!
- E em perfeita sade fsica.  um dos dilemas do mal de Alzheimer, conciliar um corpo perfeito com uma mente que falha.
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Sophie subia lentamente pela parede, colocando uma mo de cada vez sob a luz das lanternas, contra a pedra cinzenta, molhada e brilhante. Quando chegou ao topo, 
nivelou seu corpo sobre uma beirada estreita, esgueirando-se lentamente at alcanar Grace.
Francine esperou, em suspenso, que as duas comeassem a voltar juntas. Podia ver Sophie falando, podia ver os movimentos de sua cabea, de um brao.
- O que est acontecendo? - gritou para elas. Logo em seguida, Sophie gritou, como resposta:
- Ela no quer descer. No confia em quem est aqui. Francine tentou fazer o que Davis fizera, pensar no que faria com que Grace se sentisse mais confortvel. Muito 
pouca gente conseguiria fazer isso. Ento, olhou para aqueles que observavam apavorados a seu lado.
- Margaret, volte para casa, Jane, v at a estrada com o carro e diga para os homens que a encontramos. Marny, avise os homens que esto l no rio, mas no deixe 
que se aproximem com as lanternas.
Aproximou-se da parede do moinho. Com a voz tremendo, o corao disparado, chamou:
- Mame?  Francine! Todos foram embora, s estamos ns aqui. Davis e Robin tambm esto conosco. E o Padre Jim.
- Ningum vai machucar voc - Jim disse, com uma voz que tremia quase tanto quanto a de Francine. Ele aproximou-se ainda mais da parede. - S queremos lev-la para 
casa para que fique aquecida.
Esperaram tensos, enquanto Sophie repetia suas palavras.
- Ela ainda est com medo - Sophie gritou para baixo.
- Legs est aqui! Ela a proteger! Ela no pode subir pela parede e quer voc aqui embaixo! - Francine segurou a respirao por um momento, depois acrescentou: - 
Por favor, mame? Eu preciso de voc. E Sophie tambm est a em cima. Se voc no descer logo, ela ficar doente. Voc no quer que Sophie fique doente. Voc trabalhou 
tanto para que ela ficasse boa.
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Jim estava quase colado  parede, esticado em toda a sua altura, com os braos estendidos como se pudesse dar segurana a Grace se conseguisse esticar-se s mais 
um pouquinho.
- No pode ficar a em cima para sempre, Gracie. Deve estar cansada, com fome e com frio. Desa, por favor, para que eu possa aquec-la.
- Ele est certo, mame - Francine recomeou, sentindo-se fraca e molhada, lutando para ser ouvida sobre a gua. - Ele est esperando por voc. Esperou por tanto 
tempo. Agora voc pode ficar com ele, mas ter que deixar Sophie ajud-la a descer.
- No vou a lugar algum, - Jim ameaou - no vou me mexer daqui at voc descer, portanto quanto mais tempo ficar a mais gelado vou ficar. - Sua voz ficou mais 
doce, implorando: - Mas como poderei aquec-la se estiver gelado? Por favor, Rosie? Por mim!
Francine ouviu um grito sufocado de surpresa atrs de si e notou que era Robin mas as palavras que queria ouvir - o que Sophie dizia, o que Grace dizia - perdiam-se 
na fria das guas.
- Rosie? - Jim implorou. - Quero que voc fique comigo, Rosie. Por favor, desa, para que eu possa lev-la para casa.
- Meu Deus - Robin disse em um murmrio, to perto de Francine que, sem tirar os olhos das duas l no alto, Francine segurou sua mo e apertou-a.
Seu corao disparou. Viu Sophie passar um brao em torno dos ombros de Grace, viu-a falando, concordando, fazendo gestos, viu Sophie olhar para o lado e mover um 
p calado de bota naquela direo. Lentamente, lentamente, a dupla saiu daquele canto e percorreu a passagem estreita at chegar aos degraus.
- Meu Deus - Francine suspirou.
- Elas conseguiram - Davis disse. Tirou a lanterna da mo de Francine, porque esta tremia demais, e manteve sua luz firme em cima das duas.
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- Meu Deus.
- Vamos, vamos. - Isso era dito, como uma o lio, por Robin.
Sophie descia, de joelhos, pelos tijolos estreitos, ajudando Grace, manipulando-a pelas ndegas, um passo de cada vez, enquanto Legs latia e saltava, e os quatro 
que se encontravam no solo aproximavam-se da parede abaixo delas. Seu p escorregou uma vez, arrancando um suspiro coletivo, mas ela firmou-se e continuou descendo. 
Quando j estavam a um metro do solo, foram rodeadas. Davis colocou seu casaco sobre Grace, mas quando pretendeu segur-la Jim chegou primeiro.
- Ela  minha - disse, e levantou-a em seus braos.
Ningum sugeriu que Grace deveria ir para um hospital, onde ficaria mais agitada do que nunca. Davis examinou-a e no viu nada de errado que um bom banho, um ch 
quente e lenis aquecidos no pudessem curar. Quando tudo isso foi feito e Padre Jim no fez o menor movimento para sair de seu lado, Francine deixou-os sozinhos.
Ela estava sentada no canto do sof da saleta, com os joelhos prximos ao peito, toda enrolada em um roupo e os olhos no tabuleiro de xadrez, quando ele apareceu.
Ele encostou-se no batente da porta, com as mos nos bolsos.
- Ela est dormindo. Robin  quem est tomando conta, j que Sophie tambm est dormindo.
Francine concordou e engoliu em seco. Ento, aquele era seu pai, o tal James John O'Neill. Seu pai. Que a ensinara a jogar xadrez e que fora seu parceiro desde ento. 
Que a ensinara a no mentir aos olhos de Deus, mas que no fizera o mesmo.
Quando voltara para a caminhonete de Davis em Tyne Valley, estava furiosa com ele, mas as ltimas horas abrandaram-na, deixando somente resduos de amargura junto 
com uma dor muito profunda.
- Finalmente, sabemos de tudo - ela disse - depois de
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todo este tempo, de tanto que pedi e implorei. Quer saber quem me contou? Jeb George. Jim sorriu sem graa.
- O bom e velho Jeb. Ele nunca conseguiu mentir.
- Gostaria de poder dizer o mesmo de voc. - Apertou o roupo com mais fora contra seu corpo. - Seria muito difcil se voc mesmo tivesse me contado?
- Sim.
- Por qu?
- Porque prometi a Grace que no contaria.
- Ento a culpa  dela?
- No. A culpa  minha. Minha culpa, que comeou l em Valley. Deixei-a para entrar no seminrio. Se no tivesse feito isso, saberia que ela estava grvida, teria 
me casado com ela e no haveria qualquer segredo para ser guardado. Mas quando eu soube, ela j estava casada.
- Por que ela no lhe contou?
- Ela tambm no sabia. No quando eu parti. No quando ela partiu. S soube quando conheceu John, e ele ficou perturbado com a situao, por motivos que voc pode 
compreender.
Oh, sim, Francine compreendia aquela parte. O que no compreendia era o subterfgio que comeara ento e continuara at depois da morte de John, mesmo quando ela 
soube de sua esterilidade, mesmo quando implorava que Padre Jim lhe explicasse algumas coisas.
- Quer dizer que, mesmo quando soube que estava grvida, ela no lhe contou?
- Ela escreveu-me cartas, mas nunca enviou nenhuma.
- Por que no?
Seu olhar vagou na direo do teto.
- Ela imaginou que eu tinha Deus e ela tinha John, e que assim era que deveria ser. Acredito que tambm tenha havido um elemento de autoflagelao em sua atitude. 
Ns todos estivramos bebendo naquela noite, em Valley. Eu briguei com um
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dos rapazes. Ele morreu de envenenamento alcolico, mas ns estvamos bebendo com ele e sentimo-nos responsveis. Pensamos que nosso castigo seria ficarmos separados. 
- Olhou para Francine. - Mas tudo resultou em que tivemos vidas significativas e de qualquer maneira, estou perto de voc.
Isso parecia delicado e bonito. Tudo est bem quando termina bem, Grace poderia ter dito, mas Francine no conseguia engolir o fato to depressa.
- Quando soube que era meu pai?
- Depois de voc ter nascido. Ela conseguiu esconder asdatas e ningum teria percebido, mas s bastou um olhar. Voc tem os traos de minha av.
O que ele disse levantava uma dzia de outras perguntas - sobre sua av, sobre seus pais e outros parentes, sobre a irm perdida de Grace, sobre Claire, fosse ela 
quem fosse - mas mais tarde... Por enquanto, o interesse de Francine era mais reduzido: seu pai, sua me e ela.
- Como se sentiu quando descobriu?
Ele abaixou os olhos, pensou por um minuto e finalmente admitiu.
- Enganado. Sabia que no tinha o menor direito, mas me senti assim. Sentia que perdera Rosie e perdera voc, e sabia com certeza que tudo isso seria o castigo pelas 
coisas que eu fizera, mas mesmo assim me sentia enganado. Pensei em sair do seminrio. Mas de que adiantaria isso? Grace estava casada. Sabia que nunca desejaria 
estar com outra mulher. Pareceu-me melhor dedicar minha vida a Deus.
Parecia muito nobre. Mas Francine aceitou como uma falsa virtude.
- Ento, conseguiu ser transferido para perto de Grace.
Ele deu um sorriso triste.
- Perto, mas to longe. - Lanou um olhar para o cu. - Mais um de Seus pequenos testes. Dar com uma das mos e tirar com a outra. Eu poderia ficar perto de Grace, 
perto de voc, mas s at determinado ponto.
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- Mas passou desse ponto quando John morreu. Ele levantou a mo na defensiva.
- No. Depois da doena de Grace.
- Que aconteceu - Francine acusou - convenientemente, depois da morte de John.
Jim endireitou-se, afastou-se da porta e avanou, com ar decidido.
- No h nada de conveniente no que Grace tem. Pensa que eu no teria feito qualquer coisa para poup-la disso? Pensa que sonhei com isso? No, Francine, no sonhei. 
Meus sonhos eram do tipo que tnhamos quando ramos crianas, quando tudo em nossa volta era to desanimador que inventamos um mundo de fantasia. - Ele nem piscou. 
- E aqueles sonhos eram carnais, no posso negar. Bem, eles no tinham chances de ser realizados; mesmo assim, eu sonhava, porque aquilo eratudo o que eu tinha. 
Sonhava que poderia t-la em meus braos. Sabia como seria... - Interrompeu-se, abalado, e se virou para ooutro lado. Sua voz era menos firme quando disse: - Muitasvezes 
perguntei-me se a doena de Grace no seria Sua maneira de punir-me por esses sonhos.
Francine engoliu em seco.
- Voc deveria ter me contado.
Jim voltou somente a cabea e encontrou seu olhar, parecendo mais humano do que ela jamais vira.
- Pensa que eu no quis? Pensa que no morria cada vez que vinha aqui s como uma visita? Pensa que eu no queria ter a alegria de proclamar que voc era minha filha, 
que Sophie era minha neta e que vocs soubessem quem eu era? Pensa que era fcil para mim ver meu bom amigo John viver com as pessoas que eu amava? - Suspirou profundamente. 
Sua voz ficou ainda mais spera. - Pensa que era fcil para mim conciliar os votos que fiz com os pensamentos que tinha? Rezar? Ouvir confisses? Aconselhar os paroquianos? 
Sentir-me como uma fraude, quando ficava l no altar, parecendo to correto, sabendo o que sabia sobre mim mesmo? M
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Francine reagiu sem pensar.
- Voc tem sido um bom padre.
- Um bom padre, com P maisculo, e um pai com p minsculo. - Caminhou at a janela, com as costas rgidas. - Que grande ironia, hein? E com Grace tambm. Ela escolheu 
esse nome deliberadamente, sabe? Foi pouco depois que nosso amigo morreu e eu entrei para o seminrio. Ela queria estar mais perto de Deus e resolveu passar a ser 
Grace - graa - como se estivesse sob a influncia divina para operar aqui na terra.
- Mas a vida dela foi uma mentira.
Jim acorreu rapidamente.
- No, ela fez o melhor que pde com o que lhe restou. Nunca traiu seu marido. E nunca me traiu.
- E quanto a mim?
- Ela deu-lhe tudo o que pde.
- Mas mentiu todos esses anos.
-No, no mentiu. Simplesmente no disse toda a verdade. Francine levantou a mo.
- No mencionemos o fato da minha origem. Falo sobre Grace, ela mesma, s ela: a Grace que tinha respostas, que fazia tudo direito e que fazia com que todos desaparecessem, 
se comparados com ela. Era a bondade personificada. Ela colocou-se em um pedestal...
- Nada disso - Jim interrompeu, com uma calna poderosa. - Voc fez isso. A perfeio dela estava mais em sua mente do que na dela.
Francine abriu a boca para argumentar, mas as palavras no vieram.
- Ela era sua me - ele disse. - Ela amava-a. Voc sentia seu amor e reagia com grande admirao. As crianas sempre fazem isso. Pensam que seus pais so perfeitos, 
at que alguma coisa desmanche sua imagem. As esposas fazem isso. As discordncias, que acontecem durante a vida, ou simplismente a distncia fsica s vezes tambm 
atrapalham. Neste caso, foi a
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doena de Grace. De repente, comeou a dizer e fazer coisas que demonstravam sua falibilidade.
- Voc sabe - Francine disse, j com a voz embargada pelas lgrimas - como... como eu me sentia desajeitada junto dela durante todos esses anos?
- Talvez ela devesse ter elogiado voc mais. Talvez ela devesse ter sido mais tolerante com a necessidade que voc sentia de ter sua prpria fora. Mas tente compreender. 
Ela veio de um lugar onde as pessoas eram nada. Viu isso acontecer muitas vezes. Queria mais do que isso para voc; queria o mundo para voc. Eu no a culparia. 
Eu fiz o mesmo. Eu fao o mesmo.
O crculo estava fechado. O problema agora era aceitar Jim como seu pai. Amava-o, sempre o amara, mas havia essa nova descoberta e a dor que ela causara.
- Nunca menti para voc - ele disse mansamente. - Posso no ter-lhe dito toda a verdade, mas nunca menti. J  alguma coisa, perto de todos os meus outros pecados.
- Que outros pecados?
- Amar Grace como amo. - Suspirou profundamente, como que finalmente aliviado. - Amei Grace todos esses anos.
Robin sentiu uma estranha paz vendo Grace adormecida. Telefonara para casa e dissera a seus filhos o que acontecera e que passaria a noite em casa de Grace. Nenhum 
deles tinha problema com isso. Quisera saber se compreendiam o que ela estava sentindo, mas duvidava. Nunca conseguira dividir alguma coisa com eles.
Pretendia corrigir aquilo. Queria que tomassem conhecimento de que existem as segundas chances, porque certamente era o que recebera. No s estava escrevendo o 
que seria um belo livro, mas o trabalho dava-lhe uma desculpa para estar ali. Grace precisaria de ajuda e Robin ficaria encantada por poder oferec-la.
Seus olhos caram sobre o telefone da mesinha-de-cabeceira. Olhou para seu relgio, depois para Grace. Pegou o fone,
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mas colocou-o de volta no lugar, pegou-o novamente e segurouo contra seu peito. Ento, virando-o, discou os nneros que, apesar de no serem usados por muito tempo, 
nunca foram esquecidos.
Do outro lado da linha, o telefone soou uma, duas, trs vezes. Ento, foi atendido, e a voz de um senhor de idade, um homem dcil e obediente, disse:
- Al?
No precisava preocupar-se com acordar Grace Sua voz, tocada pela emoo, no passava de um sussurro, preso na garganta.
- Papai? Sou eu, Robin.
Jim no perguntou, nem uma vez, o que Francine pretendia colocar do passado de Grace na biografia. Ela desconfiava que ele encarasse aquilo como outro dos pequenos 
testes de Deus.
Sabia o que faria. Mas queria ouvir o que Sophie e Robin pretendiam. Colocou sua xcara de caf sobre a mesa da cozinha, aquecendo com ela sua mo. Estava calma.
Sophie olhou para ela, depois para Robin.
Robin olhou para Sophie, depois para Francine.
Sophie tambm olhava para Francine.
- E ento?
- Ento, o qu? - Francine perguntou.

- Temos a verdade agora. O que faremos com ela?
- O que voc quer fazer com ela?
- Eu no sei. Ainda estou em estado de choque. Primeiro a vov, to discreta, tendo um trrido caso de amor com Padre Jim.
- Ele no era padre na poca.
- Mas pretendia ser. Robin suspirou.
- Todas deveramos ter um amor desses.
- Uma vez, h no muito tempo - Sophie continuou -
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ela falou que eu deveria encontrar um homem bom, sem preocupar-me com o amor, que ele viria mais tarde. Por que diria isso, depois de ter o que teve com Padre Jim?
- Ela estava pensando nas circunstncias de sua prpria vida e nas decises que tomara - Francine tentou explicar, como Jim lhe explicara. - Pensava que Jim estivesse 
perdido para ela. Ento, fez o que pensou ser melhor para a criana. E a partir do momento em que tomou a deciso fez o melhor possvel. O copo estava meio cheio.
- Est defendendo a escolha dela?
- No. S explicando. Pessoalmente, acho muito triste. Eu optaria primeiro pelo amor.
Sophie lanou um olhar engraado para Robin. - Caso ainda no tenha adivinhado... - J marcou uma data? - Robin perguntou para Francine.
Francine sentiu-se um pouco emocionada.
- Neste fim de semana. Quer vir?
- Sem mais nem menos?
- Domingo,  uma hora, na sala de visitas, seguido de um almoo. Eu disse para Sophie que ela pode vestir o que seu coraozinho pedir. Digo o mesmo para voc. - 
Sorriu. - Gostaria muito mesmo que voc viesse, Robin. Voc acabou sendo uma bno em nossas vidas. Alm disso, - seu sorriso apagou-se de tristeza e amargura - 
ser interessante. Grace usar renda branca. A parte de sua mente que volta ao passado pensa que estar se casando com Jim.
- Meu Deus - Robin disse. - Ser porque ainda resiste a seu casamento com Davis?
Francine gostaria de saber. Mas a maior certeza que poderiam ter sobre Grace agora  que nada era certo. Difcil como era de ser aceito, no haveria paz enquanto 
Grace no tivesse paz.
Como na noite anterior. Levando trs armas e um batalho de pensamentos organizados, sentara-se ao piano com Grace, tocando msicas leves. Grace, dcil, cantara 
junto com ela, raramente esquecendo-se de uma palavra.
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- "Diga-me por que... as estrelas brilham... diga-me porque... a hera se retorce..." - E finalmente... - "...  porque te amo."
Francine abraou Grace.
- Eu te amo, mame.
- Claro que ama.
- E Sophie. E Davis. Grace no disse uma palavra. Francine no sabia se ela ouvira. Ento, disse de supeto:
- Vamos nos casar, Davis e eu.
Grace disse:
- Voc  casada.
- No. Lee e eu nos divorciamos h muitos anos.
Ela ficou confusa.
- No  o Lee?
- No.  Davis, o seu mdico.
- Mas por que vai casar-se com ele?
- Porque eu o amo. - Era sua primeira arma e deu um golpe certeiro.
- Mas... mas....
- No deixarei voc. Ficarei com voc o dia inteiro e s a dez minutos de distncia,  noite.
Grace pareceu preocupada.
Ento, Francine brandiu sua arma nmero dois.
- Jim ficou satisfeito. Disse que no poderia desejar um marido melhor para sua filha.
- No poderia?
- No. Ele deu a bola para Davis, e Davis correu com ela.
- Que bola? Francine reformulou o pensamento.
- Ele deu uma oportunidade para Davis, e ele soube aproveit-la. Jim o respeita muito.
Grace pareceu ponderar sobre o assunto. Subitamente sonhadora, disse:
- Eu usei renda branca. Era um vestido bem longo com uma... uma... como se chama aquela coisa que usamos atrs?
- Uma cauda.
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- Uma cauda. Era lindo.
- Era. Eu vi as fotos.
- Voc viu?
- Muitas vezes. Podemos olh-las mais tarde, se quiser. Sophie vai tirar fotos minhas com Davis. Queremos o casamento mais tranqilo e doce do mundo.  emocionante, 
voc no acha? Ficar feliz por ns?
- Estou feliz - foi a resposta correta de Grace.
- Quero que voc fique feliz, orgulhosa e emocionada tanto quanto ns.
Grace no parecia sentir nenhuma daquelas coisas.
- Quer saber o que  mais emocionante? - Francine disse em um sussurro conspirador, lanando sua terceira arma. - Ns vamos ter um beb. - Esperou que Grace respondesse. 
- No  incrvel?
- Um beb? - Grace perguntou. Francine concordou.
- Uma vez eu tive um beb - Grace disse e explodiu em lgrimas.
- Mame, mame - Francine chorou, abraando-a. - O que foi?
- Meu beb desapareceu.
- Eu sou o seu beb. Eu cresci, s isso. Mas Grace estava inconsolvel.
- Eu penso - Francine disse para Sophie e para Robin - que ela no poder nos abenoar, no em muitas palavras.
- Mas voc sabe que, no fundo do seu corao, ela aprova - Sophie disse.
Francine queria muito saber. Da mesma forma que dissera para Davis que um Duncan Marcoux sbrio se orgulharia dele, queria pensar que uma Grace saudvel tambm sentiria 
orgulho dela.
Surpreendeu-se ao pensar que o que mais importava naquele momento era se ela se orgulharia de si mesma. E orgulhava-se.
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- Sim, ela aprovaria - decidiu. - Ela aprovaria tudo o que fizemos... o que nos remete de volta ao projeto que temos.
- Lanou um olhar de expectativa para Robin. - E quanto devemos contar?
Robin falou:
- Voc me diz.
- No. Quero a sua opinio.
- Minha opinio? A histria de Grace, contada em sua totalidade, ficaria no topo das listas de best sellers durante semanas. - Respirou rapidamente. - Mas sua ascendncia 
 assunto seu. O mundo no precisa saber o nome verdadeiro de Grace, nem o nome da cidade em que viveu ou do homem que amou. Existe uma histria maravilhosa sem 
isso, vinhetas de uma jovem saindo de uma vida difcil, indo para a cidade, investindo suas economias em vestidos para representar um pequeno papel e depois conseguindo 
alcanar o papel principal. Pode ser uma histria de Cinderela tpica, mas d uma viso totalmente nova de Grace.
Francine tentou recordar-se da reprter que fizera tudo para encurralar Grace. Aquela mulher desaparecera. Esta viera para cuidar de Grace. E Francine passara a 
gostar dela.
Robin continuou.
- Ningum jamais soube das roupas surradas nem da goteira enferrujada, dos trs vestidos bonitos ou do Plaza, ou do clube onde ela trabalhava. Ningum jamais soube 
que o moinho era seu santurio. So histrias encantadoras, que no a diminuem em nada. Elas mostram a profundidade da mulher.
- E o mal de Alzheimer? - Sophie perguntou. Robin passou a palavra para Francine com um olhar.
- Mal de Alzheimer - Francine disse. Passara-se menos de um ano desde que o diagnstico da doena de Grace virara sua vida de cabea para baixo, e a doena continuara 
em uma espiral decrescente. A fuga noturna de Grace at o moinho fora apenas um episdio. Haveria outros, assim como desafios muito maiores, enquanto ela piorava.
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Mas Francine poderia aprender a viver com aquele desafio. Poderia coloc-lo dentro da perspectiva de uma vida que fora mais completa do que a da maioria das pessoas. 
Portanto, havia essa nova apreciao, e haveria as lembranas. E ainda havia o futuro. Tendo plantado as sementes de uma paz interior, queria passar a maior parte 
desses ltimos dias, semanas e meses com Grace.
Ela amava Grace. Nenhum mal de Alzheimer, nem as verdades descobertas tardiamente, nem a aprovao negada para toda a eternidade poderiam mudar isso.
Confiantemente, disse:
- Grace pediu-nos para no contar enquanto pensava que a doena pudesse ferir sua imagem. Mas A Confidente est segura. As pessoas que importam j sabem o que ela 
tem. Dizer alguma coisa pode apenas chamar a ateno para a doena. Grace gostaria que falssemos sobre as influncias divinas operando aqui na terra.
Eplogo

O amor  um encontro de mentes entre a imperfeio e a adorao.
- Francine Dorian, em A Confidente
Francine correu a mo pela coxa de Davis. Adorava seus plos castanhos e os tendes que sentia sob a pele, amava a maneira como os quadris dele cobriam os seus e 
quando seu corpo abraava-a por trs. Adorava a sensao causada por sua boca acariciando sua nuca. Adorava sua fora, seu calor e o aroma de sexo que os envolvia 
no meio dos lenis.
Estava no paraso, e como no estaria, com o homem que amava abraando suas costas e o beb que adorava preso a seu seio?
Passara-se um ano desde seu casamento, e esse ano trouxera muitas emoes. Havia altos com Davis e o beb, altos e baixos com Sophie em sua prpria busca, e baixos, 
quase que s baixos com Grace.
Mas Francine sobrevivera e ficara mais forte. Pela primeira vez sabia quem era, o que queria, para onde ia. Para cada sofrimento havia uma alegria maior, para cada 
fracasso um sucesso maior.
- Olhe para ela - Davis sussurrou.
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Francine no conseguiria olhar para qualquer outra coisa. Bochechas rosadas, um narizinho arrebitado, tufos de cabelos cor de mel e o som que fazia enquanto sugava, 
tudo isso pairava acima de tudo - era um sonho.
- J viu alguma coisa mais linda? - ele perguntou. Nunca vira. Nem sentira o puxo que comeava em seu seio e avanava para dentro de seu corpo. Nunca cuidara daquele 
jeito de Sophie. Amamentar ao seio no existia na casa das Dorian. Havia sempre uma ama-de-leite. Mas desta vez Francine fazia as coisas de maneira diferente.
Sua idade foi importante naquela resoluo, o que era uma bno. E Davis tambm.
- Nunca imaginei este tipo de paz - ele disse. - Todos os novos pais sentem isto?
- No senti com Sophie. Amei-a desesperadamente desde o princpio, mas era jovem demais para apreciar momentos como este. - S por esse motivo ter Kyla era especial. 
Se tivesse que acontecer o pior, se Francine ficasse doente como Grace, haveria aquelas lembranas para guardar para sempre.
Davis suspirou contra seu rosto.
- Eu poderia ficar aqui para sempre.
- Hoje no. Devemos estar na casa dentro de uma hora. Acha que Grace sabe?
- Que  o aniversrio dela? Saber que  o de algum quando o bolo surgir. Que  o dela? Provavelmente no.
Francine queria discordar, mas no podia. Grace no sabia mais os nomes, freqentemente no conhecia os rostos. Sentia cada vez menos sensaes e emoes. Passava 
seus dias em uma variedade de atividades destinadas a mant-la alerta e ativa, mas era levada por elas, era mais uma espectadora que uma participante, a passageira 
de um trem que descia lentamente a colina. Chegara a um ponto em que precisava de cuidado dia e noite, apesar de no ter conhecimento disso.
S tinha sessenta e trs anos.
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Percebendo a direo de seus pensamentos, Davis acariciou o rosto de Francine.
- Voc cuida bem dela. Ela recebe muito amor e ateno.  do que ela precisa mais agora.
- Como Kyla - Francine disse.
O beb abriu os olhos. Eram os olhos de Davis, escuros e ousados, mas todos os outros traos eram delicados e femininos, uma perfeita senhorita Dorian.
- Ol, meu bem - Francine brincou. - Foi gostoso? Voc  muito preguiosa, demorou demais. Est se divertindo?
Kyla deu um sorriso sem dentes.
Davis riu encantado. Francine sentiu-se feliz com a felicidade dele e a prpria, que a atingiu diretamente em seu corao.
Ele sentou-se, pegou o beb e colocou-a sobre uma fralda descartvel sobre seu ombro. Francine virou-se na cama para olhar os dois. As mos carinhosas de Davis apoiavam 
as ndegas e as costas do beb, sua voz era sussurrante, logo o beb arrotou, e depois l estava Davis, caminhando nu pelo quarto com a filha enganchada na dobra 
do brao, procurando divertila enquanto a me dela tomava banho e se vestia.
Grace estava no solrio quando chegaram. Francine a via todos os dias, mas quando chegava em horas estranhas como aquela percebia mais a mudana. Era sua pele, sua 
expresso, seu corpo todo, uma concavidade sugerindo uma boneca que perdera o recheio que lhe dava forma e personalidade. Parecia muito mais velha do que era.
Jim estava a seu lado, recolocando sua xcara de ch no pires, enxugando seus lbios com um pequeno guardanapo de linho, acariciando seu rosto de forma to gentil 
que Francine sentiu os olhos cheios de lgrimas.
Levou um minuto para recompor-se. Ento avanou, deu um beijo grande em Grace e disse alegremente:
- Ol, aniversariante.
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- Veja quem est aqui, Grace-Jim disse. - Francine chegou. E veja quem est com ela.
Grace estava olhando. Seus olhos fixaram-se nos de Francine sem expresso. Quando a filha se aproximou, seus olhos passaram para o beb.
-  Kyla - Francine disse - veio desejar um feliz aniversrio para a vov. - Ajoelhou-se diante de Grace colocando Kyla sobre seus joelhos e falou no ouvido da criancinha. 
- Vov faz sessenta e trs anos hoje. E quem est com ela? - Olhou para Jim e disse: -  o seu vov.
Ele lanou-lhe um olhar de censura - tinham concordado que o beb deveria cham-lo de Padre Jim at ter idade suficiente para compreender - mas seus olhos brilhavam 
quando Francine brincava. E ela fazia isso constantemente. Era muito importante ter dois avs - como ter dois pais - era uma grande felicidade.
Os olhos de Grace permaneceram sobre o beb.
Francine aproximou-se. Apesar de Grace ver Kyla quase todos os dias, no se lembrava.
- Ela no  linda, mame? Kyla, diga feliz aniversrio para a vov. Vamos repetir? Feliz aniversrio, vov.
- Bu... - Kyla disse.
-  isso mesmo - Francine concluiu com um sorriso.
- Ela est uma gracinha - Jim disse. - Onde est o papai dela?
- Foi buscar Sophie na estao. - Sophie mudara-se para a cidade no ms anterior e vivia com amigos.
Grace no sentia sua falta. Francine sentia, mas sabia que Sophie precisava desse tempo. Divertia-se com seus amigos. Namorava. Trabalhava como assistente editorial 
de Katia Sloane. Falavam diariamente ao telefone, portanto estava a par de cada movimento d'A Confidente e sabia que sempre haveria um lugar para ela se quisesse 
voltar.
Francine esperava muito que esse dia acontecesse. Enquanto isso, tinha Robin, e entre as duas A Confidente ia muito bem.
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- Temos uma grande novidade - disse, cantarolando. Equilibrando Kyla em um brao, puxou Grace com o outro. - Chegou bem em tempo para seu aniversrio. Vamos publicar 
um livro novamente. Desta vez, colees de colunas suas, portanto no vamos precisar escrever.  s organizar o que j est escrito. No  maravilhoso?
Grace continuava olhando para Kyla, que brincava com suas meinhas verdes de festa.
Francine tentou novamente:
- Teremos muitos livros nas livrarias. Katia est desesperada para ter mais alguma coisa, j que sua biografia vendeu to bem. O que voc acha?
Grace no tirava os olhos de Kyla.
- Bem, eu digo que voc deve estar muito orgulhosa - Francine decidiu.  a sua obra, impressa e mantida para toda a eternidade. No  o melhor presente de aniversrio?
Grace moveu a mo na direo de Kyla, de leve a princpio, depois mais segura. Tocou a cabecinha, acariciou os cabelos sedosos e, com uma voz pequena e doce, disse:
- Um beb? Adoro bebs. - Levantou os olhos para Francine e sorriu.
L estava. O sorriso de Grace. Quente e breve, mas cheio de amor e prazer e, por que no dizer, de aprovao. O sorriso de Grace, para ser lembrado para sempre.
Data de concluso da leitura: 28 de outubro de 2009.
